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Das fotografias que Ricardo Gomes tirou a Madonna, esta é a sua favorita

Ricardo Gomes

Das fotografias que Ricardo Gomes tirou a Madonna, esta é a sua favorita

Ricardo Gomes

Da infância a querer sair da Madeira até à intimidade com a rainha da pop: Ricardo Gomes, o fotógrafo de Madonna /premium

Como se conheceram, do que falam, o que partilham. O Observador falou com o responsável pelas imagens da rainha da pop na digressão Madame X, que hoje se estreia em Lisboa.

    Índice

Ricardo Gomes, de 29 anos, nasceu na ilha da Madeira e mudou-se para Lisboa aos 17 para estudar fotografia. Decidiu depois de umas férias em Paris que queria viver na capital francesa, onde se abriram as primeiras portas para aquele que é hoje o fotógrafo privado de Madonna. Faz este mês de janeiro exatamente um ano que ele a cantora se conheceram, em Lisboa, e é também este mês que a artista dá oito concertos no Coliseu dos Recreios, o primeiro já esta noite.

O Observador conversou com Ricardo, que pertence ao círculo restrito da artista e está quase 24 horas com a rainha da pop. “Hi portuguese”, é assim que Madonna o trata. Confessa que não era fã da norte-americana e que por isso não se sente iludido pelo facto de ser o único fotógrafo em que Madonna tem confiança para “quase tudo”.

Num hotel no centro de Lisboa, onde toda a equipa de Madonna dorme por estas semanas  — e acompanhado por um sumo natural de gengibre, maracujá e manga, talvez já por influência da própria, dada a estas coisas da alimentação saudável –, a conversa com o madeirense dura mais de uma hora, entre português e algumas expressões em inglês. Falou da sua vida profissional, das sessões fotográficas com grandes nomes mundiais como Yohji Yamamoto e Patti Smith e dos bastidores da vida e do trabalho com Madonna.

“Podemos ir para uma sala com mais barulho, por favor? O silêncio incomoda-me”. Começou por perguntar assim que se sentou na primeira sala do hotel.

Ricardo Gomes, de 29 anos, nasceu na ilha da Madeira e mudou-se para Lisboa aos 17 para estudar fotografia.

És português, tens 29 anos e és o fotógrafo privado de Madonna… Esta frase tem algum peso… [a conversa entre fotógrafos faz-se assim, em tom informal, tratando-se ambos por tu]
Sou português. Considero que para a minha idade, a minha história de vida é interessante. Mas ninguém em Portugal me contacta. Duas pessoas contactaram-me: o Tiago, que é um amigo meu, e talvez as pessoas da Vogue, que me telefonaram há um ano, quando o meu primeiro livro saiu. Mais ninguém me contacta em Portugal. It’s fine [está tudo bem], I don’t need it [não preciso disso], não vim para Portugal para trabalhar, mas como português acho que seria interessante. Ainda mais fazendo o que estou a fazer hoje em dia: sou a única pessoa que tem acesso ao conteúdo do show [de Madonna] a nível visual e fotográfico, mais ninguém tem. É uma huge thing [uma coisa muito importante], a última vez que ela teve alguém a fazer isto foi nos anos 90, quando fizeram um documentário sobre uma tournée dela. Depois disso, nunca mais deixou ninguém fazer. Portanto, é… kind of a big thing [mesmo um coisa em grande]. Mas as pessoas não dão valor a isso, não percebem, não exploram, não tentam perceber: “Mas espera, este nome é português, quem é esta pessoa?”. Acho que os portugueses não são curiosos.

Este mês, janeiro de 2020, faz um ano que conheceste a Madonna. Como é que isso aconteceu?
Fui convidado para fotografar o behind the scenes [bastidores] do documentário “The World of Madame X”, que foi filmado em Lisboa. Tem o conceito do álbum, o porquê de o álbum ter sido feito em Lisboa, quais foram as inspirações dela, etc, etc.. Tenho um amigo que já conheço há vários anos, o Nuno Xico, realizador português…

… que fez videoclips para a Madonna, certo?
Fez o “Crave” e já trabalha com ela há imenso tempo, há cinco ou seis anos. Contactou-me para fazer os bastidores porque acredita no meu trabalho. Ele é super fechado no mundo dele e não dá oportunidades a muitas pessoas à sua volta, a não ser que acredite mesmo nessas pessoas. Contactou-me e fez todo o possível para que isto acontecesse. Quando me contactaram, já sabia que ia acontecer e vim a Lisboa de propósito.

