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FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Sérgio Hydalgo: "É sempre uma péssima altura para fazer uma editora de discos. É uma carolice, uma paixão” /premium

Durante 13 anos, Sérgio Hydalgo decidiu que concertos e DJ sets teriam lugar na Galeria Zé dos Bois (ZDB), em Lisboa. Agora saiu, voltou à rádio e criou uma editora de discos. E fala do que aí vem.

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A cada ano, 150 a 200 concertos em 100 noites diferentes. Multiplica-se a soma anual pelo número 13 e, como se diz na gíria, é fazer as contas. A calculadora dá uma ajuda: foram mais de dois mil os concertos e DJ Sets que Sérgio Hydalgo programou ao longo dos 13 anos em Lisboa, durante a quase década e meia em que trabalhou como programador musical na Galeria Zé dos Bois — espaço de criação e divulgação artística de culto da capital que funciona também como sala de espectáculos há mais de 25 anos.

Ao longo de mais de uma década, foi ele quem mais definiu a música que se ouvia no número 59 da Rua da Barroca, no Bairro Alto, em Lisboa — mas não só porque, como faz questão de lembrar, durante todo este tempo a Galeria Zé dos Bois (ZDB) associou-se também a outros espaços, programando, definindo e levando ciclos de atuações e de música ao vivo a outras salas de Lisboa e do país.

Em abril, Sérgio Hydalgo anunciou que estava de saída. A programação musical da ZDB ficou agora a cargo de Marcos Silva. Dois meses depois, o programador prepara-se para revelar o primeiro disco de uma nova editora discográfica que criou, a Canto, um álbum intitulado Hair of Dog da autoria do prodigioso baterista e, desde 2019, também compositor Gabriel Ferrandini. O disco é editado este sábado, dia 12, e será apresentado no mesmo dia no Teatro Viriato, em Viseu.

Em entrevista ao Observador, Sérgio Hydalgo, hoje com 42 anos, fala da saída da Galeria Zé dos Bois, recorda os 13 anos passados a fazer a programação musical do espaço, explica o que se poderá esperar desta nova editora discográfica que criou, viaja ao passado para recordar como se apaixonou por concertos e por discos e dá pistas sobre o que anda a fazer e o que pretende ainda fazer no futuro.

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O novo mentor da editora de discos Canto deixa uma certeza: mesmo já não programando a música que se ouvirá na ZDB daqui em diante, o seu gosto musical continuará a refletir-se na programação de concertos, performances e peças artísticas ao vivo daqui em diante. Que concertos e performances, e onde e quando os poderemos ver, só o futuro dirá. Mas a porta está escancarada: “Quero e vou continuar a programar música ao vivo. Neste momento há um ciclo que planeei ainda enquanto programador da ZDB para o Teatro Viritato, que estou a acompanhar. Tenho também algumas coisas programadas de forma independente que ainda não foram anunciadas. Quero fazer muitas coisas, tenho vontade de fazer muitas coisas, arriscar nos formatos de apresentação de música, nos locais de apresentação e nas formas de produção. Quero estar constantemente a aprender e a trabalhar com coisas que me entusiasmem, que me apaixonem. E depois mostrá-las”.

“Passei 13 anos na ZDB. Achei que se tinha fechado um ciclo”

Que editora será esta “Canto”, que aí vem? Como a descreveria?
Há muitos anos que quero ter uma editora, para poder de uma forma inteligível juntar discos de pessoas com quem tenho vindo a trabalhar na forma de residências artísticas, em projetos especiais. Ao longo destes últimos dez anos tenho feito muitos trabalhos nessa área e é um trabalho que me entusiasma muito, poder acompanhar o artista desde o momento em que o conheço — isso geralmente inicia-se com um concerto, depois estabelece-se uma relação profissional e muitas vezes de amizade — até ao momento em que ele depois é desafiado para algo e se concretiza um projeto.

O que acontecia é que depois acabava por não acompanhar o processo final. Aconteceu muito pontualmente, por exemplo com um disco ao vivo do Thurston Moore com o Gabriel Ferrandini e o Pedro Sousa, em que fizemos uma colaboração com a Espuma — que é uma sub-editora da Clean Feed. Editámos, na ZDB, o disco do Alek Rein [Mirror Lane, de 2016]. E o disco Volúpias do Gabriel Ferrandini foi um trabalho que também teve este processo de acompanhamento, residência, gravação e produção do disco, mas depois teve o carimbo e distribuição da Clean Feed. Queria acompanhar  o processo todo do início ao fim e tornar inteligível e que se consiga entender a coleção de discos e trabalhos que tenho vindo a instigar. São trabalhos muito díspares entre si, mas de certa forma têm uma relação emocional comigo e gostava que no fundo essa coleção se pudesse materializar.

“Trabalhei com a Angel Olsen numa residência artística em que trabalhou linguagens do fado. Tenho o registo mas provavelmente nunca vai ser editado.”

