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FABRICE COFFRINI/AFP/Getty Images

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Justin Trudeau, de príncipe liberal a rei de escândalos e contradições /premium

Justin Trudeau foi reeleito esta segunda-feira, mas perdeu a maioria do primeiro mandato. Por causa de escândalos e contradições, muitos canadianos deixaram de acreditar na "marca Trudeau".

[Nota: este especial foi publicado na segunda-feira, antes de serem conhecidas as primeiras projeções, que apontam para uma vitória sem maioria absoluta do Partido Liberal, de Justin Trudeau]

Justin Trudeau já estava à espera de uma pergunta daquele género.

No dia em que tomou posse, juntamente com o seu governo, Justin Trudeau tinha nas suas contas o executivo mais diverso da História do Canadá: além de haver tantas mulheres quanto homens (15 para cada lado), estavam ali três sikhs e duas ministras indígenas. Aquele seria também o governo mais jovem de sempre do Canadá (a maior parte abaixo dos 50 anos), liderado pelo segundo primeiro-ministro mais novo, com 43 anos.

Já depois de Justin Trudeau ter ali dito que era “importante” estar ali a “apresentar um conselho de ministros que se assemelha ao Canadá”, uma jornalista fez-lhe a tal pergunta esperada. “Sei que uma das suas prioridades era ter um governo equilibrado em termos de género. Porque é que isso é tão importante para si?”

Trudeau já tinha aquilo preparado. “Acho que simplesmente chamar a atenção das pessoas para o ano em que estamos é tudo o que deves dizer”, dissera-lhe, horas antes, o seu conselheiro Gerry Butts. E assim o fez. Com um sorriso algo provocador, e após um ligeiro encolher de ombros, Justin Trudeau respondeu: “Porque estamos em 2015”.

Atrás de Justin Trudeau, a sua equipa de ministros desfez-se em sorrisos, gargalhadas e até um grito de aprovação. Foi um momento perfeito para o primeiro-ministro do Canadá, que ali conseguiu cunhar um slogan e chamar a atenção dos media internacionais, sobretudo os norte-americanos. Numa altura em que o nome de Donald Trump dava os primeiros passos na sua longa caminhada para ser levado a sério como sucessor de Barack Obama, o Canadá elegia o seu próprio Barack Obama.

Barack Obama declarou o seu apoio a Justin Trudeau nas eleições desta segunda-feira: "O mundo precisa da sua liderança liberal" (NICHOLAS KAMM/AFP/Getty Images)

NICHOLAS KAMM/AFP/Getty Images

Os media mais liberais dos EUA começaram a prestar atenção à política canadiana como não faziam há muito tempo — em particular ao primeiro-ministro Justin Trudeau. Apelidado de “o Anti-Trump” por alguns, houve outros que levaram o exercício de adoração de Trudeau ainda mais longe, como a Rolling Stone, que fez capa com o primeiro-ministro do Canadá e perguntava apenas: “Porque é que ele não pode ser o nosso Presidente?”. O tom era ainda mais elogioso nos talk-shows e programas humorísticos, onde a presença de Justin Trudeau era altamente cobiçada. Mesmo na sua ausência, alguns referiam-se ao homem escolhido pelos canadianos como “o bonzão da porta do lado”.

Depois de ter atingido um máximo de 72%, a taxa de aprovação de Justin Trudeau está atualmente nos 46% (Cole Burston/Getty Images)

(Cole Burston/Getty Images)

“Justin Trudeau foi eleito no tempo de Barack Obama, que era muito popular no Canadá”, diz ao Observador o politólogo canadiano Richard Nimijean, especialista em branding político. “As semelhanças entre um e outro eram várias. Eram dois homens relativamente jovens, bem parecidos e muito inteligentes do ponto de vista do uso da sua imagem, que utilizaram como veículo de uma mensagem liberal de luta contra as alterações climáticas e a favor de um país multicultural.”

Em 2015, além de uma promessa de uma reconciliação das minorias indígenas com o Estado canadiano e de um combate feroz às alterações climáticas, feito através da adoção de energias renováveis, Justin Trudeau defendeu uma reforma do sistema eleitoral canadiano, com o objetivo de riscar o sistema de first-past-the-post, isto é, de círculos uninominais, à semelhança do que acontece no Reino Unido.

"Justin Trudeau foi eleito no tempo de Barack Obama, que era muito popular no Canadá. As semelhanças entre um e outro eram várias. Eram dois homens relativamente jovens, bem parecidos e muito inteligentes do ponto de vista do uso da sua imagem, que utilizaram como veículo de uma mensagem liberal de luta contra as alterações climáticas e a favor de um país multicultural."
Richard Nimijean, politólogo canadiano

“Em suma, o que ele prometeu foi uma nova forma de fazer política”, explica Richard Nimijean. “Era essa a sua marca.”

