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A ONU estima que 70 mil pessoas fugiram de Al-Fashir

Anadolu via Getty Images

A ONU estima que 70 mil pessoas fugiram de Al-Fashir

Anadolu via Getty Images

Com execuções sumárias e milhares de desaparecidos, Sudão tem um "momento Srebrenica"

Depois de 18 meses de cerco, os paramilitares tomaram Al-Fashir, o que clarifica "um novo mapa brutal" do país. Relatos e imagens de satélite apontam para um massacre que pode configurar genocídio.

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Farhat Said chegou a Tawila nos últimos dias. Ela e a filha são duas entre milhares de refugiados que entraram na cidade depois de as forças paramilitares do Sudão terem tomado a cidade de Al-Fashir no dia 26 de outubro, depois de um ano e meio de cerco. “Quando os combates e os ataque se tornaram insuportáveis, o meu filho, que tem onze anos, pediu-me que fugisse de casa para salvar as nossas vidas”, contou à Al Jazeera. Farhat e a filha percorreram os cerca de 70 quilómetros entre Al-Fashir e Tawila a pé, sem comer e debaixo de ataques dos paramilitares. O percurso durou dois dias.

Para trás ficaram o marido de Farhat, que não se conseguia mexer-se devido a uma fratura na anca, e o filho do casal. Apesar de só ter onze anos, a mãe não considerou seguro tentar sair da cidade cercada com um rapaz, já que as Forças de Apoio Rápido (RSF, na sigla em inglês) visam particularmente todos os homens que tentam abandonar a cidade, acusando-os de serem soldados das Forças Armadas do Sudão (SAF, na sigla em inglês). RSF e SAF combatem há dois anos e meio numa guerra civil que já matou 150 mil pessoas e obrigou à deslocação forçada de 12 milhões, atirando o Sudão para o que a ONU classifica como “a maior crise humanitária do mundo“.

Ahmed Ismail Ibrahim é um deste homens, que foi parado pelas RSF quando tentava fugir de Al-Fashir. Seguia com outros seis homens, quando foram abordados pelas RSF. “Quatro deles — mataram-nos à nossa frente. Bateram-lhes e mataram-nos”, relatou à BBC, a partir de Tawila. Ahmed também foi atingido com três tiros, mas um militante das RSF deixou-o partir a ele e aos seus irmãos depois de ter inspecionado os seus telemóveis. Ferido, o homem precisou da ajuda dos irmãos para conseguir chegar a Tawila, descreveu.

"Eles selecionavam pessoas e executavam-nas à nossa frente e depois diziam 'enterra o teu irmão' e nós cobríamo-los com terra. Vi-os a matar 18 pessoas com os meus próprios olhos e depois as pessoas tiveram de os enterrar com as próprias mãos."
Abdelhamid, sobrevivente do cerco a Al-Fashir

Quase duas semanas depois de as RSF terem tomado Al-Fashir, é difícil perceber a dimensão real dos massacres na cidade, uma vez que todas as telecomunicações foram completamente bloqueadas. Relatos de sobreviventes como Farhat e Ahmed ilustram apenas uma parte da violência. Uma investigação publicada pela Sky News, com recurso a imagens de satélite e relatos no terreno de ativistas e de militantes das RSF dá conta da morte de pelo menos 7 mil pessoas, através de assassinatos em massa, execuções sumárias e perseguições a minorias étnicas não-árabes. Mais: a ONU relata que 70 mil pessoas fugiram de Al-Fashir, mas menos de 10 mil foram recebidas em zonas seguras como Tawila. Ou seja, cerca de 60 mil pessoas estão desaparecidas e outras 200 mil nunca terão conseguido sequer sair da cidade.

As ações das RSF na cidade de Al-Fashir consolidam as acusações de genocídio que têm crescido de tom ao longo dos mais de dois anos de guerra. “Nunca vi um nível de violência contra uma área como estamos a ver agora. Isto só é comparável com o estilo de matança nas primeiras 24 horas no [genocídio no] Ruanda“, compara Nathaniel Raymond, diretor do Laboratório de Investigação Humanitária da Universidade de Yale. “Isto é o momento Srebrenica“, aponta por sua vez Emi Mahmoud, diretora da Rede Humanitária de Deslocados Internos no Darfur, referindo-se ao massacre na cidade durante a guerra da Bósnia, que foi classificado pelo Tribunal Penal Internacional como um genocídio.

