Em 2013 a frase atribuída ao presidente da Nestlé foi tão partilhada nas redes sociais que o próprio Peter Brabeck-Letmathe acabou por explicar a sua posição num artigo publicado no americano The Huffington Post. Mas o assunto não ficou encerrado. A 16 de novembro de 2016, a frase do empresário voltou a circular e agora, a 16 de fevereiro de 2020, também. Em apenas 24 horas esta publicação foi partilhada 341 vezes e as visualizações tinham sido 13,6 mil nas últimas 24 horas.

Na verdade a frase foi atribuída a Peter Brabeck-Letmathe na sequência de uma entrevista que deu a um documentário que saiu em setembro de 2005 chamado “We Feed the World”, em português “Nós alimentamos o mundo”, do realizador  austríaco Erwin Wagenhofer. Nele são traçadas, de um ponto de vista crítico, as origens dos alimentos que ingerimos e a sua produção industrial. O realizador corre vários países, como a França, a Espanha, a Roménia, a Suíça, o Brasil e a própria Áustria para retratar aquilo que algumas sinopses do documentário descrevem como “os disparates da produção de alimentos no mundo”, lançando um olhar sobre a pesca industrial, as sementes transgénicas, a falta de alimentos ou mesmo água potável nalgumas zonas do planeta. É este último tema que conta com a tal posição do presidente da Nestlé que é resumida a um discurso “retrógrado e anti-humanista”, em que (segundo essas sinopses) chega a afirmar que “a água deve ser toda privatizada e comercializada de acordo com um preço definido pelo mercado”.

Em 2013, oito anos após o documentário, seria esta a informação que viria a inundar as redes sociais ao ponto de o próprio acabar por ter de explicar o que dissera num artigo de opinião publicado no Huffington Post. “Nos últimos dias, fui alvo de uma campanha nas plataformas de media social que tenta retratar-me como um opositor ao direito humano à água”, começa por dizer.

“Não me importo de ser criticado no Facebook ou no Twitter, porque o debate está a ajudar a destacar a questão da escassez de água. A realidade é que estamos a ficar sem água para cultivar alimentos, para as famílias, para a geração de energia e para a indústria”, prossegue, explicando que se nada for feito em breve a escassez de água vai ser uma realidade. No entanto, afirma, precisa “corrigir um equívoco” que alimentou as críticas nas redes sociais e noutros locais:

“Não nego que a água limpa e segura para beber ou para a higiene básica seja um direito humano. Claro que é”, afirma. No entanto, “não acho certo que algumas pessoas no mundo não tenham acesso a ela, quando outras a podem usar em quantidades excedentes para fins não essenciais, sem suportar um custo mais justo pela infraestrutura necessária para fornecê-lo”, justifica. “Quando atribuímos um valor à água, usamo-la com mais cuidado, e isso não significa privatização”, diz.

De facto, se olharmos para as declarações de Peter Brabeck-Letmathe no documentário sobre os alimentos, e quando confrontado sobre a questão da água, o responsável pela Nestlé diz a certa altura que a questão está em “se devemos privatizar ou não o normal abastecimento de água”. Para depois explicar que há duas opiniões diferentes sobre o assunto: uma é defendida por algumas organizações não governamentais que defendem que a água é um direito público. “Opinião que eu considero extrema”, revela; a outra é que a água é um alimento como qualquer outro e por isso deve ter um valor de mercado. “Pessoalmente prefiro dar um valor de mercado, todos temos a noção de que há um preço a pagar e que deviam ser tomadas medidas para a parte da população que não tem acesso à água”, diz. Explica depois como na sua empresa tentam poupar este bem essencial e fazer disso uma política entre todos os funcionários.

Mensagem idêntica seria mais tarde publicada no site da Nestlé, onde permanece até hoje, e de uma forma muito mais direta, fazendo referência à entrevista que o presidente deu para o documentário e que acabou por ser alvo de críticas. À pergunta: “Peter Brabeck-Letmathe acredita que a água é um direito público?”, segue-se a resposta “Sim”. E depois a explicação, com algumas ligações para entrevistas que deu e que mostram como defende que o direito à água deve ser igual para todos.

“Todos, em todo o mundo, têm direito a saneamento e a água limpa e segura para beber”, lê-se. Tal como a visão das Nações Unidas, o presidente da Nestlé considera que “há água doce suficiente no planeta para sete mil milhões de pessoas, mas ela é distribuída de maneira desigual e grande parte é desperdiçada, poluída e administrada de maneira insustentável”. Assim há dois mil milhões de pessoas em todo o mundo que “não têm sequer uma simples casa de banho, e mais de mil milhões não têm acesso a qualquer tipo de acesso a água potável melhorada”. E é neste contexto que o presidente considera que água deve ter um custo.

A afirmação do presidente da Nestlé já foi escrutinada por vários sites e mesmo assim continua a ser disseminada ao longo dos anos e deu, até, origem a outras informações falsas. Como a de que o presidente da Nestlé estaria a ter encontros secretos com o presidente Michel Temer para a exploração do Aquífero de Guarani — uma das duas maiores reservas subterrâneas de água do Brasil e uma das maiores do mundo, com 1,2 milhões de quilómetros quadrados e que se estende também à Argentina, ao Uruguai e ao Paraguai. Esta informação também tem circulando ciclicamente: foi detetada em 2016 e, em 2018, levou mesmo a BBC a fazer contactos para tentar perceber se havia algum fundo de verdade neste alegado negócio.

A BBC Brasil confrontou à data a Secretaria Especial de Comunicação (Secom) do Brasil, ligada à Secretaria Geral da Presidência da República, que negou qualquer reunião entre ambos durante o Fórum Económico Mundial em Davos, na Suíça, como davam conta as informações que circulavam nas redes sociais.  “Houve um jantar promovido pelo Fórum Económico Mundial em que os dois estavam presentes”, diz a nota. Mas “não há no Governo qualquer discussão em torno desse assunto”, referindo-se a uma possível privatização do Aquífero Guarani . A própria Constituição Federal brasileira impediria que tal acontecesse uma vez que prevê “que as águas são de domínio público, o que não permite qualquer direito de propriedade sobre elas”. Além de que as águas são do domínio de cada país que as abriga.

Conclusão:

Em suma, o que o presidente da Nestlé, Peter Brabeck-Letmathe, defende é que há muito desperdício de água e que, apesar de ser um bem de acesso a todos, devia ser controlado correndo-se o risco de um dia não haver água para ninguém. No documentário que deu origem a esta posição, o responsável nunca refere que a água não deve ser um direito de cada um ou que deve ser privatizada, defende sim que deve ter um custo de mercado. Mas a sua opinião foi retirada do contexto e replicada de forma incorreta. Não só para as redes sociais como para as sinopses do documentário feitas por alguns sites. Ciclicamente esta frase tem aparecido nas redes sociais como sendo atual e verdadeira, mas não é. O presidente falou do tema em 2005, não usou essa frase e o próprio esclareceu isso num artigo de opinião. No próprio site da Nestlé há um esclarecimento sobre o tema, que se mantém com o passar dos anos para que não restem dúvidas daquilo que defende.

Assim, de acordo com a classificação do Observador, este conteúdo é:

Errado

De acordo com o sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

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