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ANDRÉ DIAS NOBRE/OBSERVADOR

ANDRÉ DIAS NOBRE/OBSERVADOR

Zarifa Ghafari, a mais jovem autarca do Afeganistão: "A comunidade internacional traiu-nos"

Como autarca durante alguns anos, Zarifa Ghafari já recebia ameaças de morte dos talibãs. Agora, do dia para a noite, a jovem teve de fugir de Cabul — e quer falar do que se passa no seu país.

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Zarifa Gafhari foi em tempos a autarca mais jovem de sempre no Afeganistão. Em 2018, com apenas 26 anos, foi eleita presidente de Câmara da cidade conservadora de Maidan Shar, a 500 quilómetros da capital Cabul. Mas o facto de ser tão jovem — e, mais do que isso, mulher — desagradou aos grupos talibãs locais. O seu escritório foi várias vezes atacado e recebeu ameaças de morte. No ano passado, o seu pai, coronel do exército afegão, foi assassinado: “Mataram-no para tentar travar-me”, acredita Zarifa.

Todo esse passado, contudo, é para esta mulher de 29 anos menos doloroso do que a rápida tomada de poder dos talibãs em agosto: “Quando vi as imagens dos talibãs a entrarem no palácio presidencial e a darem ali entrevistas à Al-Jazeera… Não conseguia aceitar. Ainda hoje acho que pode ser um pesadelo que vai acabar”, diz em entrevista ao Observador a partir da Câmara Municipal de Cascais, onde esteve a propósito da sua participação como oradora na Leadership Summit Portugal, que vai ter lugar esta terça-feira no Casino Estoril. “Foi o dia mais difícil da minha vida”, garante — até mais do que a morte do pai.

Em 2018, com apenas 26 anos, Zarifa foi eleita presidente da Câmara da cidade conservadora de Maidan Shar, a 500 quilómetros da capital Cabul

ANDRÉ DIAS NOBRE/OBSERVADORANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

A antiga autarca, que trabalhava agora como conselheira do ministério da Defesa afegão, reconhece que há erros a apontar ao Governo do Presidente Ashraf Ghani, que saiu do país poucas horas depois de os talibãs entrarem em Cabul. Mas concentra as suas críticas na comunidade internacional e em particular nos EUA, país que em 2020 lhe atribuiu o título de Mulher de Coragem Internacional, dado pelas mãos do antigo secretário de Estado Mike Pompeo: “O Afeganistão não é a casa deles e é claro que teriam de sair um dia. Mas deviam ter saído de uma forma que não nos traísse e entregasse aos nossos inimigos”, afirma taxativamente.

Para esta ativista pelos direitos das mulheres, os inimigos são os talibãs, mas não só: a mira está apontada claramente ao Paquistão, país que acusa de promover os talibãs através da rede Haqqani — grupo extremista liderado por Sirajuddin Haqqani (nomeado ministro do Interior no novo Governo) que tem grande influência no novo regime de Cabul. É sobre isso e as violações de direitos humanos que se vivem atualmente no Afeganistão que Zarifa fala agora, em todas as oportunidades que tem para ser escutada na Europa. É aqui que está desde agosto: após a subida ao poder dos talibãs, decidiu partir para a Alemanha. Mas garante que ainda irá voltar a Cabul um dia: “Não é só uma esperança”.

Laschet meets fugitive women's rights activist Zarifa Ghafari

Zafira com Armin Laschet, que se mobilizou para acolher a ativista em Dusseldorf

dpa/picture alliance via Getty I

Está atualmente a viver em Düsseldorf, na Alemanha. Como é que foi ali parar? Qual foi o processo de decisão para sair do Afeganistão?
O processo começou assim que os talibãs invadiram Cabul. No passado, eles já tinham invadido a minha casa, portanto eu senti que tinha a responsabilidade de manter a minha família em segurança. Achei que era melhor sair. Foi uma decisão tomada à última hora, porque não foi fácil. Mas parti para Islamabad, depois daí para a Turquia e ao fim de uns dias segui para Düsseldorf.

Era o destino final que desejava?
Não, simplesmente aconteceu. Tive ajuda de amigos e de organizações, sobretudo na Alemanha. Recebi o apoio de uma fundação e do próprio Armin Laschet [candidato a chanceler da CDU, que é governador do estado da Renânia do Norte, onde fica Düsseldorf], portanto aconteceu. Mas até ao último segundo não tinha a certeza se devia partir. O meu marido e a minha mãe é que fizeram pressão para isso: “Se ficares, morres. Se saíres, pelo menos durante uns meses podes ser uma voz do teu povo através de outra plataforma”. E isso é algo de que nós precisamos.

Nunca é fácil sair do nosso país…
Não. Foi o dia mais difícil da minha vida.

"Vimos a facilidade com que nos traíram e nos entregaram aos nossos inimigos, abrindo o caminho para o Paquistão. O Afeganistão não é a casa deles e é claro que teriam de sair um dia. Mas deviam ter saído de uma forma que não nos traísse e entregasse aos nossos inimigos."