[imagens de “Welcome to the World of Madame X”:]

Foi no Panorâmico de Lisboa que se conheceram, não foi?
Sim.

Nunca tinhas falado com a Madonna?
Não, nem nunca imaginei que fosse trabalhar com ela. Nem nunca pensei nisso, honestamente. Sempre respeitei a carreira dela, obviamente, como respeito a carreira de muitos artistas que não são do género musical que ouço. Tenho uma direção musical um bocado específica, gosto de rock and roll e música experimental. Há artistas que adoro e com quem adorava trabalhar. Não sou fã, mas não me importava de conhecê-los e fotografá-los, se houvesse uma oportunidade. Com ela nunca pensei que a fosse fotografar.

E não eras fã?
Não. Mas respeito a carreira dela e ainda mais agora, respeito-a imenso e o processo de trabalho dela é incrível. Nunca conheci ninguém assim e pelo que me disseram, pessoas que trabalham com ela, nunca vou conhecer. Nem mesmo o Michael Jackson, o processo de trabalho dele era muito mais calmo do que o dela. Ela é uma inspiração em tudo o que faz. Mete o dedo em tudo, dos pés à cabeça.

O fotógrafo português não é só fotógrafo da tour de Madonna mas também o seu fotógrafo privado.

Ricardo Gomes

Por falar nisso, és fã de alguém?
Não sou fã de ninguém. Não ligo a essas coisas. Nunca pedi um autógrafo a uma única pessoa, nunca parei para falar com ninguém e já me cruzei com imensa gente, principalmente agora que estou a trabalhar com a Madonna. Observo, tenho curiosidade, mas não há aquela coisa de I need to go and talk [tenho de ir e falar], ou tirar uma foto com a pessoa, nunca.

Dissemos “hi”, fizemos “eye contact”

Como foi a primeira vez que tu e a Madonna falaram?
Não foi nada de especial. Dissemos hi [olá], fizemos eye contact [olhámos um para o outro], foi só isso. A primeira vez que a conheci de mais perto e que falei com ela foi depois, quando fui para Londres em março [de 2019] e comecei a trabalhar com ela.

"A Madonna estava à procura de alguém que a seguisse, que a fotografasse, que trabalhasse nas redes sociais dela. Perguntaram-me se estaria interessado e aproveitei a oportunidade."

Mas como é que recebeste o convite para trabalhar com ela?
Foi um bocado no ar… ela estava à procura de alguém para fazer isto: alguém que a seguisse, que a fotografasse, que trabalhasse nas redes sociais dela. Até é isso que estou a fazer mais, as redes sociais. Foi-me dito que gostava do meu trabalho, que tinha gostado das fotografias que tinha feito em Lisboa. Perguntaram-me se estaria interessado e obviamente disse que sim. Aproveitei a oportunidade, fui a Londres um fim-de-semana, comecei a trabalhar. Depois voltei para Paris uns três ou quatro dias.

Numa primeira fase o contacto foi feito através de quem?
Através do management dela. Mas comecei a falar com ela diretamente antes de começarmos a trabalhar, porque a Madonna prefere o contacto direto… com algumas pessoas. Comigo, tem de haver um contacto direto porque estou a fazer diariamente conteúdos para as redes sociais dela. É preciso estarmos em contacto diário.

Como foi entrar no círculo fechado de uma das maiores artistas do mundo? Dizias-me há pouco que todos os trabalhos para ti são iguais, seja fotografar a Madonna ou o senhor aqui do bar, mas…
Sim. Se aceito fazer o trabalho, todas as pessoas são igualmente importantes.

Mas o facto de seres o fotógrafo da Madonna pode, de certa maneira, encher o ego, não?
Nunca me sinto iludido pelas coisas, nem pelo facto de ser fotógrafo da Madonna. Tento ser sempre humilde. Estou com a Madonna, mas podia estar com outra pessoa qualquer. O sujeito e o propósito são diferentes, mas para mim é uma pessoa com quem tens de trabalhar. Ponto.

Não sentiste um peso, uma responsabilidade maior?
O único peso que tenho e tinha está relacionado com uma coisa a que o formato das redes sociais não ajuda: mesmo hoje em dia, a imagem não dura muito tempo, ao contrário do que acontecia com as imagens dela nos anos 80 e 90 que vão ficar [na memória coletiva] para sempre. O único peso que senti foi estar a fotografar uma pessoa que tem uma imagem tão forte, na música e não só, e estou a contribuir diariamente para esta história. Por isso, para mim era super importante dar-lhe uma coisa que ela gostasse e de que eu também gostasse. No início, tivemos de fazer um balanço e uma ligação. Essa é a parte mais complicada — e não é com ela, é com qualquer pessoa com quem se trabalha todos os dias.

