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Fim das reuniões regulares no Infarmed confirmou afastamento entre decisores políticos e especialistas, que não se resume a esses encontros. Task force da DGS deixou de ser ouvida

Ana Martingo/Observador

Fim das reuniões regulares no Infarmed confirmou afastamento entre decisores políticos e especialistas, que não se resume a esses encontros. Task force da DGS deixou de ser ouvida

Ana Martingo/Observador

Equipa de peritos criada pela DGS não se reúne desde fevereiro e deixou de ser ouvida nas decisões /premium

Peritos dizem que deixaram de ser ouvidos em fevereiro. Já não fazem as normas, só as revêem. E as reuniões no Infarmed tinham muita informação, mas era muito complexa. Governo queria soluções.

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Era, até agora, a face mais visível daquilo que se supunha ser a colaboração estreita entre os especialistas da área da saúde e os políticos, base essencial das decisões que foram sendo tomadas ao longo dos últimos meses, desde que o vírus da Covid-19 provocou uma pandemia, afetando também Portugal. De 15 em 15 dias, epidemiologistas, cientistas, infecciologistas e médicos de saúde pública, por exemplo, juntavam-se num auditório do Infarmed para discutir com as autoridades de saúde, governantes, políticos e parceiros sociais a situação da epidemia no país, os maiores problemas e os caminhos para os resolver. Ou seria isso, pelo menos, aquilo para que estavam desenhadas as reuniões.

Percebe-se agora que essa colaboração só não era perfeita como nem sempre foi estreita e, em alguns casos, deixou mesmo de existir. Depois da tensão da penúltima reunião no Infarmed — que terá terminado com a saída intempestiva do primeiro-ministro, irritado com a ministra da Saúde e com a falta de informação concreta e rigorosa sobre a situação da região de Lisboa e Vale do Tejo —, António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa decidiram acabar com os encontros regulares. O último foi o desta quarta-feira, em que nenhum dos dois decidiu falar.

Horas mais tarde, o primeiro-ministro viria garantir que, afinal, as reuniões poderão voltar a acontecer, mas apenas quando se justificar.

Marcelo e Costa ficaram em silêncio, mas decidiram entre si durante a reunião que aquela seria a última

Como é que se chegou a esta decisão? E tinha razão o primeiro-ministro, quando terá dito que lhe falta informação para decidir?

Participantes das reuniões dizem ao Observador que informação sempre houve, mas era muito complexa ou técnica. E que os especialistas que a transmitiam limitavam-se a fazê-lo sem grande consenso sobre alternativas ou estratégias a seguir. E seria isso que o Governo procurava: soluções “chave na mão”.

O problema é que a falta de “encontro” entre peritos e decisores políticos não se resumirá às reuniões no Infarmed. Em fevereiro, quando ainda não havia casos confirmados de Covid-19 em Portugal nem o país estava em estado de emergência, a Direção Geral da Saúde decidiu criar uma equipa especial com pessoas de várias áreas, com a missão de analisar a evolução da situação para avaliar e gerir o risco. Seria dali que sairiam pareceres e normas. E saíram, de facto, mas durante muito pouco tempo.

O Observador apurou que essa task force não terá tido mais de três reuniões e deixou de se encontrar no mesmo mês em que foi criada — ou seja, ainda em fevereiro. De lá para cá, mesmo durante os momentos em que, em tese, o contributo daqueles especialistas mais seria necessário, houve apenas encontros parcelares, em algumas áreas. E a normas que dantes nasciam ali passaram apenas a ser revistas pelos membros da equipa especial.

Criada em fevereiro, a task force deixou de se reunir

Comecemos precisamente pelo trabalho da task force da DGS. As queixas ouvidas pelo Observador da parte de membros dessa equipa resumem-se a uma ideia central: os saberes dos especialistas estão a ser desperdiçados, embora ninguém aponte um motivo para isso estar a acontecer. Quase certo é que Graça Freitas e a ministra Marta Temido não terão gostado de algumas das declarações feitas à imprensa, onde foram apontados erros à estratégia seguida, e a relação com a equipa especial esfriou.