Além da relação que tiveram consigo, há algum elo, algum ponto de ligação que encontre no trabalho desses artistas com quem tem trabalhado? Na forma como se posicionam sobre a música, por exemplo.
[pausa] Acho que sim. Acho que todas estas pessoas, apesar de trabalharem em géneros musicais completamente díspares entre si, têm uma ética semelhante na abordagem à música. Acho que são artistas que fazem música que não faz concessões, em termos de opções estéticas. São artistas que trabalham por paixão, que muitas vezes arriscam muito em termos estilísticos.

Artistas que fogem aos cânones?
Não sei se fogem aos cânones. Estou a pensar em alguns artistas que trabalham o formato da canção, como a Angel Olsen, com quem trabalhei numa residência artística que acabou por não ter edição mas cujo resultado existe, que trabalhou linguagens do fado. Provavelmente nunca vai ser editado.

É uma pena.
[risos] Eu tenho o registo mas por muitas razões… tem a ver se calhar com o resultado, com não querer se calhar canibalizar uma cultura. Quando esse projeto foi feito, Lisboa ainda não era a cidade que é hoje, não era uma cidade tão turística. E a ideia de canalizar a cultura é talvez uma ideia um pouco ingénua, porque é preciso se calhar um outro tempo para poder trabalhar esse tipo de linguagens locais. Também fiz um trabalho com o Norberto Lobo em Cabo Verde e também não teve resultados, foi um trabalho que também não se materializou num disco. Mas, voltando atrás, não acho que seja um premissa [dos artistas com quem gosta de trabalhar] fugir aos cânones. Ainda que muitos deles possam ter um lado mais experimental, não queria afunilar as coisas quanto a ser mais ou menos experimental porque acho que é possível fazerem-se coisas magníficas em áreas mais tradicionais e mais no universo do cânone, tal como a fugir dele.

O que me interessa é o que me interessava na ZDB: trabalhar com artistas que tenham uma voz singular e que não tenham medo de a explorar e que o façam de uma forma que me entusiasme, que me leve a querer trabalhar com eles.

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Esteticamente, em termos de género e tipo de sonoridades que poderão ter lugar na Canto, tem alguma ideia sobre o que predominará? Se será música mais instrumental, mais cantada, mais jazzística…?
De todo, sei precisamente que não quero ter essa ideia fixada. A única coisa que sei é que vou jogar com todo o espectro. Para quem esteve atento à programação da ZDB nos últimos 13 anos, é um espectro bastante abrangente — tanto podem ser discos mais instrumentais como no formato canção, pode passar por várias linguagens musicais. No fundo o que me interessa é juntar artistas que nada tenham a ver entre si mas que tenham o elo comum de me entusiasmarem [sorri]. É só isso.

Pensou muito naquilo que a editora pode acrescentar ao panorama musical português? Ou só se pensa no que se quer fazer e esse balanço faz-se mais tarde?
Não penso no panorama nacional português, penso mais nos artistas. Como estes discos resultam de trabalhos muitas vezes desafiados por mim, que instigo ou que ajudo a que aconteçam, são propostas que à partida não poderiam acontecer de outra forma. Estou a pensar em colaborações entre artistas, que proponho, ou nos artistas trabalharem um certo tipo de linguagens ou questões específicas. Isso é que me interessa: poder materializar um disco que de outra forma não poderia existir. Se isso vai ajudar a música portuguesa, a música indonésia, a carreira de um Bonnie “Prince” Billy ou de outro artista… não sei. Mas no fundo é isso que me interessa: poder acrescentar algo à música de alguém.

Por exemplo o Gabriel Ferrandini. Ou a Grouper [nome artístico da norte-americana Liz Harris]: quando trabalhei com a Grouper ela nunca tinha trabalhado com piano. De repente despe-se de todas aquelas camadas de eletrónica e trabalha especificamente nessa componente mais acústica em que a voz acaba por transparecer mais e faz um disco mais despido e mais acústico [Ruins]. Este disco novo do Gabriel Ferrandini é também um disco nas antípodas de tudo o que lhe conhecemos até hoje. É isso que me interessa para a Canto.

“É sempre uma péssima altura para lançar uma editora discográfica e acho que a única razão para alguém fazer uma editora é porque tem essa vontade e tem de o fazer. É um investimento financeiro e de tempo, é uma carolice e uma paixão.”

Utilizando um raciocínio prático, burocrata, esta é uma boa altura para lançar uma editora de discos?
Acho que é sempre uma péssima altura para lançar uma editora discográfica e acho que a única razão para alguém fazer uma editora é porque tem essa vontade e tem de o fazer — porque é só um investimento financeiro e de tempo. É uma carolice e é uma paixão. Mas também acredito que se uma pessoa fizer uma coisa de que gosta e em que acredita, de forma indireta pode colher resultados. Se calhar não os colherá numa forma direta, na venda de discos, mas com todas as coisas que podem acontecer a partir daí. O acompanhamento dos artistas também pode ser feito na forma de agenciamento, de concertos… há outras possibilidades que surgem do contacto com pessoas que se admira e da capacidade de produção de algo tão especial quanto o é um disco.

