“Competir com o período? Quantas vezes!”

18 Agosto 2016334

Anais Moniz, atleta de triatlo, competiu várias vezes menstruada. Não tem boas memórias. Ginecologistas admitem que perda de sangue prejudica rendimento, mas acreditam em soluções.

Tarde e a más horas. É assim que o período aparece na vida de uma atleta de alta competição. Se a rapariga começar cedo na vida de desportista, é provável que o treino intenso e a ausência de gordura corporal atrasem o aparecimento da primeira menstruação. Uma vez presente, se não for controlada por uma pílula, pode aparecer em qualquer altura — inclusive durante uma competição. Foi isso que aconteceu a Anais Moniz, estrela portuguesa de triatlo. A 5 quilómetros de acabar a corrida — a parte que faltava a seguir à natação e ao ciclismo — o período decide aparecer sem ser convidado e o desfecho não foi agradável.

Os ginecologistas dizem que há formas de contornar o mal-estar da menstruação, mas admitem que a perda de sangue pode prejudicar as atletas. A culpada chama-se hemoglobina, que diminui com a hemorragia e que é quase determinante no rendimento da atleta. Quanto mais hemoglobina, melhor. Com a hemorragia, os níveis de hemoglobina diminuem drasticamente. Por isso é que há quem faça transfusões de sangue, considerado doping, para ter uma performance melhor.

O período está agora em cima da mesa, graças à nadadora Fu Yuanhui que confessou ter tido uma prestação abaixo das suas expectativas nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro devido ao aparecimento do período na noite anterior. Fê-la ficar “mais cansada” e “fraca”, factos que condicionaram a sua prestação. Afinal, qual é o poder deste fenómeno fisiológico na vida de uma atleta?

“Há atletas a terem o período durante provas. Eu fui uma delas”

Anais Moniz esteve perto de voar até Pequim para os Jogos Olímpicos de 2008, mas só havia um lugar para Portugal e esse foi atribuído a Vanessa Fernandes. Em 2012 também falhou a qualificação para os Jogos de Londres e foi aí que decidiu abandonar a alta competição. Ficou no currículo o título de campeã mundial de juniores de triatlo em 2005 (Japão) e campeã europeia em 2006 (França); e ficaram também várias histórias de desconforto pelas “coisas de mulheres”.

"Fartei-me de contar azulejos e fui para o triatlo"

Anais começou na natação aos 10 anos e chegou a fazer dois treinos por dia, antes e depois da escola. Era representada pelo Belenenses. Aos 15 anos fartou-se de “contar azulejos” e entrou para o triatlo (natação, ciclismo e corrida), seguindo as pisadas da mãe e da irmã. Foi campeã por Portugal a nível europeu e mundial.

“Eu não tinha sorte nenhuma, acredita!”, começa por exclamar ao Observador, entre risos. “Aparecia sempre no fim de semana da prova, parecia que era de propósito”. Anais não podia tomar a pílula devido a um problema de saúde, e não tomava medicamentos para suportar as dores, porque era hipocondríaca. Por isso, sujeitou-se sempre ao que o corpo queria, quando queria.

“Participei em imensas taças com o período: em 2008, em 2009… Em março e abril tinhas 3 ou 4 provas, obviamente que algumas vezes calhava. Em junho e julho eram outras 5 ou 6, não havia como fugir”. Isso implicava competir com vários obstáculos: “Fiz várias provas em que não me sentia bem. Fico sempre mais cansada, com dores de cabeça, sinto-me muito fraca e isso notava-se. Aquilo incomoda”.

anais moniz triatlo periodo

Anais Moniz a cruzar a meta quando foi campeã mundial de juniores no Japão (Fotografia de Spomedis / Thriatlhon.org, Frank Wechsel)

O corpo decidiu mesmo testá-la não um dia antes, não umas horas antes, mas em plena prova a acontecer. “Uma vez o período chegou-me quando estava a correr. Foi no México. Estava de fato de banho, como nós competimos, e a 5 quilómetros de acabar a prova vem-me o período. Não estava nada à espera. Então foi assim: de quilómetro a quilómetro ou de dois em dois havia pessoas a dar garrafas de água e eu agarrei em duas e pus nas pernas para não se notar“, lembra.

Para Anais, a história não tem nada de extraordinário. “Já vi várias atletas a terem o período durante a parte da bicicleta e da corrida. É super desconfortável. Mas pronto, somos mulheres, o que é que se há de fazer?”

"Uma das atletas desabafou, mas quantas delas não queriam dizer que estavam com o periodo e que a prova correu mal por causa disso?"
Anais Moniz, ex-atleta de triatlo

“Ia dizer que não consegui uma medalha por causa do período?”

