Qual é o segredo para tanto sucesso? Os alunos de Barroselas explicam num vídeo

03 Fevereiro 20181.661

Um quadro no meio da escola; uma câmara de filmar; um vídeo onde os alunos explicam o que fez a Escola Básica e Secundária de Barroselas para ter chegado ao primeiro lugar do ranking de sucesso.

[Veja no vídeo o que os alunos de Barroselas escreveram no quadro]

David Queirós, aluno do 12º ano e presidente da Associação de Estudantes, passou de uma média de 15,5 no 10º ano para um 17 dois anos depois. Rita Barbosa, também aluna do 12º ano, passou de uma média 12 no 10º ano para um 15 no 11º. Catarina Portela, aluna do 11º ano, passou de um 12 para um 15 a Matemática. Tal como está a acontecer com estes três estudantes, no ano letivo de 2016/17 muitos outros alunos da Escola Básica e Secundária de Barroselas chegaram ao fim do secundário com resultados melhores do que aqueles com que entraram no 10º ano. E é por isso que esta escola com 465 alunos, no concelho de Viana do Castelo, está no topo do ranking dos percursos diretos de sucesso, à frente de todas as escolas privadas.

Ao contrário do ranking tradicional — aqui a escola está em 373º lugar —, dominado nos primeiros lugares pelas escolas privadas e que tem em conta apenas as notas que os alunos tiveram nos exames nacionais, o ranking do sucesso reflete a evolução dos alunos do secundário. Ou seja, esta não foi a escola cujos alunos tiveram as melhores notas nos exames nacionais, mas foi aquela na qual os estudantes mais evoluíram do 10º para o 12º ano. 75% dos alunos não chumbaram ao longo dos três anos e tiveram positiva nos dois exames das disciplinas trienais. E a escola está 33,8 pontos percentuais acima da média nacional, quando comparada com outras escolas que tenham o mesmo perfil de alunos.

A Escola Básica e Secundária de Barroselas não foi a escola cujos alunos tiveram as melhores notas nos exames nacionais, mas foi aquela na qual os alunos mais evoluíram do 10º para o 12º ano

“A minha melhor memória desta escola é…” A frase, escrita num dos quadros por baixo de um telheiro na Escola Básica e Secundária de Barroselas, provoca alguma estranheza àqueles que por ali passam. Há quem pare para observar e perguntar o que se passa, mas a maioria limita-se a olhar de relance e a continuar o seu caminho, assim que repara na câmara instalada de frente para o quadro.

Lucas Cruz, aluno do 11º ano, avança sem medo para o quadro, depois de lhe ser pedido para escrever qual a sua melhor memória. Escreve “as amizades que saíram desta escola, mas que continuam para a vida” — amizade e amigos foram as palavras mais escritas pelos alunos. Mas não são só os amigos e o (bom) ambiente da escola que este adolescente de 16 anos destaca, são também os professores. “São muito acessíveis quando nós precisamos.”

Ninguém se atreve a chegar perto do quadro, mas Lucas rapidamente angaria mais alunos, trazendo-os da associação de estudantes. A pequena sala junto à cantina, onde os jovens estão a jogar matraquilhos e a conversar, tem uma janela virada para os quadros, mas o aparato parece não os atrair. Vão avançando a passo lento e de mãos nos bolsos, e quando finalmente chegam ao destino mostram-se hesitantes. Não é fácil levá-los a pegar nos giz, colocado estrategicamente por baixo do quadro. Mais entusiasmados ficam os mais novos, que não se coíbem de desenhar e escrever nos dois quadros ao lado “I love Barroselas”, “Eu gosto de aprender na minha escola de Barroselas” ou “A escola é muito ‘importate’”.

"É uma coisa que vai ficar sempre na minha memória, porque sinto-me acarinhada pelos funcionários e pelos professores"
Diana Oliveira, aluna do 11º ano

“Tenho de pensar”, argumentam as amigas Diana Oliveira e Diana Costa. “Podes escrever o meu nome”, responde Lucas, entre risos. Uma situação que se repete ao longo de toda a manhã. Muitos chegam em grupo, mas mantêm-se imóveis de frente para o quadro, ou a rirem-se timidamente com os amigos, ou a olhar para chão para evitar qualquer troca de olhares.