Essas componentes são coisas que equaciona fazer na editora?
Estou a fazer. E sempre fiz, na ZDB houve um trabalho muito invisível que transcendia a marcação de um concerto e que podia passar também pelo agenciamento do artista, management, booking [marcação] de uma digressão, tentativa de estabelecer relações com outras instituições para que o artista possa chegar lá. Todo esse trabalho existiu sempre, de uma forma invisível. E é isso que estou apostado em continuar a fazer.

Porquê este disco do Gabriel Ferrandini para assinalar a estreia da editora? Porquê este álbum para primeiro disco da “Canto”?
Para além deste desejo que tinha de fazer uma coleção que representasse todos estes trabalhos [que faz com artistas], a Canto surge como necessidade de editar o disco do Gabriel. Programo concertos do Gabriel Ferrandini desde o início da minha entrada na ZDB, estabeleci com ele uma relação profissional que se materializou em imensos concertos, em desafios de parte a parte, depois nas Volúpias, nas residências que ele fez, nos concertos, em residências internacionais, na amizade e no management. De repente estou a trabalhar com o Gabriel em todas as áreas. E este disco é um disco que eu adoro.

Quando se começou a pensar em quem iria editar este disco, houve várias possibilidades — houve quem estivesse interessado — mas a certa altura pensei que saindo da ZDB, porque o desejo de sair da ZDB surge paralelamente a esta ideia de criar uma editora, faria sentido ser eu a editar este disco. Finalmente tinham surgido as condições ideais para o fazer, para começar a editar. A editora também se forma como resposta a um disco que já está materializado. Acompanhei o disco desde o primeiro momento… fazia sentido ser o primeiro.

A capa do disco ‘Hair of The Dog’, de Gabriel Ferrandini, o primeiro lançamento da nova editora de música Canto

Os primeiros pensamentos sobre criar este selo, esta editora que aglutina projetos em que está envolvido, apareceram há muito tempo ou são relativamente recentes?
Há muito tempo. Há vários anos, não sei quantos mas talvez há quatro ou cinco, terei começado a pensar que devia fazer uma coleção — só que isso foi sendo sempre adiado. Na altura, mais do que uma editora pensei em ter uma coleção para reunir trabalhos que iam saindo. Começa com o tal Ruins, disco da Grouper, e depois com um outro que ela lançou. E prosseguiu com outros trabalhos, outras possibilidades que surgiram. Mesmo no caso do Volúpias do Gabriel Ferrandini o desejo de edição estava presente mas por muitas razões não foi possível concretizar. Isto foi uma coisa que foi sendo congeminada ao longo de anos.

Estou a tentar perceber exatamente a relação entre a saída da ZDB e a criação desta editora. Quando deixou as funções de programador musical da ZDB, foi por ter este projeto de fazer uma editora em vista?
Não, de todo — porque a editora é um investimento. Não é que não tenha expectativas financeiras mas não vou substituir uma coisa pela outra. Quero continuar a programar e a fazer muitas coisas. Neste momento há um ciclo que planeei ainda enquanto programador da ZDB para o Teatro Viritato [em Viseu] que estou a acompanhar. Tenho também algumas coisas programadas de forma independente que ainda não foram anunciadas. E também estou aberto a futuras possibilidades e ando a fazer outras coisas: estou a fazer rádio pela primeira vez desde há muitos anos.

Não é uma novidade, portanto?
Não, já fazia rádio de forma amadora antes da ZDB. Tinha um programa no qual entrevistava músicos nacionais e internacionais e em que os gravava também a atuar, em minha casa ou na ZDB — daí essa relação ter-se também estabelecido com a sala. Estou a fazê-lo agora desde janeiro numa rádio chamada Recreatório, uma rádio online do Joaquim Quadros. Faço um programa quinzenal chamado “Leveza” no qual desafio artistas, não só músicos mas também artistas visuais e performers, a desenvolverem uma peça sonora maioritariamente focada na voz como instrumento principal. Isso é acompanhado por uma entrevista.

Fiz uma primeira sessão com um sem número de poetas e sobretudo músicos a lerem um poema. Tive a Angel Olsen, o Steve Gunn, o Thurston Moore, o Bonnie Prince Billy, a Moor Mother, muitos. Depois fiz uma sessão de meditação-performance com o António Poppe, tive o Laraaji que fez uma sessão de escuta profunda., tive os Calhau que fizeram uma peça sonora nova para o programa, tive o Tristany que fez uma coisa que adorei que foi escolher uma letra de uma canção e estabelecer uma relação com três poemas do tempo dos mouros, da zona de Sintra — de onde ele é. Tive o Pedro Sousa, vou ter o Alexandre Estrela que é um artista visual… este programa já tem uma componente de produção profissional e é uma coisa que também tenho estado a fazer. Junta-se a isso o acompanhamento ao Gabriel [Ferrandini] a 180 graus. De facto, não substituí a ZDB pela Canto. Quero continuar focado na programação, mais do que tudo, mas também fazer outras coisas que já fazia mas…

… Que fazia de uma forma meio invisível?
Meio invisível… completamente invisível, aliás.

