As publicações assumem formas nas redes sociais e são, por vezes, são partilhadas em várias línguas diferentes, ainda que o conteúdo e a conclusão sejam os mesmos. É o caso de uma mensagem que está a circular no Facebook e que alega que usar uma máscara para prevenir a propagação do novo coronavírus durante mais de duas horas aumenta o ácido no sangue o que, consequentemente, pode provocar um cancro.

“Respirar por mais de duas horas o próprio Anidrido Carbónico produz acidez no sangue. A principal causa de câncer é a acidez no organismo”, lê-se na publicação que tem sido partilhada pelo Facebook e que traz associada a imagem de Otto Heinrich Warburg, um investigador alemão nas áreas da Química e da Medicina que ganhou o Prémio Nobel da Medicina em 1931. A ele se deve a teoria do “Efeito de Warburg”, ou glicólise aeróbica, que é o fenómeno em que as células cancerígenas convertem a glicose em ácido lático, mesmo na presença de oxigénio.

A forma como foi feita esta afirmação leva o leitor a acreditar que a conclusão foi do próprio Nobel, procurando torná-la mais credível. No entanto, Warburg nasceu em 1883 e morreu em 1970 e nunca estabeleceu qualquer relação entre o uso de máscaras e a acidez no sangue. Apesar de a sua teoria (que, entretanto, tem encontrado outras explicações na comunidade científica) concluir que, sem oxigénio e apenas pela presença de glicose, as células cancerígenas se desenvolvem muito mais que as ditas normais.

Uma leitura mais atenta da afirmação do post analisado permite detetar ainda um outro erro relativo ao próprio “anidrido carbónico” inspirado. É que o “anidrido carbónico” resulta do excesso de dióxido de carbono, esse sim inspirado, combinado com a água. E é isso que provoca a tal acidez (que será uma acidose respiratória, ou seja uma diminuição do pH sanguíneo).

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Ao longo do ano de 2020, já depois da obrigatoriedade do uso de máscaras por causa da pandemia em vários países, começaram também a circular pelas redes sociais várias teorias de que a utilização deste equipamento de proteção individual seria por poder vir a causar hipercapnia, ou seja, o efeito de acumulação de excesso de dióxido de carbono (CO2) na circulação sanguínea. Na altura, ao Observador, o pneumologista Tiago Alfaro explicou que as máscaras permitem a passagem de ar, por isso, o dióxido de carbono é libertado normalmente, não é inspirado e não é acumulado no sangue.

O mesmo defendeu o pneumologista Gustavo Prado à revista Veja, onde explicou que o CO2 é altamente difusível e os tecidos com que as máscaras são feitas — sejam elas cirúrgicas, caseiras ou hospitalares — não o barram por completo. “Desta forma, não existe o risco de reinalação, hipercapnia e nem acidose pelo uso do equipamento”, defendeu o médico.

A hipercapnia ocorre quando se verifica um valor de dióxido de carbono superior ao que é normal. Geralmente, o organismo mantém estáveis os níveis de CO2 dissolvido no sangue: “O dióxido de carbono é produzido pelas nossas células, principalmente pelas células musculares quando fazem metabolismo, e é transportado pelo sangue até aos pulmões para ser expulso.” Mas, quando há um excesso de dióxido de carbono no sangue, isso é sinal de que os pulmões não estão a funcionar tão bem quanto deviam, explicou o médico. Ou, como descreveu Gustavo Prado, em situações muito particulares, como quando se respira continuamente com a cabeça enfiada num saco de plástico — o que não é, de todo, recomendável.

Contactado pelo Observador, o pneumologista Filipe Froes não entra em grandes explicações científicas para concluir pela falsidade da informação. “Por essa teoria, já os cirurgiões estavam todos mortos ou tinham uma esperança média de vida curtíssima”, assinalou, sublinhando que chega a intervir em operações que duram mais de 20 horas. “Não está documentado. Estas pessoas que alimentam as fake news precisam de estudar mais e ser mais humildes”, criticou.

Já não é a primeira vez que o nome Warburg é usado para passar mensagens que se conclui serem falsas. Em agosto de 2019, ainda antes da pandemia, o nome deste investigador alemão aparecia também a circular nas redes sociais sendo referido como o médico que tinha revelado que o cancro não era uma doença mas uma deficiência. “Prémio Nobel em Medicina quebra o silêncio e revela: o câncer não é uma doença… Mas sim uma deficiência. A principal causa do cancro é a substituição da respiração de oxigénio nas células normais do corpo por uma fermentação do açúcar”, lia-se no Polígrafo.

Conclusão:

É falso que o uso de máscaras por mais de duas horas provoque maior acidez no sangue e, consequentemente, promova o aparecimento de cancro. Também é errado atribuir este tipo de teoria ao Nobel da Medicina que morreu em 1970. As máscaras permitem a passagem, por isso, o dióxido de carbono é libertado normalmente quando respiramos, não é inspirado e não é acumulado no sangue.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

No sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

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