Ricardo pertence ao círculo fechado da rainha da pop.

Ricardo Gomes

O peso é sentires que estás a contribuir para a história?
Sinto que estou a contribuir para uma coisa importante, obviamente. Não estou a fazer isto só por fazer, faço-o sabendo que é importante mim, para ela e para as pessoas que gostam dela. Tenho imenso respeito pelo que faço e por ela, sinto-me super grato por ela me incluir em coisas super pessoais, em casa, com a família dela. Às vezes não há mais ninguém [exterior à família e no círculo íntimo], só eu. É um processo criativo bastante interessante, às vezes um bocado overwhelming [esmagador], porque quero sempre mais. Tento sempre pensar no que é que posso fazer mais.

E tens liberdade para fazer mais, ela deixa-te também decidir?
Ela deixa-me fazer o que quero, sempre, desde o início. Nunca me disse: “Não faças isto!”. Pode dizer-me para fazer de determinada forma porque se calhar vai ficar melhor, mas dá-me sempre uma liberdade criativa e de expressão incrível, que já aconteceu outros artistas menos conhecidos não me darem. Ela confia nas pessoas e acho que isso é o mais importante. Faço as coisas, trabalho-as, e depois envio e ela vê.

Então ela só vê o teu trabalho depois, finalizado?
Claro. Seria uma perda de tempo estar a ver as fotografias sem estarem prontas.

Já te disse coisas como “adorei esta fotografia”?
Claro.

E isso para ti foi importante?
Claro. Numa fase inicial era super importante, porque foi aí que comecei a perceber como é que ela gosta de ser fotografada.

Ela tem um estilo definido, quanto à forma como gosta de ser fotografada?
Depende de onde estamos e do que estamos a fazer. Não diria que tem um estilo, depende daquilo que estamos a fazer em específico.

“Sei até onde posso ir com ela”

Vi um vídeo há uns dias que publicaste, com a Madonna a brincar com a filha. E depois numa banheira de gelo. Revela uma intimidade enorme, até pelo problema de saúde com que ela está — ser filmada a entrar numa banheira poderia ser sensível.
Sim, mas ela leva as coisas de uma forma positiva, descontraída. Não é o tipo de pessoa que se deixa levar pela negatividade. Está com esse problema na perna mas não se deixa levar por essa negatividade do problema na perna. Está consciente que é algo sensível porque tem a ver com os shows que já cancelou — em Boston, por exemplo. Há um balanço de sensibilidade no que estamos a publicar, mas é importante mostrarmos às pessoas que ela faz esse processo. Why not?

Fotografas sempre com luz auxiliar?
Fotografo com o que tenho na hora. Telefone, câmara…

Como é o teu dia-a-dia, um dia de trabalho habitual com a Madonna na digressão?
Depende dos dias. Não tenho uma rotina… criei mais ou menos uma rotina na tour, mas é mais pessoal, é minha, não tem tanto a ver com ela. Vejo-a nos ensaios e nos shows, mas há dias em que não há ensaios nem shows e estou com ela também. E quando estou com ela não estou sempre a trabalhar, às vezes estou só com ela.

Mas não pensas sempre: vou ter de fazer isto e aquilo porque estou com a minha patroa?
Não, porque ela é relaxada em relação a isso.

Se estivéssemos aqui com a Madonna e com amigos da Madonna, estarias com a máquina a fotografá-la e ela não diria nada?
Não, não diria nada. Sei até onde posso ir com ela.

Esse limite foi-te imposto ou foste percebendo, através da convivência, o que é que deverias ou não fazer?
A minha resposta é: duas pessoas inteligentes a trabalhar juntas percebem. Não tens de falar, não tens de dizer nada, simplesmente sabes. You know. Como fotógrafo, sabes até onde podes ir.

Até te fecharem a porta [sobre o que podes ou não fazer], vais entrando?
Claro. Às vezes fazem-me um olhar, vou por trás e tento fazer na mesma. Só para mostrar: this is what I wanted to do [isto era o que queria fazer]. E depois às vezes é bom, corre bem. Outras vezes não funciona. It’s fine, no pressure [ok, não há stress].

"Como é que ela me trata? Trata-me por Ricardo [pronunciado com sotaque inglês]. Ou the portuguese. 'Hi, portuguese'. É funny, é ela [Madonna] a brincar comigo."