No início da pandemia, era do trabalho da task force que nasciam as normas da DGS — uma das mais importantes foi a norma 004, da fase de mitigação, que definiu as regras de abordagem aos doentes suspeitos ou infetados por SARS-CoV-2. E quando não tinham origem na equipa, pelo menos passavam por uma colaboração estreita, como durante a elaboração da estratégia de confinamento.

António Diniz: “Atrasos em Lisboa inviabilizam qualquer tentativa de controlo da situação”

Atualmente, a equipa — que junta desde especialistas em infecciologia a pessoas da área da comunicação — pouco mais faz do que rever as normas que emanam da DGS, tendo-se tornado numa espécie de morto-vivo, sem grandes competências.

“A task force não se reuniu mais do que três vezes, a última delas em fevereiro, ou seja, no mesmo mês em que foi criada. A partir daí tem havido apenas reuniões parcelares”, conta ao Observador um dos seus membros. Consultados os despachos da DGS (como este, por exemplo), vê-se que o grupo de peritos não pára de aumentar, mesmo que os encontros não aconteçam. A 5 de fevereiro eram 57 pessoas. Três despachos mais tarde, a 3 de abril, eram 73 — algo que também não facilita o seu funcionamento.

Na equipa, também há queixas de que a informação epidemiológica não chega no momento certo. “Sabemos dos números através da comunicação social, ao mesmo tempo que toda a gente”, conta a mesma fonte. Um detalhe que põe logo em risco a missão dos peritos. A task force, lê-se no despacho da DGS, tem como “missão a centralização de toda a informação epidemiológica e evidência científica pertinente à avaliação e gestão do risco” para emitir orientações para a sua contenção. “Acha que podemos fazê-lo se não temos acesso aos dados mais elementares?”, questiona.

Infarmed. A reunião mais política do que técnica deixou Costa com dúvidas — tantas, que teve de seguir para outro encontro com especialistas

Poderia crer-se que o trabalho da equipa especial — a ser feito — serviria de base, por exemplo, para pelo menos parte da discussão que, quinzenalmente, foi tida nas reuniões do Infarmed. Mas, na verdade, os médicos e especialistas que fazem parte da task force não eram sequer ouvidos para a preparação desses encontros entre peritos e políticos.

E a clivagem entre ambas as partes que a penúltima reunião e esta última tornaram evidente, por causa da alegada falta de informações concretas ou soluções práticas, não surpreende os especialistas da equipa especial da DGS. “Não culpo quem lá está. São especialistas, são bioestatísticos, que têm uma esfera de ação e que não tem obrigação de saber em que condições aquela informação deve ser utilizada no terreno. Falta um conjunto de saberes naqueles encontros”, diz um dos membros da task force. Estas pessoas, defende, não teriam sequer de estar presentes, bastaria que fossem ouvidas antes dos encontros para que a informação pudesse estar contextualizada.

“Passar informação altamente especializada diretamente para um decisor político é um salto enorme. Até a própria ministra da Saúde e a diretora geral de Saúde estariam mais preparadas para intervir naqueles encontros se ouvissem a task force antes. Falta um passo intermédio, que incorpore a informação”, defende. “Um dos membros da task force resumiu bem o que se passa ali dentro: não estão a ser capazes de transformar informação em conhecimento.”

A citação original é um pouco mais longa e foi feita a 30 de junho. “Não tivemos a capacidade de transformar dados epidemiológicos em conhecimento de saúde pública”, afirmou o pneumologista Filipe Froes numa entrevista à agência Lusa sobre o desconfinamento, momento em que, na sua opinião, o país não conseguiu ter “uma estratégia clara”.

Pneumologista Filipe Froes: “Não houve uma estratégia clara no desconfinamento”

Foram exatamente esses erros — que levaram Portugal a falhar um corredor aéreo com o Reino Unido onde Espanha teve lugar, um país que apontava Lisboa como exemplo — que deixaram António Costa com os nervos à flor da pele. E, em pelo menos uma ocasião, o primeiro-ministro precisou de sair da reunião do Infarmed para outra, à porta fechada, só com os especialistas, para tentar esclarecer as suas dúvidas.

