Além da esperada retórica do regresso da América simpática (agora redimida e livre de Donald Trump), a viagem de Joe Biden à Europa fez-se acompanhar de referências históricas a outros encontros simbólicos, como a viagem de F.D. Roosevelt ao encontro de Churchill, em 14 de Agosto de 1941, na Terra Nova, para redigir a Carta do Atlântico, ou o discurso de Truman de 12 de Março de 1947, em Washington, para obter apoio do Congresso na ajuda à Grécia e à Turquia, ameaçadas pela URSS.

A Nova Carta Atlântica

Quase 80 anos depois, no passado 10 de Junho, Joe Biden e Boris Johnson reeditaram, na Cornualha, uma “Nova Carta Atlântica”, em que se comprometeram a “defender os princípios, valores e instituições da democracia e das sociedades abertas contra os que pretendem subvertê-las”, e a cooperar na resolução pacífica de conflitos, na defesa da soberania e da integridade territorial, na promoção da segurança colectiva e da estabilidade internacional contra ameaças físicas e cibernéticas e na inovação científica e tecnológica. E depois de reafirmada a disponibilização do armamento nuclear anglo-americano para defender a NATO e os aliados da NATO e de brevemente glosada a economia do século XXI, a crise climática e a biodiversidade, terminaram com uma também previsível nota final sobre a crise pandémica e a cooperação na defesa contra ameaças sanitárias.

Atravessando o Canal, o Presidente americano seguiu para Bruxelas, para a reunião dos 30 parceiros da NATO.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Quando a NATO foi fundada, em 1949, o inequívoco inimigo de Washington era a União Soviética e entre os fundadores e membros da Aliança contavam-se alguns Estados não democráticos – como a Grécia, Portugal e a Turquia.

Setenta e dois anos volvidos, os aliados da NATO, incluindo a Turquia, estão já todos aparentemente convertidos à Democracia. E, aparentemente, já não se enfrentam Estados ideológicos totalitários – como a União Soviética e os seus satélites europeus e a China de Mao Tsé-Tung.

Mas como não pode haver Bem sem Mal nem alianças defensivas sem Inimigo, há Estados que não se conseguem libertar do papel de maus da fita, como a Rússia de Putin, “cujas acções agressivas constituem uma ameaça à segurança euro-atlântica”, e a República Popular da China, cuja influência se multiplica nas armas tecnológicas, informáticas e agora também espaciais, que ameaçam a segurança ocidental.

Há, no entanto, um inimigo principal, neste caso, uma arqui-vilã, uma suprema rainha-má. Embora mencionada no fim, depois da Rússia de Puttin, do terrorismo sob todas as formas e de outras ameaças permanentes e persistentes, não restam dúvidas de que é a China.

Outra bipolaridade

Retóricas à parte, a nova ordem internacional parece querer outra vez articular-se num sistema bipolar: de um lado os “Estados livres” – como os Estados Unidos e os aliados da NATO – e do outro as “potências autoritárias” – como a China e a Rússia.

Parece-me pouco rigoroso, e até estrategicamente desastroso, equiparar aqui a Rússia à China, ou empurrar para o campo do Inimigo um Estado cristão, onde o poder político tem como parceira a Igreja Ortodoxa, um Estado que adopta políticas conservadoras e patrióticas. A Rússia pós-soviética não tem ambições expansionistas na Europa Ocidental nem no mundo e parte da sua reacção responde ao avanço que a NATO fez até às suas fronteiras. Além disso, apesar do seu poder militar e recursos energéticos, a Rússia tem uma demografia baixa e um território imenso e dificilmente constituirá uma ameaça para Europa e muito menos para os Estados Unidos. Porquê então a insistência norte-americana em manter a Rússia no papel de vilão? Talvez porque o conservadorismo ortodoxo da Rússia e o seu nacionalismo inspirado nos czares Alexandre I ou Nicolau I não se coadune com a “liberal mind” americana e repugne ao radicalismo puritano neo-marxista que está a fazer carreira nos Estados Unidos.

Foi, de resto, o que emergiu do longo encontro frente a frente, em Genebra, dos dois presidentes: muito provavelmente, Biden ter-se-ia já esquecido que chamara assassino a Putin, e Puttin, fizera por esquecê-lo. E Biden lá se fora referindo à Rússia como “grande potência”. Talvez porque o seu Secretário de Estado, Tony Blinken, e o seu conselheiro nacional de Segurança, Jake Sullivan, lhe tivessem recordado a máxima de Kissinger, quando da abertura à China no tempo de Nixon, de nunca deixar que a Rússia e a China estivessem mais próximas uma da outra do que dos Estados Unidos.

