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GONCALO F SANTOS

GONCALO F SANTOS

Uma questão de natureza. Quatro histórias de famílias à procura do campo /premium

Mudaram-se para o campo, ou procuram-no na cidade. Querem que os filhos cresçam ao ar livre e em contacto com as coisas simples. São pais e empreendedores, fizeram cedências e criaram oportunidades.

    Índice

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Luís Mangas, 44

Filipa Mangas, 38

Manuel, 9

Francisco, 7

Joaquim, 3

Donos das Cabanas do Lago, na Barragem de Santa Clara, Odemira

Filipa: Conheço Santa Clara desde pequenina. Os meus avós têm uma casa mesmo junto à barragem, que já foi o maior lago artificial da Europa, e eu e os meus irmãos vínhamos para cá no verão. Ficávamos um mês inteiro e sempre adorámos isto. Quando eu e o Luís começámos a namorar, há 15 anos, trouxe-o logo para cá. Ele ficou apaixonado e disse: “quero viver aqui”.

Luís: Eu sempre gostei muito de campo, portanto, a Filipa, para me deixar apanhadinho, trouxe-me ao campo [risos].

Filipa: Vínhamos todos os verões, mas vivíamos em Lisboa. O Luís tem a loja vintage Muito Muito, no Lx Factory, eu sou fisioterapeuta e estive 14 anos na CUF Descobertas. Trabalhei duas áreas difíceis: o cancro da mama e o neurodesenvolvimento pediátrico. Só que começava a trabalhar às nove da manhã e acabava às nove da noite. Trabalhava para pagar uma empregada para ir buscar os meus filhos à escola, quase não os via. E não queria nada ser aquela que chegava a casa, lia uma história e punha os miúdos na cama. Porque os meus pais eram figuras constantes e eu acho que isso é importantíssimo para criar ligações fortes, que ficam. E porque depois perdemos a infância deles. Eu tinha um medo enorme disso, de não aproveitar a vida das crianças enquanto são crianças e de um dia já não quererem estar connosco. Há sempre uma fase em que eles se vão afastar de nós, faz parte do crescimento, mas o meu medo era que se afastassem definitivamente.

Assim que o Joaquim nasceu, vim de licença de maternidade para Santa Clara. E, por acaso, um casal que vivia nesta casa por empréstimo comentou com o Luís que o dono estava a pensar vendê-la. O Luís ficou logo de orelha no ar. Aqui há muito pouca construção e nós conseguíamos ver esta casa da da minha avó, este alpendre fantástico, e sempre achámos que estava subaproveitada. Por isso o Luís decidiu vir cá falar com o dono, um alemão chamado Thomas que acabou por se tornar o nosso padrinho nesta aventura de vir viver para o campo e abrir um turismo [as Cabanas do Lago]. Ele já tinha o negócio alinhavado com outro alemão mas gostou tanto de nós que desafiou o Luís a fazer uma proposta e, mais tarde, pediu para irmos ter com ele a Tavira, para conversarmos. Fomos todos. Eu fiquei na praia com os miúdos enquanto o Luís foi falar com o Thomas. E quando voltou, disse: “Filipa, acho que já fiz asneira. Já fiz negócio.”

Luís: Não sabíamos o que é que ia acontecer. O sonho de viver no campo era enorme, e eles terem uma infância aqui era uma coisa que sempre tínhamos falado. Mas uma mudança destas não é fácil. Não somos o típico casalinho com dinheiro que decide fugir da cidade. Até parece, mas não somos. Tínhamos uma casa na Bica, daquelas com um empréstimo até aos 70 anos, e tivemos de vender essa para comprar esta. Vendemos bem, já numa boa altura, mas a verdade é que o Thomas foi incansável, porque entre o negócio e a escritura passou quase um ano.

GONCALO F SANTOS

Filipa: Durante esse período, e depois da licença de maternidade acabar, voltámos para Lisboa e ainda regressei ao trabalho. Andei a adiar a conversa de que me ia embora do hospital. Não foi fácil porque 14 anos com a mesma equipa… Tinha crianças que tratei desde que nasceram, que não andavam e que pus a andar. E as minhas velhotas do cancro da mama… Custou-me imenso. Até que chegou uma altura em que mandei uma mensagem ao meu chefe: “amanhã tenho de falar contigo, se eu me esquecer, chama-me”. Para me obrigar a falar. E contei-lhe do projeto que tinha com o Luís, que queríamos mudar de vida. E que era pela família. Ele percebeu, ficou emocionado e já nos veio visitar algumas vezes.