Tudo isto era previsível, disse em entrevista ao Observador, António Diniz, pneumologista e membro da equipa especial criada pela DGS. Se não foi evitado não foi por falta de aviso, mas por continuar a haver um hiato entre a decisão política e a realidade no terreno. Na entrevista de 2 de julho, porém, António Diniz não arriscou dizer que os peritos não estão a ser ouvidos, preferindo guardar quaisquer críticas para uma reunião que espera ter brevemente com Graça Freitas, a diretora-geral de Saúde.

O que falhou nas reuniões no Infarmed

O que é que se passava quando se fechavam as portas do auditório do Infarmed? “Se as reuniões são à porta fechada, são-no por algum motivo”, diz Rita Sá Machado, chefe da divisão de Epidemiologia e Estatística da DGS, recusando fazer qualquer comentário sobre o que se passou no interior do auditório. A 24 de junho participou pela última vez nos encontros quinzenais sobre a evolução da pandemia de Covid-19 em Portugal, depois de trocar o cargo na Direção Geral de Saúde por outro na ONU. Foi nesse dia, quando lhe coube dar início à sessão, falando sobre a “Situação epidemiológica em Portugal”, que António Costa terá perdido as estribeiras. A revista Visão avançou que o primeiro-ministro, irritado com a ministra da Saúde, que falava no período de confinamento, e com o que considerava ser falta de informação rigorosa que lhe permitisse tomar decisões concretas, queixou-se disso mesmo e abandonou a reunião.

Ao Observador, porém, há quem ponha água na fervura. “Quem conhece o primeiro-ministro, e sabe como ele é emotivo a falar, sabe que aquela situação não passou de uma pequena irritação. Mas outras pessoas, que assistiram ao mesmo que eu, viram uma coisa diferente, deram-lhe muito mais peso e importância”, relata um dos habituais participantes nos encontros do Infarmed.

Seja como for, não é só nos humores do primeiro-ministro que os relatos variam. E isso pode estar relacionado com o tipo de informação que é prestada.

Especialistas contrariaram teses de Costa e Marcelo sobre testes e jovens e já falam em “segunda onda”

“Quando chegam cá fora, e falam com a imprensa, cada um dos líderes partidários diz aquilo que mais lhe convém. Mas também é verdade que nem todos percebem o que é dito lá dentro porque é informação muito complexa e cada um interpreta à sua maneira. E isto é válido também para o primeiro-ministro. Há ali muita coisa que é dita, muito técnica, que é difícil de compreender. Depois saem informações contraditórias e ficamos na dúvida se estivemos todos no mesmo encontro”, diz outro participante das reuniões.

Aos membros do Governo chegam mesmo as FIT e as FIP — fichas de informação técnica ou política — e que são, no fundo, resumos do que é dito nas reuniões, mas em linguagem simplificada. São, aliás, documentos de trabalho habituais nos organismos ligados à saúde, como o Infarmed ou a DGS.

É nos conselhos que as reuniões falham. Um dos problemas é que a equipa especial criada pela DGS para acompanhar a evolução da pandemia em Portugal, e onde se encontram médicos com elevada formação que estão na terreno, deixou de ser ouvida. Sem a sua ajuda, as folhas de Excel ficam sem contexto. 

É por saírem das reuniões muitas informações divergentes que a mesma fonte diz entender as alegadas queixas de Costa e as de Rui Rio, que, antes da decisão de acabar com os encontros regulares, afirmou que as reuniões do Infarmed “começam a ter pouca utilidade”. O líder do PSD, que participava nas reuniões por videoconferência, deixou bem claro o que esperava destes encontros: que a equipa de especialistas desse “uma fotografia muito objetiva e curta” da evolução da pandemia, não soterrando os participantes de informação. A seguir? “Conselhos técnicos” para reparar os problemas.

