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Joao Pedro Correia

Joao Pedro Correia

Conan Osíris: o denominador incomum /premium

Por que razão "Telemóveis" gera amores e ódios? A versão Fruity Loops do canto cigano ganhou o Festival da Canção. Era a favorita do público e agora vai à Eurovisão.

[especial atualizado a 2 de março de 2019, após a vitória de Conan Osíris no Festival da Canção]

O outro dia pensei que tinha perdido o telemóvel e lembrei-me do Conan Osíris. Não que estivesse a tentar ligar para o céu. As minhas preocupações eram bem mais prosaicas: apanhar os filhos da casa de amigos, tentar conviver com adultos, fazer as compras da semana – numa teia de chamadas e whatsapps. Vai daí, talvez as implicações não fossem assim tão diferentes: desencontros, raiva, frustração. Quem nunca?

Até há poucas semanas, Osíris, de 30 anos, era conhecido por ser o cantor, compositor e provocador que em 2018 se transformara naquilo a que os jornalistas gostam de chamar “fenómeno”. O álbum Adoro Bolos incluía outros denominadores comuns com a maior parte de nós, incluindo “Celulite”. Ajudava ao hype o facto de Conan ter passado parte da juventude no Cacém e trabalhar numa sex-shop em Lisboa. Mas o que intrigava era a energia que dali saía e a sonoridade, uma electrónica com ecos de canto cigano. Quando, em Abril, fez as honras à festa do Festival de Cinema IndieLisboa, revelou-se um acontecimento dentro do acontecimento. Tal como grande parte do público que ali estava, mais do que ouvi-lo ao vivo, eu queria vê-lo ao vivo. A supernova underground do momento. Pensava eu.

[“Celulite”, de Conan Osíris:]

Até que surgiu a lista de temas concorrentes ao Festival da Canção de 2019. E lá estava ela: “Telemóveis” de Conan Osíris, no mais antigo, popular e transversal concurso de canções do país. Que em miúda – e até hoje — me pôs a cantar “Não Sejas Mau para Mim”, “Amor de Água Fresca” e “Conquistador”. Por ordem: Dora, Dina e Da Vinci. Que tem como alguns dos seus mais veneráveis vencedores Simone de Oliveira, Carlos do Carmo e Paulo de Carvalho. Que há dois anos mudou de rumo, sim, e elegeu um outsider como Salvador Sobral, sim, que ainda por cima conquistou o mundo, triplo sim, mas que se apresentou a cantar maravilhosamente bem um tema maravilhosamente clássico. E, agora, Osíris:

“Eu vou descer à minha escada
Vou estragar o telemóvel
O telélé.”

[a atuação de Conan Osíris na primeira semifinal do festival da Canção:]

Conan Osíris partiu como um dos favoritos à vitória, depois de na primeira meia-final ter conquistado o público – mas não o júri. Poderá parecer contra-intuitivo: um “país real” mais “progresso, penas e purpurinas” do que a suposta “massa crítica”. Mas olhe que não.

Nada contra baladas, a preferência do júri. A questão aqui não é gosto; é tendência. No caso, a dinâmica da periferia para o centro. O momento em que um jovem que escreve versos como “pakek eu fui falar” e “eu vou-me amandar do Titanique” é apontado como favorito numa instituição televisiva com mais de 50 anos sela em papel azul de 25 linhas aquilo que já se verificava há anos mas “a massa crítica” recusava oficializar: o centro está hoje nas periferias. A mais honesta produção musical vem das periferias, a mais livre, ousada e independente produção musical vem das periferias, a mais ouvida produção musical vem das periferias.

“Basta pensar no hip-hop”, comentei com amigos, à pesca de opiniões. Houve quem dissesse que “sim, mas”. E tenha desvalorizado o fenómeno Osíris como mais uma declinação “hipster”, o “hipster chunga”, consubstanciado, por exemplo, no cabeça de cartaz do Nos Primavera Sound deste ano, o ícone do reggaeton J Balvin. “Quem?”, repliquei. “Exacto”.

E assim continuei, numa sequência de conversas com consultores informais que citaria sem autorização. Até que esbarrei no muro. No caso, uma detractora de Osíris. Primeiro argumento: “aquilo é tudo fabricado, basta olhar para a conta de Instagram”. Registado e validado. Segundo argumento: “ainda por cima, ele nem sequer é cigano”. E aqui a coisa vacilou.