Execuções sumárias, perseguições étnicas e violência sexual. Os relatos que escaparam ao bloqueio sobre Al-Fashir

Abdelhamid e a mulher estavam refugiados numa escola numa pequena localidade perto de Al-Fashir quando foram apanhados por militantes das RSF. No local estavam outras 300 ou 400 famílias, relatou à Sky News. “Eles selecionavam pessoas e executavam-nas à nossa frente e depois diziam ‘enterra o teu irmão’ e nós cobríamo-los com terra. Vi-os a matar 18 pessoas com os meus próprios olhos e depois as pessoas tiveram de os enterrar com as próprias mãos”, relembrou. Imagens de satélite analisadas pelo canal britânico com conjunto com o Sudan War Monitor e o Lighthouse Reports confirmam a existência de valas recentes nas imediações da escola descrita por Abdelhamid.

Também através da análise de imagens de satélite, o Laboratório de Investigação Humanitária da Universidade de Yale identificou 31 localizações na cidade e nas suas imediações em que é possível ver “objetos consistentes com corpos humanos (…) acompanhados de uma descoloração avermelhada no chão”. O Laboratório acrescenta que a distribuição dos corpos na cidade aponta para a existência de “operações de eliminação porta-a-porta” que visaram as minorias indígenas não-árabes Fur, Zaghawa e Berti.

Além das imagens de satélite, o retrato da violência foi partilhado em vídeos nas redes sociais. “Eu vi vídeos de valas e trincheiras cheias de corpos de amigos, vizinhos, familiares. Há relatos de famílias inteiras que foram enforcadas em árvores” detalhou Emi Mahmoud, referindo-se aos vídeos partilhados por ativistas no local que procuram quebrar o bloqueio. Mas outras imagens violentas foram partilhadas por militantes das RSF, nas suas próprias contas. Um vídeo, partilhado por um militante identificado como Abu Lulu e verificado pela BBC, mostra o homem a executar pessoas desarmadas que estão de joelhos, depois de ameaçar que as irá violar.

Depois disso, Lulu foi detido e o líder das RSF, o general Mohamed Hamdan Dagalo, conhecido com Hemedti, admitiu que os paramilitares tinham cometido “algumas violações” e anunciou a formação de um comité para investigar as acusações. Contudo, fonte oficial das RSF negou veementemente o número de mortos na casa dos milhares e as acusações de genocídio e limpeza étnica.

“As secretas militares das SAF estão a provocar estes confrontos étnicos há anos, eles utilizaram a religião para incentivar a guerra no Sudão do Sul e utilizaram o racismo e a etnia para desencadear a guerra no Darfur”, respondeu, questionado pela Sky News sobre a denúncia de um responsável das RSF que dava conta de 7 mil mortos e de ataques diretos a grupos não-árabes de 300 e 400 pessoas — um relato anónimo que vai ao encontro daquele que é feito por civis, ainda que não tinha sido confirmado por nenhuma fonte independente.

O bloqueio que impede a saída de informação e a entrada de ajuda humanitária foi denunciado pelo gabinete da ONU para os Assuntos Humanitários no Sudão, que notou que isto constitui uma violação do Direito Internacional. As organizações da ONU acusaram ainda as RSF de outros crimes de guerra, como ataques a hospitais e a utilização da violência sexual como arma de guerra. A primeira denúncia foi feita pela Organização Mundial de Saúde, que relatou um ataque ao Hospital Maternidade Saudita, que matou 460 pacientes e acompanhantes.

Já o alto-comissariado para os Direitos Humanos denunciou a violação em grupo de pelo menos 25 mulheres que estavam num abrigo em Al-Fashir. “Testemunhas confirmam que pessoal das RSF selecionaram mulheres e raparigas e as violaram com uma arma apontada”, denunciou o porta-voz Seif Magango.

