Os vencedores

Francisco Rodrigues dos Santos

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Há dois anos, no Congresso de Lamego, que deu 89,2% a Assunção Cristas, o “Chicão” da JP avisou: “Se algum dia tiver motivação e apelo para avançar para a liderança do CDS não peço autorização a ninguém”. O apelo, a motivação e, sobretudo, a oportunidade surgiram agora — e, de facto, Francisco Rodrigues dos Santos não pediu licença a ninguém. Ou, pelo menos, não pediu licença ao aparelho do partido nem aos herdeiros do “portismo”, que estavam há tanto tempo à frente do CDS que passaram a ser considerados como o “sistema” — deixaram de ser vistos como “nós” e passaram a ser vistos como “eles”. Os militantes não queriam a continuidade, nem queriam a mudança — queriam a ruptura. Francisco Rodrigues dos Santos prometeu essa ruptura, mas agora é preciso perceber até onde é que ela vai. O novo líder surgiu no radar por causa do discurso sobre as “guerras culturais”; suavizou o discurso durante a campanha, garantindo que não tinha só “ideias fracturantes”; na madrugada da vitória, preferiu falar sobre impostos e saúde; e, no discurso final, insistiu num alargamento de temas. De qualquer forma, o CDS que vai existir agora será muito diferente do que existiu até aqui.

[“Não seremos muleta de ninguém”. O primeiro discurso de “Chicão” como líder]

Filipe Lobo D’Ávila

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Nos últimos anos, tem conseguido ser a oposição que todas as lideranças gostam de ter: institucionalista (a palavra preferida dos centristas), equilibrado, respeitador. Durante a liderança de Assunção Cristas, deixou o grupo parlamentar e afastou-se do poder, o que lhe deu agora legitimidade para aparecer como uma possibilidade de sucessão. Fez questão de ir até ao fim e conseguiu 209 votos — 14,5%. No final da noite, com o Congresso tremendamente dividido depois do episódio dos apupos a Pires de Lima, mantinha ainda a esperança de ser eleito como a “terceira via” que construiria “pontes” entre Francisco Rodrigues dos Santos e João Almeida. Mas, tal como previsto desde o início, acabou preso na bipolarização. Mesmo assim, conseguiu um resultado que o tornou indispensável e, por isso, Francisco Rodrigues dos Santos convidou-o para seu primeiro vice-presidente. Se o novo líder quiser mostrar que a vontade proclamada de unir o partido é mesmo para levar a sério, terá que manter Filipe Lobo D’Ávila por perto.

Manuel Monteiro

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Ainda nem voltou ao partido e já está do lado vencedor num Congresso. Manuel Monteiro, o antigo líder da “jota” centrista que chegou à liderança do CDS com 29 anos, apoiou agora Francisco Rodrigues dos Santos, o líder da “jota” centrista que chega à liderança do CDS com 31 anos. Com o novo presidente, acaba o “veto de gaveta” que a anterior liderança tinha usado para atrasar o regresso ao partido de Manuel Monteiro, que abandonara o CDS em ruptura com Paulo Portas, padrinho político de Assunção Cristas. Como se vê, tal como acontece nas boas telenovelas venezuelanas, também aqui tudo se cruza para um final surpreendente.

Os vencidos

João Almeida

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Há uma frase antiga que se costuma usar para descrever a gestão de expectativas nos conclaves do Vaticano: “Quem entra Papa, sai cardeal”. João Almeida chegou a Aveiro com o apoio do aparelho, dos autarcas e dos notáveis — mas saiu de lá derrotado e traído. Derrotado por Francisco Rodrigues dos Santos, cuja moção teve mais 109 votos do que a sua. E traído por alguns dos seus apoiantes de véspera, que aceitaram colaborar com o novo líder, deixando João Almeida a falar em “mentira” e em “questões de carácter”. Mantém-se como deputado e não afasta a possibilidade de se candidatar novamente à liderança. Como outros antes dele, no CDS e em áreas adjacentes, vai andar por aí.

