“Estamos focados naquilo que queremos ou no que os outros acham certo?” /premium

21 Abril 2019246

Não falhamos porque também não arriscamos, diz Sofia Castro Fernandes, blogger e autora do novo livro "Recomeça". Em entrevista, diz que nos acomodamos sem perceber porque temos falta de foco.

Sofia Castro Fernandes, autora de “Às 9 no meu blogue” tem quase 60 mil seguidores na respetiva página de Instagram. Outros 443 mil “gostos” no Facebook, sem contar com os 445 mil seguidores. Associado ao projeto online, que lançou no final de 2005 quando trocou Portugal pelo Brasil e o Direito pela área do recrutamento e formação, é autora de três livros: o mais recente chama-se “Recomeça”.

Ao longo de 20 anos de carreira, a blogger que também é “oradora motivacional” foi fazendo “uma série de formações complementares”. Passou por grandes consultores — como Deloitte e Accenture –, fez certificação em coaching e estudou Psicologia Positiva. Atualmente trabalha com equipas empresariais, da direção à primeira linha de trabalho, e dedica-se à “gestão de tempo e gestão de stress”. Há dois anos que Sofia Castro Fernandes tem um espaço em Lisboa, uma academia, onde faz “workshops abertos ao público em várias áreas”.

Agora propõe-se a escrever, no seu livro mais recente (editora Manuscrito), sobre como nunca é tarde para recomeços e como mudanças pequenas conseguem ter mais impacto do aquelas consideradas radicais. Em conversa com o Observador fala ainda sobre como, muitas vezes, as pessoas têm mais medo de ser bem sucedidas do que falhar:

“As pessoas têm muito mais medo de serem bem sucedidas e de não saberem lidar com o sucesso [do que falhar]. No fundo, o que andamos todos a fazer é a aprender a lidar com as expetativas dos outros.  Quando temos uma experiência boa num hotel ou num restaurante, a pessoa a quem queremos dar um elogio não está preparada para isso”.

Tem várias formações, mas não é psicóloga, pois não?
Não sou psicóloga, sou coach.

Qual a diferença entre a psicologia e o coaching?
É importante a pergunta e a explicação. De uma forma sucinta, o coach funciona aqui como o treinador da mudança. O profissional, que é certificado como coach por uma entidade reconhecida, apoia o desenvolvimento de uma mudança pessoal ou profissional para produzir alterações efetivas num curto espaço de tempo. Ajudamos a decidir um plano de ação para a mudança que o nosso cliente pretende e acompanhamos o respetivo plano de mudança. Numa primeira sessão fazemos uma espécie de auditoria emocional e comportamental da pessoa, e identificamos os aspetos que fazem a pessoa querer mudar. Depois, vamos um pouco mais além, percebemos quais são as crenças que estão a limitá-la, as crenças indicativas que a pessoa tem em relação a si mesma e ao que está à sua volta, isto é, as razões mentais que estão a impedi-la de seguir em frente, de tomar decisões. O coach ajuda a criar uma mudança rápida na vida das pessoas com a diferença de que não vai esmiuçar o seu passado. O coach não resolve qualquer problema que tenha que ver com doenças — depressões, bipolaridade ou ataques de pânico, só para dar alguns exemplos. O coach não pode entrar na área exclusiva da psicologia clínica. Já o contrário é possível, o psicólogo clínico pode fazer uma certificação em coaching e pode juntar essas áreas na abordagem aos seus clientes. Esta é a principal diferença.

