“Oh filho, o mercado está cada vez pior. Quem tem dinheiro vai ao El Corte Inglés“. Dália Cruz sabe do que fala. Tem 60 anos e diz o que diz com a autoridade de quem “já vendia peixe na barriga da mãe”. Trabalha no Mercado de Arroios, em Lisboa, “já lá vão uns 40 anos” e desconfia que nada será como dantes. Os mercados são para velhos e os novos pouco querem saber. Salve-se ao menos o país que existe fora destas paredes. Entre o revirar do gelo para acomodar os peixes boquiabertos, lá diz o que pensa sobre o rumo escolhido pelo Governo de António Costa. “Acho que vai no bom caminho. Apesar de a oposição dizer que não, eu acho que sim. Vamos lá chegar. Se eles renegociarem a dívida, vamos lá chegar”.

António Costa passava o primeiro teste de stresse na banca do peixe, ainda que com um ponto importante para anotar no caderno de encargos. Pedro Passos Coelho nem por isso: “O outro só vivia para a restrição dos lá de fora. Os outros mandavam e eles faziam. Não pode ser assim”.

Hoje já não é assim, acredita. E nem o facto de o líder socialista governar com o apoio de Bloco de Esquerda e PCP belisca a confiança da peixeira. “São muitos. Um dá uma opinião, outro dá outra. Um quer meter mais uma coisa, outro quer tirar outra. Vão conseguir”. Haverão de se entender. E se não se entenderem? E se der mau resultado? Nada de aflições, nem preocupações com os juros da dívida a disparar. “Se correr mal fazemos como os ingleses. Saímos e não pagamos“, atira, com uma convicção inabalável.

É a mesma convicção que usa para sugerir um peixe que António Costa não pode nem deve dispensar. “Sardinha”, pois claro. Ainda para mais nesta altura do ano. “Em cima de uma fatia de broa de milho”, melhor ainda. “Dá substância e tem muito Ómega 3. É para ver se ele pensa como deve ser para isto andar para frente”. Fica a dieta para uma permanência no poder duradoura e saudável.

Aqui, nos mercados de carne e osso, de peixe e legumes frescos, de caracóis e enchidos, não se especula sobre a derrapagem do PSI-20. Os mínimos históricos das Euribor é coisa que não se discute. As oscilações da “yield” a dez anos de Portugal não é algo que faça tremer a banca, ou melhor, cada uma das bancas. Os efeitos da “bazuca” de Mario Draghi não dizem nada a quem tem contas para pagar e a queda das “bunds” alemãs não preocupam. As minutas da Fed e os subprime “ninja” devem ser coisas lá dos states.

Mas se algo se tornou um lugar-comum no jargão político-económico dos últimos cinco anos é a ideia de que os mercados reagem mal perante a incerteza. Ficam assustados ao mínimo sinal de instabilidade, vão dizendo os analistas. Nos mercados de Lisboa o cenário não é diferente. Incerteza, receio, cautela, preocupação. São palavras na ponta da língua quando o tema é o Estado da Nação. Otimismo, salvo raras exceções, é um sentimento distante, difícil de alcançar e recordar.

As pessoas estão preocupadas com a evolução da Europa, com o dinheiro que não chega… Nota-se que têm muito receio do futuro”, lamenta Ana Cristina Marques, 41 anos, desde os 18 a trabalhar no Mercado de Arroios. As mudanças anunciadas demoram a chegar ao bolso dos portugueses. E os mercados retraem-se. “Por enquanto, ainda está tudo muito negativo. Não temos clientes. O poder de compra dos portugueses, em geral, baixou muito”, lembra.

As carteiras estão no vermelho. Mas é preciso confiar no futuro e confiar neste Governo — e “as pessoas confiam mais neste Governo”, deixa escapar Ana Cristina, enquanto olha pela banca recheada das mais variadas hortaliças. “O anterior era só exigir. Este já vai com mais calma. Já é mais ponderado“.

Resta saber o que aconselharia a Costa se tivesse de vender um legume ou uma fruta que o ajudasse a enfrentar os tempos duros que aí vêm. A vendedora hesita. Desvia o olhar para a banca. A ideia passa-lhe pelos olhos. Há cenouras, pepinos, pimentos e… tomates. Ri-se e faz rir. Mas fica-se pelo politicamente correto. “[Legume, fruta], venderia qualquer um. Desde que fosse fresco”. Resposta diplomática.

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ANDRÉ MARQUES/OBSERVADOR

Ali ao lado há quem não esteja tão otimista. “Não tenho muita fé [em António Costa]. Sou um bocadinho pessimista”, assume Ana, 46 anos, mais de 20 de mercado. “As pessoas estão com medo. Agora são tudo muitas facilidades. Como é que para um [Governo] era tudo um problema e agora são tudo facilidades? O anterior Governo custava imenso a todos, mas estava a fazer um bom trabalho. E agora este pode estragar tudo“, avisa. António Costa arrisca-se a ser um subprime “ninja” — sem rendimentos, sem empregos e sem ativos para dar resposta aos desafios que aí vêm?