Em 2015, a mensagem colheu: o Partido Liberal conquistou 39,47% dos votos e 184 deputados, mais do que suficiente para ter uma maioria na Câmara dos Comuns do Canadá. A prova de que a maioria dos canadianos esteve com ele até depois da eleição estava na sondagem da Gallup, que, em 2016, registou 72% de taxa de aprovação do primeiro-ministro do Canadá, contra apenas 25% que não aprovavam o seu trabalho.

Porém, nas eleições gerais canadianas de 2019, celebradas esta segunda-feira, 21 de outubro, esses números estarão longe de serem replicados. Na última sondagem, apenas 46% disseram aprovar o trabalho de Justin Trudeu (um mínimo do seu mandato), ao passo que 52% responderam negativamente. E as sondagens para as eleições também não são otimistas para o “príncipe liberal”. O cenário mais provável é uma perda da maioria absoluta por parte do Partido Liberal, mas também há sondagens que não descartam uma vitória do Partido Conservador, de Andrew Scheer.

Porque está Justin Trudeau na iminência de sofrer uma derrota eleitoral de tamanha dimensão quando, até há tão pouco tempo, era adorado dentro e fora do país?

“Ele não esteve à altura das promessas da sua marca”, resume Richard Nimijean. “Tal como as marcas, os políticos podem promover-se tanto quanto quiserem. ‘Comprem o meu refrigerante! Comprem o meu carro! Comprem o meu computador!’ Mas se não souber bem, se estiver sempre a ir a baixo ou se não funcionar, ninguém vai comprar nada disto.”

Tal pai, tal filho

Na altura em que foi eleito, Justin Trudeau não era uma novidade aos olhos dos canadianos. A chave estava no seu apelido: o mesmo de Pierre Trudeau, ex-líder do Partido Liberal que governou o Canadá durante um total de 14 anos, entre o final da década de 1960 e 1984, com um interregno para um governo do Partido Conservador entre junho de 1979 e março de 1980.

Justin foi, durante muito tempo, o filho de Pierre e o seu destino não parecia, de todo, ser a política. Na sua juventude, e também já como adulto, saltou entre empregos como monitor de campos de férias, instrutor de snowboard ou porteiro de discoteca. Depois de ter terminado os seus estudos universitários (estudou Inglês para ensino, entre a McGill University e a University of British Columbia), foi professor do ensino secundário, tanto em escolas privadas como públicas. Deu aulas de matemática, francês, teatro e humanidades.

Justin Trudeau, no funeral do pai, o ex-primeiro-ministro Pierre Trudeau (PAUL CHIASSON/AFP via Getty Images)

PAUL CHIASSON/AFP via Getty Images

Aparentemente destinado a uma vida comum, Justin Trudeau saltou para a ribalta quando fez um discurso emocionado no funeral do seu pai, em 2000. “Je t’aime, Papa”, terminou, num discurso dividido entre o inglês e o francês, sempre com lágrimas. Esse momento introduziu-o lentamente na política, que veio a afirmar-se de forma mais concreta em 2007, ano em que foi eleito deputado. Demorou a descolar: olhado apenas como filho do seu pai, Trudeau não se destacava e foi vetado ao esquecimento. Até que lançou um desafio que chamou a atenção de tudo e todos no Canadá: chamou o deputado conservador Patrick Brazeau para um combate de boxe.

Justin Trudeau subiu ao ringue de vermelho (cor do Partido Liberal) e Patrick Brazeau ia de azul, como o Partido Conservador. Os braços musculados do conservador sugeriam que aquele embate lhe ia correr de feição, perante um Trudeau que, apesar de mais alto, exibia pouco músculo. E foi isso mesmo que se viu no início do combate: Brazeau começou por cima, levando Trudeau a bater primeiro com as costas nas cordas.

Mas, já no segundo assalto, depois de falar com o seu treinador, Justin Trudeau conseguiu ser mais competente. De frente para Patrick Brazeau, que não soube moderar o esforço no primero round, desferiu-lhe esquerda atrás de direita e direita atrás de esquerda. Foi assim no segundo round e ainda mais no terceiro.

Ainda não passavam dez minutos desde que soara o sino do início da batalha quando Patrick Brazeau, com o nariz ensanguentado, assumiu a derrota. Do outro lado do ringue, Justin Trudeau foi declarado vencedor. Levantado ao colo pelo seu treinador, o deputado liberal ergueu o braço direito em sinal de vitória.