Depois de algum tempo, Diana Oliveira escreve “relações interpessoais”, referindo-se às relações entre os professores, funcionários e alunos. “É uma coisa que vai ficar sempre na minha memória, porque sinto-me acarinhada pelos funcionários e pelos professores”, explica a aluna do 11º ano.

Prova dessa relação próxima é a naturalidade com que os alunos chamam os professores que vão passando. Alguns dos docentes procuram mesmo incentivar os alunos a escrever no quadro. “Vai lá senão fazes 20 flexões de braços”, brinca uma professora de educação física, enquanto puxa uma das alunas pelo braço. “É como se fossem mesmo uma segunda família: os professores conhecem-nos, os funcionários passam por nós e sabem o nosso nome, os professores sabem o nosso nome e somos valorizados. Toda a gente se preocupa connosco”, acrescenta Diana.

Ao fim de alguma hesitação, há quem finalmente se aventure até ao quadro verde

Raquel Palma, funcionária da escola há 20 anos e coordenadora dos assistentes operacionais há um ano, não esconde o sorriso ao saber destas palavras. “A função do assistente operacional acima de tudo é ter a profunda vontade de amar e educar. Todos nós, auxiliares aqui na escola, tratamo-los quase como se fossem nossos filhos, às vezes”, conta Raquel, acrescentando que todos os funcionários procuram ajudar os alunos nas suas dificuldades e problemas, tanto em casa como na escola. “Sinto que o meu trabalho é útil porque ajudo na formação daqueles jovens.”

Também Duarte Rodrigues, “recrutado” para participar neste desafio a meio de uma aula de educação física, destaca o facto de os alunos serem tratados pelo nome pelos professores e é isso que mais gosta na escola. “O facto de nos darmos bem com todos os professores e podermos falar com eles a qualquer momento, dá para esclarecer dúvidas. Mesmo quando estamos em casa, mandamos um email para os professores e eles esclarecem as dúvidas na hora, e acho que é importante para ter mais sucesso nos testes.”

E a verdade é que os resultados estão à vista. Para Rita Barbosa, aluna do 12º ano, que passou de uma média de 12 no 10º ano para 15 no 11º, haver poucos alunos nas aulas é outro dos fatores que contribui para aumento das notas. A escola de Barroselas tem apenas uma turma de 10º ano com 26 alunos, que inclui ciências e tecnologia e línguas e humanidades, uma turma de 11º com 19 alunos e outra de 12º com 17 alunos, ambas de ciências e tecnologia. “Faz diferença, porque quando [as turmas] são mais pequenas, os professores têm mais tempo para nós. Se fosse maior a turma, tinham de se dispersar mais pelos alunos e se calhar não iriam explicar tanto.”

"Faz diferença, porque quando [as turmas] são mais pequenas, os professores têm mais tempo para nós. Se fosse maior a turma, tinham de se dispersar mais pelos alunos e se calhar não iriam explicar tanto"
Rita Barbosa, aluna do 12º ano

Mas a frase escrita por Duarte no quadro prende-se mais com uma das atividades extracurriculares da escola: o clube de robótica. “Esta escola tem muitos clubes. É bom ter aulas, mas também é bom ter outras áreas que poderão ser úteis no futuro. Em termos de currículo, às vezes faz a diferença.” O sucesso deste clube — a escola tem ainda o de aeromodelismo, de filatelia, das artes plásticas, além do desporto escolar — é visível através dos vários prémios dispostos num armário em vidro junto à sala dos professores.

Turmas pequenas, dois professores por turma e aulas de apoio

Também Carla Fernandes, adjunta da direção, sublinha que, nos clubes, os alunos têm a possibilidade de aplicar alguns dos conhecimentos que adquirem nas disciplinas. “É uma atividade que, principalmente os rapazes, gostam imenso e aderem muito.” Esta professora é também a pessoa responsável pelo Plano de Ação Estratégica da Promoção do Sucesso Escolar, que foi traçado pela escola para o ano letivo anterior e que continua este ano, no âmbito do Programa Nacional da Promoção do Sucesso Escolar, para promover a evolução dos alunos, “partindo das dificuldades” dos alunos e do “contexto da escola”.

“São medidas em que definimos objetivos e metas para tentar promover o sucesso escolar e que tiveram a ver com o primeiro ciclo, segundo ciclo e secundário”, explica. “Tentamos ter o máximo de cuidado com os alunos de secundário.” Uma dessas inovações é a “disponibilização de apoio pedagógico acrescido a todas as disciplinas específicas”: Português, Matemática, História A, Biologia e Físico-Química, consoante a área dos alunos.

