Jesus trocou-lhe as voltas, Pinto da Costa queixava-se que deixava o Ferrari na garagem. Agora, vai a acelerar para o Real /premium

13 Junho 2018156

Como guarda-redes andou na sombra de outros, como treinador parou para ser comentador. Chegou ao sucesso na formação de Espanha, falhou no FC Porto e lançou a bomba do Mundial ao assinar pelo Real.

Se alguém fizesse uma aposta sobre quem seria o próximo treinador do Real Madrid, é provável que Julen Lopetegui conseguisse uma percentagem pouco superior à probabilidade que a Arábia Saudita ou o Panamá terão de ganhar o Campeonato do Mundo. Vá, talvez um bocado mais, mas também não ia muito mais além de uma Islândia. E essa indicação até vinha dos próprios meios de informação espanhóis, que chegavam a possibilidades como Guti ou Solari (além das mais “prováveis”, casos de Pochettino, Klopp, Joachim Löw, Sarri ou Allegri, entre outros). No entanto, a notícia tornou-se mesmo pública na antecâmara do início do Campeonato do Mundo e acabou por funcionar como uma bomba na seleção e no futebol espanhol. Uma bomba que levaria à sua demissão, esta quarta-feira, a dois dias do primeiro jogo (contra Portugal).

Com outras características e percursos, o antigo treinador do FC Porto tem um ponto em comum com o pai: a perseverança. José Antonio, que foi sempre conhecido em Asteasu como Aguerre II, era um gigante com uma força bruta que fazia exibições desse dom pelo país. Com registos significativos, como o dia em que conseguiu fazer 22 elevações com uma pedra redonda de 100 quilos, que só não foram mais porque declinou sempre a possibilidade que o poderia fazer chegar a outro nível de estrelato: uma carreira no boxe.

Ao invés, preferiu ficar perto da família e o seu assador, a outra grande paixão para quem olhava para a carne basca como algo mais do que uma simples carne. Curiosamente, Julen também é sócio de um restaurante com o irmão, José. Mas é pelo percurso ligado ao futebol que conseguiu alcançar a fama; agora, chega a maior fatia do proveito.

Como jogador, Lopetegui foi sempre um caso adiado de potencial figura na sombra de um guarda-redes com estatuto indiscutível. Foi por isso, por exemplo, que deixou o clube onde fez a formação, a Real Sociedad, ciente que nunca poderia dar o salto tendo Arconada como número 1. Transferiu-se para o Real Madrid em 1985, esteve três anos na equipa B, foi emprestado ao Las Palmas mas voltou a encontrar nova barreira intransponível na passagem ao conjunto principal, de seu nome Buyo. E saiu, outra vez, para o Logroñés.

Em três épocas, por fim, conseguiu mostrar que estava talhado para outros voos e rumou a Barcelona em 1994. Com Zubizarreta, voltou a ficar tapado; sem Zubizarreta, perdeu a corrida para Busquets e Vítor Baía.

Acabou a carreira, entre 1997 e 2002, no Rayo Vallecano, mas ficou sempre com esse amargo de boca: pelos merengues, cumpriu apenas um jogo no Campeonato quando a equipa já era campeã; pelos blaugrana, onde ganhou uma Supertaça, não foi além dos cinco na Liga. Até na seleção o filme foi o mesmo, tendo feito 30 minutos de um particular com a Croácia em 1994.

Logo após terminar a carreira, Lopetegui arriscou uma carreira de treinador e aprendeu com uma referência a nível de formação na seleção Sub-17, quando foi adjunto de Juan Santisteban. As lições foram boas, o primeiro exame a solo nem por isso: arriscou quase de imediato uma aventura no banco do Rayo Vallecano, as coisas correram mal, esteve pouco tempo no lugar e acabou por tirar um período sabático onde foi comentador televisivo no Mundial de 2006 e em jogos da Champions. Parecia por ali ficariam, até tinha jeito para a coisa, mas foi o Real Madrid, de novo o Real Madrid, a abrir-lhe a porta do regresso com uma passagem pela equipa B do Castilla. Passado um ano, saltou para a formação de Espanha e teve o momento de glória.

Em 2012, Lopetegui ganhou o primeiro título como treinador no Campeonato da Europa Sub-19, vencendo na final a Grécia por 1-0 com uma equipa onde se destacavam nomes como Kepa, Suso, Pablo Alcácer, Jesé, Óliver Torres, Deulofeu, Denis Suárez ou Bernat (curiosamente, empatou na fase de grupos 3-3 com Portugal, que tinha João Mário como capitão). No ano seguinte, já com os Sub-21, repetiu o troféu de campeão da Europa, batendo a Itália (de Verratti, Immobile, Borini ou Florenzi) por 4-2 no jogo decisivo, que consagrou nomes como Thiago, Isco, De Gea, Morata, Koke, Bartra, Iñigo ou Rodrigo, entre outros. Foi este percurso que lhe valeu um convite, aceite, para assumir o comando do FC Porto. Em ano e meio, nada ganhou.

