Congresso do PSD. Os vencedores, os vencidos e os que ficam à espreita

18 Fevereiro 2018305

Santana perdeu, mas ganhou; Rio ganhou, mas cedeu. Montenegro falou e ameaçou; Pinto Luz ameaçou e calou. Passos disse "adeus", Malheiro "cheguei", Rangel "até já". Martins não disse nada. Fraga ouviu

Os vencedores

Pedro Santana Lopes

Normalmente, numa guerra, o vencedor fica com os despojos; no PSD, o vencedor teve que pagar um tributo. E quem o recebeu, com um largo sorriso, foi Pedro Santana Lopes. No seu discurso, louvou a “convergência política” com Rio e elogiou a forma como o adversário aceitou absorver as suas ideias. Parecia a versão portuguesa do “Lulinha Paz e Amor” brasileiro. Falta apenas explicar que, antes de subir ao palco, Santana forçou Rio a dividir os lugares nos órgãos nacionais de forma quase equitativa — e foi tratado como uma espécie de líder emérito do partido. Eis como, com habilidade e sentido de oportunidade, se transforma uma derrota numa vitória.

Rui Rio

Só teve um opositor a sério — Luís Montenegro. Todos os outros, estivessem descontentes com as ideias ou com os lugares, preferiram o sussurro ao berro. Mesmo o uso da palavra “traição” por Paula Teixeira da Cruz, a propósito da escolha de Elina Fraga como vice-presidente, foi mais um estado de alma do que uma declaração de guerra. Rui Rio fez escolhas perigosas (como Fraga e Malheiro), mas, como diriam os Xutos & Pontapés, fê-las à sua maneira.

Pedro Passos Coelho

Quando se esperava que fosse ao congresso apenas acenar e agradecer, Passos surpreendeu e fez um dos discursos mais violentos da sua vida como líder da oposição. Lembrou que o atual governo tem muitos ministros que estiveram com Sócrates na altura em que “Portugal foi praticamente à bancarrota”, alertou para o facto de haver muitos países a crescer mais do que nós e deixou no ar uma das frases que marcaram o fim de semana: “Não é fácil bater a geringonça, mas é preciso bater a geringonça”. Não pareceu ser o discurso de alguém que se prepara para ficar em casa em pijama e pantufas.

Salvador Malheiro

Foi filmado pelo Observador num acto flagrante de cacicagem durante as eleições internas do PSD, a transportar militantes em carrinhas para votar. Foi envolvido, como presidente da Câmara de Ovar, num negócio de obras de 2,2 milhões que beneficiaram um dirigente do PSD. Foi ainda mais atingido quando se soube que o Ministério Público estava a investigar o caso. Mas, para Rui Rio, nada disso importa; ou, se importa, importa pouco. Salvador Malheiro foi enviado pelo novo líder para intermediar a crise no grupo parlamentar. E depois foi novamente enviado por Rio para negociar as listas do congresso com os santanistas. Agora, chegou em ombros e glória à comissão permanente do PSD, a cúpula do partido. Por teimosia ou dependência, Rui Rio ignorou o “banho de ética” e pôs todas as fichas no cacique de Ovar. Não deve acabar bem, mas, para já, Salvador Malheiro pode dizer que quis tudo e conseguiu o que quis.

Os vencidos

Elina Fraga

Da última vez que se tinha ouvido falar em Elina Fraga foi quando perdeu a recandidatura à Ordem dos Advogados. Este fim de semana seria o seu regresso à vida pública, com surpresa e estrondo. Em vez disso, foi apupada, assobiada e vaiada. Antes mesmo de tomar posse como vice-presidente do partido, já dizia à RTP estar “pronta para sair quando for um constrangimento”. Se apupos em pleno congresso não são um constrangimento, o que será?

Miguel Pinto Luz

A sua notoriedade política nacional resume-se a uma recomendação de Miguel Relvas (o que é sempre um problema) e a uma carta crítica que enviou a Rio. No congresso, onde podia mostrar em direto e ao vivo aquilo que vale, fez um discurso soporífero e envergonhado. Quem o tinha enviado para a frente, enviou-o agora para trás, tornando tristemente clara a sua falta de autonomia.

José Eduardo Martins

Entrou no congresso a prometer um discurso marcante; saiu do congresso sem discursar e sem marcar. Quando o Observador começou a fazer perguntas sobre o seu estatuto no congresso, José Eduardo Martins percebeu subitamente que, se falasse, estaria a violar os estatutos. No último congresso, já se tinha destacado por não conseguir votar por ter chegado atrasado. Como se vê, é um espírito livre.

Os que ficam à espreita

Luís Montenegro

Com o seu discurso no congresso, Luís Montenegro poupou uma visita ao psicólogo: depois do que disse — e disse tudo, desabafou sobre tudo, deitou tudo cá para fora — já não precisa de se deitar no divã. Respondeu aos que o acusaram de ter “falta de coragem” e espremeu Rui Rio até ao limite que os bons costumes permitem em público. Disse, de forma clara, inequívoca e irrevogável: “Eu não quero, não sou, nem vou ser oposição interna a Rui Rio”. Isto, naturalmente, quer dizer que quer, é e vai ser oposição interna a Rui Rio. Quando, no final do seu discurso, afirmou que “A sombra só incomoda os fracos” escolheu, de forma involuntária, o seu cognome no futuro. Luís Montenegro é, agora, apenas “A Sombra”.

Paulo Rangel

Já concorreu uma vez e já hesitou uma vez. Há uns anos, avançou para a corrida à liderança para ser derrotado por Passos; desta vez, avançou e recuou. Como todos os políticos que não se querem comprometer, foi ao congresso falar sobre a Europa — e não, o facto de ser eurodeputado não é desculpa para este refúgio retórico. Montenegro espera a sua oportunidade na oposição; Rangel, na situação. Se se recandidatar nas próximas eleições europeias e fizer um bom resultado, tudo volta a ser possível. Mas não vai ser fácil gerir a relação com Rui Rio. Rangel precisa de estar, ao mesmo tempo, próximo e distante. Vai ser um exercício de equilibrismo político.

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