Viemos no dia 5 de julho de 2018. O Francisco e o Joaquim reagiram muito bem à vinda. O Manel, como é o mais velho, era aquele que tinha um grupo de amigos mais coeso e começou a dizer que não queria vir. Mas assim que começou a escola, no primeiro dia de aulas enturmaram-se e têm um grupo espectacular de amigos. Há muitos filhos de estrangeiros que vieram para cá viver e acabam por ter muito contacto com outras culturas. E os amigos que o Manel tinha vêm-nos visitar com frequência, por isso ele não perdeu aquilo que achava que ia perder.

O Francisco entrou no primeiro ano e o Manel no segundo, mas como é escola da província, ficaram os dois na mesma turma. Aliás, foi a entrada deles e dos filhos da minha irmã, que também veio para cá viver, para a casa dos meus avós, que permitiu abrir duas turmas, porque antigamente estavam todos juntos, do primeiro ao quarto ano.

Luís: Duas famílias, com seis miúdos, aumentaram em 10% uma escola pública que está em risco de fechar, porque é caríssima para o Estado.

Filipa: Eles são mais felizes aqui. Aqui deixo-os andarem descalços e sujarem-se. Porque se eles chegarem sujos já sei que se divertiram. Só têm a regra de não irem sozinhos para a água. Mas às vezes estou lá dentro a cozinhar e não sei deles. Deixamo-los fazer o que quiserem, porque é assim que ganham independência e competências para o resto da vida.

Luís: Damos-lhes liberdade para subir às árvores, ou para fazer uma gruta no meio das mimosas. Queremos que tenham uma infância mais livre e cresçam de forma simples. A cidade tem todas as pressões: a pressão de ser bom aluno, de saber tocar muitos instrumentos, de jogar bem à bola. Há uma pressão muito grande para se ter sucesso. Aqui é diferente. Dá-se mais tempo ao tempo para que a criança acabe por desenvolver a capacidade daquilo que gosta. Não havendo essa pressão toda, eles próprios vão descobrindo onde é que podem ter mais potencial. E nós também estamos mais disponíveis para os acompanhar nessa direção, conseguimos ver à distância as apetências que têm. Por outro lado, esta liberdade de chegar à escola sem uma fila de trânsito, um outdoor… E o acordar com tempo. Nós não acordamos com o despertador. Deitamo-nos cedo e vivemos mais em função dos horários da primavera, verão, outono, inverno.

Filipa: Na cidade íamos para a cama quase à meia noite, a fazer coisas de nada. Aqui não.

Luís: No inverno deitamo-nos às dez, acordamos às sete. Ainda ficamos um bocado na cama, é tudo feito com mais tempo. Não existe aquela pressa de sair de casa, esperar no trânsito, deixar o carro mal estacionado ao pé da escola dos miúdos – quatro piscas, o autocarro não passa, aquele stress todo. Na cidade há tantas coisas que nos roubam energia. Viver em função disso não é saudável, há outras coisas mais importantes. E este lado de trabalhar tanto. Até podemos ganhar dois mil euros, mas a vida na cidade também é cara e portanto acabamos por viver em função do pagar, não enquanto seres humanos, mas enquanto seres pagadores. Mais vale ganhar menos, num sítio menos caro, com menos pressão, e ter uma vida muito mais feliz, e muito mais livre. Por outro lado, há sempre aquela dúvida do que é que vamos fazer no campo: qual é que vai ser o meu trabalho? E eu dizia à Filipa: se fores uma empregada da limpeza que ganha 90 euros por noite de cada vez que alugas uma cabana, então se calhar vale a pena ser empregada da limpeza. Provavelmente não é aquilo que vais gostar mais de fazer, tal como eu também vou fazer outras coisas de que não vou gostar muito, mas temos de ganhar algum dinheiro, porque no fundo temos de ter rendimento da terra para viver aqui. Daí a ideia do turismo, nesta primeira fase. Transformámos o galinheiro num quarto e a casa da antiga garagem num segundo alojamento. Noutra fase, porque a Filipa adora a sua profissão, o objetivo é termos também uma cabana dedicada à saúde e bem estar. Todas as terapias e cursos que a Filipa foi aprender fora, pode aplicar aqui. Seja depois de uma operação difícil, ou noutras circunstâncias, uma semana de comida saudável, de silêncio e de descanso, pode funcionar bem.

