Para além do número de votos obtidos pelos partidos nas últimas eleições legislativas, é também importante analisar a composição sociológica desses votos. Esta análise sociológica pode não apenas indicar os motivos de escolha dos eleitores, mas sobretudo permitir uma previsão do que poderão vir a ser os resultados eleitorais no futuro.

Podemos assim analisar em primeiro lugar as diferentes idades dos eleitores. Como se pode observar nos gráficos seguintes, nos eleitores jovens, ou seja, com idades compreendidas entre os 18 e os 24 anos, o PSD é o partido mais votado com 30% dos votos, seguido do PS com 25% e do BE com 13%. Podemos inferir que para os jovens o aspecto mais importante é a procura de um modo de vida colectivo diferente do actual, onde existam motivos para se alcançar um mais alto nível de rendimentos. Na perspectiva dos jovens do PSD, esse objectivo é alcançado numa economia baseada na iniciativa privada, embora procurando proteger os menos favorecidos. A manutenção da situação actual, preconizada pelo PS, é apenas defendida por 25% dos jovens.

Entre os eleitores com mais de 65 anos a situação é diferente, pois é clara a prioridade dada à estabilidade e á manutenção dos rendimentos existentes. Por esta razão, o PS obtém 51% dos votos, uma votação muito superior aos 36,7% obtidos pelo PS a nível nacional. Certamente que para estes eleitores permanece ainda viva a memória dos cortes nas pensões que se verificaram no tempo da Troika, atribuindo essa medida ao PSD e ao CDS, não considerando que foi a política do PS que provocou a necessidade de redução da despesa pública, ao conduzir o País para a bancarrota em 2011. Mas para estes eleitores a manutenção da situação actual será o aspecto desejado, pelo que alterações ao sistema vigente, mesmo que necessárias, como a reforma da segurança social, encontrarão sempre resistências.

Mas a análise dos eleitores pode também ser efectuada com base no seu grau de instrução. Analisando os gráficos seguintes, podemos em primeiro lugar observar que entre os portugueses que têm apenas o ensino básico 52% escolhem o PS.

Para os portugueses com menor informação e menores habilitações académicas, a manutenção da situação actual é o factor mais desejado, onde é certamente apreciada a devolução de rendimentos que se verificou nos últimos quatro anos. Uma vez mais estes eleitores não dão grande importância ao facto de ter sido o PS que obrigou á redução das despesas públicas, em resultado do colapso das finanças públicas em 2011. Também para estes eleitores não se dá grande importância ao facto da economia portuguesa estar actualmente a crescer menos que 20 dos 28 países da União Europeia, e portanto a criar menores condições para um aumento dos salários e das pensões em Portugal.

Contudo á medida que o grau de escolaridade vai aumentando, a percentagem dos eleitores que votam PS e no PCP vai diminuindo, enquanto no PSD aumenta até atingir 30% no ensino superior. No BE, no CDS e no PAN a percentagem de votantes sofre também um aumento com o grau de escolaridade. A conclusão que se pode tirar é que á medida que os eleitores vão tendo maior conhecimento da realidade e da economia portuguesa, vão podendo interpretar o que se passa em Portugal e no resto do Mundo, vão tomando consciência que a situação actual não promove o crescimento económico, nem o aumento do nível de vida dos portugueses, pelo que se torna necessário alterar a actual política económica. É compreensível que com um maior nível de instrução os eleitores se vão tornando mais exigentes em termos das suas perspectivas para o futuro.

Em conclusão é possível verificar que a vitória do PS no dia 6 de Outubro se baseou no sector dos portugueses com menor instrução e com maior idade. Simultaneamente a percentagem obtida pelo BE, e sobretudo pelo PSD, baseou-se no sector dos mais jovens e dos eleitores com maior nível de escolaridade. É uma indicação clara de que os actuais defensores da política do PS tenderão a perder importância relativa no futuro. É também uma indicação clara de que a política económica do PS serve para ganhar actualmente eleições, mas não é convincente para os portugueses mais instruídos. Mas é felizmente também uma tendência que conduzirá, mais cedo ou mais tarde, a uma política mais ambiciosa em termos de crescimento económico e geradora de um maior nível de vida dos portugueses.