Dark Mode 50,4 kWh poupados com o MEO
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Hoje é um bom dia para mudar os seus hábitos. Saiba mais

i

Victor Moriyama/Getty Images

Victor Moriyama/Getty Images

Haddad tentou fugir da sombra de Lula. E fracassou /premium

Depois de passar a 1ª volta a dizer que "Haddad é Lula", o PT faz, agora, de tudo para fugir da sombra do ex-Presidente. Seria uma forma de ganhar votos ao centro, mas daí só resultou um novo #elenão.

Em qualquer eleição a duas voltas, impõe-se sempre a mesma máxima: na primeira escolhe-se, na segunda elimina-se. Se, na primeira volta, o vasto leque de ofertas pode levar os eleitores a escolherem um candidato com o qual se identifiquem ao máximo, quando as opções se reduzem a apenas dois candidatos, na segunda, o pensamento já é outro. Aí, caso a escolha inicial já não apareça no boletim de voto, elimina-se o pior — e espera-se que o menos mau sirva para a tarefa.

Esta máxima, no entanto, ganha outros contornos — e um novo significado — se aplicada à campanha de Fernando Haddad, candidato do PT às presidenciais brasileiras, também ela em dois sentidos. Na primeira volta, o ex-prefeito de São Paulo não se cansou de dizer o nome de Luiz Inácio Lula da Silva e não desperdiçou qualquer oportunidade de se associar a ele. Depois, na segunda, as menções ao ex-Presidente quase desapareceram.

Na prática, foi também uma espécie de “primeiro escolhe-se, depois elimina-se”. Na primeira volta, Haddad escolheu viver à sombra da imagem Lula. Na segunda, quis eliminá-lo.

Daqui, sobram pelo menos duas perguntas. Primeiro: por que razão quis Haddad afastar-se de um passado que teve sempre tão perto? Depois, algo que põe em jogo o seu futuro político: será que conseguiu fazê-lo?

“Pode botar Lula, Haddad… vai ser a mesma coisa!”

Quando passou o testemunho a Haddad, na altura o número dois da lista, Lula quase lhe dizia que, nos próximos tempos, eles seriam apenas um só. “Você vai percorrer o Brasil como eu percorri. Vai olhar nos olhos das pessoas e ver o que eu vi”, escreveu o ex-Presidente, preso em Curitiba por corrupção e lavagem de dinheiro, numa carta dirigida a Haddad.

De seguida, o PT lançou um vídeo onde se servia de uma brincadeira — pouco conhecido para a maioria dos brasileiros, Haddad é chamado de Hadálo, Haider, Hadi, Hádila, Raddad Andrade, Haider, entre outros — para levar avante uma ideia bem mais séria, que incorporaram no seu novo slogan. O “e” de “Lula e Haddad” ganhou acento e a frase ficou com um novo significado: “Lula é Haddad”. A postura do PT foi bem resumida por uma das mulheres que aparecem no vídeo, quando diz: “Pode botar Lula, Haddad… vai ser a mesma coisa!”.

O mote estava dado.

Devolvendo a gentileza do fundador do PT, Haddad fez questão de deixar claro, na sua primeira entrevista como número 1 daquele partido, que não tinha chegado até ali sozinho. Sentado nos estúdios da Globo, o professor universitário que Lula escolheu para seu sucessor cumprimentou os dois jornalistas, os telespectadores e, depois, alguém especial: “Boa noite, Presidente Lula, que milhões de brasileiros gostaríamos de ver nessa cadeira concorrendo à corrida presidencial”.

Dias depois, Haddad surgiria num vídeo publicado pela própria página de Facebook do PT onde chorava por Lula e pela sua atual situação. A 22 de setembro, num vídeo onde se lia o título “Lula é Família”, o candidato do PT comentou da seguinte forma a prisão do ex-Presidente: “É uma barbaridade. Eu não gosto de falar… Está tudo errado, cara. Muito errado. É muito grave o que está acontecendo. É um erro histórico. Não é só um erro quanto à pessoa. É um erro histórico quanto ao país. Vai sair muito caro, isso que está acontecendo”.

A colagem de Haddad a Lula começou por resultar. Numa sondagem Datafolha, realizada entre 1 e 3 de setembro — ou seja, cerca de duas semanas antes de, a 11 de setembro, o PT retirar a candidatura de Lula e avançar Haddad para o primeiro lugar —, o ex-prefeito de São Paulo tinha apenas 6% de votos previstos. Porém, a transferência de votos de Lula para o seu benjamim entrou em ação. Numa consulta feita a 13 e 14 de setembro, a percentagem subiu para 13%. A barreira dos 20% viria a ser quebrada duas semanas antes das eleições. E, na última projeção da Datafolha, publicada no próprio dia das eleições, foi de 25%. No final de contas, a percentagem foi superior: 29,3%.

