No recente congresso dos socialistas europeus realizado em Lisboa, o primeiro-ministro espanhol e líder do PSOE, Pedro Sánchez, desafiou os seus correligionários a “hacer mucho más” para obstar ao avanço da ultradireita e do autoritarismo. Um desafio que foi bem recebido, face ao avanço da ultradireita na União Europeia.

Uma concordância que, no entanto, revela pouco espírito crítico, pois nenhum dos presentes fez questão de dizer que o autoritarismo não é um exclusivo da ultradireita. Uma desnecessidade. O congresso não se destinava a esclarecer que, como Takis Pappas provou, um dos mitos do populismo é a sua redução à extrema-direita. Por isso, não valia a pena falar dos partidos totalitários e autoritários de esquerda que estão no Poder – caso do Syriza – ou que apoiam a solução governativa, como acontece em Portugal com o PCP, o Bloco de Esquerda e o PEV.

Para os socialistas europeus, autoritarismo é sinónimo de extrema-direita. Ponto final na discussão. Havia assuntos muito mais pertinentes a tratar e era preciso tirar partido da hospitalidade do anfitrião. Medina de seu nome.

Só que, influenciado pelas recentes eleições na Andaluzia e com fundados receios de ver o PSOE apeado, pela vez primeira, da governação da região autónoma, Pedro Sánchez teve uma tirada notável. Afirmou que “No se puede ser proeuropeo y apoyarse en fuerzas antieuropeístas para gobernar”.

O recado era claro. Na Andaluzia, não há lugar para geringonças. O PP e o Ciudadanos não podem coligar-se com o populista e ultradireitista Vox para terem maioria absoluta. Verdade que Sánchez não foi ao ponto de dizer que o PP e o Ciudadanos devem respeitar a vontade dos eleitores. Manter o PSOE no Governo da Andaluzia, uma vez que ganhou as eleições. Provavelmente lembrou-se da forma como chegou ao Poder em Madrid.

Voltando ao aviso, é provável que não tenha incomodado António Costa. O seu sorriso continuou aberto. Possivelmente não deu conta que a sua geringonça é apoiada por partidos antieuropeístas. Outros dos assuntos que não estava na mesa da discussão.

Uma questão de somenos. Afinal, quem é que ainda se lembra dos tempos de antena e dos panfletos do PCP contra a adesão de Portugal à Comunidade Europeia? É claro que o Bloco de Esquerda não pode ser acusado de se rever nesse posicionamento. Ainda não existia na altura, embora alguns dos seus atuais rostos militassem noutros partidos igualmente antieuropeístas. Outro dos esquecimentos muito bem lembrados. Só vale a pena trazer à tona o passado para recordar o ativo próprio e denegrir o alheio.

António Costa não se sentiu atingido com as palavras de Sánchez. Era um não-assunto. Na sua ótica, hoje já ninguém se preocupa com o facto de os eurodeputados da CDU e do BE integrarem o grupo da Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Nórdica Verde, um grupo que não se revê na atual União Europeia e pretende construir uma outra comunidade. Não é em vão que o PCP olha com nostalgia para os tempos da URSS.

Se tivesse sido questionado sobre o não-assunto, era provável que António Costa defendesse que a posição da CDU e do BE não é antieuropeísta. Possivelmente garantiria que se trata de um europeísmo diferente. Seja lá o que isso signifique. Ponto final, parágrafo.

Desunião ibérica? Não, os conceitos ao sabor dos interesses próprios. Uma coerência feita de incoerências.

Politólogo