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Quanto vale a cabeça de um cartoonista?

O mercado andava letárgico há muitos anos, mas ultimamente as cotações estão em alta – ser cartoonista voltou a ser uma profissão de risco

Os que entendem que existem limites para a liberdade de expressão e que esta termina quando alguém se sente ofendido diriam que Louis Raemaekers “estava mesmo a pedi-las”.

Os seus cartoons eram tão ferozes e certeiros que os seus alvos ficaram abespinhados e começaram a exercer fortes pressões sobre o governo do seu país. Este, intimidado, chegou a confiscar ao desenhador alguns cartoons considerados demasiado ofensivos, e o ministro dos Negócios Estrangeiros, que lutava por fazer o país passar despercebido no meio do tumulto da política internacional e via, horrorizado, os cartoons de Raemaekers serem reproduzidos e comentados pelo mundo fora, convocou o desenhador e o director do jornal onde publicava para uma reunião, em que pediu que fossem evitadas piadas provocatórias.

O pedido não surtiu efeito e o governo levou Raemaekers a tribunal por colocar o país em perigo, mas o cartoonista foi absolvido. Os alvos dos cartoons, espumando de raiva, colocaram a cabeça do cartoonista a prémio, por uma gorda maquia, e foi então que Raemaekers julgou prudente mudar-se para um país mais seguro – mas não deixou de disparar contra os seus alvos de sempre. Apesar desta perseguição, Raemaekers escaparia ileso e só morreria, quatro décadas depois destes acontecimentos, de morte natural, aos 87 anos.

Raemaekers não era cartoonista da revista francesa Charlie Hebdo nem do jornal dinamarquês Jyllands-Posten, nem representou Maomé como um cão, como fez Lars Vilks. Publicava no jornal De Telegraaf, de Amesterdão, e o alvo da sua pluma acerada não era o fundamentalismo islâmico – era a Alemanha do Kaiser Guilherme II. Os acontecimentos acima descritos tiveram lugar há cerca de um século – naquele que foi o período em que os cartoonistas tiveram mais poder em toda a história dos media.

13 fotos

 

Se os cartoons tendem, pela sua natureza, a ser agressivos – um cartoon sem malevolência é tão inofensivo e lamentável como um lobo sem dentes – em período de guerra os cartoonistas deixam cair os pruridos e apelam, por vezes, aos piores instintos das massas. Na I Guerra Mundial os cartoons tiveram uma difusão nunca vista, multiplicando-se nas publicações satíricas e na imprensa generalista e desempenhando papel decisivo na formação da opinião pública.

Os maiores excessos vieram da imprensa francesa, sobretudo quando explorou as atrocidades alemãs na Bélgica. Efectivamente, em 1914 as tropas alemãs cometeram crimes de guerra contra a população civil belga, mas o empolamento que a imprensa fez do caso foi delirante, propalando boatos de que os alemães, por sistema, fuzilavam e crucificavam civis, praticavam violações em massa e decepavam as mãos das crianças. Alguns cartoonistas, inflamados pelos boatos que circulavam e que em cada elo da cadeia de transmissão se acrescentavam de mais um detalhe cruel e rebuscado, entraram no campo do gore, produzindo cartoons que mesmo os jornais mais empenhados em atear a cólera popular se abstiveram de publicar – foi o caso de Adolphe Willette, que, perante a rejeição dos seus cartoons, fez publicar o seu caderno de esboços (uma galeria de atrocidades) em edição fac-similada, sob o título Sans Pardon.

Na I Guerra Mundial os cartoons tiveram uma difusão nunca vista, multiplicando-se nas publicações satíricas e na imprensa generalista e desempenhando papel decisivo na formação da opinião pública.

O afundamento por submarinos alemães de navios mercantes e de passageiros (com relevo para o Lusitania) e de navios-hospital, bem como o bombardeamento de civis britânicos por zeppelins, aviões e navios alemães (que, numa ocasião, fizeram uma pouco heróica surtida contra pacatas estâncias balneares inglesas) foram outros temas favoritos dos cartoons aliados.

Outro caso que suscitou uma torrente de cartoons foi o julgamento e fuzilamento, na Bélgica ocupada pelos alemães, da enfermeira britânica Edith Cavell, por ter auxiliado a fuga de 200 prisioneiros de guerra aliados. Nem o facto de Cavell ter prestado assistência, indiscriminadamente, a feridos aliados e alemães, nem os pedidos de clemência demoveram as autoridades militares alemãs – que acabaram por criar uma mártir a que os cartoons deram projecção universal.

