Este artigo foi originalmente publicado a 28 de julho de 2016. O Observador republica-o a propósito da entrega do Prémio Nobel da Literatura a Bob Dylan. Pode ler a notícia aqui.

Monday Monday, so good to me, monday morning, it was all I hoped it would be

“Monday Monday”, The Mamas and The Papas

A canção dos Mamas and The Papas estava no topo das listas de vendas nos Estados Unidos e era das que passava com mais frequência nas estações de rádio. A revolução na música pop e rock tinha iniciado uma marcha imparável no ano anterior e, em dezembro de 1965, sob a liderança de Lyndon Johnson, a Casa Branca enviara o primeiro contingente militar para o Vietname, uma decisão que iria envolver o país no longo conflito que inspirou muitos dos temas mais marcantes da música popular norte-americana durante a segunda metade dos anos 1960.

Para fúria dos fãs mais puristas, Bob Dylan tinha largado a guitarra acústica e optado por ligar as canções à eletricidade. O folk rock estava a caminho. Com escândalo, mas para ficar. Tal como o psicadelismo, alimentado pelas primeiras experiências com LSD e pelo fascínio com os sons que chegavam da Índia. Os amores adolescentes, as festas e a celebração do surf, que caracterizaram os anos iniciais da carreira dos Beach Boys, não iriam desaparecer das letras das canções. Mas os alvos do interesse de quem as escrevia e compunha alargavam-se. Dylan estava por trás desta mudança, que até tinha atingido os Beatles.

Pelo final de 1965, os fab four tinham lançado Rubber Soul, o primeiro diamante no ciclo de vida dos Beatles em que a banda soube explorar da forma mais eficaz os talentos para a composição. Cansados das digressões consecutivas, convictos de que estavam a tocar cada vez pior porque os gritos das audiências os impediam de escutar os instrumentos, John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr queriam estar mais tempo em estúdio, a compor e a experimentar. Deram início ao período mais inovador na carreira da banda de Liverpool.

Foi, precisamente, aquele álbum que acabou por fazer disparar um clique na mente de Brian Wilson, a alma conturbada dos Beach Boys que, retirado dos palcos, se tinha isolado dos restantes membros da banda. Objetivo? Inventar material destinado a integrar um novo álbum. Uma obra que tinha de bater o que os Beatles haviam conseguido.

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A capa de “Pet Sounds”. Uma fotografia dos Beach Boys tirada no Jardim Zoológico de San Diego.

Bob Dylan, o homem que cantava pelo nariz, que sabia interpretar os poemas que escrevia, mas que mal conseguia entoar uma melodia, e a banda californiana, que apostava nas cuidadas harmonias vocais como principal marca distintiva, tinham pouco em comum.

O cinismo e a acidez de Dylan contrastavam com a ingenuidade e a leveza festiva dos Beach Boys. Mas aquela segunda-feira, 16 de maio de 1966, ficaria para a história como o dia em que ambos iriam ficar unidos pela coincidência de terem lançado álbuns históricos. Pet Sounds e Blonde on Blonde disputaram as atenções e, com a passagem do tempo, consolidaram o estatuto de obras maiores na história da música popular do século XX. Não há lista dos melhores discos de sempre que não os inclua. Qual foi o segredo?

Brian Wilson e um instrumento chamado “estúdio”

No arranque dos anos 1960, uma banda chegava ao estúdio e, regra geral, gravava as canções como se as estivesse a tocar em frente a uma audiência. Embora pudesse repetir, take após take, até atingir a versão considerada “perfeita” para ser editada em disco e sujeita ao julgamento público, sabia que o tempo era limitado. E as pistas de gravação também. Aquilo que se pedia aos músicos era, acima de tudo, rapidez e eficiência. Convinha que tudo viesse já ensaiado. Pelos meados da década, houve mudanças. Os músicos e as bandas mais lucrativas começaram a conseguir encontrar condições para trabalhar com mais profundidade. As editoras começaram a perceber que mais tempo podia significar mais dinheiro.

Rubber Soul constituía um bom exemplo daquilo que era possível melhorar, desde que houvesse condições. A começar pelo tempo. Quando escutou o disco dos fab four, Brian Wilson ficou pasmado. Descobriu no sexto álbum dos Beatles um fio de coerência entre as canções que o integram. Já não se tratava de uma coleção de potenciais singles, mas de um todo consistente. “As canções casavam-se de uma forma que nenhum álbum tinha conseguido antes”, recordou anos mais tarde. A conceção de Pet Sounds começou aqui.

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Brian Wilson não era um animal de palco. A carga das atuações ao vivo começou a provocar-lhe ataques de pânico. Até que foi dispensado de integrar a banda durante os concertos. Enquanto os companheiros cumpriam contratos, Wilson resguardou-se num canto e dedicou-se à composição e aos arranjos. Primeiro, de volta de um tema tradicional, “Sloop John B”. Depois, com a intenção de fazer um álbum tão consistente quanto Rubber Soul. Sem a intenção de copiar, mas de criar algo que fosse tão bom quanto aquilo que tinha escutado pela mão de Tony Asher, o produtor de jingles publicitários que lhe prestou colaboração em Pet Sounds e que lhe deu a conhecer, em primeira mão, o disco que o impressionou ao ponto de o considerar como um “desafio”.