O olhar atento de Bruxelas ao que por cá vai fazendo o Governo português tranquiliza-a, pelo menos. “A nossa sorte é estarmos na Europa. Porque se houver algum problema, aí podem-nos ajudar. Sabemos que eles estão sempre em cima do nosso Governo. Porque senão nós vamos descambar“.

Com dois filhos a estudar para serem “doutores”, só pede uma coisa a António Costa: “Que ele tivesse atenção pelos jovens. Há muitos jovens a emigrar e isso mete-me imenso medo. Tenho medo do futuro [dos meus filhos]. Hoje nada é seguro. Hoje ninguém está seguro nos postos de trabalho”, vai dizendo Ana, para quem o país é muito mais do que contas e défices. “É pena que, num país tão pequenino, haja tanta corrupção. Como é que se vê agora tanta gente presa e outros que ainda não foram? Parece um Brasil em miniatura“, diz, enquanto olha pelo leitão de pele estaladiça que enfeita a banca. E se tivesse de sugerir alguma parte do bicho a António Costa? “A cabeça”, claro.

Pressões da Europa? “Eu não sou político, mas não sou parvo, né?”

Se por estes dias os mercados financeiros se vão agitando com as possíveis consequências do Brexit e com os potenciais efeitos da aplicação de sanções a Portugal e Espanha, aqui, nos mercados palpáveis, o cenário não podia ser mais diferente. O ponteiro mais pequeno do relógio encontra as dez horas. Depois do Mercado de Arroios, o de 31 de Janeiro, em Picoas, Lisboa. O cenário é igualmente desolador. Não se vê vivalma. Alguns vendedores ainda se agitam. Organizam a banca para o cliente que há de chegar. Chegará alguém, eventualmente. Outros distraem-se com o que podem e vão conversando sobre o que há ainda para conversar. Há quem faça contas à vida, enquanto espera que o futuro seja mais risonho.

Essa é, pelo menos, a esperança de Marcelino Jorge, talhante de 63 anos, há 53 anos no mercado. “Acabei a escola e vim para aqui aprender”, explica. Nesses tempos era tudo diferente. “A gente vendia muito mais. Depois começaram a aparecer os supermercados e estragaram tudo”. Os filhos “já estão arrumados”, que é o mesmo que dizer que já são homens feitos, com emprego e família. Valha ao menos isso, confessa.

A expectativa, pelo menos, é de que este Governo faça mais pelos “pobres e pela classe média”, espera Marcelino. Até ver, António Costa está a cumprir com o guião, elogia. Para o anterior Governo e para os responsáveis europeus, no entanto, chovem apenas críticas. O som estridente da serra de cortar carne parece dar mais violência às palavras do talhante. “O outro gajo estava demais. O outro era mesmo um ditador. Para mim era. [António Costa] está a olhar mais para os mais pobres e para a classe média, que era para quem o outro não olhava. Você vê: os ricos ficaram cada vez mais ricos e os pobres ficaram cada vez mais pobres”.

E se, além de sugerir “um bom bife do acém, mais gordo, mas uma maravilha”, Marcelino pudesse dar um conselho a António Costa seria para ser ser mais “duro” com Bruxelas. “Não pode ir na conversa desses gajos da União Europeia. Querem arruinar-nos cada vez mais. À Alemanha e à França eles facilitaram e eles não pagaram nada. E nós temos de pagar? Eu não sou político, mas não sou parvo, né?”.

Mas as instituições europeias não terão motivos para recear a receita escolhida pelo atual Governo? “Receio de quê, pá? Se eles dizem que as contas estão normais… A única coisa que não está a crescer muito é a economia, mas isso não é só cá”.

Nem todos concordam, pois claro. “A União Europeia mostra receio porque não vê produtividade no país“, analisa Olinda Barreiros, enquanto tira as vísceras a uma lula, com a habilidade de quem o faz quase de olhos fechados. São 57 anos, 33 como peixeira. Muitos anos a olhar também para um país em que “todos ralham e ninguém tem razão”. “Acho que o nosso país precisa de ter mais trabalho, mais produção, para podermos atingir a meta mais rápido. Precisava que se trabalhasse mais e falasse menos”.

O Governo socialista, apoiado por Bloco de Esquerda, PCP e PEV, tem-se esforçado por repor rendimentos e devolver direitos sociais. “O país melhorou um bocadinho”, reconhece Olinda, mas é “uma gota de água num oceano muito grande”. “Há ainda muita incerteza. Falta-nos certeza de futuro e isso retrai as pessoas. A pessoa gasta menos porque está sempre na incerteza de que o futuro não seja risonho”.

Esses problemas afetam sobretudo os mais velhos, ressalva a peixeira. Basta lembrar que quem hoje tem mais de 40 anos, já viu o Fundo Monetário Internacional (FMI) três vezes em Portugal. E esses dificilmente esquecem. “As pessoas de idade têm medo de investir o que têm e depois não terem futuro. Os jovens não pensam tanto assim porque são os mais velhos que estão a financiar os mais jovens. Mas depois os mais velhos ficam com receio do que a vida pode trazer”.