A partir de então, Trudeau afirmou ainda mais o seu primeiro nome, em detrimento do apelido que tanto lhe pesava. Já não era só o filho de Pierre, era o deputado liberal Justin Trudeau, homem com toda uma agenda para o futuro do Canadá e com vontade para mostrá-la — mesmo que, para isso, tivesse de andar à batatada em frente ao país inteiro. E, daí, já sabemos, Justin Trudeau conseguiu um governo e uma maioria.

"Justin Trudeau está a descobrir que, no fundo, é filho do pai dele. Porque, tal como o pai, ele manteve com uma campanha que dava grande atenção à imagem. Em 1968, o pai de Justin Trudeau tinha as mulheres todas a suspirar por ele. Mas no meio de vários casos de corrupção e cada vez mais dúvidas quanto à sua integridade, acabou por perder a maioria no parlamento."
Cecil Foster, professor na University at Buffalo

Agora, porém, é do pai de Justin Trudeau que se lembra um dos especialistas contactados pelo Observador para comentar a aparente queda do primeiro-ministro entre a preferência dos canadianos.

“Justin Trudeau está a descobrir que, no fundo, é filho do pai dele”, explica o politólogo Cecil Foster, professor na University at Buffalo. “Porque, tal como o pai, ele manteve uma campanha que dava grande atenção à imagem. Em 1968, o pai de Justin Trudeau tinha as mulheres todas a suspirar por ele. Mas no meio de vários casos de corrupção e cada vez mais dúvidas quanto à sua integridade, acabou por perder a maioria no parlamento.”

Cecil Foster refere que “sempre houve questões sobre se Justin Trudeau era ou não credível”. E, continua, os quatro anos que estão para trás indicam numa direção: “Agora, já temos histórias para comprovar que talvez não seja”.

No melhor liberal cai a nódoa

Fora das capas de revista mais ou menos adulatórias, além dos talk-shows onde Justin Trudeau é recebido como um meio-termo entre celebridade e estadista exemplar, os quatro anos do governo do primeiro-ministro que prometeu uma nova forma de fazer política apontam antes várias objetivos por cumprir e sobretudo um rol de contradições.

Uma das causas que Justin Trudeau mais procurou defender foi a luta contra as alterações climáticas, defendo, para isso, a conversão da economia canadiana da atual dependência em combustíveis fósseis para um sistema mais assente em energias renováveis. E, embora tenha feito do Canadá um dos primeiros países a impor uma taxa para as emissões de carbono (de 13,7 euros por cada tonelada de gases de estufa emitidos nas quatro províncias canadianas que recusaram aderir às metas estabelecidas pelo governo central do Canadá), a sua atuação demonstra também uma continuação na aposta nos combustíveis fósseis.

O oleoduto de Trans Mountain contou com a oposição de grupos indígenas e ambientalistas. "Justin, isto não é liderança ambiental, é um desastre", lê-se no cartaz (JASON REDMOND/AFP/Getty Images)

JASON REDMOND/AFP/Getty Images

Apesar de, ainda em setembro, ter estado reunido com a ativista Greta Thunberg (que, a propósito, disse que Justin Trudeau não estava a “fazer o suficiente” para combater as alterações climáticas), o primeiro-ministro do Canadá também já veio a público defender a exploração de petróleo no seu país. “Nenhum país que encontrasse 173 mil milhões de barris de petróleo no chão iria deixá-los onde estão”, disse, numa conferência sobre energia em Houston, no Texas, em 2017.

"Nenhum país que encontrasse 173 mil milhões de barris de petróleo no chão iria deixá-los onde estão."
Justin Trudeau, em 2017

Além disso, o governo de Justin Trudeau apostou várias das suas fichas na extensão do oleoduto de Trans Mountain, que permitirá ao Canadá transportar desde a província de Alberta (sem acesso ao mar) até à cidade porteira de Vancouver o petróleo extraído do betume que abunda naquela província do Norte do Canadá. Em setembro deste ano, o Partido Liberal divulgou o seu plano de campanha para o ambiente. Em resposta, o Nova Partido Democrático (NPD), que se situa à esquerda do Partido Liberal e que tem acolhido políticos e apoiantes dececionados com Justin Trudeau, reagiu ao plano com um quatro palavras: “Vocês. Compraram. Um. Oleoduto”.

