Encontro na Vasco da Gama, dezenas de tochas, pânico no balneário e esvaziar dos cacifos: o filme de terror na Academia /premium

17 Maio 2018309

Foram 15 a 20 minutos mas vão perdurar muito mais tempo: 50 elementos entraram na Academia e criaram um cenário nunca antes visto. Relato do filme de terror que acabou com um pedido de desculpa.

A cara dos jogadores e restantes elementos do staff do Sporting à saída do Posto Territorial da GNR do Montijo dizia muito, mas escondia ainda mais. A seguir ao bárbaro ataque sem precedentes no clube ou no futebol português, houve muitas chamadas de profissionais do futebol para familiares mais próximos, preocupados com as notícias que chegavam da Academia, mas toda essa consternação não ficou por aí. Também alguns pais e encarregados de educação ligaram com insistência para perceberem se os filhos estavam bem e não tinham sofrido nada, por não saberem ao certo o que se passara. Esta terça-feira, em Alcochete, a memória daqueles 15/20 minutos promete não mais ser apagada da história dos leões. E esta é a descrição ao pormenor dos momentos de terror vividos.

O encontro à saída da Vasco da Gama e a entrada a correr

Os agressores terão começado a juntar-se na saída da ponte Vasco da Gama, sentido Lisboa-Alcochete. Daí, partiram em direção à Academia, num plano que se percebe agora ter sido tudo menos espontâneo: deixaram as viaturas ainda a alguma distância da entrada da Academia, taparam as caras e começaram a correr em direção à entrada do centro de estágios. Nas únicas imagens que existem, o grupo está ainda a chegar à última curva da reta que dá acesso ao local; a partir daí, depois de terem avisado os jornalistas que teriam de desligar todo o material sob pena de serem agredidos ou ficarem sem o mesmo (dois elementos terão ficado mais para trás para garantir que ninguém furava esse bloqueio), seguiram em direção ao relvado onde a equipa principal costuma trabalhar, na ala profissional, que fica na ponta mais oposta à entrada do recinto.

Na altura, havia apenas o habitual segurança à porta da Academia (a cancela estava fechada, mas quem passa a pé consegue contorná-la sem problemas pelos dois lados), mas a GNR terá sido logo nesse momento chamada ao local. Ainda assim, segundo apurou o Observador, ninguém acreditava que as coisas chegassem ao ponto que chegaram. Ninguém mesmo. Não foi a primeira vez que um grupo de adeptos entrou no espaço, sendo que na última, por exemplo, tudo acabou bem e de forma cordial com a promessa de que a equipa daria tudo para alcançar os objetivos desportivos a que se tinham proposto e que os elementos das claques leoninas a reforçarem de novo o total apoio à equipa nesse sentido. Desta vez, foi tudo diferente. Muito diferente.

A entrada de cara tapada e as dezenas de tochas

Primeiro pormenor: a cara tapada. Segundo pormenor: a marcha acelerada na zona depois do campo principal, junto aos relvados onde equipa B e juniores costumam trabalhar (e que foi captada num dos vídeos que surgiu nas redes sociais, feito provavelmente por alguém que não da ala profissional do futebol leonino). Terceiro pormenor: a entrada na rampa de acesso à zona do ginásio e dos balneários, depois de perceberem que era ali que estavam quase todos os elementos leoninos.

Esta terça-feira à noite, havia duas “teorias” muito faladas em alguns grupos de adeptos verde e brancos, em blogues ou nas redes sociais. Por um lado, a possibilidade de ter sido mais uma incursão para manifestar o desagrado com o terceiro lugar na Liga e o reforço da importância de vencer a Taça de Portugal, prova que encerra a temporada nacional, que perdeu os limites. Por outro, a hipótese de ser um grupo mais próximo do antigo líder da Juventude Leonina, Fernando Mendes, que não gostou da forma como os dois argentinos do plantel, Battaglia e Acuña, responderam e enfrentaram os contestatários na Madeira e na garagem de Alvalade, após a viagem de avião, e queria dirigir-se aos mesmos pedindo satisfações pela atitude. Falando com fontes próximas dos jogadores, elementos presentes na Academia naquele momento e outras pessoas que conhecem bem o Sporting por dentro, há muita estranheza pelas barras de ferro que os invasores traziam, por exemplo, mas admitem que possa ter havido esse descontrolo generalizado (o que em nada desculpabiliza o que se passou, claro está).

Ao contrário do que aparenta nas imagens recolhidas, o grupo que invadiu as instalações acabou por separar-se: uns foram para a zona do relvado, onde estariam ainda apenas Jorge Jesus e mais dois elementos da sua equipa; outros focaram as atenções na rampa que dá acesso aos balneários e também à zona onde os jogadores estacionam os carros, por detrás do edifício principal; outros subiram essa rampa, entraram pela porta, viraram à esquerda e dirigiram-se ao balneário da equipa. Ponto comum: todos acenderam e lançaram tochas, ou em direção do relvado, ou em direção ao carro dos jogadores (um dos crimes pelos quais estão indiciados é por isso o de incêndio florestal, tendo em conta também a mata que rodeia a Academia) ou no balneário. E foi isso que gerou o caos e o cenário de terror.

As agressões com cintos, bastões e ao pontapé

Mal acederam a essa zona restrita do balneário, numa fase em que os elementos estavam dispersos entre ginásio, balneário e gabinete médico antes do início do treino (que deveria ter começado às 16 horas, mas tem sempre uma conversa prévia antes do relvado, que pode ser uma palestra maior ou mais curta), começaram as agressões. Com os cintos, tirados de forma rápida das calças. E com os bastões de ferro. A certa altura, sem qualquer escolha entre jogador A ou B, de forma aleatória e à medida que avançavam. Tudo porque o fumo que rapidamente começou a sair pelas janelas do balneário fazia com que a visibilidade fosse reduzida. Ouviram-se gritos de revolta. Multiplicaram-se os gritos de medo, até porque alguns nem percebiam o que se estava a passar e o alarme de incêndio entretanto disparou, o que adensou o cenário de terror montado.

