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Comportamentos absurdos de higiene, como lavar as mãos 50 vezes por dia, são frequentes nos doentes com Perturbação Obsessivo-Compulsiva

AFP/Getty Images

Comportamentos absurdos de higiene, como lavar as mãos 50 vezes por dia, são frequentes nos doentes com Perturbação Obsessivo-Compulsiva

AFP/Getty Images

Comportamentos obsessivos: não é mania, é doença

Lavar as mãos 50 vezes por dia, verificar portas e janelas constantemente, ter todos os objetos de casa à mesma distância. Estes são alguns gestos de quem tem uma Perturbação Obsessivo-Compulsiva.

Inês Consolado, 20 anos, estudante de Cinema, costumava lavar as mãos 50 vezes por dia. Chegou a ficar com a pele em ferida e, quando a mãe lhe perguntava o que se passava, dizia-lhe que eram frieiras. Aos seis anos, quando o irmão nasceu, a jovem lembra-se de ter os primeiros pensamentos estranhos: “Pensava muitas vezes que o meu irmão ia morrer e sentia angústia por causa disso”.

Aos 13 anos, Inês confrontou-se pela primeira vez com um pensamento obsessivo consciente: “Estava na minha cama, à noite, e de repente tive um pensamento de dúvida sobre a minha orientação sexual. Foi uma sensação horrível, porque sempre gostei de rapazes e aquilo vinha pôr em causa o que já conhecia de mim”. Nos quatro meses seguintes, Inês não conseguiu parar de pensar no assunto e sentia-se desconfortável ao pé das amigas. “Até achava que os meus avós iam pensar que, por estar sempre com a minha melhor amiga, era homossexual.”

Acabou por entrar em depressão. Segundo Lucília Bravo, psiquiatra no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa, a Perturbação Obsessivo-Compulsiva (POC) tem uma elevada percentagem de relação com outras doenças, especialmente com a depressão: “A ansiedade e os rituais desgastam muito uma pessoa, até ao ponto em que ela não sente vontade de fazer nada”.

A fase de depressão, para Inês, passou em meses, mas a POC acentuou-se: “O que me começou a acontecer é que não conseguia ir a sítios, tocar em pessoas, roupas ou objectos que eu associasse à altura da depressão. A minha obsessão era que a essência negativa dessa altura, e que estava nas coisas em que eu tocava, ficasse no meu corpo e eu voltava a ficar deprimida e infeliz”.

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A finlandesa Laura Neuvonem, realizou esta curta metragem de animação, intitulada “The Last Knit“, que ilustra o sofrimento causado por comportamentos obsessivo-compulsivos.

A POC caracteriza-se essencialmente por obsessões como estas, que depois são alimentadas com compulsões, os rituais. Inês criou vários, chegou a tomar um banho de quatro horas porque tinha tocado num objecto ‘negativo’, gastava um gel de corpo por banho e não conseguia tocar na mãe ou no irmão, não se atrevia a entrar no quarto deles. Também comeu gel de banho para que os seus “órgãos não ficassem negativos”. E limpava o computador, telemóvel e iPod com água oxigenada, mas com cuidado, sem nunca lhes tocar directamente com as mãos.

Hoje, diz sentir-se muito melhor e para ela é uma “conquista” conseguir vestir um pijama do irmão. Na fase mais crítica entrou para a Associação Domus Mater  porque a mãe a “arrastou para lá”. Tem duas consultas mensais com a psicóloga e já participou em terapias de grupo e semanas psicoterapêuticas que a associação organiza. “Acho que nunca vou viver anos suficientes para agradecer o que a minha psicóloga tem feito por mim”, conclui Inês.

O peso da hereditariedade

A Associação Domus Mater é a única em Portugal que se dedica ao tratamento de pessoas com POC. Fundada em 2003, por um grupo de familiares e amigos de um doente com POC, esta associação está localizada em Lisboa e conta com uma equipa de quatro psicólogas clínicas, que realizam consultas diárias. A terapia individual ou de grupo, bem como sessões de terapia familiar e semanas terapêuticas organizadas pela associação, também fazem parte do seu leque de actividades para apoio dos doentes com POC. Em 2013, a Domus Mater abriu uma nova Delegação no Porto.