Como é que te diriges a ela?
Como toda a gente o faz. Digo hi. Ou hi, what’s up, hellogirl, what’s up girl [olá, tudo bem, olá miúda, tudo bem miúda]… 

E ao contrário?
Trata-me por Ricardo [pronunciado com sotaque inglês]. Ou the portuguese. “Hi, portuguese”. É funny, é ela a brincar comigo.

Madonna nunca foi muito vista “em falso” em Portugal. Apesar de ter estado em sítios públicos, não era muito vista, sabia-se muitas vezes que tinha estado aqui ou ali pelas redes sociais dela. A vida dela em Lisboa foi planeada ao pormenor?
Não vou dizer, é a vida pessoal…

Durante o concerto, o que é que fazes?
Tenho carta branca. Como estamos em teatros pequenos é complicado ir ao palco. Às vezes estou nos lados, às vezes estou mais à frente, de joelhos, on my knees [risos]. Ou atrás, no backstage. Mas como não são permitidas câmaras e telefones e às vezes estou com uma coisa e outra, é complicado gerir isso com os seguranças do teatro. Há pessoas que sabem [que estás a trabalhar] e às vezes há pessoas que não sabem.

Existem às vezes alguns comentários sobre a vida de Madonna em Portugal…
Dizem-se coisas sobre ela quando não se sabe do que se está a falar. Quando fiz o vídeo com ela na banheira — ela é super cómica, está sempre no gozo com tudo —, ela está sempre com o seu chá. Vi imensa gente a escrever no Facebook que ela bebia urina, porque ela no vídeo está a dizer: “É tão bom beber o meu xixi”. Acho que até a Cristina Ferreira falou disso no programa dela. Tornou-se uma coisa enorme, ela alegadamente beber a urina. Pensei: só os portugueses é que conseguem fazer isto, é mesmo parvo, é gozar com o assunto sem perceberem o contexto.

Às vezes o meu pai é que me diz as coisas que se vão falando, tem a televisão ligada e vai comentando comigo. Porque não vejo televisão, detesto, e também não vejo televisão portuguesa porque nem sequer tenho acesso. Ele contou-me que numa rádio portuguesa disseram que ela tinha fugido de Portugal e não ligava mais a Portugal. É uma das mentiras maiores, ela tem gente portuguesa a trabalhar com ela. A maior parte dos performers, das pessoas que participam no concerto, são portuguesas. Tem com ela as Batukadeiras, que são portuguesas e de Cabo Verde, tem o Gaspar [Varela, guitarrista e neto da antiga fadista Celeste Rodrigues], tem o apartamento cá, tem o filho cá. São coisas que toda a gente sabe, não é segredo, e o show é sobre Lisboa. Este show é uma dedicatória a Lisboa, tem uma secção que é só sobre Lisboa e fado. São estas coisas… ela não sabe estas coisas que se falam, mas eu que oiço e acho injusto e parvo.

Dizem-se coisas sobre ela quando não se sabe do que se está a falar. Quando fiz o vídeo com ela na banheira — ela é super cómica, está sempre no gozo com tudo —, ela está como sempre com o seu chá. Vi imensa gente a escrever no Facebook que ela bebia urina, porque ela no vídeo está a dizer: "É tão bom beber o meu xixi". Acho que até a Cristina Ferreira falou disso no programa dela. Tornou-se uma coisa enorme, ela alegadamente beber a urina. Pensei: só os portugueses é que conseguem fazer isto, é mesmo parvo, é gozar com o assunto sem perceberem o contexto.

Não falas com ela sobre isso?
Não.

[imagens de Madonna a entrar pela primeira vez o Coliseu dos Recreios, em Lisboa:]

Já falaram sobre como surgiu a relação dela com Portugal?
Vai ver o show, ela explica. [Pausa] Ela mudou-se para cá e não tinha expectativas nenhumas. Depois foi começando a conhecer gente que a nível criativo a estimularam e isso deu azo ao novo álbum. Certamente marcou alguma coisa na vida dela, é importante.

Como português, sentes orgulho por haver uma estrela pop que foi marcada por Portugal?
Claro. Bom, eu tenho ligação com Portugal porque sou português… E tenho orgulho por ela ter essa parte do show sobre Portugal, por estar a trabalhar com ela, por ser português e por ela gostar de Portugal e dos portugueses. Mas não tenho uma afinidade maior [do que isso]. Da mesma forma que tenho orgulho, é-me um bocado indiferente também. It’s fine.

