Para nos referirmos a um evento histórico as datas são ferramentas muito importantes, não raras vezes o próprio acontecimento adquire o nome da data em que aconteceu. O 25 de Abril e o 5 de Outubro são disso exemplo. Apesar de alguns eventos históricos configurarem uma revolução, ou seja, uma mudança abrupta no poder político e na organização estrutural da sociedade, estes acabam sempre por se transformarem em processos mais ou menos demorados no tempo. O 25 de Abril de 1974 é um excelente exemplo dessa situação. A única coisa que mudou nesse dia foi o poder político, tudo o resto continuava igual. Claro está que o programa do MFA e os seus três D´s (Democratizar, Descolonizar e Desenvolver), deu um mote para o que passaria depois da revolução. Mas mesmo assim, a 26 de Abril de 1974 Portugal era o mesmo país que existia 2 dias antes.

O processo de construção de uma democracia é sempre uma obra inacabada, mas no que refere ao processo de consolidação do regime democrático, este começou naturalmente a 25 de Abril de 1974 e foi concluído a 25 de Novembro de 1975. Ainda assim, já com a certeza de que iriamos ser uma democracia e com a questão colonial resolvida, faltava ainda mudar muitas coisas em Portugal, a começar pelas mentalidades. Nos anos que se seguiram à revolução, foi preciso transformar o Portugal comezinho de Salazar, no Portugal de horizontes mais abertos que viria a existir depois da adesão do nosso país à então CEE.

É verdade que as transformações levadas a cabo pelos governos centrais abriram essas possibilidades, mas foram os autarcas que ajudaram a mudar a sociedade portuguesa. Os presidentes de câmara, mas principalmente os presidentes de junta, deram à atividade política uma capilaridade determinante para mudar a forma de pensar dos portugueses. Pessoa a pessoa, casa a casa, rua a rua, aldeia a aldeia, concelho a concelho, foi possível construir o Portugal imaginado no dia 25 de Abril de 1974.

Para vos dar uma imagem desta realidade, vou usar como microcosmos a minha aldeia natal. Em 1974, Lumiares no concelho de Armamar, como tantas outras aldeias, tinha parado no tempo. Servida por uma estrada de macadame, sem transportes públicos, sem água, sem saneamento e onde praticamente só o padre e a professora tinham alguma cultura. As velhas obediências continuavam a existir e os velhos costumes continuavam a marcar o passo da vida quotidiana. Isto apesar de nas poucas televisões e na rádio se ter ouvido falar que tinha havido uma revolução em Lisboa.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

O primeiro sobressalto que Lumiares sofreu foi o alargamento de um caminho feito pela engenharia militar. As máquinas de terraplanagem vindas da guerra colonial iriam servir para derrubar os muros de pedra que ladeavam os caminhos, mas principalmente, e isso sim era o mais importante, para derrubarem os muros que existiam na cabeça de muitas pessoas. Mas se havia gente que estava contente por ver o desenvolvimento finalmente a chegar, outros estavam terminantemente contra qualquer mudança. Um dos maiores proprietários de Lumiares opôs- se à construção da estrada, por esta lhe derrubar as paredes de umas terras que tinha ao lado do velho caminho. Chegou a apontar uma caçadeira ao militar que operava uma das máquinas. Para desbloquear a situação, foi preciso a intervenção de um pelotão do Centro de Operações Especiais de Lamego, que armados de G3 obrigaram a estrada a avançar. A minha mãe com a minha irmã mais velha ao colo, era uma das pessoas que pressionavam os militares a avançarem com a obra.

Depois da estrada aberta e pavimentada, estavam reunidas as condições para a passagem dos transportes públicos. Por intermédio do avô da ex-ministra das Finanças Maria Luís Albuquerque, pouco tempo depois do 25 de Abril, Armamar teve o ciclo preparatório e pode acabar com a telescola. Ainda assim, de Lumiares, até ao início dos anos 80, apenas o José Alberto e a Dina estudaram até ao 9º ano. Par tal, tinham de andar todos os dias vários quilómetros a pé, para apanharem a carreira que os transportava até a Armamar.

