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O segredo de Alan Crocetti? As joias de estrelas como Lady Gaga e Miley Cyrus são feitas em Portugal /premium

As joias de Alan Crocetti carregam um tom transgressor que já conquistou Lady Gaga e Miley Cyrus. Conversámos com o designer brasileiro e visitámos a pequena oficina onde tudo acontece, em Gondomar.

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“Meu amor por joias começou com o meu avô”. Aos 35 anos, Alan Crocetti é um dos mais proeminentes designers de joias do mundo. Basta ligar a televisão na MTV, folhear uma edição internacional da Vogue ou recordar alguns dos visuais mais arrojados de Lady Gaga. Ele está lá, através das peças que, apesar de sintonizadas com as tendências do momento, carregam um cunho autoral suficientemente forte para torná-las inequívocas.

No início de 2017, chegou a Gondomar. A proximidade, bem como algumas referências da produção nacional fizeram-no voar de Londres e desistir da ideia inicial de produzir as peças no Brasil. Ultrapassado o primeiro choque — afinal, falamos de formas penianas, spikes e caninos cravejados de brilhantes numa oficina habituada a manusear filigrana portuguesa — nasceu uma relação de interdependência. Hoje, a ARPA vive do constante desafio que é dar forma às ideias de Crocetti, enquanto Alan encontra muito mais do que uma máquina produtiva.

Alan Crocetti, o designer de joias que conquistou estrelas como Miley Cyrus, Lady Gaga e Dua Lipa

Sem género nem preconceitos, as suas peças continuam a despertar a atenção das estrelas, quer do lado do showbiz, quer do próprio design. Depois do sucesso dos últimos três anos, entrega-se a colaborações e parcerias —  com Dries van Noten, numa exposição em Los Angeles, e uma segunda que só será revelada em junho e que está no segredo dos deuses. Enquanto criador, rejeita a tradição e abraça o mundo na sua pluralidade de ideias e pessoas. No final de uma conversa com o Observador, durante uma breve passagem por Lisboa para participar na conferência Sustainable Fashion Business, a conclusão foi mais ou menos expectável: “Tudo é mais bonito misturado”.

Alan Crocetti, o designer autodidata

O percurso de Alan divide-se entre aspetos previsíveis e contornos verdadeiramente especiais. Passou pela Central Saint Martins, a escola que é, por si só, um quadro de honra no que ao design de moda diz respeito. “Quando mudei para Londres, tinha de escolher um caminho. Achei que era womenswear, também pelo facto de ser tão consagrado. Galliano, McQueen, Stella McCartney — todos passaram por lá”, recorda. O que se seguiu, foge completamente ao guião convencional de uma história de sucesso. Na véspera de apresentar a coleção de final de curso, resolveu deixar tudo para trás. Afinal, e parafraseando o próprio, que falta faz um pedaço de papel?

A decisão não pesou no caminho. O gosto pelas joias cresceu de dia para dia e, por uma questão de escala, mas também de sentimento, foi na joalharia que apostou todas as fichas. “Nunca entendi porque as joias sempre foram vistas como acessório. Você usa o mesmo anel durante dias e a roupa você está sempre mudando, então o que é o acessório afinal? Queria tirar as joias do segundo plano e colocar elas no palco principal”, conta.

Azealia Banks foi a primeira a usar uma peça de Alan Crocetti, ainda em 2013, na capa da Rollacoaster Magazine. Enquanto marca, Alan Crocetti nasce bem mais tarde, com o verão de 2015. Apresentada na plataforma Fashion East, a coleção despertou o interesse da conhecida concept store Dover Street Market, que a comprou sem hesitar. Nessa altura, Alan vivia em Londres há cerca de oito anos e o atelier, onde tudo era feito e de onde saíram as primeira peças para revistas e figuras públicas, era a própria casa. Ser designer de joias era, na altura, um dos três trabalhos que pagavam as contas.

Sem gabinete de imprensa, o Instagram foi uma via aberta de Crocetti para o mundo. Revistas, produtores e stylists sentiram-se impelidos a ver de perto estas peças ousadas, embora o designer estivesse apenas a materializar o seu próprio ideal de beleza e perfeição. “Sabe quando as pessoas fazem muita coisa para chocar? Até posso ver um sentido nisso, mas sempre quis usar valores nas minhas joias, porque acho que elas são uma extensão do corpo. Quando você tem um autoconhecimento e um amor próprio — que é o que tento passar com a marca — você às vezes precisa de uma armadura. Então eu vejo assim as minhas joias, viram parte de você, a sua proteção e a imagem que você quer passar”, explica.