“É uma barbaridade. Eu não gosto de falar… Está tudo errado, cara. Muito errado. É muito grave o que está acontecendo. É um erro histórico. Não é só um erro quanto à pessoa. É um erro histórico quanto ao país. Vai sair muito caro, isso que está acontecendo”
Fernando Haddad, a 22 de setembro, sobre a prisão de Lula

Esta história, porém, não se conta sem outro dado: bem à frente, e ainda mais além do que aquilo que as sondagens previram, estava outro candidato. Agora já não é novidade para ninguém: por pouco, Jair Bolsonaro não conseguiu vencer as eleições logo à primeira volta, conquistando 46% dos votos.

A partir de 7 de outubro, data da primeira volta, para ultrapassar a barreira dos 50% que garantem a vitória, Bolsonaro ficou com a missão de fazer subir o resultado inicial apenas mais 4,1 pontos percentuais, ao passo que Haddad passou a precisar de bem mais: mais de 20 pontos percentuais, que quer conquistar no eleitorado mais à direita.

A 8 de outubro, Haddad fez o que já tinha feito várias vezes nos últimos meses, inclusive desde o início da campanha: foi a Curitiba para visitar o ex-Presidente Lula na prisão. Essa era uma tradição sagrada de cada segunda-feira, que servia, acima de tudo, para Haddad receber orientações de Lula. Mas, dessa vez, a orientação de Lula foi diferente de todas as outras: a partir de então, Haddad teria de se afastar dele para se aproximar do eleitorado que lhe fugiu.

Como o PT apagou Lula da campanha

No final do próprio dia em que esteve com Lula, Haddad deu uma entrevista onde nem sequer lhe disse o nome: na saudação inicial, na discussão de propostas e na defesa contra acusações, o candidato do PT nunca proferiu aquelas quatro letras que tanto dividem o Brasil. Em vez de falar de Lula, Haddad preferiu avançar outras referências — como o seu pai, Khalil Haddad, emigrante libanês no Brasil do qual mal tinha falado na primeira volta. Noutras ocasiões da campanha, voltaria a fugir ao nome de Lula quando lhe perguntaram sobre ídolos. Embora vá dizendo que “Lula foi o melhor Presidente da História do Brasil”, quando lhe perguntaram, no programa de entrevista Roda Viva, quem era o seu maior ídolo na História do país, respondeu com Juscelino Kubitschek, Presidente de 1956 e 1961.

Dois dias depois, a 10 de outubro, a mudança passou a ser também estética. Esse exemplo pode ser visto na imagem de capa da conta oficial de Twitter de Fernando Haddad. Antes da mudança, a imagem mostrava Fernando Haddad no centro, com Lula de um lado e Manuela d’Ávila, candidata a vice-presidente, do outro. Ao lado dos três políticos, lia-se ainda “Haddad é Lula” num vermelho garrido — o vermelho PT, o “vermelho, vermelhaço, vermelhusco, vermelhante, vermelhão” de Fafá de Belém. Em baixo, mais discreto, lia-se o nome da candidata a vice.

A partir de 10 de outubro, porém, as escolhas gráficas passaram a ser completamente diferentes. A mudança mais evidente foi a ausência de Lula, cuja fotografia e nome desapareceram por completo da imagem, sobrando assim Haddad e Manuela d’Ávila, agora com mais espaço. As letras também mudaram: passaram do vermelho do PT para as cores da bandeira brasileira.

A 10 de outubro, o PT mudou os cartazes de campanha: além de ter apagado a imagem de Lula e ter colocado Manuela d’Ávila com maior destaque, alterou as cores do logótipo do vermelho do PT para as cores da bandeira brasileira

Esta não é a primeira vez que o PT faz uma campanha onde outras cores predominam além do seu vermelho — e pelas mesmas razões. Em 2002 e 2006, Lula pintou a sua campanha de verde e amarelo de forma a garantir os votos que lhe tinham escapado nos três eleições anteriores — mas nunca pôs de lado a estrela vermelha do PT, coisa que Haddad agora faz. Em 2010, Dilma avermelhou um pouco as cores até então utilizadas por Lula. E em 2014, já em pleno turbilhão político, deu uma guinada à esquerda e procurou sustentá-la graficamente. Nos cartazes, o seu nome aparecia escrito à mão, em letras vermelhas. Na pinta do “i”, destacava-se uma estrela.

A estratégia do PT é, agora, a de ir buscar ao centro aquilo que não conseguiu na primeira volta. Mas o problema para Haddad (e para Lula) é que o centro parece já não estar disponível para ouvi-los.

O centro não acreditou na mudança de Haddad — e agora diz #elenão ao candidato do PT

Durante a primeira volta, as sondagens apontavam duas certezas: Bolsonaro teria a maior percentagem de votos e seria também o candidato com maior taxa de rejeição. Porém, algo mudou pelo caminho. Já na segunda volta, as sondagens continuaram a colocar Bolsonaro com maior percentagem de votos — chegando até a ultrapassar Haddad em 18%, segundo a Datafolha.