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ANDRÉ MARQUES/OBSERVADOR

Lá diz o ditado: depressa e bem há pouco quem

A auscultação dos mercados (os de Lisboa) não ficaria completa sem ouvir um mercado onde António Costa joga em casa — o de Alvalade. A tarefa não é fácil: há quem prefira não comentar por temer perder um cliente generoso. O primeiro-ministro é freguês habitual, embora agora, sendo chefe do Executivo socialista, apareça por lá menos vezes.

Ainda assim, Helena Dias, ou Leninha como é conhecida, não deixa de mostrar algum receio em relação ao ritmo a que tem corrido António Costa. Devolução de rendimentos, sim, mas talvez fosse mais avisado se fosse feito com cautela, alerta. “Às vezes o que é rápido sai mal. Os planos feitos em cima do joelho… É um bocado complicado“, comenta.

Tem 32 anos e vende fruta no Mercado de Alvalade há oito. Para António Costa sugere umas “cerejas docinhas, para ver se ele fica mais docinho”. Talvez não seja mal pensado oferecer o mesmo ao presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, e a todos os responsáveis europeus que têm manifestado sérias dúvidas em relação à estratégia do Governo socialista. É que, com as coisas como estão, talvez seja preciso travar algumas amarguras. “Eles [União Europeia] estão com medo que nós tenhamos de pedir algum resgate e acabam por nos dar um bocadinho nas orelhas. Apertados já nós estamos. Às vezes desapertar totalmente não é um benefício. Depois a gente paga a longo prazo“. O aviso está feito.

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ANDRÉ MARQUES/OBSERVADOR

E não é o único que se ouve no Mercado de Alvalade. Horácio Alves, 50 anos, metade da vida passada a escolher e a vender peixe. Conhece bem António Costa, cliente habitual da sua banca. Sabe que o primeiro-ministro não resiste a levar um bom “pargo, um atum ou mesmo umas ameijoazinhas”. Gastronomia à parte, Horácio reconhece os méritos do Governo socialista, mas admite que ainda é cedo para perceber as mudanças que foram feitas.

Agita-se, dividido, enquanto esfrega a t-shirt manchada pelas tripas dos peixes. Marca o ritmo com as galochas verde tropa. Acaba por dizer que o país tem hoje um “bocadinho menos de credibilidade internacional“. Depois de “anos de sacrifícios” os esforços não deram em nada. “Estamos na mesma. Não deu em nada”. E sem credibilidade internacional o país fica mais exposto aos humores dos mercados — não os de Lisboa, os outros. “O dinheiro não nasce. O dinheiro tem de vir de algum lado. Vamos arranjar o dinheiro onde? É uma faca de dois gumes, como se costuma dizer”, lamenta.

Rui Felizardo, também ele conselheiro habitual de António Costa no que toca a gastronomia, ajuda a completar o raciocínio. “Muito honestamente, não sinto melhorias. Nota-se que as pessoas estão com algum receio de investir e de consumir. As coisas não estão a progredir como deviam. [Se não houver] o mínimo de garantia de estabilidade o investidor prefere estar sossegado na expectativa de ver como as coisas vão progredindo e melhorando”, resume.

Admite que a tarefa do primeiro-ministro “não é fácil” e resiste em vestir a pele de “treinador de bancada”. Mas lá vai dizendo que “está a ser feito tudo muito depressa”. “É a redução da taxa de IVA na restauração, é a reposição de salários, é a devolução de algumas coisas que foram retiradas, é a diminuição novamente de alguma parte do horário de trabalho… Penso que um país faz-se com sacrifício, trabalhando e progredindo. E dá-me a ideia que não são bem essas as medidas que estão a ser tomadas. Agora vamos ver. O tempo o dirá”. Isto se, até lá, “não houver nada que nos faça cair no aspeto económico. Agora anunciam sanções…”, deixa no ar Rui Felizardo.

A experiência dos 51 anos — 25 no mercado — ajuda a sintetizar muito do que foram dizendo os vários vendedores nos mercados de Lisboa sobre o desempenho governativo do antigo presidente da Câmara lisboeta: “Não se vê ainda a luz ao fundo do túnel. Há sinais aqui e acolá de que as coisas vão melhorando. Há coisas que estão a progredir e bem. Mas penso que não é ainda o suficiente. Nunca se fez Roma e Pavia num dia. Temos que ir com alguma calma“. E se a estrada que António Costa tem de percorrer é longa e cheia de obstáculos, Felizardo sugere um “requeijão de Azeitão”, um dos preferidos do socialista, para petiscar no caminho.

Um caminho que não se avizinha fácil para António Costa. O primeiro-ministro estará sempre obrigado a gerir a tensão nos mercados com a política de recuperação de rendimento e de devolução de direitos sociais que se propôs a cumprir. Apesar do ceticismo aparente, os mercados de Lisboa deram ao líder socialista um cabaz generoso: leitão e um bom bife do acém; sardinhas e broa de milho; pargo, atum e umas amêijoas; legumes frescos e cerejas. E uma residual dose de esperança. Resta saber se será tão bem tratado pelos outros mercados — os financeiros.