Se a prestação corria menos bem, era justificada a treinador e jornalistas por “não estar nos seus dias”. Eram “as pernas que naquele dia não estavam no seu melhor”, eram “outros fatores internos”. E ficava por aí. “Só contava aos meus pais e aos meus amigos que estava com o período.” Contar aos restantes nunca foi opção.

“Nós somos maioritariamente treinadas por homens. Eles não percebem muito bem essa parte. Eu não falava com eles sobre isso, tinha vergonha, é difícil ter aquela confiança. Se fosse uma senhora a treinar era uma coisa, mas com um homem não tinha tanta abertura. É preciso maturidade e na altura, com 17 ou 18 anos, não a tinha”. Por isso elogia na atleta chinesa aquilo que nunca conseguiu fazer e de que hoje se arrepende: falar naturalmente de uma coisa da qual ninguém tem culpa.

"Será que o meu patrocinador vai perceber que o meu rendimento está pior porque estou cansada por causa do período? Vais dizer que não ganhaste uma medalha por causa do período?"
Anais Moniz, ex-atleta de triatlo

“Se voltasse hoje a competir, contava ao meu treinador. Mas na alta competição é difícil. Tens o teu clube, os teus patrocinadores, os teus amigos, um país inteiro a olhar para ti. Naquele dia calha-te o período e sabes que não vais estar em condições, mas o que é que fazes? Vais dizer publicamente: ‘Ah, desculpem lá, não consegui uma medalha porque estava com o período?Há coisas que nós não conseguimos controlar, mas será que o meu patrocinador vai perceber que o meu rendimento está pior porque estou cansada por causa do período?”

Anais denuncia a “pressão” que cai nos ombros dos atletas de alta competição para “não desapontar” a equipa com quem trabalham. “O triatlo, por exemplo, é uma modalidade individual e aí dependes de ti. Não podes desiludir. Porque acima de tudo estão os resultados”, sentencia a ex-atleta de 27 anos.

É por isso que há quem tenha “pesadelos” com o aparecimento do período. Em janeiro de 2015, a conhecida tenista britânica Heather Watson perdeu o primeiro round no Australian Open e justificou-o com as náuseas e a fraca energia próprias das “coisas de raparigas”.

Tara Moore, também tenista britânica, contou ao The Telegraph que já passou várias provas menstruada e que já sonhou com o pior a acontecer no Torneio de Wimbledon, um dos mais importantes: “No Wimbledon temos de vestir branco. Sangrares na roupa é uma cena que te preocupa. Morres de medo que isso aconteça, é um pesadelo. Eu já tive pesadelos com isso”.

No início do ano passado, a atleta Kiran Gandhi participou na Maratona de Londres, menstruada, e sem um artigo que absorvesse o fluxo, como um penso higiénico, um tampão ou um copo menstrual. O corrimento ficou assim à vista de todos.“Correr mais de 40 quilómetros com um chumaço de algodão entre as pernas parecia-me tão absurdo… Por isso decidi deixar sangrar livremente enquanto corria”, explicou.

Maratonista Londres período

A atleta Kiran Gandhi acabou por ganhar uma medalha na maratona de Londres. (Twitter)

Perda de sangue = menos rendimento? E a pílula?

Para a ginecologista e obstetra Marcela Forjaz, não é aceitável que a atleta não ponha o treinador a par do seu ciclo menstrual. Aconselha “transparência total” para que os profissionais que rodeiam a desportista possam trabalhar com as condicionantes que têm, visto que, em casos extremos, a menstruação “pode condicionar tanto como uma dor na perna ou num braço”. Mais: “E uma pena que se não faça nada para alterar essa situação, porque há meios para contornar os problemas que a menstruação traz”.

A pílula é a solução. Vários especialistas ouvidos pelo Observador recomendam a toma da pílula combinada ou progestativa, consoante o caso da atleta, que deve ser analisado ao pormenor. O objetivo é regular o ciclo menstrual para que a atleta não esteja menstruada na altura de uma prova.

Fernanda Águas, presidente da Sociedade Portuguesa de Ginecologia, é perentória: “Hoje em dia há solução para isso. Há tantos tipos de pílula, tantas dosagens. A pessoa tem de experimentar e ir vendo com qual se sente bem, tudo antes de uma competição, para estar descansada no momento da prova. E a maior parte das pílulas não engordam — isso é um mito”, remata.

"Tens mesmo de desligar. Quando estás no espírito competitivo só vês a meta à frente, mas quando estás em cima do selim sentes aquilo e não é nada agradável"
Anais Moniz, ex-atleta de triatlo

O impacto depende de mulher para mulher. “Há mulheres que têm o período e nem notam, passa-lhes ao lado, e há outras que chegam a faltar ao emprego. De uma maneira geral, as atletas até passam melhor os períodos do que as não atletas por causa da libertação de endorfinas durante a prática do desporto, que dão bem estar. Até têm mais tolerância à dor. Mas, lá está, cada caso é um caso”, sublinha Marcela Forjaz.