Porquê, então, a saída da ZDB?
Estive 13 anos na ZDB e foi uma experiência que jamais irei esquecer e da qual estou muito, muito grato. Cheguei à ZDB e pouco sabia de programação, ou nada sabia de programação….

Como é que chegou lá?
Cheguei à ZDB porque frequentava-a com muita frequência. Depois tive esse tal primeiro programa de rádio chamado “Má Fama” em que consegui entrevistar pela primeira vez um sem número de músicos que não tinham espaço na rádio. Foram as primeiras entrevistas do B Fachada, do Tiago Sousa, do Norberto Lobo, da Rita Braga, o Panda Bear fez ali uma sessão em que estreou o [disco] Person Pitch pela primeira vez, tive o Kyp Malone dos TV On The Radio, a Julianna Barwick…

“Passei 13 anos na ZDB, aprendi tudo e tenho memórias incríveis mas senti — e senti isso de uma forma muito presente durante a pandemia — que se tinha fechado um ciclo. Sentia que tinha feito quase tudo ou mesmo tudo o que poderia ter feito ali. Tinha dado tudo e tinha aprendido tudo. Deveria desafiar-me, colocar-me em causa, no fundo estar aberto a outras possibilidades profissionais com outras pessoas e a outras formas de fazer coisas.”

Chego à ZDB por ser assíduo no público e pelo programa de rádio. Já começava a enviar-lhes propostas, lembro-me que entretanto fui viver uns meses para Bruxelas, assistia a concertos e acabava por falar com o músico no fim e perguntar se não queriam ir à ZDB. Punha-os em contacto. Havia interesse, paixão e respeito pela instituição. Passaram-se 13 anos, aprendi tudo e tenho memórias incríveis mas senti — e senti isso de uma forma muito presente durante a pandemia — que se tinha fechado um ciclo. Sentia que tinha feito quase tudo ou mesmo tudo o que poderia ter feito ali. Tinha dado tudo e tinha aprendido tudo. Deveria desafiar-me, colocar-me em causa, no fundo estar aberto a outras possibilidades profissionais com outras pessoas e outras formas de fazer coisas. A pandemia agudizou isso: de repente não tínhamos concertos, apercebemo-nos que aquilo que nos move são as pessoas que se conhecem, os eventos em si, as noites, os concertos, e de repente estamos ali…

Foi desesperante?
Foi um pouco. Daí também o regresso à rádio, que é uma possibilidade de fazer coisas mesmo com estas condicionantes todas [que afetam os concertos], que me permite desafiar artistas a fazerem coisas. No fundo estava a programar com esse meio [rádio]. A mesma coisa aconteceu com a Canto: encontrei aqui estratagemas para continuar a fazer coisas que a pandemia dificultava. Mas o meu desejo de programar continua e até poderei fazer coisas pontualmente com a ZDB, no futuro.

Quem ficou como programador musical da ZDB?
Quem programa neste momento é o Marcos Silva, que trabalhou comigo, em assistência de programação, durante sete anos. Ele vai continuar e já está a programar há alguns meses.

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

“Lembro-me como se fosse hoje do dia em que ouvi o ‘Smells Like Teen Spirit’ pela primeira vez”

Antes de continuarmos pela ZDB, queria recuar um bocadinho ao início da sua relação com a música, que começa certamente muito antes. Cresceu num meio e numa família dada às artes e à música? Ou o interesse surgiu de forma mais autodidata?
Sou filho único e enquanto filho único passava muito tempo sozinho, no meu quarto. Desde muito, muito cedo ouvi rádio. Fazia compilações, ouvia rádio. não tenho aquela família tradicionalmente artística mas ouvia o top 40, o top musical, todos os fins de semana com a minha mãe ao sábado e escolhíamos as canções. Selecionava a canção que achava que era mais imediata para uma compilação. Os meus pais ouviam os discos que se ouviam, deviam ter dez discos e ouviam aqueles dez discos. Também tinha uma tia melómana, que me ia sinalizando discos. Se dissesse que gostava de rock, dava-me se calhar os Nirvana quando eu gostava de uma banda menos fixe, porque era criança. Dizia-me: se gostas de rap, tens aqui os Beastie Boys. “Este é o Steve Albini”…

Ia-lhe alimentando o gosto.
Sim, sim. Também com a mitologia dela, porque ela acabou por ver muitos concertos fora de Portugal nos anos 60 e 70 e aquilo acabou por me alimentar.