Tens um orgulho moderado, é isso?
Sim. Sou português, mas poderia ser francês ou inglês. Tento, de qualquer forma, explorar no meu trabalho temas de todos os sítios. Neste momento estamos aqui em Portugal, obviamente vou explorar mais Portugal — hoje [terça-feira, 7 de janeiro] já começámos a pôr fotos de Lisboa, das ruas, etc, que adoro fotografar. Mas isso não me dá mais ou menos orgulho, não tenho uma ligação muito forte com Portugal porque Portugal também não tem uma ligação muito forte comigo.

Mas estás chateado com Portugal e com os portugueses?
Não, mas é triste ser português e saber que, não só em relação a mim mas a muita gente, em Portugal tem de se sair de Portugal para fazer alguma coisa da vida. É um bocado… Lisboa mudou bastante, mas as pessoas continuam ainda um bocado fechadas.

Ela tem uma fotografia favorita entre as que lhe tiraste?
Não, não tem uma fotografia favorita, que eu saiba. Tem várias fotografias de que gosta. Mas nós tiramos tantas fotos, passamos um ano inteiro a fazer fotografias — é complicado escolher. Não dá, acho eu.

Como é que identificas o que estás a fazer neste momento? Como fotógrafo de Madonna, seja dos seus espetáculos seja da sua vida pessoal?
É assim que vejo o meu objetivo neste trabalho que estou agora a fazer: fotografar e documentar, porque pode ser com vídeo ou fotografia, diferentes momentos da vida dela, pessoal e profissional. O que quer que ela queira mostrar.

"Acho que é importante ter alguém que dê opinião: 'Isto não correu bem', 'isto podia ser melhor', 'o que é que achas sobre isto?'. É isso que tento fazer de forma simples, humble [humilde], sem tentar ser boss ou a estrela do show. Sou é honesto: se vejo e não gosto, digo. Em relação a tudo."

Sentes os concertos como a parte menos importante do trabalho?
Não, os shows são super importantes. Foi a partir dos rehearsals [ensaios] em Nova Iorque que as coisas começaram a mudar um bocado, porque sou uma pessoa que tem sensibilidade para várias coisas além da fotografia, para vários assuntos, como styling e outros. E dou a minha opinião mesmo que não me perguntem. Se houver alguma coisa que esteja mal, nas luzes ou noutra coisa qualquer, digo. Acho que isso é positivo.

Vejo todos os concertos de frente e consigo ver coisas que as pessoas às vezes não veem. Coisas que também ela não vê sempre porque está a fazer o concerto, embora veja às vezes. Acho que é importante ter alguém que dê opinião: “Isto não correu bem”, “isto podia ser melhor”, “o que é que achas sobre isto?”. É isso que tento fazer de forma simples, humble [humilde], sem tentar ser boss ou a estrela do show. Sou é honesto: se vejo e não gosto, digo. Em relação a tudo.

A Madonna é muito exigente com o que é feito em cima e fora do palco? Vê tudo?
Sim, claro que sim. Vê tudo e escolhe as coisas. Trabalha com uma equipa boa e grande, claro, mas obviamente tem a opinião dela e é uma opinião forte, por isso é que conseguiu chegar onde chegou.

Quantas pessoas estão envolvidas em cada concerto?
Mais de 100 pessoas, penso. Não tenho a certeza, mas penso que mais de 100, entre pessoas que trabalham nos bastidores e pessoas que dão a cara e trabalham com mais notoriedade. It’s a big show [é um espetáculo grande], apesar de ser num teatro.

Tens alguma história de bastidores que possas contar? Que nunca contaste a ninguém e que não seja problemático contar?
Tenho, mas prefiro não contar. Acontecem imensas coisas todos os dias, é super funny [super engraçado]. Mas prefiro não contar porque não são públicas. Os vídeos que colocamos no Instagram são públicos e não são encenados, é o que está a acontecer naquele momento, mas momentos que não foram partilhados são privados.

Tens muitas tatuagens, uma delas um X, o símbolo da tour de Madonna. Foi de propósito?
[Risos] É verdade, mas já a fiz há bastante tempo. Tinha 16 anos e fiz a tatuagem às escondidas dos meus pais porque queria imenso tatuar e não sabia o que tatuar então fiz um X no pescoço atrás e andei durante anos a esconder com golas.

Séries de retratos a Madonna na festa do seu último aniversário, em Nova Iorque.

Ricardo Gomes

E que significado tem o X?
I don’t know [não sei]. Muita gente agora na tourné pensa que fiz um X depois disto começar, mas é coincidência.

A Madonna já viu?
Já viu e já brincaram com a tatuagem à frente dela mas expliquei que foi a minha primeira tatuagem e ela riu-se mas não disse nada. Até pela cor se percebe que a tatuagem é antiga.