GONCALO F SANTOS

Filipa: No fundo isto é uma adaptação à vida que eu tinha. Faço o interregno da minha profissão, inicio outra diferente, e depois consigo conjugar as duas mais tarde, quando tivermos oportunidade para isso. Mas é tudo step by step.

Luís: Neste momento ainda vou a Lisboa semana sim, semana não, tratar de assuntos da loja, mas estou quase a conseguir estar aqui a 100%. O facto de viver num sítio acaba por ajudar a perceber o que é que se pode fazer, e há interesse da Câmara de Odemira – que tem a grande importância da Costa Alentejana mas também se preocupa com o interior e com a desertificação, até porque esta já foi uma das zonas com maior taxa de suicídio da Europa – de trazer para aqui a Muito Muito, não só como loja, mas também como oficina e um centro onde as pessoas, eventualmente turistas, possam fazer workshops com artesãos locais. Por outro lado, este ano tivemos a aprovação de um projeto ligado à ADL – Associação de Desenvolvimento do Litoral Alentejano, e vamos ter condições de dinamizar a barragem, que é um bem essencial e maravilhoso, com equipamentos sem motor, como o stand up paddel. É também isto que me permite vir viver para aqui a tempo inteiro, porque os trabalhos que existem ou são obras, ou andar a cortar eucaliptos com a motosserra, ou transportar cortiça.

Filipa: No verão começámos a receber os primeiros hóspedes. Fomos fazendo a nossa estreia e percebendo o que é que temos de melhorar. Não tínhamos experiência nenhuma em hotelaria, mas sempre gostámos muito de receber.

Desde que vivemos aqui já aprendi uma série de coisas, tem mesmo de ser assim. Fui eu que lixei os móveis todos e que fiz a horta. Por isso é que ficou com estes regos enormes, foi a minha primeira vez [risos]. O Luís faz colheres em madeira, eu quero aprender a tecer mantas alentejanas e cestos em palma. O inverno é duro, temos de nos entreter.

João Rodrigues, 31

Raquel Ribeiro Silva, 30

Teresa, 1

Fundadores do ateliê e da Quinta da Arminho, em Mangualde, Viseu

Raquel: Passámos anos a dizer que somos artesãos, agora também dizemos que somos agricultores, e pomos a mesma paixão nas duas coisas.

Eu sou daqui de Viseu, o João é de uma aldeia alentejana no distrito de Portalegre. Conhecemo-nos quando estávamos a estudar nas Caldas da Rainha, eu artes plásticas e ele design gráfico, e foi lá que criámos a Arminho, em 2011.

João: Estávamos vidrados em velharias e corríamos tudo o que eram antiguidades. Tanto que os nossos primeiros cadernos, a primeira coisa que criámos, eram feitos a partir de cadernos dos anos 50, usávamos o interior e desenhávamos a capa. Nessa altura montámos um ateliê de tipografia num armazém onde estavam outras marcas a arrancar, e quando tivemos de sair decidimos ir para o Porto, sobretudo porque encontrámos uma casa com jardim onde tínhamos espaço para montar também o ateliê. Por cá o mercado de coisas feitas à mão ainda estava a começar e 80% do que fazíamos vendíamos para os Estados Unidos, através da Etsy.

GONCALO F SANTOS

Estivemos no Porto três anos e nesse período vimos a cidade transformar-se. De certa maneira vivíamos fechados, com o quintal e o trabalho a ir para o estrangeiro. Não estávamos a aproveitar o melhor que a cidade tinha para nos oferecer e ao mesmo tempo estávamos a levar com o pior: a especulação imobiliária, o trânsito… Em 2016 resolvemos sair e viemos para a quinta.

