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© Filipe Ferreira

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David Fonseca: "Descobri o Bowie que nunca tinha ouvido antes e é ainda mais fascinante"

A 17 de fevereiro é editado "Bowie 70", álbum que junta 13 versões assinadas por David Fonseca e 12 vozes portuguesas para as cantar. Em entrevista, o músico conta como foi feito este disco.

Não é surpresa nenhuma ver David Fonseca a cantar coisas dos outros. Já o fez em disco, já o fez em palco, é provável que continue sempre assim. E que David Bowie (músico que morreu no ano passado e que teria feito 70 anos a 8 de janeiro) é uma das influências do músico português também parece assunto relativamente confirmado desde há muito. Outra vez, os discos que tem gravado e a forma como os apresenta ao vivo são as melhores provas de que a combinação “som + imagem” está-lhe na genética criativa — e é difícil encontrar outro artista que tenha usado e abusado deste mesma combinação como Bowie. De tal maneira que a reinventou e a transformou em coisa nova.

O que é mais inesperado é Bowie 70, ainda que se explique facilmente: David Fonseca a fazer versões de 13 temas de David Bowie, a gravar todos os instrumentos, a cantar apenas uma das canções e a convidar 12 vozes portuguesas para cantar as restantes. É isto. E é, ao mesmo tempo, uma hipótese rara de descobrir não só a obra de Bowie com um ponto de vista muito distinto (que, apesar disso, não retira identidade às canções, mas já lá vamos) mas também faces menos previsíveis dos músicos portugueses que participam no disco.

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A capa de “Bowie 70”. O disco é editado a 17 de fevereiro (Sony/Universal)

E são essas participações que compõem os cinco webisodes que o Observador vai publicar em primeiro mão, a partir de dia 27 de janeiro e até 24 de fevereiro. Tratam-se de pequenos vídeos que revelam o resultado final de algumas das canções e que lhes acrescentam depoimentos e momentos captados em estúdio durante a gravação de Bowie 70. E é este o alinhamento destes webisodes: “Life On Mars?” por António Zambujo (27 de janeiro), “This Is Not America”, com Márcia (3 de fevereiro), “Absolute Beginners” por Tiago Bettencourt (10 de fevereiro), Camané a cantar “Space Oddity” (17 de fevereiro) e “The Man Who Sold The World” com Ana Moura (24 de fevereiro).

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Antes, falámos com David Fonseca. O músico confessou que “Absolute Beginners” ao piano é bem mais difícil do que parece; que “Blue Jean” foi a canção lhe deu a conhecer Bowie; e que até pode haver concertos com estas canções e estes intérpretes, mas não foi com essa ideia que o disco surgiu. Ou outra maneira de dizer “a ver vamos”. Antes, as primeiras coisas: afinal, como é que tudo isto começou?

[“Starman”, na versão “Bowie 70”, com Aurea:]

Quando e como é que “Bowie 70” começou a ganhar forma?
Começou tudo uns dois meses depois do Bowie morrer. Tive um almoço com a Paula Homem, da Sony Music, estávamos a falar sobre várias coisas e entretanto ela sugeriu-me a ideia de fazer um disco que se relacionasse com o David Bowie. Ela não sabia exatamente o quê, eu também não. Ficámos ali a conversar sobre aquilo. A dada altura ela diz-me algo como “porque não fazes um disco de versões do David Bowie?”. Na altura disse-lhe que achava isso um bocadinho chato… Mas acabámos por chegar à conclusão que talvez fosse interessante fazer um disco de versões onde eu pudesse construir todos os temas mas que depois não fosse exatamente eu a cantar. Achei isso interessante mas na altura disse-lhe logo que não.

Porquê?
Porque era impensável para mim fazer versões do Bowie. Tinha um respeito tão grande por ele, pelas canções dele e por tudo aquilo que ele significa… via-me muito mais na função de fã do que em qualquer outro papel. Ficámos por ali e não se falou mais nisso.