António Pires de Lima

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António Pires de Lima, qual cavaleiro andante, apareceu numa noite fria em Aveiro para defender João Almeida e dar uns ralhetes nos ‘pirralhas’ da ‘jota’. E confessou, com desprendimento pelo partido, que se não fosse para isso nem tinha vindo de Lisboa (uma maçada, a um sábado à noite). Deu até um passo em frente e sugeriu que, se o CDS escolhesse o pequeno-autoritário ‘Chicão’, o “até sempre CDS” que disse no fim do discurso poderia ser mais definitivo. O discurso foi instrumental e deu ânimo às tropas de João Almeida, mas, no fim do dia, era só um ex-ministro com história no partido, um gestor de referência, a dar-se à morte num Congresso com “jotas” e “jotinhas” em claque bem afinada. Foi apupado. Qual ‘avô CDS’, Pires de Lima não se importou com isso. Está noutra. Mas o ataque a Francisco Rodrigues dos Santos teve o efeito contrário: os apoiantes de ‘Chicão’ ainda se uniram mais em torno de um conflito geracional. Agora pode Chicão, que se irritou com o discurso, dizer: “Até sempre, António”.

Nuno Melo

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O primeiro vice-presidente de Assunção Cristas fez segredo até ao último momento sobre a quem iria dar apoio no congresso. Fê-lo com parcimónia e suspense, como se fosse decisivo. Não só o segredo era de polichinelo, como o apoio não foi fundamental. Melo passou de ser a alternativa interna a Cristas para ser quase um rosto da defesa de Cristas. O eurodeputado disse que só não se candidatava a líder porque não estava no Parlamento nacional, mas no partido muitos acharam que simplesmente não queria abdicar do ‘exílio’ político em Bruxelas. A prova de que não quer estar muito envolvido na vida do partido é que, antes da votação, disse logo que não faria parte da futura direção (incluindo a de João Almeida, que apoiava). Deixou uma indireta a Francisco Rodrigues do Santos, dizendo que era o melhor para liderar a Juventude Popular, sugerindo que ainda não tinha estofo para ser líder do CDS. Melo falou em último na sua moção, mas foi ‘Chicão’ quem ficou a rir: o jovem de 31 anos chegou a líder do CDS antes de Melo, que nunca ousou avançar contra Cristas. O eurodeputado sai assim mais enfraquecido e com menos perspetivas do que saiu há dois anos, no Congresso de Lamego.

Assunção Cristas

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“Boa noite e bom descanso”. Quando, na noite de 6 de outubro, Assunção Cristas desceu as escadas da sede do CDS no Caldas em direção ao carro parecia aliviada, embora com um ar pesaroso. A derrota fora estrondosa: tornara-se a “senhora quatro por cento”. O que Cristas não imaginava é que, mesmo já tendo apresentado a demissão, ainda teria de enfrentar mais derrotas. O resultado de Cristas foi tão mau que deixou feridas abertas e arrastou consigo os membros da sua direção e deu cabo da credibilidade dos últimos anos do portismo. João Almeida, que podia ser um candidato vencedor noutro contexto, tinha como grande handicap na campanha ser o porta-voz de Cristas e não mais conseguiu tirar isso da pele. Mesmo sem ir a votos, Cristas perdeu. Foi aplaudida sem entusiasmo na despedida, onde fez um mea culpa pelos resultados. Pior: um meia-culpa. Isto porque fez questão de dizer aos congressistas que eles aprovaram a estratégia que ela seguiu, porque a aprovaram em congresso, como se todos fossem responsáveis pela foto da crise dos professores ou pelo arroz de atum no “Programa da Cristina”. Aquela que há dois anos foi apresentada como a “futura primeira-ministra de Portugal” saiu pela porta pequena do congresso.

O ausente

Paulo Portas

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Pela primeira vez em mais de 20 anos, Portas deixou de ser um ativo no CDS. Com a queda de Cristas e dos seus mais próximos, caiu também uma parte do neo-‘portismo’. Em congressos anteriores, o ex-líder aparecia com uma aura de “Papa” centrista e — mesmo em Lamego, onde não esteve presente — enviou um vídeo. Eram só aplausos, saudosismo. Este é o congresso da irrelevância de Portas, mas também da derrota indireta. Se Portas tivesse um candidato, esse candidato seria João Almeida. O CDS de Portas é o de Pires de Lima e Adolfo Mesquita Nunes, não é o de ‘Chicão’ e muito menos o de Monteiro. Se mais provas não existissem sobre a forma como Portas não conta (neste momento) para o partido, fica um pequeno sinal: o nome de Manuel Monteiro foi dito mais vezes no palanque do que o de Paulo Portas. A feira do Paulinho já não vende sucessores como antigamente e o best seller foi mesmo Rodrigues dos Santos (o político).