Justin Trudeau tem defendido o oleoduto, referindo que o dinheiro que este gerar irá servir para apostar em energias renováveis. Ainda assim, há outra crítica que é feita a Justin Trudeau, por ter apoiado a construção daquele oleoduto de Trans Mountain: ele atravessa territórios protegidos dos mesmos povos indígenas com os quais Justin Trudeau prometeu uma grande reconciliação nacional — sendo que muitos destes o acusam de não terem sido consultados no processo. A extensão do oleoduto (um projeto antigo defendido pelo Partido Liberal e pelo Partido Conservador, que insistem nas vantagens económicas que surgirão com aquela infraestrutura) vai mesmo avançar, apesar de várias ações em tribunal terem adiado aquela obra orçada em 4,93 mil milhões de euros.

A ex-ministra da Justiça Jody Wilson-Raybould demitiu-se após uma alegada campanha de pressão no governo para interromper processo contra construtora do Quebeque (ADRIAN WYLD/AFP/Getty Images)

ADRIAN WYLD/AFP/Getty Images

Outro solavanco na tortuosa estrada dos quatro anos do mandato de Justin Trudeau diz respeito ao escândalo da construtora SNC-Lavalin. A empresa é suspeita de ter subornado com milhões de dólares o governo da Líbia, ainda durante o tempo de Muhammar Khaddafi, entre 2001 e 2011.

O escândalo rebentou quando, após ter saído do governo, a ex-ministra da Justiça (cargo que equivale também ao de procuradora-geral), Jody Wilson-Raybould, disse numa comissão de inquérito parlamentar que foi sujeita a vários tipos de pressão para arranjar uma maneira de pôr um ponto final ao caso da SNC-Lavalin, cujo julgamento não chegou a começar. As alegadas pressões estariam a ser feitas para evitar que a empresa, com sede no Quebeque, saísse do Canadá e levasse milhares de empregos consigo.

"Fui submetida a esforços consistente e continuados por parte de muitas pessoas do governo que tentaram interferir politicamente na discrição do exercício das minhas tarefas enquanto procuradora-geral do Canadá."
Jody Wilson-Raybould, ex-ministra da Justiça do governo de Justin Trudeau

“Fui submetida a esforços consistentes e continuados por parte de muitas pessoas do governo, que tentaram interferir politicamente na discrição do exercício das minhas tarefas enquanto procuradora-geral do Canadá”, disse. A ex-ministra, que foi apenas a terceira mulher a ocupar o cargo e a primeira indígena a fazê-lo, e que estava por trás de Justin Trudeau quando ele respondeu “porque é 2015”, disse que foi vítima de “ameaças veladas” e que o tratamento a que foi submetida dentro do governo incluiu “elementos inegáveis de misoginia”.

“Aquilo que muitos eleitores viram foi um primeiro-ministro que diz ‘sou feminista, acredito na reconciliação com os povos indígenas e vou fazer política como deve ser’ e depois o que é que viram? Viram um primeiro-ministro a despedir uma mulher indígena que tem um perfil forte, porque ela lhe atrapalhou os planos”, refere Richard Nimijean.

Se cada um destes casos teve pouca ou mesmo nenhuma atenção internacional, houve outro que voltou a catapultar o nome de Justin Trudeau para os jornais, monólogos de talk-shows e programas de comédia de boa parte do mundo ocidental: a fotografia em que o primeiro-ministro fazia blackface.

"[O caso do blackface] levou as pessoas a pensarem logo que isto quer dizer uma série de coisas sobre o seu caráter. E, embora não o admitam, creio que muita gente decidiu afastar-se dele e do Partido Liberal assim que viu aquelas fotografias."
Lori Turnbull, diretora da Escola de Administração Pública da Dalhousie University

Tudo remete para uma festa na escola em que Justin Trudeau deu aulas, à altura com 30 anos. O tema era “As Mil e Uma Noites” e, como tal, professores e alunos foram convidados a vestirem roupas que remetessem para o mundo árabe. Justin Trudeau cumpriu esse requisito de dress-code, mas foi mais além quando recorreu a maquilhagem para escurecer a sua pele — gesto que nos EUA e no Canadá é conhecido como blackface ou brownface. Uma fotografia daquele momento foi publicada pela revista Time e logo se conheceram outras duas ocasiões em que Justin Trudeau fez o mesmo.

Naqueles países, fazer blackface é socialmente mal visto, por ter sido daquela forma que, durante décadas, atores brancos representaram personagens negras, que, por regra, eram apresentadas de forma racista, caricatural e pouco lisonjeadora.