Até que…
Até que cheguei à conclusão que a ideia não me saía da cabeça. Decidi tentar para pelo menos perceber se dava em alguma coisa que eu efetivamente gostasse. E sem dizer nada a ninguém comecei a trabalhar naquilo. Passado um pouco já tinha três ou quatro canções de que gostava muito. Não tinha convidado ninguém para as cantar mas gostava muito dos temas, do resultado final. Decidi ir em frente. Não sabia o que ia acontecer, não sabia se alguém ia dizer sim ou não.

"Quando soube da notícia que ele tinha morrido pensei que era um engano. Tinha estado a trabalhar durante toda a noite, só me deitei de manhã. O meu telefone apitou e a única coisa que dizia era "morreu David Bowie". Olhei para aquilo e pensei "que parvoíce, as coisas que as pessoas inventam". Pus o telefone para o lado. Passadas umas duas horas percebi que era verdade."

Depois foi preciso fazer escolhas, dos temas e das vozes. Como é que foi feito esse processo? Qual foi o critério?
Foi muito simples: sentei-me com uma folha gigante à frente. Fiz um traço a dividir a folha. Do lado esquerdo escrevi o título de todas as canções do Bowie que me lembrava, de memória, de imediato. As que não me lembrasse não significavam assim tanto para mim. Logo de início fiquei com uma lista de 25 canções. Do lado direito da mesma folha escrevi o nome de cantores que achava que podiam ter alguma relação com este universo e que podiam trazer qualquer coisa de diferente. Nessa lista fiquei com 20 cantores.

Depois fui por ali abaixo. Olhava para a canção e tentava imaginá-la na voz de alguém do outro lado da folha, adaptada a essa tal voz. Todas as versões foram feitas com esse objetivo, para quem as ia cantar. O que na verdade era um risco porque ainda não sabia se as pessoas as iam cantar de facto. O problema é que não podia ligar às pessoas a dizer que estava fazer versões que ainda não sabia o que iam ser. Tinha de ser ao contrário, tinha de ser objetivo. E correu bem porque toda a gente aceitou.

O alinhamento de "Bowie 70"

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1. “Absolute Beginners” – Tiago Bettencourt
2. “Modern Love” – Manuela Azevedo
3. “Let’s Dance” – Afonso Rodrigues
4. “Life on Mars?” – António Zambujo
5. “Space Oddity” – Camané
6. “Blue Jean – Catarina Salinas
7. “Fame” – Marta Ren
8. “Heroes” – Rita Redshoes
9. “This is Not America” – Márcia
10. “The Man Who Sold The World” – Ana Moura
11. “Starman” – Aurea
12. “Where Are We Now?” – Rui Reininho
13. “Lazarus” – David Fonseca

Fazendo as contas, entre fazer versões dos temas e ter toda a gente a cantar no estúdio, não foi preciso assim tanto tempo para ter o disco pronto.
Não. Trabalho muito rápido até porque tenho a vantagem de ter um estúdio, o que faz com que tudo aconteça mais depressa. Há ainda mais vontade de ver uma ideia chegar ao fim, de ter um projeto concluído. Além disso, independentemente daquilo que estou a fazer, seja um disco meu ou qualquer outra coisa, aquilo que estou a fazer tem de ser fruto do momento. Isso significa que se demorar muito tempo a fazer, esse momento perde-se. Há ali uma espécie de prazo de validade para que as coisas façam sentido, por isso gosto de trabalhar rápido.

E porquê gravar todos os instrumentos sozinhos? Porque teve de ser ou porque assim seria sempre mais simples, de alguma maneira?
Costuma dizer-se que a necessidade é a mãe do engenho e é isso que se passa neste caso. Estou ali sozinho no estúdio e quero gravar um baixo ou uma bateria. Tenho duas opções: ou chamo alguém para fazer isso ou gravo eu. E essa segunda situação é sempre mais rápida que a primeira. Claro que isso faz com que algumas coisas sejam dificílimas.

