A Suíça tem uma das taxas de infetados por habitantes mais altas do mundo (19,7 por 10000 habitantes), equivalente à de Espanha e superior à de Itália. No entanto o rácio de mortalidade é respetivamente 4 e 5 vezes inferior ao destes países (0.027), e ainda abaixo do rácio da França e da Holanda, países com menos de metade da taxa de infeção da Suíça. (Segundo dados da OFSP, apenas 15% dos testados para a Covid-19 são positivos.  A idade média de falecimentos é 82 anos, a idade média de hospitalização 70 anos. Contrariamente à pratica de outros países, os médicos têm obrigação de declarar todas as mortes por Covid-19, mesmo que fora de ambiente hospitalar.)

Na Suíça não há estado de emergência, não há drones, nem polícias na rua a mandar as pessoas para casa. As pessoas continuam a poder juntar-se à beira lago e nos parques desde que em grupos menores de 5 e mantendo uma distância social de 2 metros. A estratégia de “semi-confinamento” do país destaca-se da dos seus vizinhos de fronteira, que impuseram rigorosas medidas de isolamento, e aproxima-se mais de países como Holanda ou Suécia que apelam à responsabilidade individual.

O teletrabalho é apenas prescrito para as pessoas vulneráveis (com mais de 65 anos ou com determinadas doenças). Os maiores de 65 têm desde o início da crise ocupado uma posição de destaque no discurso político, das autoridades de saúde e dos media: a sociedade organiza-se espontaneamente para que possam ficar em casa o mais possível – entregas das compras ou das refeições a domicílio, ida aos correios para pagar as faturas, etc. A título de exemplo, a lei que enquadra as medidas de luta contra a Covid-19 tem apenas 12 artigos (entre os quais o fecho dos comércios não essenciais e a suspensão das aulas presenciais, decretados a 16 de Março e válido até 19 Abril) mas prevê expressamente que as crianças não possam ser deixadas à guarda de pessoas vulneráveis e logo que serviços mínimos nas escolas e creches tenham de existir para casos em que nenhuma outra guarda é possível.

“O Estado não deve decidir sobre o comportamento dos indivíduos”

O governo federal, na pessoa de Alain Berset, chefe do Departamento Federal do Interior, explicava assim a 20 de Março a decisão de não declarar um confinamento geral da população, contrariamente aos seus vizinhos europeus apresentados como autoritários: “Não fazemos política de espetáculo”, O Estado não deve decidir sobre o comportamento dos indivíduos”, “É uma questão de cultura”.

Autoritarismo é coisa que a Suíça não conhece. Criada sobre um modelo de consenso entre cantões, o país é uma confederação de 26 Estados com um governo federal minimalista (um colégio de 7 conselheiros de onde é eleito rotativa e anualmente um presidente, atualmente Simonetta Sommaruga).

“Os países que decidiram confinar a sua população fizeram-no de maneira limitada no tempo. Até ao fim do mês, ou até aos primeiros dias de Abril: isso não chegará. Haverá prolongamentos, com a dificuldade para esses governos de explicar porquê, de fixar uma nova data. Ora, o que é preciso é aguentar no tempo,” continuou Alain Berset. A aposta é na mudança voluntária do comportamento a longo prazo, assente no bom senso e na compreensão da população.

Comunicação da estratégia

Para além de frequentes conferências do governo federal, um painel de chefes de diversos departamentos explica em pormenor, duas vezes por semana, a situação, os principais riscos e a estratégia adotada. As conferências são transmitidas em direto pela televisão pública e duram perto de duas horas (o tempo necessário para esgotar as perguntas dos jornalistas investidos da responsabilidade de transmitir as preocupações da população). Daniel Koch, responsável da divisão das doenças transmissíveis na OFSP, ficará como a figura emblemática desta crise pela calma, racionalidade e competência com que a Suíça tem gerido esta crise.

O objetivo não é “vencer” o vírus. Impor uma distância social de 2 metros reduz consideravelmente a probabilidade de contágio, mas não a reduz a zero. A Covid-19 não vai desaparecer completamente. Teremos mais um vírus com o qual nos teremos de habituar a coabitar. O objetivo é que a sua propagação não ponha em risco a possibilidade de acesso a serviços e produtos de saúde suficientes durante o pico da epidemia. O risco não é individual para a maioria da população (as autoridades de saúde suíças admitem sem pejo que a Covid-19 é tendencialmente benigno fora da população de risco) — é sistémico.

Levantar o dique o mais alto possível

Todas as noites, às 21h, as varandas enchem-se de palmas para agradecer à “linha da frente” que se prepara há semanas para o pico da onda epidémica. As leis do trabalho que protegiam os profissionais de saúde de horas extras excessivas foram temporariamente suspensas, assim como o direito às férias. A milícia civil foi mobilizada: são 8000 militares distribuídos em funções de apoio à saúde, logística e segurança. Reformados médicos voluntariam-se para responder às linhas de apoio, estudantes de medicina e enfermagem são treinados para aliviar as equipas em cuidados básicos, os hospitais privados alinharam-se em tempo recorde com os hospitais públicos. Os hospitais multiplicaram a sua capacidade nos cuidados intensivos e repetem terem-se preparado o melhor possível para o pior, que esperam possa não acontecer. Da preparação fez parte a publicação dos critérios de triagem em caso de escassez de recursos nos cuidados intensivos.

Tudo indica neste momento que esse cenário catastrófico não acontecerá. Os cuidados intensivos de Genebra estabilizaram a metade da sua nova capacidade. Pacientes Covid-19 vindos de França continuam a ser internados na Suíça. A taxa de crescimento de novos casos decresce há vários dias, o número diário de pacientes em cuidados intensivos mantêm-se estável, assim como o número de mortes. A curva já começou a achatar.

Planear o desconfinamento

Os hospitais universitários começaram esta segunda-feira testes serológicos numa amostra da população. Pretende-se estimar a percentagem real de infetados com Covid-19, abrangendo os suspeitos não testados e os que podem ter sido portadores do vírus sem o saber. Estima-se que cerca de 70% da população precise de estar imune para que haja barreira natural contra o vírus na sociedade.

Até lá, estudam-se soluções para permitir um desconfinamento gradual a partir de 19 Abril, como o uso de máscaras em certas indústrias, uma app com geolocalização de infetados para permitir auto-quarentena de precisão, a generalização de testes, etc. Em qualquer caso, e até a imunidade de grupo ter atingido um nível suficiente, a disciplina suíça terá de continuar.

Segundo dados da OFSP, apenas 15% dos testados para a Covid-19 são positivos.  A idade média de falecimentos é 82 anos, a idade média de hospitalização 70 anos. Contrariamente à pratica de outros países, os médicos têm obrigação de declarar todas as mortes por Covid-19, mesmo que fora de ambiente hospitalar.