Mas, além disso, demonstraram que, ao contrário do que se passava na primeira volta, o candidato com maior taxa de rejeição passou a ser Haddad. Entre a última sondagem da Datafolha antes da primeira volta e a mais recente, a taxa de rejeição de Bolsonaro desceu de 44% para 41%. E no que toca a Haddad, os números dispararam de 41% para 54%.

“Sempre existiu um duelo de rejeições, mas aquilo que aconteceu foi uma virada que a gente ainda tem de compreender melhor”, diz ao Observador o politólogo Jean Tible, numa entrevista por telefone. Ainda assim, arrisca três fatores: a declaração de apoio das lideranças evangélicas a Bolsonaro, a propagação de fake news maioritariamente contra Haddad e a sua campanha e o ricochete das manifestações do #elenão.

Quem também disse #elenão a Haddad foi o centro político. Aos pedidos que ele próprio fez para que fosse formada em seu redor uma frente democrática — numa alusão àquele que beneficiou Jacques Chirac contra Jean-Marie Le Pen, nas eleições presidenciais francesas de 2002 — o centro respondeu com silêncio e desconforto.

O PMDB, partido aliado do PT até ao impeachment que levou à remoção de Dilma do poder para Michel Temer subir, não quis dar a mão aos seus antigos camaradas. E o PSDB, a braços com uma eleição catastrófica, na qual teve o seu pior resultado de sempre, optou por não recomendar o voto em nenhum dos candidatos na segunda volta. No caso particular do PSDB, o ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso e o seu potencial apoio a Haddad tem sido alvo de intenso escrutínio da imprensa. Embora tenha dito que não vai votar em Bolsonaro, o ex-Presidente também não aconselha o voto em Haddad. Sobre Bolsonaro, disse ter “um muro” a separá-lo do candidato do Partido Social Liberal. E, sobre Haddad, Fernando Henrique Cardoso utilizou a metáfora de “uma porta enferrujada”. E acrescentou ainda: “Acho que a fechadura enguiçou”.

O ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso, importante figura do centro brasileiro, tem negado até agora o apoio a Haddad na segunda volta (MAURICIO LIMA/AFP/Getty Images)

MAURICIO LIMA/AFP/Getty Images

Entre os partidos que compõem as várias matizes do centro brasileiro, só o PDT, que levou Ciro Gomes à primeira volta, declarou o apoio a Haddad. No entanto, este não tem sido o mais eficaz dos apoios. Além de Ciro Gomes estar ausente do país desde as eleições de 7 de outubro — foi para Paris e de lá não voltou —, o seu irmão, o ex-governador do Ceará Cid Gomes, transformou um evento pró-PT num momento fortemente anti-PT.

Tudo aconteceu num comício a favor de Haddad no Ceará. A partir do palanque, Cid Gomes apelou ao voto em Haddad, sim, mas juntou ao seu apelo um recado ao PT: “Têm que fazer um mea culpa, têm que pedir desculpas, têm que ter humildade! Têm que ter humildade em reconhecer que fizeram muita besteira”. Indignados, alguns dos participantes do comício começaram a gritar pelo nome de Lula. E o ex-governador devolveu-lhes: “Lula o quê? Lula está preso, babaca! O Lula está preso! O Lula está preso! E vai fazer o quê? Babaca! Babaca! Isso é o PT! E o PT desse jeito merece perder”.

O episódio tornou ainda mais evidente que a estratégia de aproximação ao centro do PT e de Haddad não correu bem, como conclui o politólogo Jean Tible: “Haddad só está na segunda volta por causa do Lula, é importante não esquecer. Só que o PT tentou passar por cima disso para tentar montar uma frente democrática”, diz. “Fracassou.”

Para este fracasso, Jean Tible sugere algumas razões que apontam para a auto-crítica que o PT tarda em fazer.

"Como partido predominante da esquerda desde 1989 e sendo o maior partido no  Brasil, sempre terá veleidades hegemónicas. E isso leva sempre a dificuldades de reinvenção. Essa base sólida do lulismo, impediu o PT de se reinventar porque até agora não precisou."
Jean Tible, politólogo brasileiro

A primeira remete para 2014, ano em que o PT venceu graças a uma campanha onde usou a estratégia do medo contra o neoliberalismo que atribuía a Aécio Neves e, em menor escala, a Marina Silva. “Não é uma carta que se tenha muitas vezes na mão e o PT jogou-a com muita força. O PT gastou esse crédito e, depois, a Dilma acabou fazendo um primeiro governo medíocre e um segundo governo horrível”, sublinha.

A segunda diz respeito aos “vícios” que o PT tem. “Como partido predominante da esquerda desde 1989, e sendo o maior partido no  Brasil, sempre terá veleidades hegemónicas”, diz. “E isso leva sempre a dificuldades de reinvenção. Essa base sólida do lulismo, impediu o PT de se reinventar porque até agora não precisou.” E, agora que precisou, já foi tarde — a tarefa revelou-se impossível.

Links promovidos

Recomendamos

A página está a demorar muito tempo.