Raquel: A verdade é que nós já não tínhamos o perfil para viver numa cidade grande. Quando fomos para o Porto continuámos a não ter, e começámos a ver só as desvantagens. Eu sempre vivi aqui, e mesmo quando era para dar aquela voltinha com os pais ao domingo, a cada um ou dois quilómetros estávamos no meio do nada. E no Porto não. Podemos ir até Viana do Castelo e nunca estamos no meio do nada. Há sempre pessoas, sempre casas ou aldeias. Não somos propriamente os urbanos que vieram para o campo. Não é esse fenómeno que está a acontecer agora, e que acho bem. No fundo, talvez seja aquela ideia que muitos temos, de que era bom viver numa casinha no meio da floresta. Às tantas perguntámo-nos: porque é que estamos a adiar isso para quando tivermos 60 anos?

João: Começámos à procura de um terreno, em anúncios e imobiliárias. Queríamos uma casa com uma horta, ter umas galinhas, não era bem isto, não tão grande.

Raquel: Hoje temos dez hectares e se nessa altura nos falassem de um, já era óptimo. Mas quando cá viemos pela primeira vez… Há coisas aqui que para mim são mágicas.

Estavam a pedir muito dinheiro mas conseguimos negociar um bom valor. A única coisa que estava arranjada era uma zona de vinha, o resto era só mato. Nós já tínhamos alguma experiência em hortícolas, mas andar a roçar mato nunca [risos]. E pensámos: OK, isto são dez hectares, não dá para andar aqui com um corta-relva, como andávamos no quintal do Porto. Por isso candidatámo-nos ao projeto Jovem Agricultor, um programa de apoios comunitários para jovens com menos de 40 anos na primeira instalação, que acabou por ser aprovado. É muito importante para nós tornar isto economicamente sustentável, porque a verdade é que se gasta muito mais dinheiro do que neste momento conseguimos tirar. Na vinha eram dois mil euros por ano, o que não dá para pagar sequer as despesas que tínhamos com ela.

Nestes três anos substituímos a vinha por uma plantação de mirtilos – porque aqui existe muita produção e procura de frutos vermelhos, já há uma estrutura de comercialização montada –, fizemos um sistema de distribuição da água, colocámos painéis solares, e introduzimos galinhas e porcos para limparem o terreno. Na zona florestal vamos plantar castanheiros, olival e pinheiro manso. No fundo, foi o terreno que nos tornou agricultores, não fomos nós que quisemos ser agricultores e procurámos uma grande propriedade.

João: A terra puxa por uma pessoa. E percebemos que podíamos casar as duas coisas: a quinta e a Arminho. Esperamos vir a ter azeite, por exemplo, e queremos usar o ateliê, que por enquanto montámos em Viseu, para criar o frasco em cerâmica e o rótulo em tipografia. Queremos criar objetos que tenham a ver com a nossa vivência e fundir os dois mundos, onde sempre fomos autodidatas.

Raquel: No futuro até gostávamos de receber aqui pessoas no contexto da marca, fazer residências e ateliês, juntar a natureza e o trabalho manual. Quando recuperarmos a casa antiga, a nossa ideia também é alugar a caravana, em troca de algum dinheiro ou de trabalho. Há sempre trabalho no campo. E nunca está feito. Às vezes parece que nalguns sítios ainda não fizemos nada, mas em retrospectiva vejo que já fizemos imensas coisas. É como a Teresita: estamos sempre a ver a mudança, por isso acabamos por não a ver. Só quando olhamos para as fotografias de há um ano é que percebemos como ela está crescida.

João: Ela nasceu aqui e vai crescer aqui. Isso trouxe uma nova responsabilidade, mas também um novo propósito, como podermos alimentá-la com as coisas da nossa horta, fazer as primeiras sopas com aquilo que cultivámos.

GONCALO F SANTOS

Eu cresci numa aldeia pequena, com 50 casas, e sinto que nos dias que correm é uma mais valia ter este tipo de espaço. Então para eles. Quando era pequeno, havia muitos miúdos que vinham de Lisboa passar o verão em casa dos avós, e nós, os da terra, ficávamos admirados porque qualquer coisa era uma felicidade. Analisando isto agora, acho muito bonito. Essa ingenuidade de ficarem felizes com coisas que para nós eram normais. Por outro lado, o campo consegue ser muito aborrecido. No verão, em pleno Alentejo, eu estava sempre a perguntar à minha mãe: está tanto calor, e agora, o que é que eu vou fazer? Esse aborrecimento também falta aos miúdos agora. Parece que tem de estar sempre a acontecer alguma coisa, mas é importante aprenderem a conviver com eles próprios e criarem o seu próprio entretenimento.