Em combinação com a terapia cognitivo-comportamental, a medicação também faz parte do tratamento para a POC. Segundo a psicóloga clínica Catarina Soares, “é já possível observar, através de imagens, alterações do cérebro que indicam que as pessoas com POC têm défice de serotonina, uma substância química que controla as reacções de medo, ansiedade, sono, entre outras”.

Quando Mariana, 24 anos, foi diagnosticada com POC — tinha 18 anos — começou a fazer medicação e receitaram-lhe inibidores para a receptação de serotonina, que ainda hoje a acompanham: “Não me importo de tomar medicação para o resto da vida, as pessoas com problemas respiratórios ou de tiróide também tomam, é uma doença como outra qualquer”.

"As pessoas com POC têm défice de serotonina, uma substância química que controla as reacções de medo, ansiedade, sono, entre outras.”

Inês nunca tomou medicação e diz que quando estava pior e a psicóloga falava em “avançar”, “isso era a maior tomada de consciência que podia ter”, afirma. “Parava logo com todos os rituais, os pensamentos quase desapareciam. O meu maior medo sempre foi tomar medicação, porque era como se tivesse a confirmação de que era maluca”.

Há vários tipos de fenómenos que podem desencadear a POC. Vera Faria, 38 anos, fez investigação sobre esta doença em contexto de mestrado e considera que, além dos factores de natureza biológica, também condições sociais menos favoráveis podem estar na origem da POC, rupturas de nível conjugal, dependência financeira ou desemprego, por exemplo.

“Além de ligar e desligar os bicos do fogão, tenho que ir ouvir atentamente se o gás sai dos bicos e, para ter mesmo a certeza, cortar o gás no contador”

Pedro Mendes, nome fictício, 42 anos, parece ser um desses casos que, à predisposição biológica, juntou uma condição social desfavorável em contexto laboral. O revisor de texto de profissão conta que, em 2009, chegou ao trabalho e foi chamado ao departamento de pessoal. Lá anunciaram-lhe que o seu posto de trabalho seria extinto, mas que estaria “a salvo do despedimento”. “Porque havia lugar para mim noutro departamento”, diz.

Para Pedro, esta notícia caiu como uma “bomba atómica”. “Só pensava que ao mudar de departamento iria fazer um trabalho para o qual não tinha habilitações, logo não iria conseguir fazê-lo bem. Acabaria despedido, e com 37 anos não voltaria a arranjar trabalho”, era o pensamento de Pedro na altura. A partir daí, Pedro construiu o seu conjunto de rituais: “No trabalho tinha der ler os textos e verificá-los ‘n’ vezes para ter a certeza de que não tinham erros. Passava o corrector de texto e como me surgia a dúvida de o corrector não estar a funcionar bem, escrevia um erro qualquer no texto e passava o corrector novamente para ver e ter a certeza que estava a funcionar”. Desenvolveu também um sentimento de responsabilidade em relação ao colega que ocupava o lugar de trabalho que agora é o seu: “Ainda hoje me culpo por estar neste trabalho, o colega que estava aqui teve um acidente e deixou o serviço, sinto culpa pelo acidente e pelas consequências.”

Em casa, Pedro não consegue controlar as verificações nas janelas e portas, abre e fecha-as várias vezes para ter a certeza. “Com o fogão é a mesma coisa”, conta. “Além de ligar e desligar os bicos do fogão, tenho que ir ouvir atentamente se o gás sai dos bicos e, para ter mesmo a certeza, cortar o gás no contador”. Pedro é também utente da Domus Mater, e apesar de reconhecer que os comportamentos não desapareceram totalmente, considera que desde que lá está e faz terapia aliada a medicação, os comportamentos “reduziram e muito e isso tornou alguns dias suportáveis”, conclui.