A tour acaba em março, o que é que vais fazer a partir daí?
Não fui contratado para a tourné, fui contratado para ser fotógrafo da Madonna e penso que vou continuar a trabalhar com ela. Se isso não acontecer vou à minha vida e continuar a fazer o que sempre fiz até ao ano passado.

Isso não te assusta?
Continuo a ter o que conquistei até agora, que é ótimo, e que posso usar quando quiser e que tem imenso valor para outras coisas. Por isso, tenho imensa coisa mas penso que vou continuar a trabalhar com ela, da mesma forma ou de uma forma diferente mas penso que continuo com ela. Estou pronto para chegar a março e lhe apresentar novos projetos e ideias que também a vão ajudar.

Consegues selecionar alguma fotografia favorita que tenhas tirado desde que és fotógrafo particular da Madonna?
Estávamos a preparar a roupa para as gravações do “Crave”, em casa dela em Nova Iorque, e ela estava sentada nas escadas, à porta da casa de banho, de pernas abertas para cima e fiz esse shot. Foi a foto que me saiu, super rápido e espontânea. Foi uma foto que me saiu tal e qual tu a vês e que está brutal “you know, I like the photo”.

São este tipo de fotografias de que mais gosto e a que dou mais valor, quando resultam ou quando não resultam. Estas fotos são muito mais impactantes do que as fotografias que vamos fazer na rua em que sabemos que à partida vão ficar bem. Eu prefiro assim e ela também.

Foi tirada quando?
Acho que foi em abril, um mês depois do início da tour.

"A última vez que fiz um backup ao telemóvel, em Nova Iorque antes de começar a tour, não desliguei o telefone do computador durante quatro dias e quatro noites, com a quantidade de fotografias e vídeos que tenho dela aqui. Isto tudo além da máquina fotográfica."

Como é que a Madonna gosta das fotografias? Fotografas menos a preto e branco, foi uma imposição dela?
Não. Ela gosta de variedade e cor, é verdade, e por isso não gosta de se fechar no preto e branco, o que percebo. E porque não? Apesar de sempre ter dito “não quero fazer fotografia a cores, não sou eu, não me identifico”… why not? Acho que a descrição da imagem é diferente, vês a imagem completamente quando vês uma imagem a cores. Uma imagem a preto e branco captura muito mais o olhar diretamente para o sujeito sem distração do que uma fotografia a cores por isso foi um desafio para mim no início dar a volta a isso e conseguir ter o mesmo subject. Com ela não estou a tentar fazer fotos incríveis sempre e ela também não quer que todas as fotografias saiam incríveis.

Tens acesso à vida privada de Madonna, poucos têm esse acesso, certo?
I know. E, por isso, tenho muitas outras fotos, vídeos e histórias que não publico nem nunca publicarei.

Tens milhares de fotografias da Madonna, consegues estimar um número?
Não tenho ideia nenhuma mas também fotografo muito com o telemóvel e, só para teres noção, a última vez que fiz um backup ao telemóvel, em Nova Iorque antes de começar a tour, não desliguei o telefone do computador durante quatro dias e quatro noites, com a quantidade de fotografias e vídeos que tenho dela aqui. Isto tudo além da máquina fotográfica.

Só mais uma curiosidade: ela viaja convosco no avião?
Não, não. Viaja na “cena” dela.

Madonna e Ricardo conheceram-se em Lisboa, em janeiro de 2019.

Ricardo Gomes

“Em Lisboa vivi em Santa Apolónia num apartamento assombrado”

Patti Smith, Pete Doherty e Tilda Swinton são alguns dos nomes de pessoas que já fotografaste, mas um dos que chama mais à atenção é Yohji Yamamoto. Como surgiu e como foi fotografar o estilista japonês?
O meu coração começou a tremer a fotografar o Yohji, Estava em Paris e fui chamado para fotografá-lo dois dias antes. A revista ligou-me e disse-me que adoravam que fosse eu a fotografá-lo e eu disse “ok”. Começámos a trocar emails e combinámos orçamento e datas. Tinha 20 minutos para o fotografar e a entrevista iria durar mais uma hora. Neste tipo de trabalhos os assessores ou managers indicam-nos sempre um tempo limite para fotografar, mas se falares com a pessoa e a sessão estiver a fluir acaba sempre por dar para mais um bocado. E foi isso que aconteceu. Cheguei ao escritório dele em Paris e sentei-me. Não tinha expectativa nenhuma, conheço e respeito o trabalho dele mas nunca tinha visto com muita atenção. Ele tem uma postura super interessante, tem uma personalidade que respira personalidade, com um carisma diferente e é japonês. Isso faz com que tenha uma forma de estar completamente diferente. Fotografei-o e ele é super silencioso, está sempre numa introspeção. Estás a fotografá-lo e sentes-te à vontade, mas ao mesmo tempo é quase como estivesse permanentemente em conversa com ele, em silêncio.

