Nesta espuma dos dias da crise do Covid-19 alguém recordou as proféticas palavras do Dr. Medeiros Ferreira no sentido de que ou a União Europeia se reformava ou mesmo que não acabasse viria a tornar-se tão inútil e irrelevante como o medieval Sacro Império Romano-Germânico. Recordemos que este suposto Império consistia numa espécie de título honorífico dado pelo Papa a um monarca que reunia um conjunto de principados, ducados e barões que então dividia a Alemanha e que mal mantinham a paz entre si. Ora, a União Europeia (“EU”) foi criada justamente para manter a paz entre as nações europeias após séculos de guerras devastadoras.

Estamos em crer que alguns Estados europeus ainda não se deram conta do carácter deveras excepcional e extraordinário da gravíssima crise económica instalada devido às medidas de contenção e mitigação do Covid-19 que paralisaram a economia mundial. Não parecem compreender que nada será igual no futuro em termos económicos, financeiros e quanto às dívidas públicas dos Estados Membros da EU. O mundo pode estar a caminho não de uma nova Grande Recessão, mas caso o surto do vírus persista sem uma vacina, a uma nova Grande Depressão como ocorreu em 1929 com as trágicas consequências que levaram à II Guerra Mundial. Exigem-se soluções ousadas e fora dos quadros institucionais e legais normais da EU.

Até à data, a EU só admitiu, na prática, que os Estados Membros se endividem sem limites dos défices e a Comissão Europeia avançou com algumas medidas claramente insuficientes. O Banco Central Europeu apoiou as dívidas publicas que irão ser geradas decidindo comprar essas dívidas sem limites. Mas as crises de dívidas públicas após a EU ter instado os Estados a gastar para fazer face à Grande Recessão de 2008/2009 deram origem a um longo período de austeridade entre 2011 a 2015 de que Portugal, Espanha, Itália, Grécia e a Irlanda estão ainda bem lembrados. Estes países não estão em condições de passar por outro período de austeridade assim.

Uma solução ousada seria o Banco Central Europeu, através de mudança dos seus Estatutos passar a emprestar dinheiro directamente aos Estados europeus. De outro modo, quem irá lucrar com esta crise serão os bancos comerciais e de investimento e a austeridade estará aí ao virar da esquina. Parece-nos uma solução alternativa às Euro-Bonds ou às Corona-Bonds, atenta a relutância de alguns países em optarem por esta alternativa. O que queremos salientar com esta sugestão é que esta crise terá de levar o mundo a encarar soluções até agora impensáveis e a pensar “fora da caixa” e talvez seja uma oportunidade para reformar o sistema económico e financeiro mundial que tantas outras crises tem provocado.