Lady Gaga usou o brinco "Rose" de Alan Crocetti em abril de 2017, no festival Coachella

Na origem da relação de Crocetti com a joalharia está uma desconstrução das barreiras de género que começou a fazer ainda em tenra idade. E além disso, claro, o avô. “Ele morreu quando eu tinha seis anos, mas eu lembro que ele usava um anel de rubi que era grande — no Brasil, os advogados usavam. Para mim, ficou essa imagem de um homem usando uma peça que era vista como feminina. Minha mãe usava pérolas, mas eu nunca entendia porque é que o meu pai não usava. Não fazia sentido”, recorda.

Anos depois, quis desenhar peças numa folha em branco. Sem género, as joias de Alan empoderam a mulher e libertam o homem, numa total negação da tradição e de uma binariedade limitadora. “As pessoas falam muito em tradição, eu nunca acreditei nisso. A tradição só causou opressão e estereótipo e eu não acredito em colocar seres humanos em caixas, em reprimir sentimentos”, explica. “Minha ideia de joias nunca esteve relacionada com género porque, a meu ver, é algo fluído. Não é como o soutien, você não precisa de peito”, remata.

Liberdade para cada um, seja homem ou mulher, usar o que quiser. O pressuposto fundador da marca Alan Crocetti ganha especial notoriedade sempre que as peças são usadas por homens. O arrojo já lhe valeu associações ao homoerotismo, tese na qual continua a não ver fundamento. “Não comecei a marca com o intuito de quebrar normas. Desde o começo que quis levar a normatividade como algo orgânico, não era para jogar nada na cara das pessoas. O questionamento vem ao colocar pessoas usando e mostrando que é normal”, explica. “O homem, sobretudo, tinha uma necessidade enorme de começar a ver outros homens usando certas peças. O nose plaster, por exemplo, foi uma forma de falar da masculinidade tóxica e de como o homem tem sido castigado e maltratado”, completa.

“A evolução da marca não vem do produto só”, sublinha o designer. Chegar mais longe e a mais pessoas, mesmo que isso implique criar linhas mais acessíveis é o que vislumbra no horizonte. “Quero que as minhas peças durem, que passem de geração em geração e que sejam um novo clássico”, resume. No fundo, Alan Crocetti está a construir a sua própria tradição.

Gondomar, o recanto português onde tudo nasce

A laborar desde 1987, esta pequena oficina esconde-se atrás de uma fachada insuspeita. A opção é estratégica e comum na região, útil sobretudo para despistar eventuais investidas criminosas. Ângelo Almeida é quem dirige a ARPA. A empresa foi fundada pelos pais e, durante décadas, dedicou-se à filigrana e à prataria civil, termo usado para designar objetos utilitários como talheres. Valências que não desapareceram, mas que cederam espaço à joalharia de autor.

Com quase 400 gramas, a peça que se assemelha a uma máscara foi produzida em fevereiro

Por estes dias, muitas das peças que saem daqui, além de contemporâneas, correm o mundo. Abril de 2017 ficará para sempre como o momento em que a pequena empresa de Gondomar percebeu o alcance de Alan, o cliente recém-chegado — Lady Gaga apresentou-se no Coachella com o brinco Rose, da última coleção lançada pelo designer brasileiro. A partir daí, imagens como aquela banalizaram-se, dos videoclipes de Dua Lipa às atuações ao vivo de Miley Cyrus, passando ainda pelas fotografias de paparazzi da própria Gaga.

Foi nesse mesmo ano que Crocetti lhes bateu à porta. Sugestionado por uma feira de turismo onde Portugal era um dos destinos promovidos, procurava quem lhe assegurasse a produção. “Aqui, ele encontrou uma casa apta a responder e com a capacidade de costumizar as peças e, ao mesmo tempo, de produzir em pequena escala”, explica Ângelo, durante uma visita guiada à oficina da ARPA.

“Nos primeiros meses, foi difícil”, ressalva. Os artesãos — todos eles homens e cerca de sete numa equipa de 15 pessoas — estavam habituados a peças bem mais tradicionais. As peças tridimensionais já eram produzidas, mas com moldes relativamente simples. Atualmente, à semelhança da criatividade de Crocetti, parece não haver limites ao que pode ser feito. “Chega com as ideias e depois desenvolve muitas das coisas aqui. O nosso designer já está dentro da cabeça dele. O Alan faz um risco e chegam à peça”, admite ainda.