Pouco tempo depois de ser eleito presidente de junta pelo PPD, o meu pai percebeu que para mudar o destino daquelas pessoas tinha de fazer passar em Lumiares a carreira da empresa Beira Douro. Mas não se pense que foi assim tão fácil. As cabeças do antigamente fizeram de tudo para que a autocarro não passasse por Lumiares. Gente habituada a dominar os outros pela ignorância, atrasou o que pôde a possibilidade daquela aldeia ter transportes públicos. Isto numa altura em que pouca gente tinha automóvel. Foi preciso uma manifestação e um corte de estrada organizado pelo meu pai, para que a carreira finalmente passasse por Lumiares.

Para além dos transportes públicos, a construção da estrada feita pela engenharia militar em 1975, possibilitou que a biblioteca itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian passasse a ir a Lumiares. Isso aconteceu porque o meu pai protestou contra o facto de Lumiares não ser visitado pelas celebres carrinhas Citroen de chapa ondulada. Depois disso era finalmente possível ler em Lumiares.

Por esta altura a Câmara Municipal de Armamar tomou uma decisão inédita na região. Todos os alunos teriam transporte gratuito desde as suas aldeias até à escola em Armamar. Isso fez aumentar muito o número de alunos a frequentar o ciclo preparatório. As crianças das aldeias mais recônditas, eram transportadas de táxi pago pela câmara, até à paragem de autocarro mais próxima. Mais ninguém deixou de ir à escola por não ter transporte. Gente que lia e que ia à escola, era gente que estava preparada para pensar de forma diferente.

Todos os natais, eu e as minhas irmãs, recebíamos uma prenda da empresa onde o meu pai trabalhava. Para além disso, recebíamos também imensos presentes das nossas tias, que faziam da noite de Natal um momento absolutamente mágico. Mas essa não era a regra no Portugal profundo. Muitas crianças não recebiam nada, isto porque os pais ou eram pobres do ponto de vista económico ou eram pobres de espírito. Numa atitude inédita pelo menos naquela região, a junta então presidida pelo meu pai, resolveu oferecer todas as crianças da freguesia uma prenda de Natal. Nos anos seguintes todas as juntas de freguesia do concelho de Armamar e dos concelhos à volta, começaram a fazer o mesmo.

Perante as promessas não cumpridas por parte da Câmara de Armamar, para que Lumiares pudesse ter água canalizada e esgotos, o meu pai sublevou a população. Um episodio, que quase levou a um confronto armado entre a GNR e as pessoas de Lumiares.

Depois de tanto sacrifício para se conseguir a água ao domicílio e o saneamento, algumas pessoas não queriam ter água nem esgotos em suas casas. Sempre tinham vivido bem com a água da fonte e com os penicos. Foi preciso convencer essa gente das vantagens de ter água canalizada e de ter uma casa de banho. Mesmo assim, algumas ficaram apenas com uma torneira no andar térreo de suas casas, onde iam buscar água como se fossem à fonte.

Foi também necessário convencer muita gente a retirar os porcos, as cabras e as vacas das lojas de suas casas. Em alguns casos foi preciso a intervenção do delgado de saúde.

Este microcosmo mostra a importância que o 25 de Abril teve para acelerar os processos de desenvolvimento levados a cabo nas décadas de 70 e 80. Ao demolir o poder dos que teimavam em não querer mudar nada, a prazo o 25 de Abril acabou por transformar a sociedade portuguesa. Claro está que se a Revolução nunca tivesse acontecido, o país também se desenvolveria, mas seguramente a um ritmo muito inferior.

Não há dúvida nenhuma que o 25 de Abril é a data fundadora da nossa democracia, mas também não podemos duvidar que se trata de um processo, que no limite ainda está por concluir. Não estou a falar daquela ladainha bafienta de que “é preciso cumprir Abril”. Isso quase nos levou para uma ditadura comunista e limitou muito o nosso desenvolvimento nos últimos 50 anos. Estou a falar da construção de um Portugal plural capaz de ombrear com as nações mais prósperas do mundo. Para isso, é preciso continuar a mudar as mentalidades, derrubando os muros que estão na cabeça de muitos portugueses.