Além de coach, é autora. “Recomeçar” é o seu terceiro livro. Querer recomeçar a vida é uma necessidade comum? Que tipo de histórias conhece?
Trabalho quase há 20 anos em consultoria e formação na área do coaching, o que me permite fazer um trabalho mais individual com as pessoas. Alguns dos testemunhos no livro resultam de histórias verdadeiramente inspiradoras. A maior parte das pessoas com as quais trabalho dividem as suas necessidades de recomeço em duas grandes áreas: a mudança profissional — a insatisfação com o ponto em que estão, o tipo de trabalho que fazem, o facto de já não estarem preenchidas ou motivadas — e a mudança relacional — das relações com os outros, com a família, com amigos, etc. 75% das minhas sessões abordam a mudança do ponto de vista profissional. Há muita gente com vontade de fazer coisas completamente diferentes daquelas que começaram a fazer há 10 ou 15 anos, ou há 2 anos. As restantes pessoas com que me cruzo procuram começar depois de situações que lhes causaram alguma dor, como um divórcio ou a perda de um ente querido. Ou mesmo situações relacionadas com questões de identidade, no sentido em que querem fazer uma autodescoberta, trabalhar em alguma característica específica. Esses têm sido os principais recomeços com que tenho trabalhado.

"75% das minhas sessões abordam a mudança do ponto de vista profissional. Há muita gente com vontade de fazer coisas completamente diferentes daquelas que começaram a fazer há 10 ou 15 anos, ou há 2 anos."

No livro escreve que, perante a necessidade de mudar, primeiro ignoramos a estranheza, a sensação de que algo está errado, depois deixamo-nos andar. Porque é que acha que isso acontece?
À luz da Programação Neurolinguística (PNL) temos de considerar que a primeira resposta que o nosso cérebro nos dá é um não. A resposta à mudança é um não. Por uma questão evolutiva — porque nos preparamos desde sempre para estar alerta em relação a uma série de perigos — a mudança é uma medida de energia que o cérebro prefere não usar. Portanto, aquilo que nos diz é para nos mantermos sossegados, na nossa zona de conforto, para nos deixarmos estar.

A Programação Neurolinguística não é encarada como uma “não ciência”?
Daquilo que estudei, daquilo que é a minha experiência, ela é considerada uma ciência. Todos os estudos que tenho levado para as minhas funções e para o coaching que faço apontam no sentido de que a Programação Neurolinguística tem por base um conjunto de estratégias científicas que nos dizem que é possível reprogramar o nosso cérebro no sentido positivo, ou seja, que nos ajuda a trabalhar as crenças que usamos para nos convencer de um determinado sentido — um sentido que, por norma, limita-nos.

Numa análise crítica da Ordem dos Psicólogos à PNL, publicada em julho de 2014, lê-se que: “A popularidade das terapias e da formação em PNL não tem sido acompanhada de conhecimentos sobre os fundamentos empíricos do conceito. Embora a PNL tenha surgido nos Estados Unidos em meados dos anos 70, poucos estudos se dedicaram a verificar os seus princípios e efeitos empíricos (Azevedo, 2006)”.

No livro escreve também que, por vezes, é mais fácil sermos os “coitadinhos”, alegar que o universo está contra nós, do que avançar com a mudança. Numa fase inicial são muitas pessoas com esta postura?
No livro destaco uma figura que uso algumas coisas vezes, que é a do Calimero. Corresponde a um perfil que todos nós temos um pouco. Refiro-me ao perfil de queixa, da reclamação, sabotador da nossa própria felicidade. Se tivermos este perfil muito vincado, tornamo-nos em vítimas. Isto é, em vez de procurarmos soluções estamos constantemente a agravar o problema. Gosto muito de uma frase, cujo autor desconheço, que diz o seguinte: “Se estiveres num buraco, tens de parar de escavar”. Muitas vezes o que nos acontece é o contrário. Perante uma situação de adversidade, continuamos a escavar o buraco, mesmo que alguém nos venha dizer para parar. Muitos de nós têm reações como: “Falas assim porque a tua vida é muito mais fácil” ou “Dizes isso porque tens muita sorte”. Esse é o perfil de um Calimero. Podemos ser pessoas muito mais problema ou muito mais solução, isso vai fazer com que estejamos mais permeáveis ou impermeáveis à mudança. Uma pessoa que esteja completamente impermeável à mudança vai constituir um desafio maior do que o contrário. O livro é uma espécie de mapa, de guia que vai ajudando as pessoas. É a ponta do novelo.

