Hannah Arendt usou a expressão banalidade do mal para descrever o terror nazi assente na atuação burocrática, organizada e acrítica, a ponto de se considerar a aniquilação pura e simples de seres humanos como normal, natural, quotidiana. Ora corremos o risco na Europa de estarmos à beira duma descrição semelhante caso aceitemos, complacentemente, a normalidade do terrorismo e da barbárie que lhe está associada.

Com efeito, para muitos é preciso não mostrar os sinais da tragédia. Para outros, trata-se de algo, não só explicável, como justificável. Como se, na esteira de Hegel, o terrorismo fosse dialeticamente necessário à realização da liberdade na história. É verdade que perante atos destes, perante o terrorismo, ficamos mudos. Mas usando as palavras de Arendt “só a violência pura é muda”. Temos pois o dever de continuar a encontrar as palavras para lhe fazer frente, quer como ato de salutar reconstrução humana quer como prova de que “até nos tempos mais sombrios temos o direito de esperar ver alguma luz…”

É preciso ter a coragem de assumir que o ressentimento, a raiva e o ódio estão na origem dos atos terroristas, praticados em alcateia ou solitários. Mas também é fundamental jamais os aceitar como atos normais ou banais para os quais se consiga encontrar qualquer justificação racional ou moral. Mais do que nunca temos de os denunciar como mal absoluto, este, qualquer que seja a sua natureza, nunca tem desculpa. O mal só pode ter uma consequência: a responsabilização de quem o pratica.

Por outro lado, a opressão ou discriminação entre ou dentro de diferentes povos ou grupos sociais não podem justificar o terrorismo; nem sequer explicá-lo. Não há qualquer sentido político ou moral no terrorismo. Como mal, o terrorismo não é apenas o oposto do bem, mas o seu inimigo. O verdadeiro mal procura destruir as próprias distinções políticas ou morais.

Não bastam, todavia, as palavras para descrever e condenar o fenómeno. É preciso mais. É preciso atacar o mal na sua raiz.

Quem enviou tropas para ocupar o Afeganistão ou o Iraque, tem de ter a coragem de colocar botas no terreno e destruir o DAESH. Nem se diga que este último atentado, tal como o que teve lugar recentemente no aeroporto de Istambul, nada têm a ver com o pretenso Estado Islâmico. A verdade é que a semente, o exemplo, a exortação e o incentivo residem neste momento aí. A raiz do mal está a ser alimentada nesse solo e é aí que deve ser destruída. Não acabará nem o terrorismo, nem a violência, mas uma ação exemplar no terreno constituirá, seguramente, um sinal da força do bem.

Quer o tempo europeu quer o americano não são propícios a tais decisões mais dramáticas ou radicais. A América terá eleições este ano. Na Europa, depois do susto ainda imponderável do Brexit no Reino Unido, a que se sucedeu um improvável novo governo, teremos eleições a curto prazo em França, na Alemanha, na Holanda ou, muito razoavelmente, em Itália.

Os europeus e os americanos devem, ainda assim, de ter a consciência que não obstante todo o esforço do Direito para pacificar e anular a violência, tal desiderato está muito longe de ter sido alcançado. Ainda não deixámos Marte para viver sobre a sombra de Vénus. O atentado em Nice, como os anteriores ocorridos na Europa e nos EUA, que já ascendem a quase quatro mil vítimas mortais será, lamentavelmente, apenas mais um.

Os terroristas não vão desistir, pois o seu objetivo é precisamente afetar, destruir, a nossa blindagem moral contra a morte e o medo. O medo, mais do que a própria morte constitui a maior ameaça à nossa liberdade, na medida em que envenena o nosso dia-a-dia, ensombrando as nossas vidas. Em Nice, nunca a maldade e a premeditação estiveram tão presentes.

A somar instabilidade à tragédia europeia, temos agora a farsa turca. Esta exigirá redobrada atenção pois se, no alvor da modernidade os turcos estiveram às portas de Viena, neste momento a Europa e as suas dilacerantes clivagens, volta a confrontar-se com o renascimento da Sublime Porta e do seu sonho imperial.

Estamos perante mais um atentado, face a mais um ato tresloucado com a morte de muitos inocentes em solo europeu. Mais uma vez está em causa a nossa civilização e os seus valores. Mais uma vez tendemos a procurar passar as culpas, a procurar culpados no sistema, na economia, na cultura e na religião. Mas o mal, como disse atrás, não tem desculpa e não podemos deixar que o mesmo nos impeça de usar as nossas ruas, as nossas esplanadas, os nossos aeroportos e metropolitanos ou ainda as nossas praias.

Não podemos achar que o terrorismo faz parte do nosso quotidiano. É certo que terrorismo não é novo. Como todo o crime, ele existe desde sempre. Mas, por isso mesmo, é fundamental continuar a enfrentá-lo para que o bem prevaleça. Só a força e a coragem dos cidadãos e dos seus dirigentes democraticamente eleitos, podem evitar que o mal prevaleça ou pior ainda, que se torne banal. É necessário continuar a agir, conciliando o pessimismo do intelecto com o otimismo da vontade. Para nosso bem, o terrorismo nunca poderá ser normal.

Termino, citando Santo Agostinho, Bispo de Hipona, curiosamente um Padre da Igreja nascido em solo não europeu (como agora o Papa Francisco) e em quem Hannah Arendt tanto se inspirou:

“De tanto ver, acaba-se por tudo suportar, de tanto suportar acaba-se por tudo tolerar, de tanto tudo tolerar acaba-se por tudo aceitar, de tudo aceitar acaba-se por tudo aprovar…”

Professor universitário