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Milhares de pessoas fugiram para Tawila, que não consegue receber todos os deslocados

AFP via Getty Images

Al-Fashir. O último reduto do Exército no Darfur e casa de milhares de desaparecidos

Na fuga de Al-Fashir, Farhat, a mulher já mencionada que falou com a Al Jazeera, e a filha foram atingidas por ataques das RSF. Na chegada a Tawila, a filha precisou de ser internada para receber cuidados médicos, partilhou com o canal qatari. O cenário repete-se na maior parte das pessoas que têm chegado a a Tawila, relatou a porta-voz do alto-comissariado da ONU para os refugiados à BBC. Muitas mulheres partilharam relatos de violência sexual e violações e todas as crianças sofriam de desnutrição. A cidade no Darfur Norte, que já abrigava mais de 652 mil deslocados internos, e as agências que aí operam dizem não ter capacidade para ajudar os milhares de pessoas doentes, feridos, malnutridos e traumatizados que fugiram de Al-Fashir.

Ainda assim, os números que têm chegado a Tawila são bem menores do que o esperado. Os relatos e imagens de satélite mostram que apenas se deslocaram em segurança para fora da cidade alguns milhares de pessoas. Noutros massacres ao longo da guerra civil, os êxodos foram bastante mais significativos. No caso do ataque a Zamzam, em abril, chegaram a ser contabilizadas 500 mil pessoas em fuga, exemplificou o Laboratório de Yale, o que levou os especialistas a concluir que “a maior parte dos civis estão mortos, capturados ou escondidos”. Caroline Bouvoir, que trabalha no Chade vizinho numa organização internacional, sugeriu à BBC que muitas pessoas podem estar em localizações entre Al-Fashir e Tawila “incapazes de continuar”.

A disparidade nos números é particularmente gritante quando se considera que Al-Fashir albergava mais de um milhão de deslocados internos, uma vez que era um reduto das SAF. A cidade era o último território no Darfur, região no oeste do Sudão, ainda controlado pelo Exército sudanês, apoiado pelos grupos armados locais — a Força Conjunta, formada principalmente pela minoria Zaghawa. Ou seja, Al-Fashir não era apenas abrigo para milhares de refugiados da guerra, mas um ponto estratégico na longa guerra entre as SAF e as RSF.

O cerco a Al-Fashir tornou-se, portanto, um dos pontos fulcrais da guerra civil. No final de outubro, ao fim de mais de 500 dias de cerco, as SAF acabaram por retirar da cidade e esta foi tomada pelo grupo paramilitar. Contudo, também a retirada do Exército é alvo de escrutínio na investigação da Sky News. Militares ouvidos pelo canal britânico acusam os comandantes, as altas patentes e os líderes políticos locais de terem mobilizado uma centena de veículos para abandonar a cidade ainda antes de as RSF terem furado o cerco na madrugada do dia 26 de outubro. “O comandante tinha abandonado a guarnição. Abandonaram-nos completamente e fomos deixados completamente rodeados, 26 [paramilitares] para [cada] 1 [soldado] durante a madrugada. Subitamente, tudo colapsou na defesa”, relatou um militar.

epa11571600 Sudan's President of the Transitional Sovereign Council Abdel-Fattah Al-Burhan Abdelrahman Al-Burhan (L) greets people as he visits a flood-affected area in Masawi, the northern state of Merowe, Sudan, 29 August 2024. At least 148 people have died in Sudan due to flooding and heavy rains, according to a Sudan's Health Ministry statement on 26 August 2024. A total of 31,666 families and 129,650 individuals were affected by the flooding in ten states, the statement reads. Over 12,400 homes have completely collapsed and 11,472 partially damaged mainly in the Sudanese Northern and River Nile states.  EPA/STR

A versão oficial do Presidente interino Al-Burhan (à esquerda) desmente uma retirada dos líderes militares e políticos

STR/EPA

A versão oficial das SAF declara que “a decisão de retirar foi unânime entre as Forças Armadas, as forças regulares e o comité de segurança conjunta”. “Eles não deixaram soldados para trás. Aqueles que permaneceram foram incumbidos de segurar a retirada e cumprir os seus deveres com necessário”, declarou Abdel Fattah Al-Burhan, líder das SAF e líder de facto do Sudão. Al-Burhan assumiu a Presidência interina do país depois de um golpe de Estado em 2021 que liderou com Hemedti, o líder das RSF.