Há pouco dizias-me que o silêncio te deixa desconfortável…
Sim. Quando tenho de falar e estar com uma pessoa que não conheço, isso pode deixar-me um bocado desconfortável, quando estou a trabalhar é diferente, não me faz confusão. Gosto de estar calmo e em silêncio, mas quando estou sozinho, quando estou com pessoas depende da situação, mas ali estava no sítio dele e ele deixou-me bastante confortável.

Lembras-te de algumas palavras que tenham trocado?
Ele perguntou-me onde é que queria que ele se sentasse para fazer a foto e eu disse que queria fazer na secretária dele. Ele sentou-se e acendeu logo um cigarro, começou a fumar, começámos a fotografar ele olhou para mim e disse: “Nice camera” [boa câmara]. Foi a única coisa que disse.

Que máquina fotográfica é que usas?
Uma Leica.

Respondi que sim, que era uma boa câmara, because it is a nice camera [porque é mesmo uma boa câmara]. Ele depois levantou-se, acabámos de fotografar, e ele perguntou “can I look at the photos on the camera?” [posso ver as fotos na câmara], mostrei e ele disse “oh, there beautiful” [oh são lindas]. Ele adorou as fotos. Só durante a entrevista, a que assisti, é que tive noção da vida dele. É surreal, é super inspiring [inspiradora]. A agente dele depois veio ter comigo, admirada, dizendo que ele nunca tinha pedido aos fotógrafos para ver as fotos. No fim da entrevista aproveitei e perguntei-lhe qual era a fotografia de que ele mais gostava. Ele disse e era também a minha favorita. A agente falou comigo a dizer que ele queria a fotografia impressa porque o que ele normalmente faz é quando gosta imenso da foto ele imprime, escreve o nome do fotógrafo por trás e põe no escritório dele no Japão. Quando ele quer fazer sessões fotográficas, vira a fotografia, vê o nome do fotógrafo e contacta-o.

Retrato ao conhecido estilista japonês Yohji Yamamoto.

Ricardo Gomes

Estás com esperança que esse dia possa chegar?
Não, já fiz o retrato, it’s fine. (risos)

Já fotografaste grandes figuras da música mundial. Como foi fotografar a Patti Smith?
O processo com a Patti Smith foi mais demorado. Fui contactado um mês antes e perguntaram-me se queria fotografar a Patti Smith. Já queria imenso fotografá-la mas o problema é que criei expectativas da foto que queria fazer e acabou por não acontecer. O sítio era ótimo, um palacete lindo em Paris, tínhamos três salas privadas para nós, para escolher onde queria fotografar. Gosto das fotos, mas se pudesse fotografá-la outra vez faria outra coisa, completamente diferente. Fotografei-a depois da sessão de autógrafos do seu último livro, estava com imensas dores de cabeça e eu também estava doente. A sessão fotográfica acabou por ser interrompida com ela a fazer-me um chá. Ela chegou, tirou o gorro e disse “ok, let’s do it now” [ok, vamos começar]. Começámos a fotografar e eu estava sempre a tossir, ela mandou parar e disse que nos ia fazer um chá.

Lembras-te do que é que era o chá?
Era um chá de limão com mel, super básico. Bebemos o chá e continuámos a fotografar.

Retrato a Patti Smith para a revista MiXTE

Ricardo Gomes

De uma maneira ou de outra começaste a fotografar só pessoas ligadas à música. Porquê?
Concentrei-me em música porque é isso que adoro. Considero-me quase como se fosse um músico que não sabe fazer música. Mas adoro e aprecio tanto, adoro estar no estúdio, mas sempre a fotografar. Adoro estar “on the road” [na estrada].

Voltando um bocadinho atrás… nasceste na Madeira, no Funchal, e vieste com 17 anos para Lisboa. Como é que foi a aceitação dos teus pais em vires para o continente?
Estava a estudar artes visuais e sempre detestei a escola porque sempre fui muito ativo para estar sentado numa sala de aula a ouvir. “I like to move” [gosto de me mexer]. Não me consigo concentrar durante muito tempo. Detestava tudo o que estava a fazer em artes, além disso sou terrível a desenhar. Sempre viajei com os meus pais e desde cedo idealizei a ideia de sair da Madeira, tinha a certeza que não queria ficar lá. Adoro ir lá de férias mas uma semana é o suficiente. Tenho uma relação muito próxima com os meus pais, falo com eles todos os dias, mas preciso de estar fora.