Lori Turnbull, especialista em campanhas políticas e diretora da Escola de Administração Pública da Dalhousie University, diz ao Observador que este pode ter sido o momento que mais popularidade custou a Justin Trudeau. “Não me parece que seja o caso da SNC-Lavalin a levá-lo ao chão, mas antes o incidente da blackface“, diz numa entrevista por telefone. “Este caso em particular levou as pessoas a pensarem logo que isto quer dizer uma série de coisas sobre o seu caráter. E, embora não o admitam, creio que muita gente decidiu afastar-se dele e do Partido Liberal assim que viu aquelas fotografias.”

Ultrapassado pela esquerda, ultrapassado pela direita

Justin Trudeau é, pois, um primeiro-ministro que, passados quatro anos, torna a apresentar-se aos cidadãos do Canadá como um idealista que ficou a meio caminho — e que, nos passos que percorreu, se contradisse com regularidade.

Cecil Foster torna a sublinhar que a situação de Justin Trudeau é semelhante à do seu pai, que, depois dos sonhos que elencou no primeiro mandato, teve de, a seguir, falar num tom mais terra-a-terra.

“O problema de Trudeau é semelhante ao dos democratas nas eleições primárias nos EUA. Entre todos aqueles candidatos, há os que estão bem à esquerda e outros que são mais moderados”, diz aquele politólogo. “Por um lado, há Bernie Sanders e Elizabeth Warren, que querem, por exemplo, um sistema nacional de saúde gratuito para todos. E depois há os Bidens desta vida, que lhes perguntam ‘como é que isso se pode pagar?’. Trata-se de uma questão de ser pragmático e prático.”

"O problema de Trudeau é semelhante ao dos democratas nas eleições primárias nos EUA. Entre todos aqueles candidatos, há os que estão bem à esquerda e outros que são mais moderados. Por um lado, há Bernie Sanders e Elizabeth Warren que querem, por exemplo, um sistema nacional de saúde gratuito para todos. E depois há os Bidens desta vida, que lhes perguntam como é que isso se pode pagar? Trata-se de uma questão de ser pragmático e prático."
Cecil Foster, professor na University at Buffalo

No entanto, nos EUA, quem vota no Partido Democrata tem, para já, 19 pessoas por onde escolher. Já no Canadá, quem quiser votar no Partido Liberal, tem apenas um nome à disposição: Justin Trudeau, claro. As dúvidas começam quando se tenta perceber, afinal, se é o Justin Trudeau liberal ou o Justin Trudeau pragmático que sairá das urnas.

Porém, o que os eleitores do Partido Liberal podem vir a fazer é simplesmente virar as costas a Justin Trudeau e ir noutras direções — nomeadamente na do NPD, liderado por Jagmeet Singh. Em menor escala, mas também à esquerda, prevê-se também uma fuga de votos para o Partido Verde em todo o país e para o Bloco do Quebeque, naquela região francófona. A fuga de votos à esquerda deverá ser suficiente para impedir que Justin Trudeau volte a ter maioria.

Da esquerda para a direita: Elizabeth May (Verde), Justin Trudeau (liberal), Andrew Scheer (conservador), Maxime Bernier (PP do Canadá), Yves-François Blanche (BQ) e Jagmeet Singh (NPD) (AFP Images)

POOL/AFP via Getty Images

Ainda para lá disso, as sondagens não afastam para já também o cenário de uma vitória do Partido Conservador, mesmo que sem maioria absoluta, atirando assim o Partido Liberal para segundo lugar e dificultando-lhe ainda mais a tarefa de formar governo.

De acordo com o site de estudo de sondagens 338 Canada, a probabilidade de o Partido Liberal vencer é de 59,2%, contra 40,2% para o Partido Conservador e há ainda 0,6% de probabilidades para um empate. Seja como for, a probabilidade de uma maioria do Partido Liberal é de apenas 22,6%.

Num país onde o sistema eleitoral é dado a resultados improváveis e desproporcionados daquela que é a votação popular — uma realidade atribuível ao sistema de círculo uninominais —, restam, ainda assim, poucas dúvidas de que estas eleições têm tudo para serem mais complicadas para Justin Trudeau do que o próprio desejaria e do que muita da cobertura que ele foi tendo poderia sugerir.

Se perder a maioria absoluta, a vida de Trudeau e do Partido Liberal passará a ser bem mais complicada do que foi agora. E, se perder as eleições, ficará na História como o primeiro chefe de governo dos últimos 84 anos a falhar a reeleição após liderar com maioria absoluta. Na altura de procurar respostas para qualquer um destes desfechos, Justin Trudeau pode não dizê-lo, mas talvez possa pensar: “Porque já não é 2015”.

(ERNESTO BENAVIDES/AFP/Getty Images)

ERNESTO BENAVIDES/AFP/Getty Images

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