Covid-19: Rio considera que reuniões com especialistas no Infarmed “começam a ter pouca utilidade”

E era aqui, nos conselhos, que as reuniões falhavam. Em parte também pelo facto de a equipa especial criada pela DGS , onde se encontram médicos com elevada formação e que estão no terreno, ter deixado de ser ouvida. Sem a ajuda de quem percebe como funcionam as estruturas da Saúde em Portugal, e de quem já lidou com outra pandemia — a da gripe A —, as folhas de Excel ficavam sem contexto. As reuniões no Infarmed acabavam por se aproximar mais do jogo do telefone: a mensagem que parte nunca é a mensagem que chega.

“Há informação, claro que há, ninguém se pode queixar disso, o que acontece é que ela é muito, muito complexa. Os especialistas estão a falar na linguagem deles e não está lá ninguém para a descodificar. É normal que o primeiro-ministro fique frustrado se não percebe exatamente o que lhe está a ser dito numa situação como a da pandemia”, diz outro dos participantes ouvidos pelo Observador. “Quando chega à parte das perguntas, ainda é pior. Os especialistas, aqueles que estão no palanque, não conseguem responder às perguntas de forma clara. A linguagem de uns e outros simplesmente não é a mesma.”

Até porque os números, de facto, não chegam. E é na sua interpretação, feita a partir de quem conhece o terreno, que está o elo perdido: “Bastava ouvir quem sabe que um surto no bairro da Jamaica não é igual a um surto no bairro de Alvalade  — e que sabe que um Rt sem estar associado a um número de casos não diz nada — para evitarmos alguns erros. Não se resolvia tudo, claro, mas pelo menos não repetíamos os erros do passado, os que cometemos com a pandemia da gripe A”, conclui um membro da task force.

Esta quarta-feira o Infarmed volta a abrir (para logo em seguida fechar) as suas portas. No auditório estarão cerca de 40 pessoas com Marcelo, Costa e Ferro na primeira fila

MÁRIO CRUZ/LUSA

O modelo não funcionou. Acabou-se com o modelo

“A notícia do puxão de orelhas abriu a caixa de Pandora”, defendeu ao Observador um dos participantes das reuniões no Infarmed, ainda antes de decisão desta quarta-feira. A partir daí, considera, quebrou-se o verniz e criou-se a ideia de que as frustrações podiam passar para a imprensa.

“Primeiro foi Fernando Medina, depois Rui Rio. E haverá outros depois da próxima reunião, com certeza”, acreditava um dos participantes habituais, defensor, tal como Rui Rio, de que o modelo de reuniões precisa de alterações.

No início da pandemia, era do trabalho da task force que nasciam as normas da DGS. E quando não tinham origem na equipa, pelo menos passavam por uma colaboração estreita, como durante a elaboração da estratégia de confinamento. Atualmente, a equipa pouco mais faz do que rever as normas que emanam da DGS.

Essa ideia foi também defendida, em entrevista à Rádio Observador, por Pedro Pita Barros, professor da Nova SBE, depois da tensão de 24 de junho. “Pela primeira vez, encontrámos uma certa tensão política na gestão da atual situação, que era algo que até agora não tinha existido”, afirmou o economista. “Se calhar temos de pensar que o modelo de reuniões do Infarmed se está a esgotar enquanto modelo.”

Um dos membros da task force, ouvido no início da semana, não tinha dúvidas sobre este assunto: se o modelo não funcionava, António Costa, que afirmou que dará os passos atrás que tiver de dar, devia mudá-lo. “Não sejamos ingénuos, António Costa é primeiro-ministro. Se acha que não tem toda a informação de que precisa, tem poder para mudar as coisas e rever o modelo que está a ser usado nas reuniões.”

“Pela primeira vez, encontrámos uma certa tensão política na gestão da atual situação”, diz Pedro Pita Barros

A decisão acabaria por ser mais radical. À saída da reunião desta quarta-feira, Marcelo Rebelo de Sousa — que esteve uns segundos a conferenciar com António Costa antes de falar aos jornalistas — comunicou publicamente que aquele seria o último encontro. Horas mais tarde, já ao início da noite, o primeiro-ministro esclareceria que, afinal, as reuniões podem voltar a acontecer, mas não regularmente, como até agora — apenas quando se justificar.

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