Raquel: Fala-se muito de as crianças não estarem em contacto com a natureza, não brincarem na rua, mas às vezes penso que a Teresa se calhar vai sentir uma necessidade ao contrário. Eu tinha isso, é um sentimento familiar. Quando era mais nova, não existia nem shopping nem McDonald’s em Viseu, e quando ia ao Porto, ou a algum sítio onde havia uma coisa dessas, ficava deslumbrada. Se me perguntassem, aos 16 anos, se aos 30 ia voltar para Viseu e fazer uma vida parecida com a da minha avó, que é viver no campo e andar a cultivar batatas, dizia logo: eu não, eu quero Paris e Nova Iorque. Por circunstâncias da vida alimentei outra coisa, mas o oposto está-nos sempre a atrair, é natural. E é isso que penso em relação à Teresita: não quero nunca que isto seja uma imposição. Um pouco pela experiência da minha avó, que também teve um terreno e nem sequer teve emprego. A vida dela era criar o porco, as cabras, as ovelhas, fazer o milho. Mas era uma coisa pesada, era difícil, suado, duro. Não é essa a mensagem que eu quero passar para a minha filha. Não é que não seja pesado, mas estou a fazer isto porque acredito e porque me dá prazer. Além disso, não há a pressão de providenciar para a família, como nessa agricultura de subsistência. Podemos querer fazê-lo, mas é diferente. Se as galinhas não puserem ovos, temos um supermercado a dois minutos.

João: É diferente viver aqui agora. Não é preciso andar a regar os mirtilos porque temos um sistema de rega automática, por exemplo. E o acesso à informação também mudou muito. Nós quisemos criar uma página no Instagram [@quintadarminho], para mostrar que as coisas podem ser feitas de outra maneira, também na agricultura. Temos muita sede de ver coisas, de aprender, e esta acaba por ser também uma moeda de troca, de partilha. Queremos ter um lado inspirador, chamar mais gente para o interior, não necessariamente para trabalhar no campo. A maior parte das pessoas quando vê o projeto da Arminho e pede para visitar o estúdio, parte do princípio que nós estamos em Lisboa ou no Porto. Ficam sempre muito admirados quando dizemos que estamos aqui.

Francisco Oliveira Bastos, 40

Inês Abreu, 36

Martim, 4

Pilar, 23 meses

Fundadores da marca e da página One of Us. Carcavelos, Cascais

Inês: Vivi muitos anos em Londres, fui para lá quando tinha 18 e fiquei 12. Fui estudar design de moda e entretanto mudei para têxteis. Desenhava padrões e nos últimos quatro anos fiz o triângulo Londres, Nova Iorque, Los Angeles. Andei numa vida louca, uma vida incrível, da qual tenho muitas saudades, mas que não é nada compatível com filhos. Estava com alguma vontade de voltar para Portugal mas tinha medo. Medo de não ser bem sucedida profissionalmente. Entretanto comecei a namorar com o Francisco e durante muito tempo tentei convencê-lo a ir para Londres, mas não consegui. E às tantas foi um bocadinho “ou vai ou racha”: ele pediu-me em casamento e eu vim.

Francisco: A certa altura, disse-lhe: Inês, se queres vir construir uma família, é agora. Eu estava a trabalhar em publicidade – direção criativa e ativação de marca em eventos –, e também tinha uma vida de loucos, com noitadas atrás de noitadas. Quando o Martim nasceu, pedi o máximo de licença de paternidade e juntei todas as férias possíveis, mas assim que foi preciso voltar ao ritmo… Custou-me muito não vê-lo e começar a perder as primeiras coisas. Sempre quis ser pai, por isso ao fim de dois meses decidi sair da agência e tornar-me freelancer. Não foi na melhor altura, foi um verdadeiro reboliço: a Inês sem emprego e eu a largar o meu. Os primeiros dois anos como freelancer em casa foram o caos, sobretudo quando nasceu a Pilar e ficámos com dois filhos pequenos. No meio disto tudo, fundámos a One of Us e pusemos todas as nossas poupanças na marca, porque acreditávamos no projeto.

