A ideia de que o novo coronavírus morre quando exposto a altas temperaturas tem vindo, há muito, a circular nas redes sociais. Associado a isto, começou a ser partilhado recentemente um texto que afirma ser fundamental manter as casas aquecidas, pois o vírus “só se propaga em temperaturas baixas” e morre “rapidamente” com “temperaturas acima dos 23º”. De acordo com este texto, é igualmente importante beber “líquidos quentes de 5 em 5 minutos, pois o vírus aloja-se no esófago e a bebida mata o vírus e empurra-o para o estômago não o deixando ir para os pulmões”. Uma vez no estômago, “os ácidos gástricos acabam com ele”.

Como foi concluído num outro fact check realizado pelo Observador, não existe qualquer prova científica de que beber água fria ou quente regularmente — ainda que aconselhável em qualquer altura — ajude a combater o novo coronavírus. A sugestão não se encontra entre as medidas de prevenção e contenção divulgadas pelas autoridades de saúde competentes e, se for feito em demasia, a ingestão de água pode até ter efeitos nocivos e, em situações extremas, levar a um quadro de hiponatremia, ou seja, à descida da concentração de sódio no sangue.

Exemplo de um dos posts falsos que circula no Facebook

Quanto ao facto de o vírus ficar alojado na garganta, não é verdade, é falso. A garganta é, como tem sido divulgado pelas autoridades de saúde, uma das portas de entrada da doença no organismo, mas é nos pulmões que a Covid-19 se aloja e faz os maiores estragos, podendo evoluir para uma pneumonia grave. Beber líquidos não “empurra” o coronavírus para o estômago.

Relativamente à temperatura, todos os vírus têm limiar de sobrevivência e, nesse sentido, o novo coronavírus terá também mais dificuldades em subsistir em temperaturas mais elevadas, talvez acima dos 40 graus, embora ainda não existam estudos que possam clarificar totalmente esse ponto (por exemplo, ainda não se sabe se o vírus desaparecerá com a chegada do verão).

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

O que se sabe com certeza é que ele sobrevive a temperaturas acima dos 23 graus, até porque a temperatura corporal normal se situa entre os 36 e os 37 graus, ainda que esses valores sejam apenas de referência (a temperatura corporal normal pode variar consoante diversos fatores, nomeadamente a idade). Ou seja, se o vírus morresse quando exposto a temperaturas acima dos 23 graus, morria assim que entrasse no corpo, o que não acontece.

Ainda há muita coisa que se desconhece sobre esta nova estirpe do coronavírus, mas um dos estudos mais recentes diz-nos, por exemplo, que pode sobreviver até três dias em algumas superfícies, como plástico ou aço, mas que o risco de as pessoas ficarem infetadas ao tocarem nessas superfícies é baixo.

Segundo o estudo publicado no New England Journal of Medicine, o vírus sobrevive quatro horas no cobre, desintegra-se ao longo de um dia em cartão o é capaz de sobreviver em gotículas até três horas após terem sido tossidas para o ar. Não há referências à temperatura.

Em entrevista à Rádio Observador, Ricardo Parreira, professor no Instituto de Higiene e Medicina Tropical, ressalvave em fevereiro que não havia “absolutamente nada” na literatura científica que indicasse como é que o novo coronavírus se iria comportar com a entrada na primavera, ou seja, com a subida das temperaturas. Para o especialista, qualquer previsão sobre o assunto podia ser considerada “futurologia”.

O que se sabe sobre este tipo de vírus, os coronavírus, é que tendem a ser sensíveis ao calor e à falta de humidade: “Se os fervermos ou pelo menos submetermos a temperaturas entre os 60ºC e os 65ºC durante algum tempo, eles morrem. Também prosperam melhor quando não há humidade, por isso dão-se mal com a humidade. E isso torna-os mais sensíveis aos nossos verões e ao clima mediterrânico”, descreveu o médico Ricardo Parreira. Mas até à data nada está provado sobre a estirpe que dá origem à Covid-19.

Conclusão

Todos os vírus têm limiar de sobrevivência e, nesse sentido, o novo coronavírus terá também mais dificuldades em subsistir em temperaturas mais elevadas. Contudo, sabe-se que sobrevive a temperaturas acima dos 23 graus, porque a temperatura corporal normal se situa entre os 36 e os 37 graus. A afirmação de que manter a casa quente acaba com a Covid-19 é, por isso, falsa. Falsa é também a ideia de que ingerir líquidos regularmente afasta o vírus dos pulmões.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

De acordo com o sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota 1: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact-checking com o Facebook.

Nota 2: O Observador faz parte da Aliança CoronaVirusFacts/DatosCoronaVirus, um grupo que junta mais de 100 fact-checkers que combatem a desinformação relacionada com a pandemia da COVID-19. Leia mais sobre esta aliança aqui.

IFCN Badge