“A minha tia viu os Pink Floyd a tocarem o disco 'Atom Heart Mother' em Londres em 1970, com Nico e John Cale a fazerem a primeira parte. Game over [risos]. Falávamos e ela dizia-me: já conheci este, aquele, já fiz isto e aquilo. Ela esteve em Isle of Wright [festival de música britânico] em 1970 e o cartaz era incrível. Estas histórias acompanharam-me, cresci com elas”

Lembra-ts de algum concerto que a sua tia tenha visto e que o tenha impressionado mais?
Sim, claro. Os Pink Floyd, com o disco Atom Heart Mother em Londres em 1970, com Nico e John Cale a fazerem a primeira parte. Game over [risos]. Falávamos e ela dizia-me: já conheci este, aquele, já fiz isto e aquilo. Ela esteve em Isle of Wright [festival de música britânico] em 1970 e o cartaz era incrível: sei que o Jimi Hendrix tocou pela última vez, acho que o Leonard Cohen teve de acalmar o público porque aquilo estava meio caótico… estas histórias acompanharam-me, cresci com elas.

Então, os seus pais não trabalhavam na área da música ou das artes?
Não, de todo. Não há ninguém na minha família que toque um instrumento ou que tenha uma relação direta com as artes. Eu é que acabo por ter desde muito cedo este interesse por música, não sei se alimentado ou não. Depois tinha um ou outro amigo que tinha um irmão mais velho e acabava por gostar de música. Mas estamos a falar aqui de antes dos dez anos. A partir dali senti-me um bocado órfão, confesso… durante parte da minha adolescência. Apanho o boom dos Nirvana em pré-adolescente e aquilo marca, acho que marcou uma geração toda. A partir dali todas as premissas que o Kurt Cobain e os Nirvana evidenciavam acabaram por me acompanhar de certa forma, a ideia de DIY [Do It Yourself], o punk, a independência. Depois fui crescendo e acabei por finalmente aprender um instrumento e ter uma banda.

Qual era o instrumento?
Era guitarra.

Ainda tem cassetes com gravações?
Tenho CD-R’s, sim. Não éramos maus…

"Lembro-me como se fosse hoje do momento em que ouvi o 'Smells Like Teen Spirit' pela primeira vez. Lembro-me de a minha tia pôr o sistema de som excessivamente alto para uma criança de para aí dez anos. Julgo que naquele fim-de-semana ainda fomos comprar o LP”

Falava do grunge. Foi a descoberta musical da adolescência que o fez interessar-se mais seriamente por música?
Sim… sou sincero: lembro-me como se fosse hoje do momento em que ouvi o “Smells Like Teen Spirit” pela primeira vez. Lembro-me da minha tia pôr o sistema de som excessivamente alto para uma criança de para aí dez anos. Julgo que naquele fim de semana ainda fomos comprar o LP. Lembro-me que depois houve uns dias que passei com ela e que ouvi o [disco] Rid of Me da PJ Harvey e que ela gravou o [disco] The Bends dos Radiohead. Depois mostrou-me os Sonic Youth. Foi só continuar, de forma muito natural.

Todas estas bandas acabaram por mapear um enorme universo musical. Dos Radiohead ia ao Aphex Twin ou aos Godspeed You Black Emperor!, dos Sonic Youth passava para outros milhões de bandas. E de repente surge a internet, o Napster, e tens acesso a tudo. Até aí fazia-se um caminho mais difícil e sinuoso, porque não era tão fácil ter acesso aos discos — era preciso ouvir rádio, ir a um concerto, tentar encontrar alguém que tivesse uma cassete. Depois aparece a internet e muda tudo.

Havemos de falar da forma do que a internet pode ter mudado na indústria da música. E do porquê de um fenómeno como os Nirvana dificilmente poder ser replicado hoje.
Pois, os Nirvana estavam em todo o lado. Estavam na Rádio Cidade! De repente uma banda que supostamente deveria ser de nicho está a tocar na televisão, no Top +, na Rádio Cidade e em todo o lado de forma completamente massificada — e só aquele disco [Nevermind]. E havia outras coisas! Isso é impossível acontecer hoje.

Falava há pouco do programa de rádio. Encontrei-o — o “Má Fama” — na internet, como blogue. Apresentava-se como “uma hora de música mais aventureira”. Esse Má Fama que está ali na blogosfera era um programa de rádio que também existia fora da internet?
O programa de rádio começa no Técnico — mas eu fazia o programa em casa, chegava lá e colocava o ficheiro. Terei feito uns 50 e tal programas, sendo que grande parte deles tinham entrevistas e conteúdo exclusivo [dos músicos entrevistados]. Paralelamente a isso houve uma edição na Antena 3, uma curta vida que coincide mais ou menos com a minha entrada na ZDB — depois por falta de tempo acabo por deixar de o fazer — que consistia em fazer um bloco no programa “Portugália”, do Henrique Amaro, dedicado a música exclusivamente nacional que não tinha expressão na rádio na altura mas que era muito diversificada: Walter Benjamin, Norberto Lobo, Rita Braga, os Lobster, o B Fachada, o DJ Marfox ainda enquanto produtor de beats de um artista que acabou por desaparecer…

Depois houve uma noite de celebração do programa que foi o primeiro concerto que organizei na vida, sem ser os que tocava — esses foram para aí nove. O concerto aconteceu na Guilherme Cossoul e foi feito em parceira com a Merzbau, que era uma net label [editora digital] do Tiago Sousa. Programei o Norberto Lobo, a Rita Braga e depois o Tiago Sousa programou uma coisa chamada Goodbye Toulouse que era o Luís Nunes (Benjamim) mais dois músicos que não me recordo muito bem mas que faziam uma coisa proto-Animal Collective. Esse concerto do Norberto Lobo está no Youtube e foi assim o primeiro momento em que falei com a imprensa, foi um momento especial e que me marcou.

