1 Os meus filhos frequentaram sempre as escolas públicas da zona da nossa residência, tradicionalmente consideradas escolas modelo. Tiveram professores dedicados, alguns dos quais excecionais. Os diretores das escolas eram geralmente competentes. Até há algum tempo, as escolas funcionavam sem problemas graves de organização, de falta de professores ou de auxiliares.

Nos últimos anos, de forma crescente, e coincidindo com a concentração de várias escolas no mesmo agrupamento, não houve professores colocados nalgumas disciplinas, por vezes durante todo o ano. Noutros casos, professores com baixa médica de curta duração não eram substituídos, ainda que renovassem indefinidamente a baixa. Um professor faltou sistematicamente, e sem qualquer consequência, à primeira aula do dia, avisando os alunos por email uns minutos antes. Uma professora de Matemática era totalmente incapaz de ensinar, facto conhecido em toda a escola. A falta de pessoal não docente, reconhecida no mais recente relatório da OCDE, é evidente há vários anos. As verbas atribuídas às escolas são de tal modo insuficientes que foi necessária a organização pelos pais de fundos de maneio para aquisição de material escolar básico. Nem vale a pena falar na “qualidade” das refeições nas cantinas.

2 Durante o confinamento, a situação agravou-se. Sem qualquer diretriz superior que estabelecesse uma metodologia obrigatória, ou um sistema de “governance” que monitorizasse a transição para o ensino não presencial, o pior aconteceu: em disciplinas fundamentais, professores colocados não deram aulas remotas e não trabalharam regularmente com os alunos; nalguns casos, apenas os contactaram no último dia do ano letivo. O paliativo da “tele-escola” de pouco serviu. Um dos nossos filhos não aprendeu praticamente nada durante um semestre inteiro. Ao mais novo, valeu-lhe uma professora do primeiro ciclo, verdadeiramente exemplar, cujo esforço e dedicação nunca esqueceremos.

3 Os filhos mais velhos transitaram já para um colégio privado, onde se respira competência na organização e exigência na lecionação, e se percebe que a avaliação que a comunidade realiza é essencial para o sucesso da escola. O colégio pode não ser perfeito, mas oferece-nos a segurança das organizações que precisam de revelar qualidade para sobreviverem num mercado concorrencial.

Em contrapartida, na sua escola pública, o meu filho mais novo começou as aulas na semana passada. A diretora de turma, professora de Matemática e de Ciências, entrou de baixa após a primeira aula e sabemos que não deverá regressar, pelo menos, até ao final de outubro. Hoje, também a professora de História e Geografia começou a faltar. Não podendo ir para o recreio, os miúdos ficam na sala sentados, sem nada para fazer.

Gostaria de colocar algumas questões ao Ministro da Educação: após cinco anos como ministro, e “ultrapassado o ciclo da austeridade”, como é possível assistir impávido à falência da escola pública? Como é possível que não esteja resolvido o problema da colocação dos professores e dos auxiliares? Porque não têm as escolas autonomia de gestão, acompanhada da inerente responsabilidade pelos resultados? Tem consciência de que está a acentuar um fosso entre os que podem e os que não podem pagar o ensino privado? Infelizmente, estou convencido de que sei as respostas.

Caderno de Apontamentos é uma coluna que discute temas relacionados com a Educação, através de um autor convidado.