Dark Mode 192kWh poupados com o Asset 1
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica. Saiba mais

Logótipo da MEO Energia

O clássico de 1999 que João Félix, Gedson Fernandes, Svilar e Diogo Leite não viram /premium

Em abril de 1999, o Benfica de Souness recebeu o FC Porto de Fernando Santos. O ano do penta foi também o ano em que nasceram João Félix, Gedson, Svilar e Diogo Leite. A história do clássico de 1999.

Em 1999, o mundo olhava com atenção para a absolvição de Bill Clinton, depois do processo de impeachment aberto na sequência do caso Monica Lewinsky. Hungria, Polónia e República Checa, todos ex-membros do Pacto de Varsóvia, juntavam-se à NATO e Bill Gates tornava-se, pela primeira vez, o homem mais rico do mundo. Timor-Leste votava em referendo a independência da Indonésia e Amália Rodrigues morria em Lisboa aos 79 anos. No campeonato português de futebol, o FC Porto fazia história e tornava-se o primeiro clube a ser pentacampeão nacional.

Cinco anos antes, em 1994, Bobby Robson tinha começado um período único no futebol português, que ainda passou pelas mãos de António Oliveira e só terminou em 1999 com Fernando Santos. Naquele ano, o atual selecionador nacional levou o FC Porto até ao quinto título nacional consecutivo e ganhou a alcunha que ainda hoje carrega nas costas: o engenheiro do penta. O treinador chegou ao clube pouco depois de António Oliveira, responsável pela conquista de dois dos campeonatos do penta, sair de livre vontade, dois dias após vencer o Sp. Braga na final da Taça de Portugal, e inscrever o nome na história com a confirmação do terceiro triplete (campeonato, Taça de Portugal e Supertaça) em quatro anos.

Mas, antes ainda da demissão de António Oliveira, Fernando Santos já sabia que iria ser o treinador do FC Porto num futuro próximo. “Estava num jantar, com amigos, e um deles ligou para o senhor Pinto da Costa. ‘Olhe, está aqui um homem de quem você gosta muito, presidente’, disse ele. Passaram-me o telefone e eu falei com o senhor Pinto da Costa, que acabou por dizer-me que devíamos ter uma conversa. O presidente ressalvou que o António Oliveira era o treinador até não querer continuar mais, mas, quando ele saísse, seria eu. E assim ficou”, contou o técnico, que, antes de rumar ao Dragão, orientava o Estrela da Amadora, em entrevista ao jornal Expresso.

Fernando Santos herdou os feitos de Bobby Robson e António Oliveira e conquistou um inédito pentacampeonato

Getty Images

Chegou num ano de importância capital. A conquista do pentacampeonato assinalava um feito nunca antes conseguido em Portugal — até ali, o recorde pertencia ao Sporting dos anos 50, que tinha sido campeão quatro épocas consecutivas com um plantel que ainda incluía três dos cinco violinos, Jesus Correia, Travassos e Vasques. Em 1998/99, o Benfica atacava o título pela mão de Graeme Souness e os pés de João Vieira Pinto e Nuno Gomes; do lado do Sporting, o treinador era o croata Mirko Jozic e as principais armas eram Duscher, Yordanov e Acosta (e Jorge Jesus treinava o Estrela da Amadora). Mas Fernando Santos, cheio de previsões e a ver mais além do que todos os outros, como é costume, descartava da corrida os eternos rivais e tinha como principal receio um outro clube: o Boavista.

“Tem um excelente naipe de jogadores e tem um treinador muito bom, com uma característica especial: é um homem de luta, que quer ganhar. Depois, tinha a grande vantagem de não entrar em nenhuma competição europeia. Não foi difícil imaginar que com um plantel equilibrado, com muitas soluções e excelentemente orientado, poderia ser um sério candidato. Não me enganei”, afirmou o treinador em entrevista ao jornal Record, já após o final da temporada. O “treinador muito bom” era Jaime Pacheco, então com 41 anos, que acabaria por confirmar todos os elogios desfiados por Fernando Santos duas épocas depois, em 2000/01, quando o Boavista conquistou o título nacional com uma equipa que tinha Ricardo na baliza, Pedro Emanuel, Petit e Demétrius.