A Escola Básica e Secundária de Barroselas tem 465 alunos

Estes apoios, 45 minutos por disciplina, ocorrem por norma durante uma tarde por semana e excecionalmente ao final do dia. “Nos apoios há alunos que são designados pelos professores devido às suas dificuldades, mas normalmente e especialmente no secundário, os professores abrem o apoio a todos os que queiram tirar dúvidas, melhorar, fazer mais exercícios. Há muitas turmas em que vão mesmo todos os alunos ao apoio.”

Outra das medidas é o “desdobramento do português e do inglês”, isto é, num dos blocos de 90 minutos de aula metade da turma está a ter aula de português e a outra metade de inglês, permitindo uma “promoção da oralidade e da promoção escrita.” “Temos também outra medida que tem a ver com oficina da filosofia, em que os alunos podem ir voluntariamente e têm um reforço na parte da filosofia.”

A escola de Barroselas fez ainda um reforço para colmatar os problemas com a matemática. “No ano passado conseguimos que estivessem duas docentes no apoio de matemática e também ao nível da sala, em coadjuvação. Ou seja, tivemos sempre duas professoras de matemática no secundário”, refere Carla Fernandes. Este ano, no entanto, só foi possível ter dois professores de matemática durante as aulas e não nos apoios.

“Não se abandona os alunos”

Mas há um entrave com que se depara o Agrupamento de Escolas de Barroselas — que inclui ainda a EB1JI de Carvalhos-Carvoeiro, o Centro Escolar de Barroselas, o Centro Escolar de Mujães e a EB1 de Vila de Punhe — ainda antes da entrada dos alunos para o secundário. “De facto, nós temos um problema no agrupamento que é prender os alunos aqui no secundário, porque eles têm muita tendência de ir para Viana [do Castelo], para as escolas da cidade.” Esta ida dos adolescentes dá-se porque a escola não só não tem uma oferta de curso profissional, como não tem todas as áreas do secundário, uma vez que não há número suficiente de alunos para abrir uma turma. Ainda assim, mesmo com esta oferta curricular, não é fácil convencer os alunos a manterem-se num meio mais pequeno. “Muitos amigos queriam ir para Viana para estar numa escola maior, estar na cidade, ir ao shopping”, explica Diana Oliveira.

“Tendo-os cá, lutamos por eles. Fazemos tudo o que está ao nosso alcance para tentar acompanhá-los e para que eles tenham um percurso de sucesso“, argumenta Carla Fernandes. E percurso de sucesso tem mais a ver com as notas do que propriamente com a transição de um ano para o outro. “Tínhamos algumas dificuldades, não ao nível das taxas de sucesso, mas ao nível da qualidade do sucesso. Todas estas medidas foram mais até para conseguirmos aumentar a qualidade do sucesso e a transição dos alunos com sucesso pleno, sem negativas.”

Um esforço que começou ainda antes deste plano de ação, mas que foi reforçado. “É o empenhamento de toda a uma comunidade educativa, o esforço dos professores, dos funcionários, da direção, no intuito de promover espaços de aprendizagem enriquecedores”, explica a diretora Teresa Almeida, que também refere a “relação de proximidade e de compromisso” entre alunos e professores.

A diretora Teresa Almeida espera que as obras às instalações da escola comecem nas férias da Páscoa

Cada professor conhece os alunos, conhece a história dos alunos e os contextos de aprendizagem são circunstanciados nesse compromisso com o sucesso. Não se abandona os alunos.” Para a diretora, os professores “são a alma e o motor das escolas”. “ Nós temos sentido muitos constrangimentos e, pese embora os constrangimentos que temos sentido, os professores continuam a ser essa imagem de esperança e a marca distintiva na vida dos alunos.”

Há algo, porém, que os alunos de Barroselas gostariam de ver melhorado: as instalações. Teresa Almeida assume esses problemas, em particular no que toca a infiltrações. “Continua a chover dentro das salas de aula e na cantina. No ginásio, quando chove, torna-se impraticável, os alunos não podem ter aula de educação física.” A diretora espera que as obras às instalações comecem já nas férias da Páscoa.

Texto de Rita Porto, fotografia de João Porfírio, vídeo de André Carrilho, edição vídeo de Raquel Sá Martins.
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