Há também uma vertente genética já identificada na POC, é o que sugerem alguns estudos, segundo Vera Faria. A psicóloga reconhece que indivíduos com familiares de primeiro grau com POC terão em princípio maior predisposição para desenvolver a mesma doença, “mais do que a população em geral”, diz.

“O meu irmão contou-me que não consegue dormir no quarto se todos os objectos não estiverem a uma distância de sete centímetros. E mede com a régua.”

Inês tem um pai e um irmão, o mais velho, que também têm POC: “O meu irmão contou-me que não consegue dormir no quarto se todos os objectos não estiverem a uma distância de sete centímetros. E mede com a régua”.

Filipa Sousa, nome fictício, 20 anos, foi também diagnosticada com POC, mas desistiu das consultas com a psicóloga: “Acho que consigo controlar sozinha.” Um dos seus rituais tem também a ver com as simetrias, todos os cabides no seu armário são azuis ou pretos e têm que ter uma distância de quatro centímetros entre eles. Tem também o que ela chama de “gavetas mentais”, que são listas que faz e actualiza várias vezes, repetindo para si o que tem e precisa de fazer, e como deve agir.

A tia materna de Filipa também tem POC. “É muito mais grave que a minha. Ela ficou sem defesas nas mãos porque estava sempre a lavá-las e quando vamos lá a casa está sempre a observar o que fazemos. Se nos sentamos no sofá e fica com vincos vai logo ajeitar as vezes que forem precisas”.

Uma toalha de praia e chinelos… em janeiro

As perturbações de ansiedade, como a POC, estão classificadas como um dos grupos de doenças mais incapacitantes, que comprometem a vida das pessoas. A Direcção-Geral de Saúde coloca-as em oitavo lugar, entre 144 causas para incapacidade por doença. Mariana acabou internada por causa dela. A sua obsessão era com a escola: “Queria mostrar que conseguia ter um 17 a biologia no secundário, mas na véspera percebi que não estava preparada. Entrei em pânico”. Deu entrada nas urgências algumas vezes, com sentimentos físicos, dores no peito e no resto do corpo.

Faltou às aulas por não se conseguir levantar: “Não aguentava as pernas, sentia mesmo dor”. Consultou psiquiatras e melhorou, mas no terceiro ano de faculdade viveu o episódio mais agudo da sua doença: “Na altura dos exames, estudava durante o dia todo em casa e de madrugada ia para a cantina da faculdade que estava aberta a noite toda. A minha vida era estudar 24 horas por dia”.

“Já não dormia há alguns dias e só me lembro de já estar na paragem de autocarro com uma mochila às costas. Não me lembro de ter saído de casa nem de ter feito essa mochila, onde tinha coisas que não faziam sentido: um peluche, uma toalha de praia e havaianas. Estávamos em Janeiro.”

Para se manter acordada, juntou à medicação café e Redbull. Quando quis voltar a dormir não conseguiu: “Já não dormia há alguns dias e só me lembro de já estar na paragem de autocarro com uma mochila às costas. Não me lembro de ter saído de casa nem de ter feito essa mochila, onde tinha coisas que não faziam sentido: um peluche, uma toalha de praia e havaianas. Estávamos em Janeiro”. Ficou 11 dias internada no Hospital de Santa Maria.

No caso de Filipa, a jovem perdia a noção das horas a arrumar e a limpar e acabava por faltar às aulas. Deixou de gostar de emprestar roupas e coisas dela aos amigos e não gostava de ter ninguém em casa: “Só de pensar que iam tocar nas minhas paredes, ficava doente.” Segundo a psicóloga clínica Catarina Soares, a POC pode até levar ao corte de laços sociais e profissionais: “Os doentes tendem a isolar-se, não gostam de estar com pessoas porque isso causa-lhes sofrimento. Não estão à vontade para manifestarem os seus comportamentos. A POC até já acabou com muitas carreiras profissionais, porque as pessoas deixam de ser capazes de fazer o trabalho delas”.