Neste disco, por exemplo, o que foi mais difícil?
Tocar o “Absolute Beginners” em dó sustenido. Foi coisa que nunca pensei fazer e ao piano é uma coisa estupidamente difícil para mim, que não sou pianista. Mas confesso que esse tipo de desafios me alicia muito porque é como se eu, ao fazê-lo, tivesse uma licença para aprender, como se de repente me forçasse a aprender.

12 fotos

Ainda por cima Bowie. De David para David, existia, e ainda deve existir, uma relação especial, não?
Claro que sim. Quando soube da notícia que ele tinha morrido pensei que era um engano. Tinha estado a trabalhar durante toda a noite, só me deitei de manhã. O meu telefone apitou e a única coisa que dizia era “morreu David Bowie”. Olhei para aquilo e pensei “que parvoíce, as coisas que as pessoas inventam”. Pus o telefone para o lado. Passadas umas duas horas percebi que era verdade porque o meu telefone não parava de tocar. Vi depois que muitas das chamadas eram de jornalistas. Percebi que era verdade, que estava mesmo a acontecer.

Como qualquer pessoa, fico sempre triste quando perdemos alguém talentoso, quando alguém morre por causa desta doença altamente injusta. Misturando tudo é complicado de aceitar… e acabei por pensar noutros da mesma idade que continuam a criar e ainda têm muito para criar, gente como o Sérgio Godinho [de 71 anos], por exemplo, pessoas que continuam a trabalhar de forma brilhante. Ainda por cima não cultivo a ideia de juventude, acho que as pessoas estão sempre prontas e disponíveis para fazer coisas novas e incríveis. Aliás, como se viu no Blackstar, o último disco do Bowie, que é dos melhores que ele tem.

Bowie foi fundamental na construção de uma identidade criativa?
Tenho a certeza absoluta que foi. Não só pela música, porque ele concentrava coisas muito diferentes. A música vinha em primeiro lugar, claro. Mas depois ele tinha uma forma especial de a fazer e de a apresentar. Descobri o Bowie na sua fase mais folclórica que é a dos anos 80, uma época em que ele fez uma série de coisas que depois acabou por rejeitar. E nem percebi bem porquê, porque pode haver tempo para tudo. E espero que a minha fase folclórica seja como a dele.

Para fazer este disco fui a todas essas fases, incluindo essa, tinha de ser. Mas o número de experiências que ele representou ao longo dos tempos é impressionante e inspirou-me sempre muito: a ideia de que o que vem a seguir não tem de ser igual ao que veio antes. Mesmo que essas experiências se tornem gastas com o tempo. Como aconteceu com o que ele fez a meio dos anos 90. Vistas hoje, algumas das coisas parece que não passaram para cá. Por incrível que pareça, muitos desses folclores dos anos 80 continuam a fazer muito sentido, como o “Modern Love”, por exemplo; da mesma maneira, acho que temas como o “Lazarus” ou o “Blackstar” vão continuar a fazer sentido daqui a 20 anos. Ainda assim, mesmo nos momentos em que ele se fechou em géneros mais específicos, foram sempre riscos que valeu a pena correr. E ele passou por eles sempre muito bem.

Fazer este disco trouxe a hipótese de descobrir o quê sobre as canções de Bowie? Que tipo de revelações?
Descobri o Bowie que nunca tinha ouvido antes e é ainda mais fascinante, fascinante e complexo. Muito mais. Especialmente estas tais coisas dos anos 80, foi aí que mais descobri isso. Sempre achei que era um bocadinho como o Bob Dylan, três acordes e a verdade. Porque parecia-me isso numa versão pop. Uma vez que tive que investigar as canções, que tive de as perceber melhor, compreendi que não essa não é a verdade. São canções estupidamente complexas. E são assim desde o início, com o “Space Oddity” ou o “Starman”, temas difíceis do ponto de vista instrumental. E curiosamente, de todas as coisas que fiz neste disco, a mais simples talvez tenha sido a última, o “Lazarus”. É de todas a que tem a estrutura mais simples, apesar de não parecer. A canção é muito convencional. Lembro-me de falar sobre isto com o Nélson Carvalho, que misturou o disco: a canção tem um refrão incrível e o Bowie nunca o repete, só o canta uma vez. E a canção é toda um lamento, uma coisa que vem muito do jazz e dos blues.