Esse primeiro concerto programado aconteceu quando?
Isto foi na primavera de 2007.

E o programa de rádio, quando começou?
Começou no final de 2005.

Quando começa a fazer rádio, que idade tinha?
Tenho hoje 42, portanto já estava nos 20 e muitos. Talvez 26, 27 anos.

“Eu, que já tinha visto muitas coisas, de repente tenho acesso a propostas que me deixavam completamente apaixonado. De repente tens à tua frente as bandas que sabes que vão fazer história, que vão escrever a história que tu gostas e em que acreditas. Há uma altura em que vais à ZDB e às tantas podes sentir: eu posso estar a ver a Patti Smith de hoje, o Bob Dylan destes tempos, o Jimi Hendrix. Isso é incrível! E eu queria participar nisso, fazer parte disso.”

O que o movia para querer fazer o programa, qual era o objetivo? Era partilhar música que estava a descobrir e que as pessoas ainda não estavam a descobrir?
Foram anos muito especiais. No pós-Napster, pós-Soulseek e tudo isso, de repente há um acesso repentino a música que até então era completamente obscura. Há uma série de bandas contemporâneas que acabam por ter uma expressão bastante grande, tal como anos antes os Sonic Youth e os Radiohead tiveram — bandas como os Animal Collective, os Gang Gang Dance, os Black Dice, o Devendra Banhart. Esses artistas acabaram por atrair muitos outros — fizeram colaborações com a Vashti Bunyan, fizeram compilações… lembro-me por exemplo de uma compilação do Devendra Banhart que tinha a Scout Niblett, Six Organs of Admittance, o Antony e outras coisas muito mais obscuras. Até a coisas que hoje em dia se calhar são evidentes como Arthur Russell ou Nico, era difícil ter acesso àquela música antes da internet.

De repente tens acesso e há um catálogo inteiro a aparecer num só momento. Isso acaba por influenciar programadores, radialistas, músicos, pessoas que faziam fanzines. Surgem muitas bandas novas, internacionais e nacionais, faz-se um mapeamento de um circuito underground nacional e internacional e as coisas interligam-se todas entre si. Eu, que já tinha visto muitas coisas, de repente tenho acesso a propostas que me deixavam completamente apaixonado e surpreendido por tocarem em salas tão pequenas como a ZDB. De repente tens à tua frente as bandas que sabes que vão fazer história, que vão escrever a história que tu gostas e em que acreditas. É uma altura em que vais à ZDB e às tantas podes sentir: eu posso estar a ver a Patti Smith de hoje, o Bob Dylan destes tempos, o Jimi Hendrix. Isso é incrível! E eu queria participar nisso, fazer parte disso.

“É possível ver artistas de qualidade em espaços pequenos, encontrar ouro em qualquer sítio”.

Quando entra na ZDB, que estrutura encontrou? E como é que foi mudando enquanto programador musical, com a experiência e ao longo do tempo?
É difícil ser eu a fazer essa análise, mas posso tentar. A ZDB já tinha um historial muito importante. Julgo que cheguei à ZDB no dia do 13º aniversário. Fiquei até ao 26º, portanto fiz a segunda metade da história da ZDB. Quando cheguei havia um grande respeito da minha parte por aquela estrutura e a ZDB já estava instituída — de certa forma. Aquilo que queria, que procurei fazer e que acho que de certa forma consegui foi abrir a ZDB e profissionalizá-la.

Abri-la em que sentido?
Queria abrir o espectro de propostas.

Esteticamente?
Esteticamente. Queria abrir muito mais a ZDB. E queria oferecer à cidade aquilo que tinha recebido e fazê-lo com uma frequência cada vez maior. Isso manifestou-se nos concertos fora de portas — fizemos muitos —, em concertos organizados em parceria com outras instituições, em fazer coisas que fossem mais inusitadas e em poder apresentar no Aquário da ZDB artistas que de certa forma fosse impensável ver ali. Queria poder apresentar naquela salinha os meus heróis e os meus futuros heróis, porque sabia que isso tem um impacto muito grande.