E a China é outra história, outra dimensão, outro perigo. A China é hoje uma grande potência económica e tecnológica que, graças ao seu poder económico e financeiro e a um sistema político que deixou a economia crescer mantendo-a sob controlo absoluto, prossegue uma estratégia de extensão da influência, através de iniciativas como as Rotas da Seda. Pequim já não recorre hoje, como outrora, nos tempos do maoismo, à formação de partidos “chineses”, com jovens lunáticos, inconscientes ou profundamente ignorantes, capazes de aderirem, em Paris, em Roma, em Lisboa, a um regime responsável pela morte à fome de 40 ou 50 milhões de camponeses no Grande Salto em Frente e pelas perversidades da Revolução Cultural. Não, o regime chinês mudou: é hoje um regime autoritário, um regime de partido único, que vigia, que controla, que faz desaparecer, que elimina até, mas que não mata indiscriminadamente ou ao sabor dos caprichos de um Grande Timoneiro sádico e paranóico.

E, no entanto, a ameaça que esta China constitui para os Estados Unidos, e sobretudo para a economia e para o domínio global dos Estados Unidos, parece agora ser maior. Talvez por isso esteja de volta a política norte-americana declaradamente hostil em relação à China, a que Trump e Mike Pompeo deram voz. Os modos e o tom podem ser outros, mas a política é a mesma ou até mais musculada. Até porque o Deep State norte-americano, depois de Trump o ter hostilizado ou, pelo menos, marginalizado, regressou em força, e com ele as corporações e respectivas burocracias militares, de inteligência e diplomáticas.

Biden, que antes se mostrava tranquilo e tranquilizante em relação à China, com o seu eloquente “They are not bad folks, folks!”, parece agora empenhado em garantir ao povo que, enquanto for ele a estar de sentinela, a China não há-de passar: “On my watch, China will not achieve its goal to become the leading country in the world, the wealthiest country in the world, and the most powerful country in the world.”

Diferenças paralelas

Será este o sinal de uma nova Guerra Fria? Há diferenças e semelhanças. Na Guerra Fria estava em jogo um conflito ideológico, uma confrontação entre formas de vida, liberdade versustotalitarismo, ou capitalismo versus socialismo (conflito que, a ser reeditado – democracia capitalista versus capitalismo autoritário – trará outras consequências, contornos, complexidades e realinhamentos). E, sobretudo, havia então, de um e de outro lado, pessoas e movimentos simpatizantes de um e do outro lado – os partidos comunistas no Ocidente, os dissidentes clandestinos no bloco soviético e na China.

Não havia confrontação militar directa porque existiam, de parte a parte, armas de destruição maciça, e por isso ninguém queria correr o risco do aniquilamento. As guerras quentes da Guerra Fria eram por interpostos aliados – na Grécia, na Coreia, no Vietname, na África, nas revoluções e golpes de Estado da América Latina – e obedeciam à lógica das alianças. E a União Soviética, com um regime socialista economicamente desastroso, era muito mais fraca economicamente que os Estados Unidos. E foi enfraquecendo; e quando pretendeu reformar-se, em vez de abrir a economia e manter a política fechada (como já estavam a fazer os comunistas chineses com Deng Xiaoping) abriu na política e removeu o terror. E foi o colapso e o fim da URSS e da Guerra Fria.

A China é um Estado nacional autoritário de Partido único e ideologia oficial marxista. Ideologia que o Presidente Xi Jinping rebaptizou como “socialismo com características chinesas”, ou, como esclareceria num artigo de 2019 na Revista Qiushi, “uma combinação dos princípios básicos do marxismo com a realidade concreta chinesa”.

Desde a sua ascensão ao cargo de Secretário-Geral do Partido, Xi procedeu a uma revolução discreta no sistema de comando do Partido e da RPC, acabando com os equilíbrios entre os sete ou nove Grandes da Comissão Permanente do Politburo do Partido, e tornando-se o chefe único e singular do sistema. Fê-lo através de mecanismos de combate à corrupção, com o indiciamento e punição de alguns dirigentes e núcleos simbólicos do poder, uma caça a altas figuras do Partido e do Estado ou uma caça aos “Tigres”, ou uma purga entre “Tigres”.

É a partir desse poder ultra-concentrado, que já demonstrou a sua eficácia e modo de funcionamento em Hong Kong e no Sinkiang, que devemos avaliar o perfil do novo Challenger do poder dominante americano, num momento em que a América está traumatizada e dividida.

Mas talvez o perigo exterior, um inimigo comum, uma suprema rainha-má, ajudem à reconstrução da unidade nos Estados Unidos e nos conduzam a um final mais ou menos feliz. E a verdade é que, no último século, a América decadente já mostrou várias vezes a sua capacidade de regeneração e resposta.