"Descobri que a música dele é bem mais complexa do que pensava. Muito mais. Especialmente estas tais coisas dos anos 80, foi aí que mais descobri isso. Sempre achei que era um bocadinho como o Bob Dylan, três acordes e a verdade. Porque parecia-me isso numa versão pop. Uma vez que tive que investigar as canções, que tive de as perceber melhor, compreendi que não essa não é a verdade. São canções estupidamente complexas."

Qual foi a primeira canção escolhida?
O “Blue Jean”, logo, sem hesitar. Porque foi a primeira que o ouvi, foi com o “Blue Jean” que conheci o Bowie e foi essa que escrevi primeiro naquela folha. Ainda por cima já sabia claramente quem é que a ia cantar. Sabia que a tinha de fazer à minha maneira e que seria a Catarina [Salinas, dos Best Youth] a cantar. A segunda, na verdade, já não me lembro qual foi…

E haverá concertos?
Não sei. Quando fiz o disco não tinha na ideia os concertos ao vivo. Já tenho experiência de outros projetos onde estive, como o caso dos Humanos, que também não começou por aí e acabou por ter concertos enormes. Nunca falámos nisso, nunca foi uma hipótese em cima da mesa e depois foi o que se viu. E com este disco acontece o mesmo. Isso não foi ponderado mas não vou dizer que nunca vai acontecer. Até porque se houver vontade das pessoas para que isso aconteça, então mas vale que aconteça porque sei que são momentos bons, para quem os faz e para quem os quer ver.

E algumas canções terão ficado de fora do disco…
Sim, algumas que gravei em maquete. Mas nunca fiquei contente com as maquetes. Fui muito exigente com o caminho que as canções tomaram e com os resultados finais. Quando a coisa estava a correr mal, rapidamente percebi que não podia ir por ali. Uma das que mais me frustrou não ter conseguido fazer foi a “Loving the Alien”, e cheguei a ter três versões diferentes. Nenhuma delas honrava a canção, bem pelo contrário, estava sempre a diminui-la.

[ouça excertos das canções de “Bowie 70”:]

E este era um claro caso de responsabilidade acrescida.
As pessoas que convidei gostam tanto de música como eu e encaram este trabalho de forma muito séria. Uma das coisas que mais gostei de ver nisto tudo foi a forma diferente que cada abordagem tomava, por parte de cada cantor. Mas a exigência com eles próprios era comum. Porque a memória destas canções não permitia que de repente as transformássemos em algo que elas não são. E eu sei quão difícil é fazer versões de um artista admirado e endeusado por tanta gente. Pensei muitas vezes: “de certeza que vou ser trucidado por muita gente”. Mas acho que é sempre melhor fazer do que ficar a pensar nisso. Acontecerá sempre algo de bom no fim de tudo. Nem que seja… vamos supor, um fã do António Zambujo que nunca ouviu falar do Bowie, ouve isto e de repente vai descobri-lo. Isso é extraordinário. Aliás, quantas pessoas descobriram o Bowie por causa dos Nirvana?

Aqui em Portugal não estamos muito habituados a fazer este tipo de projetos. Não acontecem muito e gostava que acontecessem mais. Especialmente com músicos portugueses a fazer repertório de outros músicos portugueses. Somos um país pequeno e somos poucos, mas o nosso talento por metro quadrado, garanto, é muito superior a quase todos os países da Europa.

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