Lembra-se de quando em Maio do ano passado o rapper norte-americano Kendrick Lamar convidou uma fã branca para subir ao palco, e depois a expulsou desse mesmo palco porque ela tinha cantado a letra completa da canção, incluindo a palavra “nigger”?  De acordo com Lamar, embora o termo constasse da letra, a rapariga não tinha o direito de o enunciar porque não era afro-americana. A questão debateu-se por todo o lado: jornais, redes sociais, grupos de whatsapp. Arrisco dizer que até se tenha discutido na rua. Muitos concordaram com ele. Num país tão marcado ainda pela discriminação racial, a “n-word” transportava uma carga histórica e sociológica demasiado pesada. Nenhum branco teria alguma vez autoridade moral para a proferir, num eterno retorno aplicado à culpa. Em relação a este vocábulo, negros e restante população mundial tinham direitos diferentes. Um apartheid lexical.

Como teria sido a história do minhoto António Variações se em vez de 1944 tivesse nascido em 1994? Se em vez de cantar para um gravador de cassetes tivesse acesso ao Fruity Loops, o software de edição digital acarinhado por Osíris? Se em vez de andar atrás da Valentim de Carvalho tivesse um canal de YouTube ou uma página no Bandcamp?

Nos últimos anos, o raciocínio ganhou asas. Houve quem passasse a defender que os homens não podiam falar de direitos das mulheres ou de igualdade de género; que só gays poderiam dar voz a questões relacionadas com a homossexualidade — e que “homossexualidade” e “homossexuais” eram termos pejorativos; que os brancos nunca poderiam perceber a verdadeira essência do rap, muito menos interpretá-lo. Houve até quem alegasse, mesmo que numa conversa informal, que Conan Osíris não podia deixar-se influenciar pelo canto cigano porque não era cigano. Da mesma forma que, já não numa conversa informal mas num comunicado, uma associação espanhola de ciganas feministas veio acusar a cantautora catalã de 25 anos Rosalía de apropriação cultural.

Há vários denominadores comuns entre Rosalía e Osíris. Para começar, o mais óbvio: ambos vão buscar influências à música dos roma sem o serem; no caso dela, o flamenco, no dele, o canto cigano. Cresceram os dois em periferias hostis de um centro urbano: Sant Esteve Sesrovires, a 40 minutos de Barcelona, perto da fábrica da Seat, e o Cacém, na Linha de Sintra. Tanto um como o outro são cantautores-fenómeno, que misturam influências variadas, do hip-hop ao trap e outros tipos de electrónica. Por outro lado, “Telemóveis” está no Festival da Canção português e “Malamente” já ganhou dois Grammy latinos. Rosalía é sofisticada e conceptual; Conan explora um lado trashy e humorístico. Ele ainda não se fixou no firmamento; ela está a tornar-se uma estrela mundial, com colaborações com Pharell Williams, James Blake e J Balvin – o mesmo do Primavera Sound. Uma coisa é certa: ambos encarnam o mais fundamental dos denominadores da arte, talvez o mais difícil e incomum, a liberdade.

Racismo, género, identidade cultural são todas questões demasiado complexas para serem afloradas ao de leve ou arrebanhadas num único bouquet. Só que o que está aqui em causa é aquilo que um grupo de pessoas tem vindo a fazer destas questões, ao ditar os tipos de discurso autorizados em cada uma delas. No limite, discurso é acção. Mas aqui fala-se não de acção mas de quem não quer deixar fazer. De quem quer ditar as regras. De quem quer reduzir-nos ao mínimo denominador comum, numa versão contemporânea e politicamente correcta do dividir para reinar.

Se conseguirmos abstrair-nos dos milhares de particulares que tornam cada uma destas questões numa história única para cada um de nós; se conseguirmos ver apenas as linhas que unem os factos, e desviar o olhar do contexto e da emoção; se conseguirmos ser puramente racionais, percebemos que o que está aqui em jogo é “acesso”. Minorias oprimidas durante anos querem agora zelar pelo seu território. É compreensível. Ao fazê-lo, contudo, arriscam fazer a outros aquilo que outros outros lhes fizeram a elas.

