Artigo em atualização ao longo do dia

Catarina Martins esperou pela acusação para reagir de forma dura ao caso Tancos. “Parece-nos muito grave, se o MP tiver razão, chegar à conclusão de que houve responsáveis políticos mentiram numa comissão de inquérito“, disse a líder do Bloco de Esquerda, à saída de uma visita ao Centro de Saúde da Moita, na tarde desta quinta-feira.

Até agora, Catarina Martins tinha evitado falar do tema porque considerava que era preciso mais factos para se poder pronunciar, alegando que não comentava suspeitas ou especulações. Mas tudo mudou esta quinta-feira, quando ficou conhecida a acusação do Ministério Público, que acusa o ex-ministro da Defesa de quatro crimes: prevaricação, negação da justiça e abuso de poder.

“Na verdade, se a acusação do Ministério Público se provar, foram ocultado factos à Comissão de Inquérito e houve declarações que foram mentira e isso é gravíssimo. Há uma obrigação de responder às comissões de inquérito. Uma comissão de inquérito não é uma conversa de café“, afirmou ainda a líder bloquista.

Sobre o desejo, confessado esta manhã e na quarta-feira, de que Tancos não se tornasse num caso de campanha, Catarina Martins assumiu que não havia muito a fazer para o tirar da agenda mediática. “Em termos de tempo ele [o caso] cá está”, resignou-se. No entanto, a líder do BE espera que o processo não contamine a campanha na sua totalidade. “Espero que também tenhamos oportunidade de discutir os projetos para o país”.

Mais uma vez, o tema que o Bloco de Esquerda queria trazer esta tarde para marcar a agenda — a necessidade de reforçar os investimento na saúde e nos cuidados primários — ficou secundado. O caso Tancos tornou-se inevitável, até, e sobretudo, para quem não o queria.

Catarina Martins: no comboio com o otimista senhor António

À chegada à estação de comboios de Faro, Catarina Martins, Jorge Costa e Mariana Mortágua tentavam disfarçar o sono patente, uns melhor do que outros. Eram 8h00 da manhã e havia uma viagem de comboio até Lisboa pela frente. Um cenário que nada se assemelhava a uma boa alvorada. Lá iam distribuindo sorrisos às pessoas com quem se cruzavam mas a energia, essa, continuava adormecida.

Subiram para o comboio que arrancou com um ligeiro atraso, quando já alguns membros da campanha do BE iam fechando os olhos e tentavam apoiar a cabeça pesada nas mãos.

Esta foi uma viagem que a campanha do BE optou por fazer de comboio, numa iniciativa que tinha como objetivo alertar para os problemas da ferrovia e promover uma medida do programa bloquista: a criação de um Plano Ferroviário Nacional. O objetivo é ligar todas as capitais de distrito até 2040 por comboio ao mesmo tempo que se retiram os carros dos centros das principais cidades do país.

Durante a viagem, a caravana bloquista passou a maior parte do tempo sentada, a conversar entre si, não privilegiando o contacto com passageiros. Com exceção do momento em que a comitiva decidiu atravessar o comboio de uma ponta à outra para ir “até ao bar”. Pelo meio, a líder bloquista meteu conversa com dois ou três passageiros, nunca durante muito tempo.

“Chame a atenção porque os comboios chegam muitas vezes atrasados. Este, por exemplo”, pediu uma senhora que aproveitou a presença de políticos na carruagem. “Nós queremos mudar isso. Precisamos de que o comboio passe a ser o transporte por defeito“, sugeriu Catarina Martins. “E os preços?”, perguntou a bloquista. A resposta talvez não tenha sido a que esperava. “Os preços estão bem. A frequência e os horários é que são os problemas principais”, queixava-se a passageira.

As condições da frota, que Mariana Mortágua tinha criticado à entrada para o comboio quando recordou que aquele era “exatamente o mesmo comboio que apanhava há 15 ou 20 anos para ir para a escola”, ficaram de fora do diálogo. Em passo acelerado, Catarina Martins percorria o comboio em toda a sua longitude, vagão após vagão, até chegar ao bar, onde a aguardava um bem-disposto sr. António, que trabalha em bares de comboios “há muitas décadas”.

