A Assembleia Municipal de Lisboa (AML) discutiu uma Recomendação “Pela construção de um cemitério público para animais de companhia”. A parte dos argumentos era um pastel de idiotias esforçadamente “históricas” e “filosóficas”, da tradição portuguesa do sentimentalismo insofrível, cuja construção assentava afinal num único parágrafo: «Os animais de companhia são cada vez mais vistos como verdadeiros membros da família, razão pela qual se começa a falar em “famílias multiespécie”. Efectivamente, na actualidade, os animais são cada vez mais tratados com atenção e cuidados; e os seus donos muitas vezes os vêm-nos e tratam-nos [sic] como se fossem membros da família, acabando por referir-se a eles com expressões demonstrativas de que estes animais são cada vez mais equiparados aos humanos». Com base nisto se cometeram duas páginas A4 de considerações escritas mais a respectiva deliberação, que não pedia mais do que o título (o tal cemitério). Quem apresentou o documento? Quem tomou esta iniciativa e a defendeu assim? Não, não foi o PAN, foi o Partido Socialista. É um documento oficial, discutido no passado dia 7 de Novembro, e está disponível online no site da AML: Recomendação nº 092/01 (PS). Não trago aqui opiniões apanhadas com um camaroeiro em posts no Facebook (parece que trago, mas não trago). São documentos públicos, oficiais, e assuntos oficialmente discutidos por deputados eleitos, num órgão oficial de representantes dos eleitores.

Tratemos deste. A parte deliberativa parece bem, e foi aprovada. Por unanimidade ou por uma larguíssima maioria (confesso a indecisão da memória). Faz sentido, assim haja terrenos disponíveis, pensar-se num cemitério destinado aos animais para que as pessoas, caso queiram, possam ter um sítio onde sabem que fica o seu animal de estimação. E pronto, começou e acaba aqui a parte respeitável do debate. Nos argumentos, o PS fala em “famílias multiespécie”: humanos e animais, tudo na mesma família. Diz isto para tirar votos ao PAN. Uma conversa inaceitável. Hoje as “famílias multiespécie” aparecem na fundamentação de um documento, amanhã estão na parte deliberativa. E depois apresenta-se um cavalheiro a requerer que o deixem casar-se com um caniche. Ou a exigir um abono de família por adoptar um caniche, com licença de parto. E que lhe atribuam benefícios fiscais, para descontar nos impostos, como as famílias descontam com base no número de filhos. Agregado familiar? Um animador cultural e quatro dependentes, constituídos por um poodle, uma gata siamesa, e um casal de rafeiras alentejanas lésbicas. Todos inscritos na Unidade de Saúde Familiar de Campo de Ourique.

Parece exagero? Definitivamente, não é. Quando vemos o SNS a desfazer-se, as pessoas a morrer sem atendimento, urgências e blocos de parto a fechar; morrem bebés, morrem mães, morrem pessoas à espera de consultas e cirurgias; o PAN põe cartazes na rua a exigir hospitais públicos veterinários. De resto, nem se percebe a segregação. Bastaria acrescentar departamentos veterinários aos hospitais públicos existentes; e nacionalizar as clínicas veterinárias da cidade e do país, posto o que se poderia enviar para essas “estruturas” os quase dois milhões de portugueses que não têm médico de família. Já que aqui chegámos, desta vez pela mão do PS, mais vale mergulhar no progresso e resolver um problema de saúde nacional. Há quem leve estas idiotias a sério.

Este artigo é exclusivo para os nossos assinantes: assine agora e beneficie de leitura ilimitada e outras vantagens. Caso já seja assinante inicie aqui a sua sessão. Se pensa que esta mensagem está em erro, contacte o nosso apoio a cliente.