Os cônjuges parecem-se entre si; os cães com os donos; e as plantas com as penas. A não poucos na bicha de uma farmácia terá porém surpreendido o seguinte letreiro: ‘Directora Técnica: Doutora Maria Elvira da Conceição Pescado Tavares Piparote Rodrigues.’ Com quem ou quê se parecerá a portadora do nome? Os nomes portugueses tornaram-se gradualmente muito compridos; têm depois começado a diminuir: a grande excepção à sístole é a do comércio farmacêutico. A ciência debruçou-se sobre este assunto, porque justamente lhe aborrecem as excepções. Hoje todavia existe uma explicação para o fenómeno dos nomes compridos das directoras técnicas das farmácias. Essa explicação, a que se chama normalmente Lei de Putnam, tem a vantagem de ligar a evolução dos nomes das directoras das farmácias à evolução da química.

Empédocles nasceu na Sicília e é conhecido por ter descoberto que neste mundo só havia quatro coisas. Tais coisas ficaram conhecidas por: fogo, ar, água e terra. O que surpreendia os sicilianos era que houvesse poucas coisas e os seus nomes fossem curtos; hoje sabe-se porém que são curtos porque Empédocles tinha um nome curto; ou, mais provavelmente segundo a Lei de Putnam, que Empédocles tinha um nome curto porque na Sicília só havia quatro coisas. Quem estivesse à espera de ser aviado numa farmácia de Agrigento veria sem supresa o letreiro: ‘Director Técnico: Empédocles.’ Havia uma simetria feliz.

A água de Empédocles teve uma evolução que não nos ocupará. Conduziu à descoberta de que aquilo a que Empédocles chamava água era de facto o resultado de uma aliança entre oxigénio e hidrogénio, em proporções que quase ninguém nas escolas desconhece. Foi esta evolução que proporcionou uma mudança de compreensão dos fenómenos químicos. A mudança ocorreu quando se correlacionou a descoberta com o nome de quem a descobriu; ou melhor, quando se correlacionou o nome de quem descobriu com o facto de que a água era pelo menos duas coisas. O autor do feito ficou por essa razão conhecido como Amedeo Avogadro; sugere uma certa complexidade. Data desta altura a concepção moderna da direcção técnica de farmácia.

Na civilização contemporânea não é anormal os mais impreparados solicitarem 2-[3,4-dihidroxi-2,5-bis(hidroximetil)tetrahidrofuran-2-il]oxi-6-(hidroximetil)oxano-3,4,5-triol α-D-Glucopiranosideo. Trata-se de açúcar. A quem, porém, o farão com mais propriedade? Nas pastelarias, como os melhores autores observaram, os directores técnicos chamam-se quase todos Senhor Luciano e não têm por essa razão conhecimento específico daquilo que administram. É apenas nas farmácias que a onomástica das directoras técnicas faz justiça às fórmulas negociadas. É aos seus nomes que devemos pedir o nosso açúcar. São estas afinidades electivas que levam, em todos os bairros, à confissão orgulhosa que se ouve: ‘o meu nome é Doutora Maria Elvira da Conceição Pescado Tavares Piparote Rodrigues; pode confiar em mim em questões de química molecular.’