Por que sente que tem de ser essa “voz” dos afegãos?
Na década de 90 passámos por uma experiência que demonstrou como o mundo esqueceu rapidamente o Afeganistão. Desta vez precisamos que alguém fale por aquelas pessoas todos os dias, a cada segundo. Que fale sobre o que alcançámos nos últimos 20 anos e o que perdemos no mês passado. Sobre tudo o que aconteceu ao Afeganistão.

À medida que via as notícias que davam conta do avanço dos talibãs e depois a chegada a Cabul e a fuga do Governo… Sentiu-se abandonada?
Senti, mas não pelo meu Governo, por toda a comunidade internacional. Vimos a facilidade com que nos traíram e nos entregaram aos nossos inimigos, abrindo o caminho para o Paquistão. Saíram depois de terem tomado uma decisão sobre o meu futuro. O Afeganistão não é a casa deles e é claro que teriam de sair um dia. Mas deviam ter saído de uma forma que não nos traísse e entregasse aos nossos inimigos.

Por isso culpa mais a comunidade internacional. Não acha que os líderes afegãos também geriram a situação de forma errada?
Toda a gente partilha culpas nesta situação. Culpo toda a gente, também me culpo a mim. Toda a gente abriu o caminho para que o Paquistão invadisse o Afeganistão tão facilmente. A rede Haqqani é um grupo terrorista paquistanês, toda a gente sabe isso. E agora eles gerem o meu país. Têm acesso a todos os detalhes, todas as informações e andam atrás de pessoas de casa em casa. Estamos em 2021 e o meu país foi invadido por outro enquanto o mundo assiste. Assiste ao primeiro-ministro do Paquistão, Imran Khan, a pedir cobardemente que reconheçam o Governo dos talibãs, ao mesmo tempo que eles empurraram a Haqqani para o Afeganistão. Se ele acha que eles são tão bons, porque é que não os quer na casa dele?

Rally In Support Of The Afghan People

A ativista numa manifestação pelos direitos dos afegãos em Paris. Desde que se exilou na Alemanha, a antiga autarca tem feito um périplo pela Europa para falar da situação no Afeganistão

NurPhoto via Getty Images

O Paquistão está a fazer jogos contra a Índia dentro do Afeganistão: ainda no outro dia um homem de negócios indiano foi raptado pelos talibãs, que na verdade são marionetas do ISI [serviços secretos paquistaneses]. Por isso o meu país foi na prática invadido pelo Paquistão e pelos serviços secretos deles. Fico parva como é que a comunidade internacional, sobretudo grandes potências como os EUA e a China, ficam simplesmente a assistir. Os defensores dos direitos humanos, a ONU… Não sei para que servem.

No terreno isso não se traduz em nada, é isso?
Não. Olhe para o caso da Síria, ou Israel ou Myanmar. Há grandes declarações, dizem que estão a fazer coisas. Mas há gente a morrer no Afeganistão agora e ninguém faz nada. Não entendo como é que o Paquistão pode ser tão poderoso quando comparado com as grandes potências mundiais.

Como é que se envolveu na política? Foi a autarca mais jovem de sempre no Afeganistão… O que a levou a candidatar-se?
Bem, porque amo o país mais do que alguém pode imaginar. E quero ajudar a mudar mentalidades, ajudar a mudar a forma como falam do Afeganistão e da situação das mulheres ali. E quero que o mundo entenda que o Afeganistão precisa de uma pausa destes jogos dos serviços secretos.

Qual acha que é a ideia mais errada que se tem no Ocidente sobre os afegãos?
Tenho andado pela União Europeia e vejo como as pessoas pensam: acham que ideias como a liberdade a democracia não fazem sentido para os afegãos, como se não servíssemos para isso. Um país que já tinha universidades incríveis quando alguns países do mundo ainda nem sequer existiam! Vinham pessoas de fora para estudar no Afeganistão. E nós lutamos por isso, apoiamos isso. O mundo tem de mudar as ideias que tem do país.

"O meu escritório foi atacado pelos talibãs a primeira vez e no dia a seguir voltei logo para lá. E alguns colegas meus e outras pessoas achavam que eu tinha inventado este ataque, pela atenção mediática. Sabe porquê? Achavam que se eu inventasse isto, enquanto mulher, ia ter atenção e mais facilmente conseguiria ir viver para o estrangeiro."

Quando se tornou presidente da Câmara de Maidan Shar, qual foi o maior desafio que enfrentou?
Provar a cada segundo que era capaz de ser uma líder forte, mesmo sendo mulher. É horrível, muito cansativo.

Consegue dar-me um exemplo?
O meu escritório foi atacado pelos talibãs a primeira vez e no dia a seguir voltei logo para lá. E alguns colegas meus e outras pessoas achavam que eu tinha inventado este ataque, pela atenção mediática. Sabe porquê? Achavam que se eu inventasse isto, enquanto mulher, ia ter atenção e mais facilmente conseguiria ir viver para o estrangeiro. Numa altura em que enfrentava todo o tipo de perigos, podia morrer… E as pessoas achavam que eu estava a fazer isto para sair do meu país? Não. Sou capaz de liderar, vou ficar aqui, independentemente do que vier. E fui sempre ao meu escritório, até à morte do meu pai.