O investimento foi muito, sobretudo em jogadores espanhóis dos quais resta apenas Óliver Torres (Marcano saiu este Verão para a Roma), mas os resultados não apareceram (a título de curiosidade, Quaresma estava no clube quando chegou). Havia falta de empatia com os adeptos, os reforços nunca tiveram o rendimento previsto e as exibições também nunca encheram o olho.

Pelo meio, Pinto da Costa defendia-o e o rival Jorge Jesus atacava-o, como quando trocou o nome para “Lotopegui” num bate boca que a partir daí se prolongou entre os dois e que fez com que se envolvessem num momento mais quente após o nulo na Luz. “Para mim, depois do que se passou no final do jogo, ele subiu de cotação. Lopetegui mostrou que é um homem corajoso, um líder como homem. A qualidade como treinador é outra coisa”, diria depois o agora treinador do Al-Hilal.

Em janeiro de 2016, acabou mesmo por sair dos dragões. E, recentemente, o líder dos azuis e brancos “confessou” o falhanço. “Como todos os treinadores, foi uma escolha minha. Tinha boas informações de Lopetegui, falei com ele… Não foi uma aposta ganha, não, mas porque não ganhou nada. Não se integrou no futebol português, daí ter trazido muitos jogadores de fora que também não conheciam o que era o futebol português. Não quis compreender que as coisas não eram como tinha pensado e quis insistir num processo que não foi assimilado pela equipa”, confessou Pinto da Costa pouco depois da saída, acrescentando: “Teve jogadores como o Danilo, teve o André André, o Imbula, que veio por vontade dele e que nos disse que era um Ferrari, e eu perguntava-lhe se o Ferrari era para deixar na garagem…”.

“Naturalmente não contratei o Sérgio Conceição para não tentar ganhar e não melhorar. Para isso, se calhar, ia buscar o Lopetegui outra vez. Mas para ter um futebol espetáculo, objetivo, que joga sempre para ganhar, entendi que o Sérgio Conceição era o treinador ideal”, atirou em novembro. “Na era Lopetegui vieram espanhóis a granel”, lamentou em dezembro. Uma coisa é certa: o técnico que não deixou boas recordações no Dragão, e que chegou a estar apontado ao Wolverhampton, acabou de forma surpreendente por voltar ao ativo na seleção, ocupando a vaga deixada em aberto por Vicente del Bosque.

Em 20 jogos no comando do conjunto principal de Espanha, Lopetegui somou 14 vitórias e seis empates. Ou seja, nunca perdeu. E tinha acabado de renovar contrato por mais dois anos, num claro sinal de confiança da Federação que acreditava ser possível ter sucesso no Campeonato do Mundo e prolongar o mesmo até ao próximo Europeu. Em 12 horas, tudo se esfumou.

A contratação do novo técnico do Real Madrid apanhou todos de surpresa, dos jogadores (apesar de se falar já da boa ligação entre Lopetegui e Sergio Ramos como uma das chaves para o negócio) aos próprios responsáveis federativos incluindo Luís Rubiales, o presidente que deixou de emergência Moscovo, onde iria participar no Congresso da FIFA, para se juntar à equipa em Krasnodar. Cinco minutos antes do anúncio, Florentino Pérez, líder dos merengues, tinha telefonado a confirmar a opção, o acordo que tinha sido alcançado e o pagamento da cláusula prevista de dois milhões de euros.

Se lidar com a seleção espanhola já não é fácil, agarrar num Real Madrid que continua a ter alguns problemas em aberto (com o de Cristiano Ronaldo à cabeça, mas havendo ainda o caso de Bale) e tem como objetivo não só ganhar a quarta Liga dos Campeões consecutiva mas também reconquistar a Liga ainda mais complicado será.

Para os analistas mais positivos, o clube da capital espanhola vai ganhar mais nervo no banco, maior capacidade tática para gerir os momentos do jogo entre o domínio com posse e as transições rápidas e outra qualidade no lançamento de jogadores mais novos, casos de Asensio ou Lucas Vázquez; para os que têm uma visão negativa, o técnico arruinou no mesmo dia dois projetos (o presente da seleção no Mundial e o futuro no Real) ao aceitar a proposta sem que tenha o perfil ideal para aquilo que os merengues mais precisam no pós-Zidane.

A resposta, essa, apenas Lopetegui poderá dar. Mas a verdade é que, em dois anos e meio, o técnico consegue dar o salto de dispensado da Liga portuguesa para comandante do tricampeão europeu, tendo a passagem pela seleção pelo meio.

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