Eles perceberam isso?
No início foi um bocado estranho e complicado, eles perceberem o porquê de querer sair, mas dava sempre a entender que queria explorar coisas e culturas diferentes, fazer o que possivelmente iria ser a minha vida. Eles perceberam e nunca me prenderam. Foi aí que me mudei para Lisboa, sem acabar o 12.º ano. Vim para Lisboa estudar fotografia, no IPF — Instituto Português de Fotografia.

"Quando vives no mundo da fotografia, como em quase em todo o mundo artístico, quando fazes dinheiro tens algumas pessoas que acreditam em ti e outras pessoas que possivelmente vão acreditar em ti, mas que não apostam em ti logo, que vão passando a mãozinha para te terem ali por perto."

E fizeste aquele percurso quase óbvio das pessoas que vêm para Lisboa viver e estudar, alugaste um quarto e dividiste casa com amigos ou conhecidos?
Não, não. Vivi durante um ano em casa dos meus tios em Cascais e depois mudei-me para Santa Apolónia, num apartamento assombrado. Era terrível, não conseguia dormir lá. O apartamento era incrível mas super assustador. Vivi lá um ano e vivi o resto do tempo que estive em Lisboa num apartamento em Cascais.

Ao todo estiveste em Portugal quanto tempo?
Quatro anos, mas comecei a perceber que Lisboa era um bocadinho boring [aborrecida] naquela altura.

Porquê?
It’s not me [não sou eu]. Fui a Paris durante uma semana e depois quando voltei os meus pais vieram cá visitar-me durante uma semana e no fim dessa semana disse-lhes: “Next week I wanna move to Paris” [na semana que vem quero mudar-me para Paris] e foi exatamente isso que aconteceu. Em Paris, no início, vivi com amigos e depois quando comecei a trabalhar consegui arranjar um apartamento sozinho.

Como foi a tua ida a Paris e a tua vida lá?
Fui para Paris, onde agora vivo, e conheci imensa gente que me mostrou vários mundos de fotografia, moda, agências, manequins, agentes, músicos, newbands. Comecei a sair e conhecer pessoas e foi aí que tudo começou. Fotografar backstage de new bands, trabalhar com agências de manequins e a fotografar new faces.

Como é que caracterizas o teu estilo de fotografia desde os primeiros tempos em Paris até agora?
Conheci uma vez um agente, que hoje é bastante meu amigo, que me deu um conselho: começar só a fotografar exatamente ao meu estilo, aquilo com que me identifico e foi isso que fiz — fotografar música. Em relação ao meu estilo… não sei bem, tento juntar tudo o que me desperta a nível de fotografia dos anos 60, anos 70… daí fotografar a preto e branco. Fotografava muito a preto e branco, agora já não tanto, talvez por trabalhar com a Madonna. Agora é muito at the the moment [no momento]. A parte criativa existe, mas a minha parte criativa agora depende da parte criativa das outras pessoas, neste caso, da Madonna. Neste momento estou a explorar imensas coisas que nunca pensei fazer antes, ou seja, fez-me sair da minha zona de conforto.

Numa entrevista há uns meses, disseste: “Honestamente, ser rejeitado pelas pessoas sempre me fez querer mais”. O que é que esta frase quer dizer?
Isto foi mais uma frase de desabafo… não diria frustração, porque não a tenho, mas a nível artístico, talvez um bocadinho. Porque quando vives no mundo da fotografia, como em quase em todo o mundo artístico, quando fazes dinheiro, tens algumas pessoas que acreditam em ti e outras pessoas que possivelmente vão acreditar em ti, mas que não apostam em ti logo, que vão passando a mãozinha para te terem ali por perto, mas que não apostam logo. É essa parte a que me refiro, desde Lisboa até aos meus últimos anos em Paris, foi sempre essa sensação que tive, de conforto e desconforto de toda a gente.

Mas isso não é necessariamente mau…
Não é necessariamente mau porque faz-me querer mais e faz-me acreditar mais em mim. Sempre fui daquele tipo de pessoas que se está a cagar um bocado, desculpa a expressão, para aquilo que os outros dizem e pensam, por isso prefiro que as pessoas sejam honestas. Adoro que me digam “não gosto disso porque (…)”, é sinal de honestidade e de profissionalismo das pessoas com quem trabalho e para quem trabalho. É assim que aprendes e desenvolves o trabalho.

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