Dizia há pouco que o dia em que saiu do Afeganistão foi o dia mais difícil da sua vida. Mais difícil do que o dia do assassinato do seu pai?
Uns dias depois de o meu pai ter morrido estava a conversar com o meu marido e dizia-lhe: “Talvez nunca mais sinta este tipo de dor na vida”. Mas naquele dia em que embarquei para sair, foi ainda pior. Foi mais difícil.

Por que razão acha que mataram o seu pai?
Ele era coronel, trabalhava para o ministério da Defesa, portanto é claro que se tornou um alvo por isso. Mas a situação piorou depois de ele ter postado uma foto minha [no Facebook] e ter escrito “É a minha filha”. Mataram-no para tentar travar-me.

E porque é que acha que queriam travá-la?
Não tinha a ver com ser presidente da Câmara. E não fui atacada apenas pelos talibãs locais… Fui também pelo ISI, ainda hoje sou.

"Quem são Haqqani e Mullah Baradar [vice-PM do Afeganistão] and Hibatullah [Akhundzada, emir do Afeganistão]? Onde é que eles viveram durante tantos anos? Que país deu passaportes aos talibãs para irem negociar [com os EUA] ao Qatar? Vai sempre tudo dar ao Paquistão. Não preciso de mais provas, são as duas faces da mesma moeda."

De que forma é que crê que os talibãs e o Governo do Paquistão estão interligados?
Se ainda tem de me fazer essa pergunta, preciso de rir. Como posso não pensar que estão? Em que lugar é que os terroristas têm guarida? Onde é que se estabelecem as células terroristas? Que outro país apoia os talibãs hoje em dia da mesma forma que o Paquistão, dando armas? Quem são Haqqani e Mullah Baradar [vice-PM do Afeganistão] and Hibatullah [Akhundzada, emir do Afeganistão]? Onde é que eles viveram durante tantos anos? Que país deu passaportes aos talibãs para irem negociar [com os EUA] ao Qatar? Vai sempre tudo dar ao Paquistão. Não preciso de mais provas, são as duas faces da mesma moeda.

Consegue contar como estava a situação no terreno no Afeganistão no passado mês de agosto? Como viu a situação ir-se alterando a cada dia?
Mudou tudo num só dia. Estava no meu gabinete no ministério da Defesa e, de repente, aconteceu [estala os dedos]. Mas demorei muito tempo a aceitar. Quando vi as imagens dos talibãs a entrarem no palácio presidencial e a darem ali entrevistas à Al-Jazeera… Não conseguia aceitar. Ainda hoje acho que pode ser um pesadelo que vai acabar.

E o que pensou do papel dos EUA nessa situação? Por que na verdade Washington esteve a negociar a retirada com os talibãs, não com o Governo afegão…
É por isso que digo que fomos traídos. Quem são eles para negociar com os talibãs, que estão a matar pessoas e a destruir o meu país? Os EUA quiserem falar com eles porquê?

Depois da experiência como autarca, Zarifa trabalhou no ministério da Defesa afegão. Deixa críticas ao Governo afegão, mas considera que as culpas recaem sobretudo sobre a comunidade internacional

ANDRÉ DIAS NOBRE/OBSERVADOR

Daquilo que vai sabendo do que se passa no terreno, como está a situação relativamente aos direitos das mulheres?
Tiveram de abandonar as escolas, os locais de trabalho. Não podem sair de casa. Estão na mesma situação que estavam nos anos 90. E há homens a serem mortos e os seus corpos a serem pendurados nas ruas durante horas.

Acha que a situação está pior do que nos anos 90?
Sim. E fiquei muito surpreendida pela forma como os talibãs foram expulsos e agora conseguiram regressar ainda mais fortes. A comunidade internacional foi para o Afeganistão em parte para destruir a Al-Qaeda e travar o terrorismo… Mas o líder da Al-Qaeda foi encontrado em Abottabad, no Paquistão. Sinto-me tão mal pelo que se está a passar no meu país. E falar sobre isto a toda a hora mata-me por dentro.

Mas sente que falar é a única coisa que lhe resta? 
É a única forma. Precisamos de dizer a toda a gente, de mostrar ao mundo, que somos uma nação de pessoas que gostam de paz. E que a apreciamos tanto como vocês. E, mais importante ainda, precisamos de falar das coisas que alcançámos ao longo dos últimos vinte anos e do tanto que perdemos em apenas um mês. E também das asneiras feitas pela comunidade internacional, pelos políticos afegãos e também por nós, cidadãos. Mas também precisamos de falar da nossa luta e das esperanças que ainda temos.

Ainda espera um dia poder voltar ao Afeganistão?
Não é apenas um esperança. Acredito que vai acontecer.

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