Conan Osíris ao vivo no Tivoli BBVA, na primeira noite do Super Bock em Stock, no final de 2018 (Foto de Diogo Ventura)

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Voltemos ao início: o centro está hoje nas periferias. E agora é um all in: também aqui a questão é “acesso”. Antes, para vingar, sobretudo nos meios culturais, era preciso ir até à capital do império. Falava-se pouco em periferias, mas muito em província – que para um alfacinha começava onde Lisboa acabava. Hoje, uma ligação à Internet basta. Sem ter de passar pelos gate keepers do passado, termo usado para explicar o papel de porteiro que as televisões, jornais e revistas desempenharam ao longo do século XX.

Como teria sido a história do minhoto António Variações se em vez de 1944 tivesse nascido em 1994? Se em vez de cantar para um gravador de cassetes tivesse acesso ao Fruity Loops, o software de edição digital acarinhado por Osíris? Se em vez de andar atrás da Valentim de Carvalho tivesse um canal de YouTube ou uma página no Bandcamp?

O artista português mais ouvido em 2018 terá sido o rapper Piruka, com dezenas de milhões de visualizações no YouTube mas, com grande probabilidade, muito menos espaço nos média tradicionais do que Samuel Úria, Joana Espadinha ou David Fonseca. De novo, o que está em causa não é gosto; é tendência, movimento.

Já agora, que jovem artista pode pagar as rendas da Lisboa gentrificada? Também isso a capital portuguesa e a da Catalunha têm em comum. Já na edição de Outono/Inverno 2017/2018 a revista internacional “Apartamento” fazia capa com o novo estúdio/casa da artista underground de Barcelona Maria Pratts, 30 anos. Onde? Em Hospitalet de Llobregat, um subúrbio que quando vivi em Barcelona me lembro conhecer apenas porque era de onde vinha um concorrente arruaceiro do reality-show Gran Hermano, o Big Brother espanhol.

Este sábado, sob uma chuva de comentários irados nas redes sociais, beefs entre haters e fãs, Conan Osíris sobe ao palco do Festival da Canção como um dos favoritos. Uma posição ditada não pela crítica, mas pelo público. Quem sabe não serão eles a verdadeira “massa crítica”. Aquela que, enquanto jornalistas, nos queixámos sempre de não existir em número suficiente para sustentar uma democracia como idealizáramos.

De volta a Osíris, o mais curioso na confluência destas duas questões relacionadas com “acesso” numa mesma figura é que elas apontam em direcções opostas. Se a Internet deu a qualquer pessoa acesso ao resto do mundo, as doutrinas do pode/não pode vão tentando cercear o grupo de privilegiados que têm acesso ao quintal em questão.

Reduzindo a questão ao denominador mais ridículo, se dependesse dos que se assumem como novos guardiões do templo, eu nunca poderia escrever este texto. Afinal, sou uma mulher de quase 40 anos criada num meio semi-burguês na linha de Cascais a discorrer sobre um homem de 30 anos criado num contexto problemático entre Moscavide e a Linha de Sintra. Está o leitor a pensar que o tema aqui em causa não é esse? Não interessa.

Sob uma chuva de comentários irados nas redes sociais, beefs entre haters e fãs, Conan Osíris subiu ao palco do Festival da Canção em lugar de vantagem. Uma posição ditada não pela crítica, mas pelo público. E ganhou. Quem sabe não serão eles a verdadeira “massa crítica”. Aquela que, enquanto jornalistas, nos queixámos sempre de não existir em número suficiente para sustentar uma democracia como idealizáramos – com os nossos jornais e revistas, os nossos filmes franceses e música minimalista, os nossos amigos e nenhum dos nossos inimigos. A nossa esfera mediática.

Se calhar a verdadeira “massa crítica” não ouve o mesmo que nós, não lê o mesmo que nós, nem sequer respira o mesmo ar que nós. Se calhar está aí, por trás desse ecrã, a ouvir Rosalía no YouTube, a jogar Fortnite na PS4 e a ver A Guerra dos Tronos num site pirata. Numa atmosfera paralela – ou periférica. Um amigo comentava que existe nos anéis de saturno uma atmosfera independente da de Saturno*. Percebo tão pouco de espaço que a minha primeira reacção foi pensar, “talvez se respire melhor”.

*Em Dezembro do ano passado, a NASA revelou que os anéis de Saturno estão a desaparecer a uma velocidade recorde, sugados pela força da gravidade do planeta.

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