À espera da comunicação do Sr. Presidente da República, esbarro, sem querer, nos últimos minutos do programa da Cristina. Oiço-a gritar «não gosto de bananas grandes», enquanto agarra numa e se queixa da maldade de quem pensa logo outras coisas. Comeu-a em directo, durante uma conversa com alguém a propósito de um concurso — ou algo assim.

Sou daquelas pessoas que pensa logo outras coisas, mas talvez não as que a Cristina pensa. Penso no perigo de se dissociar de forma tão radical o entretenimento da cultura. Penso no risco de se alimentarem programas que promovem a imagem de um sucesso vazio, onde não há pensamento, crítica fundamentada, ou conjugação adequada de verbos, e em que no final, o que se deixa é o retrato real do conflito entre a pretensa sofisticação aspiracional e o embrutecimento secular. Isto é comunicação. É isto que vende. Terá valor?

Queremos um país entretido, um povo alegre que alimente as festas no querido mês de Agosto com cartazes repletos de «hoje à sardinha açada, e bacalhau há Zé do Pipo». Queremos canções brejeiras que fiquem no ouvido. Que disponham bem. Festa é cultura.

Não é. Algumas destas festas são também arenas onde, em nome das tradições, os machos lidam as raparigas entre uns apalpões-que-ninguém-leva-a-mal, e umas exigências subtis que ficam de mau humor se recusadas. E no meio disto, já ninguém quer saber se daqui a uns meses, ou poucos anos, a festa é feita de violência doméstica ou se a sardinha e o bacalhau sucumbiram aos atentados ortográficos.

A sardinha, renovamo-la a cada ano — a ignorância não deveríamos. E assim, no berço quentinho da tradição vão-se alicerçando as crenças de que o trabalho dignifica o homem, ainda que nem todo o trabalho, nem todo o homem. Já a mulher, é conforme. Que ser médico é uma profissão nobre mas ser actor é para quem não quer trabalhar e actriz para quem tem pouca vergonha; que se tiveres «jeito» para escrever ou tocar um instrumento, deves arranjar um trabalho que te possa sustentar o vício e não andar com essa corja dos subsídios: músicos, pintores, escultores e outros que fazem coisas que ninguém percebe. E se o povo não percebe, não compra. E se não compra, não valoriza. E assim sendo, muito mais vale Cristina do que Agustina.

E penso, ao ver a Cristina dirigir-se a nós, de banana na boca e a falar, que estamos, outra vez, perto de falharmos a renovação de um país. Estamos como antes da revolução de Abril, impregnados de folclore e Portugal dos Pequeninos, a viver a ficção de pobrezinhos mas honrados, longe da cultura, processo fundamental de recriação e de progresso. Somos, cada uma e cada um de nós, naquilo que nos diferencia como profissionais, responsáveis por educar um país a reconhecer um bom vinho; a perceber que a música pode ter mais de dois tempos; a distinguir um poema de uma letra de canção; a compreender que a arte é a linguagem universal que persiste no tempo e conta a história da humanidade; a respeitar a língua e a perceber que sem palavras não estruturamos o pensamento, e que não podemos ser o que não podemos pensar. E quem nos ensina a construir com palavras são os escritores, os poetas, os filósofos. Pensar, escrever, não são trabalhos. Reflectir é só outro nome para nada fazer. Escrever é «jeito e inspiração», e sai um poema, um pouco mais de tempo, e lá vem um romance. Toda a gente escreve. Tudo é literatura, poesia, pensamento. Tudo é cultura. Mesmo o entretenimento. Quando tudo é, nada é.

O entretenimento tem e deve ter lugar nas nossas vidas. Mas não é cultura nem um passaporte para menorizar quem dele participa enquanto se promove e capitaliza com essa menorização. A cultura é exigente, e deve sê-lo, é uma dor de crescimento para o prazer e a responsabilidade de ser adulto.