Além da pílula, podem ser indicados fármacos para fazer face aos sintomas da menstruação ou do síndrome pré-menstrual. “Se a queixa é ansiedade, pode ser medicada com um ansiolítico. Se a queixa for retenção de líquidos, poderá fazer um diurético”, sugere a ginecologista. Mas a escolha é sempre da atleta e o período pode mesmo surgir, com todas as consequências, em altura de provas.

"As atletas têm de ter isso controlado. Se têm psicólogos do desporto, também têm de ser acompanhadas na regulação da menstruação. Nos dias de hoje não é aceitável que isso não aconteça"
Fernanda Águas, presidente da Sociedade Portuguesa de Ginecologia

A hemorragia resulta de um processo natural que poderá passar despercebido, mas também poderá ter ter impacto. “Se tiver uma hemorragia muito abundante e dolorosa, a hemoglobina baixa e isso, numa atleta de alta competição, pode prejudicar o desempenho pessoal, quando milésimos de segundo são determinantes”, explica Fernanda Águas.

A presidente da Sociedade Portuguesa de Ginecologia admite que “os níveis de hemoglobina são importantíssimos para o rendimento, porque mais hemoglobina significa mais rendimento”. A explicação é esta: a hemoglobina transporta oxigénio para as células, logo, mais hemoglobina significa mais oxigénio e mais “combustível” para a performance. É por isso que as transfusões de sangue são uma forma de doping, acrescenta Fernanda Águas.

"No limite, as irregularidades menstruais associadas ao exercício podem ter complicações nefastas, com o desenvolvimento de infertilidade, diminuição de massa óssea e mesmo osteoporose, que predispõem a fraturas de fadiga"
Diana Ferreira, médica de Medicina Desportiva

Um fenómeno semelhante à anorexia

A idade média do aparecimento da primeira menstruação está nos 12, 13 anos mas, nas atletas de alta competição, é provável que apareça mais tarde. “No desenvolvimento do eixo hormonal, que conduz à puberdade, é muito importante a quantidade de massa gorda e o peso da rapariga. Há um limite a partir do qual ela está apta a menstruar e abaixo do qual não está”, explica Marcela Forjaz.

A massa gorda, os ovários e o hipotálamo regulam a produção de hormonas. Como as atletas têm tão pouca massa gorda, esse sistema fica desregulado e provoca a ausência de menstruação — chamada de amenorreia. O mesmo acontece com as mulheres que sofrem de anorexia — a massa gorda baixa drasticamente, ficam com um peso abaixo do normal e a menstruação é interrompida. No caso das atletas, entram também na equação o treino intensivo e o stress a que estão sujeitas.

"Competir menstruada pode ser difícil. A dor abdominal, a dor mamária, a alteração de humor. O fluxo aumentado pode tornar-se constrangedor de alguns movimentos"
Marcela Forjaz, ginecologista e obstetra

Podem acontecer duas coisas: a primeira menstruação demorar mais anos a aparecer do que a média ou a atleta ficar longos períodos sem menstruar. Ambas acontecem quando os treinos são intensivos e quando a prática é constante — isto não se verifica em quem só pratica ginásio algumas vezes por semana ou corre ao fim de semana.

“O fenómeno está mais descrito nas ginastas, que são geralmente pequeninas e magrinhas”, esclarece Fernanda Águas. Marcela Forjaz acrescenta “as maratonistas, que correm todos os dias vários quilómetros”. Como não acumulam qualquer massa gorda, a menstruação tarda a chegar.

E há problema se a primeira menstruação aparecer muito tarde? “Há. Faz mal ao organismo porque um nível de estrogénio muito baixo durante muito tempo pode fazer mal, sobretudo na parte óssea e cardiovascular. É uma hormona muito importante nas mulheres”, explica a presidente da SPG.

Diana Ferreira, médica de Medicina Desportiva, admite que a relação entre a menstruação e o corpo constantemente ativo de uma atleta não é fácil. Além da amenorreia (ausência de menstruação por um longo período de tempo), pode também verificar-se oligomenorreia, que consiste em menstruação pouco frequente (5 a 6 vezes por ano). Ambas verificam-se mais nas atletas do que nas mulheres que não são atletas: “A incidência de oligomenorreia e amenorreia em mulheres desportistas é de 10 a 20%, superior à da população normal (5%), e em algumas modalidades pode mesmo chegar aos 50%”, aponta a médica.

Mas nada está perdido. Palavra de Fernanda Águas. “É reversível. Se elas reduzirem o treino, se tiverem uma boa alimentação e se recuperarem o peso, os ovários voltam a funcionar. Enquanto aqueles fatores persistirem, as consequências persistem. Quando os fatores mudarem, as consequências também são outras”.

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