Os temas que compôs e as gravações que foi fazendo representavam um choque frontal com tudo o que os Beach Boys tinham realizado antes. Os membros da banda resistiram, mas acabaram por ser convencidos de que o disco que se seguia na sua carreira não era o primeiro álbum a solo de Brian Wilson. O intimismo tomava conta do lugar que tinha sido ocupado pela frescura inocente e extrovertida dos temas que tinham conduzido a banda à fama. Mais importante, o músico decidiu recorrer a meios menos ortodoxos. Para Wilson, às canções que inventou já não chegavam as guitarras. Era preciso sublinhar os contornos e acentuar as subtilezas com flautas e cravos. Ou simples latas de Coca-Cola.

Bob Dylan e um instrumento chamado Nashville

Bob Dylan não sofreu dos problemas que afetaram Brian Wilson. O membro dos Beach Boys não queria aparecer em palco. Dylan não recusava surgir ao vivo e utilizava as atuações para lançar provocações e baralhar quem o seguia como se fosse o Messias dos anos 1960. Pelo final da década, até estava farto de aturar os seguidores que queriam que protagonizasse a liderança de uma geração. Iam bater-lhe à porta de casa, em Woodstock. Expulsava os intrusos porque apenas pretendia ser pai de família e fazer a música que lhe desse na gana.

Na carreira de Dylan, 1965 foi o ano em que pegou na guitarra elétrica e decidiu fazer a ponte entre folk e rock. Editou dois álbuns grandes, Bringing it all Back Home e Highway 61 Revisited, este último o disco que arranca com aquela que já foi classificada como a melhor canção de sempre, Like a Rolling Stone. Bob Dylan tinha algo mais para dar? Tinha. E Blonde on Blonde foi a prova.

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A capa de “Blonde on Blonde”, com um retrato de Bob Dylan, realizado por Jerry Schatzberg no Meat Packing District, em Nova Iorque.

Durante os meses que antecederam a gravação do álbum, Dylan tinha tocado na companhia dos Hawks, mais tarde celebrizados sob o nome The Band, grupo que o acompanhou durante um dos períodos mais estimulantes da longa carreira. Era uma banda que trazia muita rodagem, tinha acompanhado Ronnie Hawkins, e o guitarrista, Robbie Robertson, era pouco menos do que uma força da Natureza. Entre o final de 1965 e o arranque do ano seguinte, Bob Dylan esteve em estúdio a gravar com os Hawks, mas o trabalho não correu de acordo com os desejos. Bob Johnston, o produtor das sessões, percebeu que as coisas não estavam a chegar a lado algum e sugeriu uma mudança de ares, de Nova Iorque para Nashville, a capital da música country.

Foi nesta cidade que Bob Dylan, entre concertos intercalados com períodos em estúdio, com a colaboração de músicos de Nashville com provas dadas, foi elaborando o material que integraria Blonde on Blonde. Brian Wilson procurava a canção pop perfeita, enquanto Dylan se dedicava a aperfeiçoar a capacidade para observar a realidade, transpor o seu olhar para as letras, criar melodias simples e, também, encontrar formas novas de apresentar os temas aos seguidores, com arranjos mais elaborados do que aqueles que tinham marcado as primeiras gravações, em que a guitarra acústica, a harmónica e a voz eram o que bastava.

Como desbravar novos caminhos sem largar as raízes

Os resultados dos esforços de Bob Dylan e de Brian Wilson são bem diferentes, ambos entram por novos caminhos, mas nenhum dos músicos corta as amarras que os prendem às raízes. A primeira faixa de Blonde on Blonde, um álbum duplo na edição original, proclamava “everybody must get stoned”, em cadência de marcha etilizada, que, com a secção de sopros a sublinhar o tom irónico, podia muito bem ter sido registada numa rua do bairro de Storyville, em Nova Orleães.

Em Pet Sounds, tudo começa de forma diferente, numa fusão entre os velhos êxitos e o novo rumo, mas ainda com o otimismo que caracteriza as sequências de acordes maiores. “Wouldn’t it be Nice” já não era uma canção para colocar no gira-discos e desatar a dançar. As variações indicavam que se tratava de música para escutar e sonhar, mas também para refletir. Os anos 1960, na segunda metade, estavam a ficar um assunto demasiado sério para se achar que não faltariam pretextos para fazer festas.

O álbum dos Beach Boys é um desfile de canções melodiosas, irresistíveis e imortais. A inocência fica para trás, com as dúvidas e os receios que acompanham a mudança em “That’s not Me” ou, mais explicitamente, em “I Just Wasn’t Made for These Times”. E, depois, num ano em que a banda ainda iria lançar, em single, o tema “Good Vibrations”, Brian Wilson legou para a História “God Only Knows”, uma das mais belas canções de amor de que há memória.

Para Dylan, o caminho é diferente. A pop e a busca pela melodia perfeita não eram motivos para o arrancar da cama. Mas os blues, a folk, a country e o rock já eram outra questão. É a partir da fusão de tudo isto que constrói Blonde on Blonde, com tempo para semear pérolas como “Visions of Johanna”, “Fourth Time Around” ou “Sad-eyed Lady of the Lowlands”, além de clássicos como “Stuck Inside of Mobile with the Memphis Blues Again”.

O que ficou destes dois discos? Inspirados pelos Beatles, Brian Wilson e companhia causaram forte impressão na banda britânica. De tal forma que os fab four só descansaram quando conseguiram editar Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Quanto a Bob Dylan, à distância acabou por afirmar que o som que sempre imaginou para as suas canções é aquele que conseguiu fabricar em Blonde on Blonde. O disco de Dylan é o nono na lista dos 500 melhores de sempre elaborada pela revista Rolling Stone, enquanto a obra dos Beach Boys surge no segundo posto. Isto é, 16 de maio de 1966 foi um dia de ouro na história da música.