Impacto emocional, afetivo, na ligação das pessoas à sala de espectáculos?
Sim, emocional e afetivo. Acho que muita gente que terá ido à ZDB terá visto a seu lado artistas de que gosta muito, ou de que passou a gostar muito depois de os ver tocar, a beber um copo a seguir, ter-lhes-á comprado um disco… acho que isso tem um impacto. Tentei também fazer menos [concertos] mas com maior qualidade. Tentei fazer concertos mais cedo. E tentei fugir à ditadura do fim de semana e fazer coisas noutros dias da semana pela premência das propostas. Depois procurei trabalhar com o espaço todo da ZDB e fazer alterações em coisas mais pequeninas, na comunicação da sala e na forma como essa comunicação se estabelece — da pessoa que está na porta e no bar aos cartazes que são feitos, de haver um programa que se pode consultar a passar a haver pré-venda de bilhetes, um site, possibilidade de comprar bilhetes online, haver ar condicionado, ter um sistema de som melhor, todas essas coisas que são um pouco invisíveis.

Também não se faziam residências artísticas. Houve alterações no acompanhamento das artes visuais e artes performativas, igualmente, e um acompanhamento mais intenso na edição e management dos artistas de música. Acho que quando fizemos coisas com a Gulbenkian [Jardim de Verão] e depois com o Teatro São Luiz [um ciclo de concertos] senti que tínhamos coberto todo o espectro.

"Quando chego à ZDB, Lisboa tinha o Musicbox, o Lounge e coisas muito pontuais. Isto era Lisboa em 2007. Acho que aquilo que a ZDB fez foi mostrar que há espaço para propostas para quase todas as salas. Foi visível o aparecimento de novas salas com uma vocação mais experimental, com propostas mais arriscadas."

Durante os mais de 10 anos na ZDB acompanhou mudanças muito profundas na cidade e na comunidade musical portuguesa, no tipo e na quantidade de artistas que vão aparecendo. Sendo parte do trabalho de um programador musical estar sintonizado com o que está a acontecer, como vê o cenário atual face à Lisboa e à comunidade artística que existiam quando começou a programar concertos?
Quando chego à ZDB, Lisboa tinha o Musicbox, o Lounge e depois coisas bastante mais pontuais como o Santiago Alquimista. Posso estar a esquecer-me de alguém mas isto era Lisboa em 2007. Acho que aquilo que a ZDB fez, e acho que isso se torna um bocadinho evidente hoje quando olhamos para o circuito ao vivo e para todas as salas que existem, foi mostrar que há espaço para propostas para quase todas as salas. Foi visível o aparecimento de novas salas com uma vocação mais experimental, com propostas mais arriscadas. Acho que falta fazer esse trabalho nos festivais, sobretudo nos festivais de grande dimensão, mas as salas parece-me que se abriram a propostas que têm essa componente desafiadora que a ZDB foi instigando.

A música portuguesa passou por uma revolução grande naqueles primeiros anos [em que esteve como programador]. Acho que a ZDB fez parte desse processo. Não tenho a pretensão de que tenha sido a responsável por isso. Saindo um pouco da ZDB, acho que houve uma mudança de 180 graus. Ver artistas e bandas a cantar em português era raríssimo e há uma altura em que há um boom, com o B Fachada e com tudo aquilo à volta do B Fachada.

A Amor Fúria, a Flor Caveira…
Tudo isso, tudo isso acontece nesses anos.

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Era mais difícil programar música portuguesa nos seus primeiros anos na ZDB?
Não sei se era mais difícil. Havia muitas propostas, se calhar haveria menos é neste espectro da canção. No espectro da música improvisada e em propostas mais exploratórias acho que a programação já era muito rica nessa altura. Mas acho que houve uma explosão nos espectro da música eletrónica, do DJ, do formato tradicional da canção. Está agora a haver um ciclo de programação na ZDB, que foi sempre programado pelo Marcos, que passa por ter propostas emergentes nacionais três vezes por semana. Acho que a única coisa boa que esta pandemia trouxe na área foi que as bandas emergentes passaram a ter mais espaço, porque não se pode vender muitos bilhetes. O que acontece é que as bandas de média dimensão ficam sem esse espaço.

Falávamos há pouco das mudanças na indústria da música, provocadas pela afirmação do digital como meio preferencial de audição. Daquilo que tem assistido, parece-lhe que isso terá feito crescer ou diminuir o espaço para a música menos acessível?
Pelo menos em Lisboa — acho que também acontecerá um pouco por outras cidades e vilas de Portugal, a que não estou tão minuciosamente atento —, em termos de atuações ao vivo parece-me que houve um aumento exponencial das propostas. A internet veio democratizar a possibilidade de qualquer pessoa divulgar o seu trabalho, com ferramentas como as redes sociais e meios como o Soundcloud. Agora o resto é complicado… acho que os festivais deveriam ter uma atenção um pouquinho maior. Os festivais maiores deveriam, quanto a mim, ter mais propostas nacionais e arriscar um bocadinho mais.

"É possível ver artistas com qualidade em espaços pequenos. Sempre foi mas se calhar agora ainda é mais e em maior quantidade. É possível encontrar ouro em qualquer sítio."