Mas o FC Porto de Fernando Santos era disciplinado, focado, e tinha como principal trunfo um avançado brasileiro que deu tantas alegrias aos portugueses que foi quase adotado como nosso: Mário Jardel. 1999, além do ano do penta, foi o ano da Bota de Ouro do Super Mário que, naquela temporada, marcou 36 golos com a camisola azul e branca. Jardel tinha nesta altura 26 anos. No mesmo ano, em 1999, nasceram João Félix, Gedson Fernandes, Mile Svilar e Diogo Leite todos atuais jogadores de Benfica e FC Porto, que se encontram este domingo para mais um clássico do campeonato português.

Vítor Baía cometeu a grande penalidade que Nuno Gomes falhou, aos 16 minutos do clássico

Getty Images

O jogo deste domingo – ainda que sempre importante, seja por motivos mediáticos ou por se tratar de um encontro entre rivais diretos – acontece numa fase inicial da temporada, em que as clivagens pontuais ainda não são grandes, as decisões ainda não são muitas e a margem de erro é ainda considerável. Num sábado de abril de 1999, o panorama era diferente. À entrada para a 29.ª jornada, o FC Porto era líder com mais cinco pontos do que o segundo classificado, o Boavista, e o Benfica estava no terceiro lugar, a nove pontos do primeiro. Os azuis e brancos visitavam, então, a Luz a cinco jornadas do final do campeonato e com uma vantagem confortável sobre os encarnados, que já só viam como objetivo plausível a conquista do segundo lugar e o consequente apuramento para a terceira pré-eliminatória da Liga dos Campeões. Para isso, era necessário vencer o FC Porto e não perder (ainda mais) terreno para o Boavista.

O Benfica contava com João Vieira Pinto, Nuno Gomes, Poborsky, Calado e, claro, o guarda-redes belga Michel Preud’homme – que anos mais tarde treinou Sérgio Conceição, atual treinador azul e branco, no Standard Liège. Do lado do FC Porto, as estrelas eram Zahovic, Peixe, Jardel, o recém-chegado Deco e o recém-regressado Vítor Baía. Ao olhar para as duas equipas, surge a olho nu uma curiosidade. São vários os jogadores que ou já tinham jogado noutro “grande” ou acabariam por fazê-lo anos mais tarde: Mário Jardel, FC Porto e Sporting; João Vieira Pinto, Benfica e Sporting; Jorge Cadete, Sporting e Benfica; Emílio Peixe, Sporting, FC Porto e ainda Benfica; Nuno Capucho, Sporting e FC Porto; Zahovic, FC Porto e Benfica; e Drulovic, FC Porto e Benfica.

A 24 de abril de 1999, perante mais de 50 mil espectadores no Estádio da Luz, o árbitro era Jorge Coroado. O mesmo que uns anos antes tinha expulsado Claudio Caniggia de forma aparentemente inexplicável durante um Benfica-Sporting e, por essa decisão, foi ameaçado de morte mais do que uma vez, como contou em entrevista ao Observador. O ambiente do clássico era tenso, carregado e com objetivos diferentes de parte a parte: Souness queria desforrar a derrota no Dragão na primeira volta, não perder mais pontos e adiar a festa do FC Porto; Santos queria ganhar na Luz, evitar a escorregadela que favorecia o Boavista e ficar cada vez mais perto da confirmação do penta.

O guarda-redes belga Michel Preud'homme, já com 40 anos, foi o homem do jogo

João Vale e Azevedo tinha convidados de peso na tribuna da Luz: para além de Joaquim Chissano, então presidente de Moçambique e amigo de Eusébio, estava na assistência Jupp Heynckes, já confirmado como novo treinador do Benfica para a época seguinte. Graeme Souness, que tinha sido contratado para “levar o Benfica de regresso à glória”, nas palavras de Vale e Azevedo, saiu um ano e meio depois de chegar a Lisboa e deixou um dos primeiros avisos relativamente ao então presidente do Benfica: “Ele mente a olhar a outra pessoa nos olhos. Tenham cuidado, este homem é perigoso”. E Heynckes, que tinha tirado uma espécie de ano sabático após ser dispensado do Real Madrid, viu com vista privilegiada Nuno Gomes falhar uma grande penalidade.