Louis Raemaekers1915

Cartoon de Louis Raemaekers de 1915: a enfermeira-mártir Edith Cavell “atirada aos porcos”

 

Compreende-se que a imprensa alemã tenha sido mais moderada, já que a Alemanha fora o agressor, algo que a propaganda oficial tentou sempre disfarçar ou minimizar, apresentando a guerra como a reacção inevitável de uma Alemanha cercada de inimigos e conspirações. As atrocidades cometidas na Bélgica e os ataques a navios de passageiros, habilmente ampliados pela propaganda aliada, acabaram por forçar a que, durante boa parte do tempo, a propaganda alemã jogasse à defesa. Não tendo pretextos para representar os Aliados como bestas bárbaras, apostou na outra grande vertente do cartoon de propaganda: a ridicularização do adversário (Churchill é um asno exausto, sentado numa cama, depois de ter despido o seu disfarce humano e suspira “Não é fácil fazer de Ministro da Marinha todo o dia”).

Os cartoons germânicos parecem mostrar que, mais do que a Grã-Bretanha ou a França, o inimigo mais detestado era a Itália, a quem os alemães não perdoavam a traição de ter abandonado a Tríplice Aliança, com a Alemanha e a Austro-Hungria, para se juntar à França e Grã-Bretanha. O lado mais venenoso da propaganda alemã foi a vertente racista, tirando partido da diversidade étnica dos Aliados (e esquecendo, convenientemente, que o Império Otomano lutava ao lado da Alemanha). A presença na frente europeia de tropas coloniais britânicas e francesas serviu de pretexto para agitar o espectro do negro selvagem, simiesco e cruel (um tema que a propaganda alemã recuperaria na II Guerra Mundial, tendo desta vez como alvo o negro americano).

Kladderadatsch

A ironia em forma de racismo na revista alemã Kladderadatsch, de 1916: as tropas coloniais francesas como representantes da “Europa civilizadora”

 

É revelador comparar o registo gráfico dos cartoons da I Guerra Mundial com os que dominam os media de hoje: o cartoon do início do século XX é muito mais elaborado e realista e a maioria dos desenhadores revela um sólido métier gráfico, enquanto os cartoons de hoje tendem para a estilização e depuração, privilegiando a eficácia comunicacional e o impacto (o que também se explica por o leitor de jornais dos nossos dias ter o seu tempo e atenção divididos por inúmeras solicitações). Em muitos dos cartoons actuais o desenho está reduzido à expressão mínima e há cartoonistas respeitados que, mesmo após décadas de prática, continuam a exibir o mesmo traço incipiente e esquemático. A ênfase deslocou-se claramente da “forma” para a “mensagem”.

Em termos estritamente artísticos, é na imprensa germânica que se encontram as peças com desenho mais sofisticado, com preferência por figuras magras e angulosas. As revistas satíricas Simplicissimus e Kladderadatsch, em particular, contavam com soberbos desenhadores e, no caso do primeiro, com um design moderno e eficaz. Antes da guerra, os alvos da Simplicissimus tinham sido o Kaiser, que motivara a suspensão da revista, e o clero, o que determinou a prisão do editor, mas a guerra e o consequente fervor patriótico moderou-lhe o carácter iconoclasta.

O bombo-da-festa da imprensa aliada era, claro, o Kaiser, que era convertido em bárbaro, carniceiro, abutre ou cúmplice do diabo – ou seu rival, já que, num cartoon americano, o Maligno se queixa ao Kaiser: “Os tempos estão difíceis, Alteza – vós deixai-nos sem nada para fazer.” O imperador austro-húngaro Francisco José, sempre representado como velho gagá, e o príncipe herdeiro alemão Wilhelm, um militarista de opereta viciado na pilhagem, também eram vítimas predilectas do humor aliado, tal como a figura alegórica Germania, uma valquíria obesa, glutona e boçal, que, num cartaz francês, surge sentada a uma mesa para a qual uma multidão de serviçais (os povos europeus) faz convergir uma incessante corrente de vitualhas, sob a vigilância feroz de um soldado alemão empunhando um chicote – “O objectivo da Germania: empanturrar-se.” Nalguns casos, a propaganda citava a história da Arte: o Kaiser toma o lugar de um dos cavaleiros do Apocalipse na célebre gravura de Dürer, os líderes das Potências Centrais são os cegos em Os cegos guiando os cegos, de Brueghel O Velho.

A Alemanha ofereceu 12.000 florins (uma fortuna, pelos padrões de então) pela cabeça de Louis Raemaekers, vivo ou morto, o que fez o cartoonista trocar a Holanda (que se esforçava por manter-se neutra) pela Grã-Bretanha.

Mesmo neste ambiente de guerra gráfica sem quartel, o holandês Louis Raemaekers (1869-1956) destacava-se pela sanha anti-germânica e pelo humor perfurante e de elevado poder destrutivo. Mas as manobras alemãs para o silenciar revelaram-se contraproducentes: após a absolvição no julgamento em que era acusado de “ameaçar a neutralidade holandesa”, a Alemanha ofereceu 12.000 florins (uma fortuna, pelos padrões de então) pela sua cabeça, vivo ou morto, o que fez Raemaekers trocar a Holanda (que se esforçava por manter-se neutra) pela Grã-Bretanha.