Quando faz as malas, o designer chega a passar dois meses em Gondomar, absorvido pelo próprio processo criativo, mas também pela experimentação quase imediata de formas. A funcionalidade tem de ser testada, obrigando a ajustes em algumas das ideias iniciais. Os desenhos que vão além da fase de prototipagem resultam quase sempre em peças de joalharia desafiantes. Em prata, muitos dos brincos envolvem-se na orelha dispensando furos. Os anéis são indiscretos, as restantes peças não constam sequer do léxico da joalharia — caso de um penso rápido em prata, desenhado para encaixar na cana do nariz e de uma pesada máscara (com quase 400 gramas), produzida em fevereiro, naquela que parece ter sido uma premunição do que estaria por vir.

São “coisas de malucos”, segundo Serafim Chantre, um dos artesãos joalheiros da casa. A experiência faz com que tenha uma palavra a dizer. Afinal, aos 66 anos soma 57 de ofício, contas que nos levam a uma época em que os dedos começavam cedo a aprender a manusear a prata e ouro. Mas, nos últimos tempos, aprendeu a lidar com um novo elemento — o rasgo e a ousadia de Crocetti desafiam-no quase todos os dias. “A rapaziada nova é toda virada para a frente”, apregoa. Não se queixa, pelo contrário. Diz preferir construir estas peças de raiz do que se entregar à monotonia do trabalho em série que dá origem à filigrana portuguesa.

Serafim é o mais velho de sete artesãos (o mais novo tem, seguramente, mais de 40 anos), todos eles homens. Mas a transição pode estar iminente. No Centro de Formação Profissional da Indústria de Ourivesaria e Relojoaria (CINDOR), 80% dos futuros joalheiros e ourives são mulheres, por oposição a um trabalho de bancada, especialmente duro para as mãos, tradicionalmente dominado por homens. Ainda assim, não é garantido que a mão-de-obra feminina venha a ganhar lugar nas oficinas e pequenas fábricas da região.

Um anel de Alan Crocetti em fase de acabamento nas mãos de Serafim Chantre

Samuel Machado

“O setor tornou-se sedutor, é cool estudar nesta área. Contudo, é preciso trabalhar melhor a parte da inserção dos recém-formados nas empresas, torná-las sedutoras também”, explica Fátima Santos, secretária-geral da Associação de Ourivesaria e Relojoaria de Portugal (AORP). Por sua vez, Ângelo traça o perfil da nova geração, regra geral determinada a investir em marcas próprias e no design de autor e menos inclinada a integrar uma equipa.

No caso da ARPA, a ascensão de Alan como designer estrela pode muito implicar novas contratações. “Se continuar assim — e há meses que já nos preocupam — vamos ter de aumentar a equipa”, admite o gerente, que virou costas à banca para tomar conta do negócio da família. Os números tornam bem claro o efeito de Crocetti na balança da empresa. O trabalho estreito com o criador já resultou num aumento de 50% das exportações e representa atualmente 40% da faturação, que em 2019 chegou muito perto de um milhão de euros.

Joalharia portuguesa, um setor que vale 208 milhões em exportações

Há mais de três anos, Alan Crocetti instalou toda a produção em Portugal. Tendo a Europa como mercado primordial, o designer, responsável pela marca homónima, adotou assim uma estratégia de proximidade. Na última década, este setor português conquistou terreno internacional. Deixou de produzir quase em exclusivo para o mercado interno e viu as exportações aumentarem.

Entre 2015 e 2019, segundo contas da AORP, o setor viu o volume de exportações crescer cerca de 23%, atingindo, no ano passado, o valor recorde de 208,1 milhões de euros, embora tenha sido 2017 o ano de maior crescimento, com um salto superior a 12% face ao ano anterior. França, Hong Kong, Brasil e Itália surgem na lista dos principais mercados compradores de joalharia portuguesa. Contudo, a associação identifica uma taxa de exportação inferior à dos principais concorrentes europeus — Espanha, França e Itália.

Marcas de topo como a Cartier ou a Louis Vuitton têm produção em Portugal, um destino tendência também no que toca ao fabrico de joias. Fátima Santos diz que somos a “fábrica criativa da Europa”, realidade para a qual contribuem a capacidade de costumização e a ausência de uma produção massificada. O setor vale já mais de mil milhões de euros, segundo dados referentes a 2018 e, embora se esteja a ressentir com a pandemia, histórias como a que une a ARPA a Alan Crocetti permitem antecipar um futuro favorável à indústria portuguesa.

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