João, nome fictício, 40 anos, é um desses casos. Está reformado, com decisão médica por invalidez. Contraiu uma Hepatite A, que depois o levou a construir rituais para se defender das possíveis contaminações: “Tenho medo de caixotes do lixo, loiça mal lavada e, quando chego ao final de uma rua, muitas vezes tenho que voltar para trás porque penso que várias pessoas me contaminaram. E aí volto a percorrê-la.” João acabou por desenvolver também outro tipo de sintomas: tem problemas cardíacos e neurológicos.

As famílias também sofrem

Os laços familiares podem também ficar comprometidos quando um doente de POC começa a envolver a própria família nos rituais: “Tive uma doente que, quando o marido e os filhos entravam em casa, só podiam ir por determinado caminho, do corredor até à cozinha, onde se tinham que despir todos, ficavam em cuecas, e depois em cuecas também iam por determinado trilho até à casa de banho para serem lavados e desinfetados”, afirma a psicóloga Catarina.

“Já consigo perceber pela voz dela ou pelo o olhar se está a descompensar. Às vezes, chego lá a casa e está tudo de pantanas, esfregonas e baldes no corredor e ela a limpar."

Maria Silva, 54 anos, tem uma irmã diagnosticada com bipolaridade e que também desenvolveu comportamentos obsessivo-compulsivos. “Temos de entrar em casa dela sempre descalços.” Desde adolescente que Maria se lembra de a irmã ter estes comportamentos: “Muitas vezes estávamos nós ainda com o garfo de comida no ar e já estava ela a levantar a mesa porque queria arrumar tudo. Causava-lhe sofrimento cozinhar porque deixava o fogão sujo.”

Ainda hoje, Maria reconhece que é complicado lidar com a irmã, mas nunca pensou em desistir de perceber o que ela tinha e quis estar sempre presente para lhe dar apoio: “Já consigo perceber pela voz dela ou pelo o olhar se está a descompensar. Às vezes, chego lá a casa e está tudo de pantanas, esfregonas e baldes no corredor e ela a limpar. Tem também uma grande compulsão de deitar coisas fora, de tal maneira que uma vez deitou a escritura da casa para o lixo.”

“Acham que são manias”

Durante décadas, a POC e as outras perturbações do foro psiquiátrico foram alvo de estigma social por parte da sociedade. Hoje, Mariana acredita que o facto de muitas pessoas terem começado a assumir que têm POC faz com que a sociedade tenha uma nova visão sobre estas pessoas. De facto, David Adam, jornalista e autor da obra O Homem que Não Conseguia Parar, relato biográfico da sua vida como doente de POC durante 20 anos, diz que esta doença é duas vezes mais comum que a esquizofrenia e o autismo, e só agora é que as pessoas se aperceberam, porque só também recentemente conseguiram começar a falar no assunto.

Durante décadas, a POC e as outras perturbações do foro psiquiátrico foram alvo de estigma social por parte da sociedade.

Inês não tem a mesma opinião de Mariana, considera que “ainda há um longo caminho a percorrer” quanto ao olhar da sociedade perante as pessoas com POC. “Apesar de tudo, acho que as pessoas até têm mais consideração por doenças como a esquizofrenia ou a bipolaridade, em que a pessoa não está consciente das suas atitudes. Na POC acham que são só manias nossas e que, por não termos problemas na nossa vida, arranjamos estes”, conclui a jovem.

As opiniões também divergem quando se trata da visão pessoal sobre a doença. Para Filipa, a sua vida seria muito mais “espontânea”, se não tivesse que conviver com esta doença. Pelo contrário, Pedro prefere nem pensar na sua vida sem a doença. “É demasiado doloroso. Eu tinha uma vida antes da POC, que ela destruiu por completo. Aquilo que tenho que fazer é aprender a viver com o que tenho. Nem tenho a expectativa de um dia viver sem esta doença. Ela, pelo menos, vai comigo até à morte”.

* Rita Gomes é finalista do curso de Ciências da Comunicação da Universidade Nova de Lisboa

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