A partir daqui continuou a bombardear o Kaiser com o seu vitríolo e as exposições com as suas obras foram vistas por multidões na Grã-Bretanha e na Europa continental. A Wellington House, a agência de propaganda britânica, atribuía um poder tal aos cartoons de Raemaekers que o enviou aos EUA, que tinham acabado de entrar na guerra ao lado dos Aliados, na esperança de que tivesse poder para galvanizar a opinião pública norte-americana para o esforço de guerra.

Cartoon de Louis Raemaekers de 1918: a Morte apresenta a conta ao Kaiser

 

Raemaekers fez uma digressão triunfal pelos EUA e os direitos de reprodução dos seus cartoons foram adquiridos pelo magnata da Imprensa William Randolph Hearst, tendo chegado a ser publicados em mais de 2000 jornais. Compreende-se o incómodo dos alemães quando se vêem os cartoons de Raemaekers: ele sabia mesmo bater onde dói mais. No fim da guerra, Raemaekers senta o Kaiser à mesa de um restaurante, arregalando os olhos, estarrecido, perante a extensa conta que lhe é apresentada pelo empregado de mesa – que não é outro senão a Morte.

Henry Perry Robinson, que fez a cobertura da I Guerra Mundial para o diário londrino The Times e foi um dos mais destacados jornalistas do seu tempo, considerou Raemaekers uma das seis figuras mais decisivas da I Guerra Mundial.

foto Raemaekers

Foto de 1917 do cartoonista holandês Louis Raemaekers

 

A relevância da imprensa é hoje uma sombra da que era em 1914 e, inerentemente, o cartoon (como a ilustração e a banda desenhada, que lhe faziam companhia nas páginas dos jornais e revistas) também deixou de merecer a atenção das massas. Os chefes de Estado e de Governo também já não levam a peito que os cartoonistas de outros países os retratem de forma ignóbil – a chanceler Merkel, que tem sido retratada amiúde na imprensa da Europa meridional como uma nova (mas igualmente obesa e odiosa) Germania, não tentou silenciar cartoonistas nem jornais, nem pediu explicações aos governos dos respectivos países.

Nos tradicionais balanços de fim de ano ou na antevisão de anos vindouros, ninguém se lembraria de incluir Charb (cartoonista e director da Charlie Hebdo, morto no atentado de 7 de Janeiro), Kurt Westergaard (um dos cartoonistas dinamarqueses que fez caricaturas de Maomé), Carsten Juste e Flemming Rose (editores do jornal Jyllands-Posten, que publicou as caricaturas), Molly Norris (a cartoonista americana que lançou a ideia de que, em prol da liberdade de expressão, se deveria instituir o “Everybody Draw Mohammed Day”), Lars Vilks (o artista sueco que figurou Maomé como um cão) ou Ulf Johansson (o director do jornal Nerikes Allehanda, que publicou os desenhos de Vilks) entre “as seis pessoas mais importantes do mundo”.

O valor da recompensa oferecida a quem liquidar Vilks – 100.000 dólares – dá uma ideia do poder financeiro do fundamentalismo islâmico. O facto de a recompensa prever um bónus de 50.000 dólares se Vilks for “degolado como um carneiro” dá uma ideia do seu refinamento civilizacional.

Só um pequeno mas obstinado grupo continua a escrutinar meticulosamente os cartoons publicados na imprensa ocidental e a discuti-los inflamadamente: os fundamentalistas islâmicos. É um fan club que nenhum artista deseja, mas o certo é que Westergaard, Juste, Rose, Norris, Vilks e Johansson estão na lista de pessoas a abater da Al-Qaeda ou das suas sucursais (ou das suas rivais) – e esta é uma lista de onde só se sai morto, como foi o caso de Charb, e de nada serve arrepiar caminho e pedir desculpas aos muçulmanos (Norris fê-lo quase de imediato e nem por isso deixou de ter a cabeça a prémio).

O valor da recompensa oferecida a quem liquidar Vilks – 100.000 dólares – dá uma ideia do poder financeiro destes grupos. O facto de a recompensa prever um bónus de 50.000 dólares se Vilks for “degolado como um carneiro” dá uma ideia do seu refinamento civilizacional. Os que tentaram assassinar Vilks durante um debate sobre “Arte, blasfémia e liberdade de expressão” num café em Copenhaga a 14 de Fevereiro usaram armas automáticas, pelo que pode presumir-se que estariam a prescindir do bónus – e é até possível que fossem movidos apenas pela fé.

Nunca é agradável ter a cabeça a prémio, mas, se lhe fosse dado escolher, Louis Raemaekers teria provavelmente preferido ter o Kaiser como inimigo.

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