Há pouco falávamos dos Nirvana e falava-se da possibilidade de se estar a ver o próximo Bob Dylan ou a próxima Patti Smith. Mas hoje, havendo tantos canais de acesso a música e havendo uma fragmentação tão grande dos ouvintes, é possível a artistas que façam algo mais distintivo chegarem aí? O Bob Dylan aparecia na televisão e falava para dezenas de milhões de pessoas ao mesmo tempo.
Se pensarmos em bandas que tocam em estádios… ainda no outro dia vi um documentário, curiosamente do Dave Grohl dos Nirvana, sobre bandas que andavam em carrinhas. O Flea, dos Red Hot Chili Peppers, dizia: ‘nós somos um clube que não deixa entrar ninguém, não há nenhuma banda nova a aparecer neste milénio a chegar ao estádio — não é porque são piores, nós é que não estamos a deixar. Não é porque eram todos fantásticos, os Metallica, os Red Hot Chili Peppers, etc. É porque a indústria discográfica mudou, há uma fragmentação gigantesca… quer dizer, há muitas razões para isto.

Hoje há essa dificuldade de falar para muitas pessoas. Porque elas não estão todas no mesmo sítio, à espera que apareça alguma coisa nova — uma só coisa nova.
Sim, é muito difícil. A Billie Eilish consegue fazer isso e vai ao estádio — o Flea estava a falar especificamente do universo do rock, em que isso não acontecia. O lado positivo é que é possível ver artistas com qualidade em espaços pequenos. Sempre foi mas se calhar agora ainda mais é possível e em maior quantidade. É possível encontrar ouro em qualquer sítio.

Hoje, quanto do seu dia é passado a ouvir música? E o quão se alterou isso desde que saiu da ZDB, desde que deixou de ser programador musical a tempo inteiro?
O meu desejo por descobrir música nova acho que existia antes da ZDB, existiu durante e existe depois. É exatamente o mesmo. Claro que agora não tenho de analisar propostas, é uma coisa muito mais descontraída — o que também é ótimo.

Depois de tantos anos…
Sim. Acho que vou fazer isso sempre e quero e vou continuar a programar música ao vivo. Por isso, a atenção à música nova existirá sempre por gosto mas também por necessidade. Mas nesta fase agora sinto que estou muito mais relaxado, que o sentido de responsabilidade diminuiu um pouco. Na ZDB sentia que tinha uma responsabilidade muito grande.

Por ter o poder de decidir o que as pessoas poderiam ou não ouvir?
Não exatamente por isso, mas pela vontade de dar espaço a quem não o tem, a quem merece tê-lo e no momento em que é necessário oferecê-lo. Não estar atento tem repercussões, portanto tinha essa responsabilidade. Agora é muito diferente. Com o programa de rádio vou mostrando música nova e quero continuar a programar, tenho esse desejo, mas é diferente porque não me vejo a programar com a mesma frequência, com a quantidade de coisas que programava na ZDB — aí eram 100 noites por ano, o que significava 150 ou 200 bandas por ano. Agora a atenção é diferente, posso ser mais seletivo nas minhas escolhas musicais.

Então, assim sendo, o que tem andado a ouvir por estes tempos — além do Gabriel Ferrandini?
A minha forma de ouvir música é completamente esquizofrénica. Também tenho ouvido coisas antigas. Posso dizer coisas que tenho andado a ouvir: a Meredith Monk, que estranhamente conhecia muito pouco, ou o disco novo da Maria Reis, que eu adoro.

"Futuro? Gostava de trabalhar com outros programadores, com outras pessoas, poder desenvolver um programa que não seja exclusivamente pensado por mim e que possa não ser exclusivamente focado em música, que possa ser transdisciplinar. Quero arriscar nos formatos de apresentação de música, nos locais de apresentação e nas formas de produção."

Programou 150 a 200 artistas e bandas por ano, ao longo de mais de uma década. O que é que tem muita vontade de fazer que depois de tanto tempo ainda não fez? Na área da programação musical ou em outras.
Não sei se posso revelar já… Quero fazer muitas coisas [ri-se], tenho vontade de fazer muitas coisas. Gostava de trabalhar com outros programadores, com outras pessoas, poder desenvolver um programa que não seja exclusivamente pensado por mim e que possa não ser exclusivamente focado em música, que possa ser transdisciplinar e em que a música possa ser só uma das componentes, que possa ter outras vertentes.

Quero arriscar nos formatos de apresentação de música, nos locais de apresentação e nas formas de produção. No fundo, quero tentar outras formas de fazer, de apresentar coisas, com outro tempo e de forma colaborativa. Mas se pensar a longo prazo, gostava de fazer festivais, um concerto para muitas pessoas, instalações sonoras, coisas com todo o tipo de escalas: até coisas para 10 mil [pessoas]. No fundo, quero estar constantemente a aprender e a trabalhar com coisas que me entusiasmem, que me apaixonem. E depois mostrá-las.

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