Um dos principais inimigos da mudança é o comodismo. O comodismo pode ser, de certa forma, equiparado a uma vida em suspenso? Isto é, corremos o risco de não viver o nosso verdadeiro potencial?
Acho que muitas vezes nos acomodamos a determinadas situações e, quando percebemos isso, estamos completamente entediados, aborrecidos. Não sabemos explicar muito bem porquê, mas estamos aborrecidos. Quando isso acontece precisamos de sacudir um pouco as coisas. Não são necessariamente precisas mudanças radicais, como sair de mochila às costas. Mais importante do que isso são as pequenas mudanças. São os pequenos “sim” que dizemos a nós mesmos, que às vezes implicam dizer “não” a outras pessoas. Há pessoas que mudam tudo, que vão para o outro lado do mundo, mas depois continuam a sentir uma sensação de vazio. O problema é quando estamos muito tempo no mesmo lugar e não damos pequenos passos. São as pequenas mudanças que podem fazer a diferença na nossa vida.

"Há pessoas que mudam tudo, que vão para o outro lado do mundo, mas depois continuam a sentir uma sensação de vazio. O problema é quando estamos muito tempo no mesmo lugar e não damos pequenos passos. São as pequenas mudanças que podem fazer a diferença na nossa vida."

O comodismo pode ser também um inimigo da autodescoberta, do desenvolvimento pessoal?
Habituamo-nos à zona de conforto, segura e tranquila, e chega uma altura em que achamos que já não vamos a tempo [de mudar]. “Porque já devia ter feito determinada coisa” ou “Porque nesta idade já não dá”… Oiço isso com muita frequência. Tenho usado a minha cliente mais recente como exemplo. Ela tem 82 anos e chegou a à Academia a dizer que queria mudar a vida dela. Acho isso absolutamente inspirador. É uma prova de que vamos sempre a tempo de fazer mudanças. Porque queremos meditar ou queremos comer melhor ou porque queremos ter relações mais saudáveis… Há aqui uma palavra que faz a diferença na mudança, que se chama foco. Muitas vezes não saímos dessa zona tranquila e segura, em que não se passa nada, em que não falhamos porque também não arriscamos, por falta de foco. É preciso fazermos a pergunta: estamos focados naquilo que realmente queremos para nós ou naquilo que outras pessoas acham que é o certo? Os ajustes que eu fui fazendo nem sempre foram bem aceites pelas pessoas de referência na minha vida, porque estudei muito e devia ter aproveitado mais. Errei muitas vezes, falhei muitas vezes. Sei que só falhei porque tentei.

O não arriscar pode estar na base de muitos arrependimentos?
Acredito que sim. Tem acontecido ouvir isso. Pessoas que “ficaram por ali”.

© Pedro Sadio

Escreve ainda que, mais do que termos medo de falhar, temos medo de sermos bem sucedidos. A ser verdade, será que isto está associado à nossa autoestima (ou à falta dela)?
A autoestima é assim uma pedra basilar em tudo o que define aquilo que somos, aquilo que queremos, os objetivos que traçamos e os ajustes que vamos fazendo. É o recurso que temos para aprender a amar melhor. As pessoas têm muito mais medo de serem bem sucedidas e de não saberem lidar com o sucesso [do que falhar]. No fundo, o que andamos todos a fazer é a aprender a lidar com as expetativas dos outros.  Quando temos uma experiência boa num hotel ou num restaurante, a pessoa a quem queremos dar um elogio não está preparada para isso. A pessoa prepara-se para falhar, está à espera de um mas. Até mesmo a forma como gostamos dos outros… estamos sempre à espera de ouvir um mas — “Gosto muito de ti, mas…”, “Fizeste isto muito bem, mas…”.

Por que é que acha que isso acontece?
Acho que isso acontece por causa da forma como estamos programados evolutivamente para o “não”.