Inês: A marca surgiu com um manifesto, uma filosofia sustentável e o grande lema, que ainda hoje seguimos: “be a transform nation”. Porque acreditamos que as crianças podem ser um catalisador de mudança, mais até do que nós, que já estamos muito viciados. A geração deles, e a que está um bocadinho acima, já tem bem esta noção de que temos de reutilizar as coisas, encontrar alternativas ao plástico, ser mais ponderados no que consumimos, porque o planeta está a estourar, isto é real.

Francisco: As coisas não correram bem, com muita pena nossa. Eu sou um sonhador e entrei na marca com uma missão, de usar todo o lado da comunicação de onde eu vinha para fazer uma coisa quase de ativismo em relação aos pais e às crianças. Para mim a roupa era um veículo para passar uma mensagem, e era só uma parte de um todo que envolvia livros para crianças, comida saudável… No final, o sonho era abrir uma escola. Como tudo isso se desmaterializou, tive de me dedicar ao meu trabalho e ganhar dinheiro como freelancer.

Inês: Tivemos problemas na confeção das coleções, atrasos, peças que tiveram de voltar para trás, e percebemos que Portugal é um país muito pequeno, com um mercado mínimo e conservador. Tudo isso nos desmotivou e acabámos por atirar a toalha ao chão. Acreditei muito na marca. Aliás, continuo a acreditar, e por isso é que não larguei o Instagram [@oneofus_kids] e uso a página para falar do nosso dia a dia e das coisas que são importantes para nós: educá-los ao ar livre, mostrar que não é um bicho de sete cabeças alimentar uma criança com comida vegetariana e sem açúcar. Este lado um bocadinho mais alternativo. Não somos freaks que vão viver para o meio da natureza, mas temos isso. Estou sempre a dizer que sou uma freak urbana. Um dia adorava ter uma casa no campo, mas ainda não estou preparada para uma mudança dessas.

GONCALO F SANTOS

Moramos em Carcavelos e temos a sorte de ter um jardim. Eles fartam-se de brincar com a terra e quando está bom tempo vamos à praia ao final do dia. Mas também dá para tentar fazer uma vida de campo mesmo na cidade, pelo menos ao fim de semana. Em Monsanto há trilhos incríveis para percorrer com os miúdos de bicicleta, nem sequer é preciso levar brinquedos, porque eles se entretêm com pedras e paus. Sintra também é aqui ao lado, e adoramos a Quinta do Pisão, que tem uma horta biológica onde podemos apanhar os legumes e fazer o nosso próprio cabaz.

Eles andam numa escola alternativa, que mistura várias metodologias: Waldorf, Montessori, High/Scope e Movimento da Escola Moderna. Quero que tenham o máximo de tempo na natureza, porque é muito importante. As crianças baixam a frequência cardíaca quando estão conectadas com a natureza. Perdem medos, e ganham respeito. Faz-me muita confusão ver crianças da idade da Pilar – do Martim já nem falo, porque é a maioria – agarradas a telefones. Às vezes vimos para a casa na praia, que é da mãe do Francisco, e temos filhos de amigos que estão agarrados ao smartphone. Por favor! Vão brincar com a areia, com os paus e as conchas. Vão explorar, façam castelos, divirtam-se.

A natureza obriga-os a imaginar. Outra coisa que me faz muita confusão é que passámos de uma geração que educava quase à base do cinto, para os príncipes que assim que espirram são logo desinfectados. O príncipe quer isto, vamos dar. Temos de ocupar o senhor príncipe porque o senhor príncipe não pode estar 10 minutos a olhar para a parede. Mas é assim que eles criam, que imaginam, que aquela cabeça começa a magicar. É assim que são criativos, e essa criatividade vai ser fundamental no futuro, no trabalho que hão-de ter e que se calhar ainda nem foi inventado.

Francisco: Pela maneira como as coisas estão a evoluir, sou daqueles que acredita que eles vão ter não uma, mas várias profissões. Vão saltar e vão querer experimentar. Essa elasticidade e a capacidade de se adaptarem vão ser as componentes mais necessárias. Isso e o lado humano.

