Há um mês e meio uma faculdade obscura do Reino Unido, a Goldsmiths, anunciou que iria proibir o consumo de carne de vaca nas suas instalações. Esta semana a Universidade de Coimbra veio imitar esta faculdade obscura do Reino Unido.

A pergunta imediata é porque é que uma instituição veneranda e centenária, criada em Lisboa em 1290 pelo Rei D. Dinis, que acumula saber há muitos séculos, por onde passaram alguns dos mais ilustres portugueses, e que depois passou para Coimbra, cidade que pretende afirmar-se como sede do conhecimento, abandona o reino do saber para entrar nas áreas do activismo demagógico em que o rigor científico é substituído por “golpadas” de marketing?

É difícil conseguir chegar a uma resposta, mas vou tentar.

Sabemos que as universidades passam tempos difíceis, segundo dizem os seus responsáveis porque têm autonomia mas não têm o dinheiro suficiente para a exercer. Mas deve haver muito poucas famílias e muito poucas entidades neste país, se houver alguma, que digam uma coisa diferentes sobre esse assunto.

Talvez a Universidade de Coimbra tenha um número excessivo de docentes que não retribuem com o seu trabalho os apoios que recebem dos restantes portugueses? Na minha cabeça surgem-me logo meia dúzia de nomes. Mas isso não acontece apenas na Universidade de Coimbra, que tem instituições de referência como o Instituto Pedro Nunes para compensar os docentes de dúbia qualidade.

O Observador relata que o Reitor afirmou, perante centenas de alunos, que “vivemos um tempo de emergência climática e temos de colocar travão nesta catástrofe ambiental anunciada”. Será que o Reitor foi tentado porque os alunos representam uma parte significativa dos votos para a sua eleição, espantosamente mais do que os funcionários? Mas a nova eleição é só em 2023, pelo que há muito tempo para começar a campanha.

Será que os alunos da universidade entregaram massivamente justificações dos pais para realizar uma greve pelo clima, prontamente apoiada por professores e directores de escolas da região que viram aqui uma oportunidade de ouro para uma aula prática sobre como organizar manifestações, como requer a nova pedagogia em vigor em Portugal? Não tenho qualquer dúvida que parte dos professores da Universidade de Coimbra iria aderir com júbilo a esta aula prática, e se calhar o Reitor também, mas os alunos universitários já não precisam de autorização parental para estes e outros fins.

Será que o Reitor é sócio de um McDonald’s em Coimbra que está com dificuldade em aumentar as suas vendas? Não seria a primeira vez, muito longe disso, que um lugar público era usado para benefício pessoal. Mas não só os McDonald’s diversificaram a sua oferta como numa cidade com a dimensão da de Coimbra isso seria demasiado evidente.

Ou será que se está a tornar uma moda nas universidades portuguesas imitar o que de pior vem de lá de fora? A limitação do discurso que agora é habitual em universidades de outros países começou com a Universidade Nova de Lisboa já há algum tempo, quando Jaime Nogueira Pinto foi impedido de lá falar. Mas esta universidade é nova, tem orientação maoista e por isso ainda não aprendeu que o papel da universidade é precisamente fomentar a diversidade do discurso e não promover a sua monotonia. A Universidade de Coimbra tem sete séculos de aprendizagem, passou por momentos difíceis a este respeito, pelo que não iria repetir o erro da Universidade Nova e imitar o que de pior vem lá de fora.

O reitor é da área farmacêutica, pelo que não terá especiais conhecimentos sobre as questões ambientais. Deve ser, como se costuma designar, um leigo, como sou eu e mais de 99% da população portuguesa. Como leigos temos mais dúvidas do que certezas sobre este assunto. O alarmismo sobre a degradação do ambiente é justificado e há um ponto de não retorno a partir de 2030, como nos querem fazer crer? Ou há um aumento da temperatura média principalmente porque estamos num período interglacial quando a dita temperatura aumenta naturalmente? Ou ainda, há uma agenda anticapitalista por trás deste alarmismo, usando as questões ambientais em substituição da revolução para nos impor uma visão totalitária da sociedade? Como não sei a resposta, inclino-me mais para que haja um pouco de tudo ao mesmo tempo.

Afinal, a única conclusão que se pode tirar é que no caso do Reitor da Universidade de Coimbra houve claramente falta de bom senso e de prudência, possivelmente misturada com a vontade de agradar aos alunos. O que me leva a duvidar que o Reitor tenha as qualificações necessárias para o lugar que ocupa numa distinta e respeitável instituição, com tão longa história, como é a Universidade de Coimbra.

Lido frequentemente a nível profissional com universidades e confesso que cada vez tenho mais cuidado na sua escolha. A crise económica e a bancarrota financeira não criaram só dificuldades a um conjunto alargado de famílias e de instituições. Trouxeram de volta o tempo em que predomina a ideologia e a demagogia, e com ele algumas universidades estão a deixar de ser centros de conhecimento e a transformar-se em máquinas de propaganda.

O texto reflecte apenas a opinião do autor