"Muitas vezes não saímos dessa zona tranquila e segura, em que não se passa nada, em que não falhamos porque também não arriscamos, por falta de foco."

Também pode ser cultural?
Com certeza. Apesar de toda a leveza que nos apontam, somos um pouco um povo de fado, estamos habituados a que nos venham criticar e que nos venham mandar um pouco abaixo. Mas, depois, damos a voltar por cima. Preparamo-nos sempre para o pior.

Há aquela ideia de que nunca é tarde para mudar. É mesmo verdade?
Nunca é tarde para recomeçar. Seja como for, com quem for, onde for, vamos sempre a tempo de recomeçar, de sacudir a poeira, de melhorar o quer que seja, sobretudo quando acreditamos que essa mudança acontece de dentro para fora. É fora que se veem esses resultados. Quando começamos a trabalhar cá dentro aquilo que queremos mudar — seja a forma de nos relacionarmos com os outros ou a nossa autoestima — percebemos que estamos sempre a tempo de fazer um pequeno recomeço.

Imagino que compararmos a nossa vida com a dos outros pode ser problema, sobretudo numa sociedade voyerista…
Fazemos isso, acho mesmo que isso é uma espécie de terapia de masoquismo. Passar a vida a olhar para o lado — além da enorme dor no pescoço — é mesmo… é tão injusto fazermos isso connosco. Há uma frase em inglês que diz que a comparação é o maior ladrão da alegria. O que é que a vida do outro importa para o recomeço que quero fazer na minha vida? Não vou recomeçar na vida do outro, mas sim na minha. Se estivermos constantemente a tomar a vida do outro como exemplo, nunca vivemos a nossa versão. Isso acaba por, eventualmente, trazer uma sensação de vazio.”Falta de sentido” é um conceito que na psicologia tem sido muito debatido. A falta de sentido começa quando não sabemos quem somos, o que queremos e para onde vamos, só sabemos é que há pessoas que já o estão a fazer.

Na sociedade em que vivemos há uma certa pressão para mudar. Na carreira, por exemplo, há um estigma associado a quem fica determinado tempo no mesmo local de trabalho. Qual a sua opinião sobre isto?
Conheço várias pessoas que tendo estado muito tempo no mesmo lugar, seja esse lugar mais profissional ou pessoal, estão profundamente felizes. As mudanças que vão fazendo são dentro delas, porque há ajustes a fazer na forma como nos vemos. Ninguém consegue ficar numa relação profissional ou numa relação amorosa sem ir fazendo ajustes. Nós vamos mudando.

A linha entre a mudança necessária e a insatisfação pode ser ténue?
Sim, pode tornar-se ténue. A questão da insatisfação pode vir a ser um problema quando a pessoa começa a sentir que não tem um caminho alternativo ou recursos para sair desse estado. Quando não encontramos uma identificação para aquilo que fazemos e para aquilo que somos isso gera um desconforto tão grande que nos causa uma tristeza profunda. A depressão é uma tristeza profunda, é uma falta de identificação com tudo o que está à nossa volta. Uma coisa é não estarmos motivados, a outra é estarmos tão insatisfeitos e não termos recursos para resolver isso e não fazermos nada. Falar sobre o que nos deixa desconfortáveis é, por si só, procurar resolver o problema. Pode não o resolver, mas é o começo. E há pessoas que não o fazendo… lá está, estão no buraco e continuam a escavar.

A importância do desenvolvimento pessoal sempre existiu ou é tendência marcante do século XXI?
Acredito que é uma necessidade do ser humano. Que sempre o fizemos, mas usávamos outro nome. Sempre procurámos compreender melhor o que pensamos, o que sentimos, quem somos, o que queremos, o que nos move. Mais recentemente demos outros nomes às coisas, demos uma nova roupagem e arrumámos isto de uma forma diferente. Mas tenho a certeza que procuramos compreender-nos desde sempre. Não é de todo uma moda.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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