Inês: A nossa sociedade não está no caminho certo. Parece que estamos a afastar-nos cada vez mais do contacto humano, principalmente com as tecnologias. Os nossos filhos não têm telefones nem tablets. Fazemos muitas colagens, pintamos com tintas de água, brincamos com plasticinas feitas em casa… No Natal demos ao Martim uma caixa de ferramentas, com martelos, serras, alicates e chaves de fendas. Tudo isto implica ter tempo, implica que os pais estejam disponíveis para os ensinar. E esta história de ter tempo… Eu sei que às vezes é muito difícil, porque a maioria das pessoas sai de casa às sete da manhã, volta às oito da noite, tem meia hora para estar com os filhos e nessa meia hora ainda precisa de cozinhar, lavar a louça e passar a ferro. Isto é o mundo real. E essas pessoas, mesmo que queiram, às vezes não conseguem. Mas eu quando digo isto e quando escrevo posts sobre isto, não falo para essas pessoas, que não têm apoios e não podem sair mais cedo. Falo para uma outra camada, que tem tudo isso mas simplesmente não tem paciência. Então eu pergunto-me: para que é que têm filhos? Se calhar, quando quiserem fazer recortes, eles vão revirar os olhos e virar costas.

Laura Thiawe, 40

Inês, 14

Rita, 8

Pedro, 3

Criadora da marca Bolbo. Serras do Socorro e Archeira, Torres Vedras

Digo que o Oeste é a minha terra mas na verdade não me sinto de um só sítio. Nasci em Lisboa, sou filha de um moçambicano e de uma portuguesa. Quem veio para aqui primeiro foi o meu marido. Ele comprou casa cá há cerca de 20 anos. Era de Benfica, e numa altura em que ninguém trocava a cidade pelo campo, ele trocou. Tinha dois cães grandes e quis espaço. Hoje acho que teve visão. Mesmo trabalhando em Lisboa, como professor de educação física, idealizou uma vida mais tranquila.

Quando nos conhecemos não foi difícil trazer-me. Ambientei-me muito bem, apesar de aqui na aldeia as pessoas serem mais fechadas e verem-nos, pelo menos inicialmente, com alguma estranheza. Temos de mostrar que também cuidamos bem da terra e que não vimos roubar nada a ninguém.

A nossa primeira filha nasceu cá, mas foi no ano em que nevou, e simplesmente não havia condições para ter um recém-nascido. Por isso fomos para casa dos meus pais, no Cacém, e esta ficou arrendada. Acabámos por ficar no Cacém vários anos, mas sempre falámos de voltar.

Nessa altura eu estava a trabalhar como designer na fundação AMI e tivemos a nossa segunda filha. Comecei a sentir-me esmagada pelo ritmo de Lisboa e por toda a logística, pela qual têm de passar tantas famílias: sair do trabalho só às seis, demorar uma hora em deslocações… Cheguei muitas vezes à creche da Rita já com as luzes apagadas, de lágrimas na cara, ela sozinha de mãos dadas com a educadora. E pensava: “isto não faz sentido, estou numa roda e não estou a conseguir parar”. Não culpo a cidade – adoro a cidade –, culpo a minha maneira de ser. Eu não soube lidar com aquele ritmo. E quando sentimos esta desconexão… Perdi saúde e acabei mesmo nas urgências do hospital, com um burn out.

A Rita tinha então dois ou três anos, e ela própria dizia: eu quero ir para o campo. Mas não havia condições. A casa estava arrendada e os trabalhos eram em Lisboa, em sítios diferentes. Acontece que sempre que a ia buscar à escola, ela nunca queria entrar no nosso prédio, começou a fazer birras todos os dias antes de chegar sequer ao elevador. Tentei ouvir e perceber o que se passava. E percebi que antes de entrar em casa, porque tinha estado todo o dia fechada e ia ficar outra vez fechada, ela fazia questão de ir até um pequeno riacho que tínhamos a sorte de ter ao pé, atirar umas pedras ou umas pinhas. Isto foi uma chamada de atenção. A criança começou-nos a dizer o que fazer.

GONCALO F SANTOS

Depois surgiu a hipótese de regressar. A casa deixou de estar arrendada e as pessoas que se foram embora deixaram-na completamente destruída. Foi um choque mas acho que o universo faz as coisas de forma abrupta mas no caminho certo. E pensámos: não podemos arrendar a casa assim, portanto estamos a perder dinheiro, vamos ter de ser nós a reconstruí-la. Ou seja, tínhamos uma hipótese de regressar. E foi isso que fizemos.