A guerra civil entre as duas fações deflagrou dois anos depois, devido a uma divergência quanto à integração das milícias paramilitares no Exército. Ao fim de dois anos e meio de guerra, a tomada de Al-Fashir abre um novo capítulo num conflito bem mais longo, cujas raízes remontam a 2003 e à guerra do Darfur. À data, as milícias Janjaweed, precursoras das RSF, enfrentaram as mesmas acusações de genocídio que voltam agora a ser discutidas.

Um novo capítulo numa longa guerra: um país dividido em dois

Ao longo dos 18 meses, enquanto as RSF mantinham o cerco a Al-Fashir as SAF lançaram, no leste do país, uma série de contra-ofensivas contra as milícias paramilitares que permitiram recuperar o controlo da capital Cartum e de outros dois estados na mesma região. Estas movimentações militares dos últimos meses criaram uma clara linha de divisão entre leste e oeste, desafiada apenas pela resistência de Al-Fashir. “A tomada de Al-Fashir (…) não significa que as RSF ganharam a guerra; pelo contrário, clarificou um novo mapa brutal de um Sudão dividido”, analisou Bravin Onditi, analista do think tank HORN Institute, sediado no Quénia.

A legitimidade das SAF é apoiada no seu controlo da capital e do controlo de facto do país, assim como o apoio internacional de atores regionais relevantes, como o Egito, a Turquia ou o Qatar. Mas, na primavera de 2025, Hemdeti desafiou esta liderança com a proclamação de um “Governo da Paz e Unidade”, baseado numa declaração assinada em Nairobi que prevê “um rota para o Sudão” como um país secular, democrático e descentralizado. O governo autoproclamado controla cerca de um terço do país, que engloba toda a região do Darfur e usufrui do apoio financeiro dos Emirados Árabes Unidos — ainda que a posição não seja formalmente assumida, é apontada de forma generalizada por organizações e meios de comunicação independentes — e em tempos contou com o apoio militar indireto russo, através do antigo Grupo Wagner.

A existência de dois governos autoproclamados, à qual se somam agora fronteiras bem mais concretas levam os os especialistas a alertar para as “consequências perigosas e preocupantes” de o Sudão se tornar num país dividido, semelhante ao caso da Líbia, em que, neste caso, duas partes disputam a liderança de um território que está partido ao meio. Ao mesmo tempo, vários analistas sublinham que a atual divisão geográfica pode gerar reações diferentes por parte das duas partes.

epa12049088 Sudanese people, who fled from the internally displaced persons (IDP) Zamzam camp, rest while on their way to the Tawila Camps amid the ongoing conflict between Sudan's army and the Rapid Support Forces (RSF), in North Darfur, Sudan, 23 April 2025. The RSF claimed control of the Zamzam camp after its assault in April 2025. According to the UNHCR, over four million people have fled Sudan to neighboring countries since the outbreak of the armed conflict in April 2023.  EPA/MARWAN MOHAMED

A atual divisão não dá resposta à situação dos milhões de deslocados internos

MARWAN MOHAMED/EPA

Da parte das SAF, a perda do Darfur pode não gerar grande reação, à semelhança do que aconteceu em 2011, quando o Sudão do Sul proclamou a independência. Isto porque no território que continua sob controlo do Exército se encontram os pontos estratégicos mais relevantes do país: a capital, a bacia do rio Nilo e as costas do Mar Vermelho.

Já a proclamação de um governo por parte das RSF contempla o controlo de todo o país. “Não vimos nenhum sinal de que a liderança das RSF esteja satisfeita só com o Sudão ocidental. Enquanto eles continuarem a receber fundos suficientes para continuar o esforço de guerra, continua a parecer que eles podem continuar a escalar esta guerra“, argumentou Alan Boswell, diretor do Corno de África no think tank Crisis Group, à Reuters. Em ambos os casos, nenhuma das soluções políticas coloca no centro as principais vítimas da guerra civil: os milhares de mortos e milhões de deslocados sudaneses.

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