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Curvas maravilhosas /premium

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Ao contrário da presunção de alguma antiquada intelectualidade, os cientistas-autores portugueses dão lições de humildade e de capacidade de comunicação. E entre eles destaca-se Jorge Buescu.

Ainda sobre o choque das eleições brasileiras, passei os olhos pela Folha de São Paulo e fiquei surpreendido com um artigo de opinião que aparecia em destaque na página 2 desse grande diário brasileiro. O colunista insurgia-se contra o programa social que o presidente eleito estava a revelar e, entre as suas críticas, que imaginava contundentes, dizia que esse programa social demonstrava “uma visão simplista dos problemas nacionais, à qual falta o conhecimento acumulado nos centros de estudo universitários”.

Não sei o que pensaria se fosse brasileiro. Mas brasileiro ou português, tais afirmações de um dito cientista social escandalizam-me. Estariam Lula ou Dilma a par do “conhecimento acumulado nos centros de estudo universitários”? Mereceriam ser eleitos por esse seu conhecimento?!

Ou será que os votos não devem ser confiados ao povo ignorante? A menos que tenham lido o “conhecimento acumulado nos centros de estudo universitários”… Ou seja, será que alguma “esquerda académica culta” resolveu aderir às teorias políticas de Platão, segundo o qual o melhor dos sistemas não é a democracia, mas sim o governo dos sábios?

Nao me espantaria que alguns eleitores possam ter visto nesta arrogância académica “culta” uma razão para votar contra quem quer que seja que este “cientista social” e os seus amigos possam ter apoiado. O pior é que a arrogância não é exclusiva de alguns intelectuais brasileiros.

Ainda hoje me lembro, com bastante revolta, das horas e horas, durante anos, em que, depois de ter assistido a algumas sessões de literatos e sociólogos “cultos”, tentava perceber o que diziam e tentava colmatar a minha ignorância com leituras dos seus textos. Era então muito jovem e estavam na moda Baudrillard, Foucault, Derrida e outros autores opacos, tal como estavam na moda certos críticos literários “cultos” que, afinal, não falavam de literatura, mas sim de uma “cultura crítica”, e falavam sempre com o olhar fito num horizonte etéreo e com um meio sorriso, sempre acima dos outros, que não os poderiam alcançar.

Na altura também, a cultura científica era menosprezada, como era menosprezado o esforço de alguns para divulgarem as conquistas da ciência. Bento Jesus Caraça, grande homem da cultura científica, era poupado, certamente porque estava do lado do povo, e Rómulo de Carvalho, grande divulgador da ciência e da técnica, era muito apreciado mas era também poeta, e talvez isso lhe conferisse o título de intelectual. Enfim…

Quem não tenha vivido estas épocas passadas, ou não tenha conhecido alguma “intelectualidade” arrogante achará estranho tudo o que estou a descrever. Ainda bem! Hoje os tempos são outros. A ciência é maioritariamente considerada parte essencial da cultura, e a divulgação científica é respeitada.

Entre nós, o moderno ponto de viragem coincidiu, ou iniciou-se, tanto quanto posso observar, com o aparecimento de uma editora e de um homem: refiro-me obviamente à Gradiva e ao seu editor, Guilherme Valente. A Gradiva multiplicou entre nós traduções de elevada qualidade de obras de Carl Sagan, Stephen Hawking, Hubert Reeves e de muitos outros representantes de uma literatura científica nova, com autores que são grandes cientistas e, ao mesmo tempo, grandes escritores. Incentivou o aparecimento de cientistas-autores portugueses.

Surgiu então entre nós uma geração de homens de mulheres de ciência que juntaram ao conhecimento das matérias da sua especialidade e ao trabalho de investigação de nível internacional uma outra atividade: a divulgação científica.

Por contraste com o ambiente do passado que descrevi, estas pessoas falam uma linguagem simples, preocupam-se em tornar acessíveis temas difíceis, têm sentido de humor, não se julgam superiores aos que desconhecem as suas matérias, têm prazer quando se fazem compreender. Falam com intelectuais tal como falam com jovens, fazem palestras na Gulbenkian tal como fazem sessões de divulgação em escolas de província. Têm gosto nessa atividade humana nobre que é comunicar.

Entre essas pessoas conhecedoras e modestas destaca-se o nome do matemático Jorge Buescu. Talvez seja de todos nós o que melhor escreve. Sem brilho declamatório, mas com humor, simplicidade e uma extraordinária capacidade de juntar o seu talento de contador de histórias ao conhecimento profundo dos temas que discute.

Vários dos seus livros tornaram-se best sellers. Têm todos títulos fantásticos, que correspondem a um estilo cativante. Temos “O Mistério do Bilhete de Identidade”, “Casamentos e Outros Desencontros”, “Primos Gémeos e Triângulos Curvos”…

E temos agora “Curvas Ideais, Relações Desconhecidas e Outras Histórias da Matemática“. Peguei no livro e tive dificuldade em parar. Adormeci muito tarde nesse dia. As histórias que conta parecem mistérios policiais, e estão recheadas de informação sobre temas históricos e temas matemáticos. Aprende-se e tem-se oportunidade de ir mais longe, recriando alguns exemplos, fazendo algumas contas e pensando. Mas quem apenas queira divertir-se, divertir-se-á sem deixar de aprender. Pode-se pedir melhor?!

Recebi o convite para estar na apresentação do livro, feita no Caleidoscópio, em Lisboa, hoje, quarta, pelas 18 horas, mas tenho uma aula nessa hora, na outra ponta da cidade. Se fosse mais perto, julgo que seria bom para os meus alunos assistirem à apresentação do livro. Mas se quem me lê não tiver um compromisso inadiável, poderá ir e conhecer Jorge Buescu. A apresentação está a cargo de Henrique Leitão, conhecido historiador de ciência, e de Filipe Oliveira, presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática. Promete!

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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