Voltámos definitivamente há quatro anos, o Pedro já nasceu cá. Somos uma família de cinco e todos estamos bem aqui. É preciso esse equilíbrio, não podem estar bem só dois ou três. As escolas deles são todas públicas e são impecáveis, em mais lado nenhum podia ter o que eles têm: a da Rita tem horta, tem animais, recebeu um prémio de reciclagem e o projeto pedagógico é espectacular. São eles que apanham a fruta para o lanche e fazem pequenos cabazes para os pais. Sempre que vou buscar o Pedro, se estiver bom tempo ele está na rua. Têm cabrinhas, dão-lhes nomes. A escala é muito mais pequena e eles são verdadeiramente acompanhados.

Tivemos de tomar algumas decisões. Todo este processo tirou-nos da nossa zona de conforto, fez-nos comandar a nossa vida, com os nossos princípios. Tinha muitos sonhos e tirei-os todos da gaveta.

Quando tiro os sonhos da gaveta, é quando decido criar a Bolbo, uma marca portuguesa que implica arte e propósito. Quis fazer alguma coisa que tivesse um impacto positivo. A ideia é que as pessoas possam decorar as suas casas com ilustrações e colagens que têm uma mensagem. Quero servir-me da arte para falar de temas a que devemos estar atentos: o consumo consciente, o comprar a granel, o respeito pela natureza, o viver de forma slow.

Hoje em dia trabalho a partir de casa e sou eu que giro o meu tempo. Os miúdos ganham muito porque sou eu que os vou levar e buscar à escola, estou disponível para ir a reuniões… Essa liberdade é fantástica. Não quer dizer que todas as pessoas possam tê-la, mas, neste momento, com as condições que temos, está a funcionar. Não dá para viver daquilo que eu ganho, mas dá para sermos felizes e organizarmos de forma tranquila o futuro.

Em Lisboa, sobretudo quando estamos com crianças, é quase impossível não gastar dinheiro. Se comparar o que compro agora com o que comprava quando chegámos, existe uma grande diferença. O nosso comportamento mudou. Precisamos cada vez de menos coisas para sermos felizes, e deixámos de nos sentir dependentes de uma série de serviços. Essa era uma grande preocupação no início: na minha aldeia não há nada. Não há farmácia, não há multibanco. Mas habituámo-nos a pensar antes. E a verdade é que não adoecemos tantas vezes.

Esta mudança trouxe-nos paz, liberdade e autoconhecimento. Não somos tão reativos. E ganhámos bons vizinhos, com produções pequeninas de consumo próprio que têm gestos espectaculares de nos darem ovos e batatas, ou perguntar se não queremos envolver as crianças na apanha da fruta. Tudo isto é ensinamento, são experiências. Aqui eles vão para a rua, têm espaço. Abro a janela de manhã e chamo-os para ouvirem os pássaros na nespereira. É um bocadinho a parentalidade consciente, convidá-los a conectarem-se com o mundo que os rodeia.

É claro que, de um modo genérico, mudar de vida não é simples. É preciso saber se a vida para a qual queremos mudar tem a ver connosco, se as expectativas estão ajustadas, se interessa a todos. E existe um falso romantismo sobre viver no campo, tal como existe uma falsa ideia de slow living, porque tem outros lados desafiantes. Em termos profissionais, por exemplo, tenho muita dificuldade em arranjar trabalho aqui, ou porque tenho formação a mais, ou porque não está ajustada. Por outro lado, no sopé da serra a humidade das casas é inacreditável, sofre-se bastante. Às vezes estendemos uma peça de roupa e passado uma semana ainda não está seca. A época do inverno é muito dura. Não estamos a falar do Everest, mas há condições para as quais se calhar nem todas as pessoas estão preparadas. Digo algumas vezes, na brincadeira, que não passo os dias na serra a correr atrás das ovelhas, como a Heidi.

Não é preciso mudar para o campo para mudar de vida. É importante encontrar, no dia a dia, a nossa paz. Se é para passar mais tempo no jardim, passamos. Se é para fazer um piquenique, fazemos. Se é para ir até à praia andar à beira-mar, andamos.

Artigo publicado originalmente na revista Observador Lifestyle nº 7 (março de 2020).

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