Foi ao minuto 16. Poborsky seguia em grande velocidade em direção à baliza de Baía. Já dentro da grande área, o guarda-redes do FC Porto terá derrubado o checo e Jorge Coroado não teve dúvidas em assinalar o castigo máximo. Vítor Baía levantou-se rápido, correu com as mãos abertas em direção ao árbitro, como só ele fazia, e garantiu que não tocou em Poborsky “nem com uma unha”. “Se, por algum motivo, tivesse feito penálti, seria o primeiro a admiti-lo e a dizê-lo. Estou com a minha consciência muito tranquila. Sei que não lhe toquei. Mas o árbitro enganou-se e até ele reconheceu mais tarde que talvez se tivesse equivocado”, disse o guarda-redes do FC Porto na entrevista pós-jogo.

A verdade é que Jorge Coroado não terá ficado com muitos problemas de consciência. Nuno Gomes atirou de pé direito e visou o lado esquerdo de Baía, mas falhou o alvo: a bola passou ao lado e o marcador continuou a assinalar o 0-0. O FC Porto foi sempre mais forte e tentou, durante toda a primeira parte, desbloquear o nulo, mas o Benfica tinha — mais do que um guarda-redes — uma entidade na baliza. Preud’homme defendeu tudo e mais alguma coisa e terá sido por isso que ficou tão irritado com os colegas de equipa quando os portistas conseguiram finalmente marcar. Numa jogada de insistência depois de um pontapé de canto, Aloísio e Jardel tentaram bater o belga, mas não conseguiram; após um alívio de um jogador encarnado em cima da linha de golo, Zahovic surgiu à entrada da área a rematar de pé esquerdo para um grande golo. Faltavam cinco minutos para o intervalo e o FC Porto estava a vencer por 1-0 na Luz.

Graeme Souness deixou um dos primeiros avisos sobre Vale e Azevedo: "Este homem é perigoso"

Getty Images

E se a primeira parte acabou com um golo, a segunda começou da mesma maneira. Bruno Basto, lateral-esquerdo português que neste clássico de 1999 jogou a médio, terminou com classe uma fantástica jogada individual pela esquerda do ataque e empatou a partida. Nos festejos, virou as costas à tribuna presidencial e evidenciou o nome da camisola: um gesto que foi interpretado como uma tentativa de mostrar ao futuro treinador, Jupp Heynckes, que era capaz de fazer aquilo e muito mais. Já depois do jogo, Bruno Basto garantiu que não foi nada disso, mas sim “a resposta de um sentimento”. “Estou no Benfica há 11 anos, foi a minha estreia num clássico e foi o meu primeiro golo na 1.ª divisão. Foi um sentimento. Foi espontâneo”, explicou o lateral, que acabou por sair da Luz no ano seguinte para se juntar aos franceses do Bordéus.

A partir daqui, e assim como Fernando Santos explicou, “deu Porto contra Preud’Homme”. O guarda-redes belga, na altura já com 40 anos, segurou com mãos de ferro a igualdade e mereceu elogios dos adversários. Baía disse que era “como o vinho do Porto, quanto mais velho melhor”, Zahovic afirmou que Preud’Homme “levou um ponto para o Benfica” e Jardel garantiu que o guarda-redes podia “continuar a jogar por mais uns dez anos porque com aquilo que vem apresentando ele merece”. No final dos 90 minutos, Benfica e FC Porto empataram a uma bola, o fosso de nove pontos manteve-se e os azuis e brancos ainda festejaram o deslize do Boavista, que foi a Alvalade empatar 1-1 com o Sporting. No final do campeonato, Fernando Santos festejou o inédito pentacampeonato e ainda permanece na história como o único treinador a fazê-lo: Rui Vitória esteve perto, na temporada passada, mas Sérgio Conceição estragou a festa aos encarnados.

19 anos depois do empate na Luz, o Benfica volta a receber o FC Porto. João Félix, Gedson Fernandes e Mile Svilar, do Benfica, e Diogo Leite, do FC Porto, nasceram naquele 1999 de Baía, Preud’homme, Bruno Basto e Zahovic. E 19 anos depois do clássico de Souness e Fernando Santos, foi pela mão do engenheiro do penta que Gedson se estreou no principal escalão da Seleção Nacional. O mesmo acontecerá, muito provavelmente, com João Félix e Diogo Leite.

Recomendamos

A página está a demorar muito tempo.