A frase é atribuída a Marcello Caetano (1906-1980), corre nas redes sociais e tem um tom profético. “Em poucas décadas estaremos reduzidos à indigência, ou seja, à caridade de outras nações, pelo que é ridículo continuar a falar de independência nacional. Para uma nação que estava a caminho de se transformar numa Suíça, o golpe de Estado foi o princípio do fim. Resta o Sol, o Turismo e o servilismo de bandeja, a pobreza crónica e a emigração em massa.”

A seguir ao 25 de Abril de 1974, data da Revolução dos Cravos, Marcello Caetano, proeminente figura do regime salazarista, encontrou exílio no Brasil. Terá sido lá que disse a frase em causa. Acontece que a citação, tal como é partilhada no Facebook, não corresponde em 100% a nenhuma declaração conhecida do último Presidente do Conselho de Ministros do Estado Novo.

A publicação que está a ser partilhada no Facebook

Há, no entanto, uma frase que lhe é atribuída por um amigo pessoal, muito semelhante àquela que é partilhada pelos internautas. No entanto, o início da citação é diferente, dando-lhe um sentido também distinto. Não foi proferida publicamente, mas surge na obra “Marcello Caetano, Confidências no Exílio”.

Escrito pelo historiador Joaquim Veríssimo Serrão (1925-2020), antigo reitor da Universidade de Lisboa e amigo de longa data de Marcello Caetano, a obra tem por base conversas mantidas entre os dois durante o Estado Novo e depois do exílio no Brasil.

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A frase, tal como surge na obra de Veríssimo Serrão, refere-se ao pós 25 de Abril.

“Sem o Ultramar estamos reduzidos à indigência, ou seja, à caridade das nações ricas, pelo que é ridículo continuar a falar de independência nacional. Para uma nação que estava em vésperas de se transformar numa pequena Suíça, a revolução foi o princípio do fim. Restam-nos o Sol, o Turismo, a pobreza crónica e as divisas da emigração, mas só enquanto durarem. As matérias-primas vamos agora adquiri las às potências que delas se apossaram, ao preço que os lautos vendedores houverem por bem fixar. Tal é o preço por que os Portugueses terão de pagar as suas ilusões de liberdade.”

A capa do livro “Marcello Caetano – Confidências no Exílio” de Joaquim Veríssimo Serrão

Página 207, onde começa o parágrafo em causa

A frase que é atribuída a Marcello pelo autor do livro

Conclusão:

Falso. A frase real, tal como é atribuída a Marcello Caetano pelo seu amigo Joaquim Veríssimo Serrão, tem um início diferente e que transforma completamente o seu sentido. Ao invés de “em poucas décadas”, que confere à frase um tom de premonição, ela começa por dizer “Sem o Ultramar”. Assim, não é verdade que o político do Estado Novo tenha feito aquela declaração sobre um futuro de pobreza extrema e de perda de independência de Portugal.

Segundo a classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:

FALSO: As principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

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