A cabeça de Bas Dost como exemplo, mas o pior foi Montero

As feridas na cabeça de Bas Dost, um dos primeiros a ser agredido pelos invasores, ficaram como uma espécie de imagem forte do bárbaro ataque que foi perpetrado; no entanto, o mais chocante foram os pontapés que o avançado levou, indefeso. Tudo terá começado no excesso de alguns elementos que iam à frente deste grupo e que acabou por alastrar-se a quase todos os que os acompanhavam. Acuña foi alvo de pontapés quando estava no chão; Battaglia e Misic, que acorreram logo para a zona dos confrontos, foram também agredidos com cintos, tal como Montero (um dos que terá ficado com marcas mais visíveis do que aconteceu) e William.

Mais à frente, numa área mais próxima dos gabinetes técnicos, Raul José, adjunto de Jorge Jesus (que também levou uma cabeçada de um dos elementos que invadiu a Academia do Sporting), e Frederico Varandas, diretor do gabinete médico que terá saída em defesa de jogadores e treinadores, também foram agredidos. Mário Monteiro, preparador físico, viu uma tocha ser atirada na direção do peito.

A fuga e o pedido de desculpa

Os agressores colocaram-se então em fuga, fazendo o mesmo trajeto a correr para regressarem à zona onde estavam os carros. Fernando Mendes, antigo líder da Juventude Leonina, e outro elemento mais velho da mesma claque, então de cara destapada, falaram com Jorge Jesus e chegaram mesmo a pedir desculpa por tudo o que tinha acontecido e que não era suposto — a ideia passaria apenas por “pressionar” os jogadores depois de terem falhado o objetivo da Champions, ficando no terceiro lugar do Campeonato, mas ficou tudo descontrolado. Ambos estavam no local mas ficaram sempre afastados da zona onde aconteceram os confrontos.

De acordo com a Sábado, e numa informação entretanto confirmada pelo Observador, os principais líderes deste ataque acabaram por conseguir fugir, havendo por isso “apenas” 23 detidos num grupo que, como é facilmente percetível, era bem maior. A GNR, que chegou às 17h20 à Academia quando os agressores já tinham abandonado a zona, montou de imediato uma operação com barreiras nos acessos possíveis ao local. Foram intercetadas cinco viaturas, sendo que uma quase abalroou a barreira existente (daí estarem indiciados também por crime de atropelamento). Outro dos carros só foi parado após perseguição. Foram então feitas as 23 detenções (e apreendidos vários artefactos) para identificação e recolha de depoimentos.

Dado importante e que mostra bem o fumo que existia no balneário do Sporting por causa das tochas: o próprio cheiro da roupa serviu também para as autoridades perceberem quem tinha estado no interior do espaço.

Os 23 detidos foram indiciados por crimes de introdução em lugar vedado ao público, ameaça agravada, ofensa à integridade física qualificada, sequestro, dano com violência, detenção de arma proibida agravado, incêndio florestal, resistência, atropelamento e coação sobre funcionário e também de um crime de terrorismo.

Jogadores de rastos e a limparem os cacifos

No balneário, ficou um rasto enorme de destruição mas muito mais do que isso. Alguns jogadores choraram, outros mostraram-se revoltados com o que tinha acabado de acontecer. O estado de Bas Dost, e sobretudo os ferimentos na cabeça que obrigaram a que levasse seis pontos, ocupou grande parte das atenções e serviu como exemplo para mostrar, cá para fora, a violência do ato que tinha acabado de acontecer.

Mais tarde, surgiu um vídeo do estado do espaço, revirado, ainda com o alarme de incêndio ativo, com uma nuvem de fumo que continuava na zona do teto e com sangue no chão; depois, mais uma fotografia das pernas de Dost, com sangue nas meias.

Houve reações a quente, com muitos jogadores a dizer que nunca mais entravam ali nem jogavam a final da Taça de Portugal. Bruno Fernandes apareceu nas imagens a vestir-se, soltando um “Foi um prazer estar com vocês”. Todos de volta do telefone para acalmar as pessoas mais próximas, alguns com medo que a família pudesse também estar ameaçada.

Bas Dost passaria ainda pelo Hospital do Montijo, por causa dos seus ferimentos. No total, 36 elementos entre jogadores, treinadores e funcionários seriam depois ouvidos no Destacamento Territorial do Montijo, alguns a entrar e sair quase de madrugada porque foram por grupos para o local.

Muitos jogadores limparam os seus cacifos: jogando ou não a final da Taça de Portugal, partiam com a certeza que não voltariam a entrar na Academia esta temporada. Pelo menos. Nesta terça-feira, havia a convicção de que poderia ser uma despedida definitiva; agora, poderá ser só até à próxima época. Mas para este cenário acontecer há garantias das quais o grupo não abdica e que não parecem estar restritas apenas a um melhor plano de segurança para que nunca mais voltem a viver o que viveram, como se percebeu pela recusa em falar com Bruno de Carvalho quando o presidente leonino chegou ao local.

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Bruno de Carvalho

Bater no fundo /premium

Paulo de Almeida Sande

Que país somos, afinal? Seremos talvez o país da irreverência reverente, que tanto goza como adula, sejam líderes partidários sejam (sobretudo) presidentes dos (nossos) clubes. 

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