Hoje está identificada”, disse-lhe apontado para as câmaras de televisão. “Mas já houve vezes que esteve aí, que eu sei, e que não veio aqui“, atirou. “Nem sempre venho ao bar, é verdade”, reconheceu a líder bloquista, enquanto segurava uma água com gás na mão. A líder do BE tentou colocar o senhor António a falar das condições dos comboios, mas as respostas foram sempre positivas. “Todos os comboios são alegres, depende do ponto de vista, depende da moldura humana…”, atirou o otimista António.

A experiência é vasta e, contou-a aos jornalistas, não era a primeira vez que se cruzava com políticos. “Já se cruzou com António Costa?”, perguntaram. “Já, já. Eu fiz um especial do PS em que o dr. António Costa também estava presente“, confessou. Terá sido um dos famosos comboios fretados pelos socialistas para levar militantes a ações do partido.

Catarina Martins sorriu, trocou umas palavras de circunstância com o empregado do bar do comboio e despediu-se para regressar ao seu lugar. O resto da viagem fez-se com os membros da campanha do BE a falarem entre eles e com uma reunião informal para preparar o que faltava de dia. Como contornar o tema de Tancos deve ter feito parte da agenda, mesmo que os bloquistas não o tenham pedido. Até porque, minutos depois, e em declarações aos jornalistas, as respostas da líder do BE estavam bem oleadas.

“Não ajuda ninguém que caso Tancos seja usado na campanha”

O caso Tancos não saiu mesmo da agenda do dia político e Catarina Martins, que na quarta-feira tinha evitado comentar o assunto, voltou a ser confrontada com os novos desenvolvimentos — à cabeça, o facto de o ex-ministro da Defesa Azeredo Lopes ser alvo da acusação do Ministério Público. “Disse-o ontem e vão-me perdoar se me repito: este caso está na Justiça há muito tempo. Leio as notícias, naturalmente, mas continuo a achar que devemos esperar pela Justiça. Todas as responsabilidades devem ser apuradas”, respondeu.

A insistência em separar a política da Justiça não é de agora e certamente será a boia a que os bloquistas se vão continuar a agarrar para evitar o tema no que resta de campanha. Até porque, para o BE, “este não é um tema de campanha eleitoral“.

Apesar de reforçar a mensagem que já tinha deixado no dia anterior, Catarina Martins foi um pouco mais longe. Mas não muito. “Aguardamos pelos resultados da Justiça, não achamos que se deva debater aquilo sobre o que ainda não há certeza. Temos  um enorme respeito pelo trabalho de investigação que é feito pelos jornalistas mas também sabemos que muitas vezes uma fuga de informação pode ser parcial”, disse para de seguida atirar: “O que nós queremos é que a Justiça faça o seu caminho com a certeza de que ninguém está acima da lei e todas as responsabilidades devem ser apuradas”. 

O envolvimento direto de Azeredo Lopes na acusação, por oposição às suspeitas que recaíam em páginas de jornais sobre Marcelo Rebelo de Sousa, traz formalmente para o caso um ex-ministro do atual Governo. Um caso judicial mas também político, que Catarina Martins vai procurar evitar mas ainda sem saber até quando. “Não me parece que ajude ninguém que, em período de campanha eleitoral, um processo como o de Tancos, que é longo, seja utilizado nessa mesma campanha quando não conhecemos os dados todos”, afirmou.

Tentar chutar o tema para canto e prosseguir parece ser a palavra de ordem na caravana bloquista no que toca ao tema de Tancos. Mas, por mais pontapés que sejam dados e esforços que sejam feitos, o tema promete continuar a marcar a agenda mediática dos próximos dias. A estratégia de Catarina Martins pode tornar-se desgastante e insuficiência, sobretudo se o nome do seu partido chegar a ser envolvido na polémica.