Houve e há muitas esquerdas, mas também houve e há muitas direitas. Esquerdas democráticas e totalitárias, patrióticas e internacionalistas, nacionais e europeias, liberais e socialistas, religiosas e laicas, autoritárias e libertárias. E o mesmo número de direitas, também nestas e noutras variantes: direitas liberais e totalitárias, republicanas e monárquicas, conservadoras e revolucionárias, religiosas e agnósticas. Talvez por isso, numa entrevista que publicámos no nº2 do Futuro Presente, o velho Prezzolini (cuja admiração partilhei com um bom amigo e um grande representante da direita nacional, católica e conservadora, João Bigotte Chorão) tivesse definido a Direita como “o conjunto das Direitas, das que recordamos e das que esquecemos”.

Isto, no princípio dos anos oitenta, quando decidimos resgatar das cinzas e dos destroços do Estado Novo e do PREC uma alternativa de pensamento ao “antifascismo” da esquerda festiva, um antifascismo meio decadente, meio soporífero, quase sempre utilitário, o “antifascismo” que ficara da Revolução, morta no 25 de Novembro de 1975, duas semanas depois do fim oficial do Império, a 11 de Novembro.

Esse Novembro de 1975 marcou o fim de duas gerações de revolucionários e de duas utopias – uma que tinha querido fazer do Império uma Nação, mas que chegara tarde. Outra que tinha querido fazer uma revolução comunista em Portugal, uma década antes de Gorbachev iniciar a liquidação da revolução soviética.

Fracassámos uns e outros, também porque, a seu modo, estes dois projectos eram utópicos, ou melhor ucrónicos. Ou as duas coisas. Já não faziam parte do tempo e do lugar. Vinham tarde.

Percebemos hoje que fazer do Império uma Nação – integrada, multinacional, descolonizada de dentro para fora – depois do fim dos impérios europeus, era uma missão impossível. Estávamos já fora do tempo, mas isso não impediu que o nosso projecto derrotado tivesse deixado uma marca em todos – e foram muitos – os que nele participaram. E até nos nossos inimigos de então. Do outro lado não sei, mas os comunistas portugueses que, graças ao Dr. Cunhal, não embarcaram em eurocomunismos, acabaram por ser os últimos sobreviventes desse mundo que caiu na Rússia com Gorbachev e na China com Deng Xiaoping. E que também deixou marcas.

Foi nas cinzas do pós-salazarismo e do pós-marcelismo que nós, que nunca tínhamos sido salazaristas e muito menos marcelistas, quisemos fazer uma direita nova; e fazê-la à imagem das memórias e histórias da Direita do Prezzolini, que abrangia todas as outras, como alternativa àquela neblina viscosa que era o Centrão pós-PREC, àquela pobreza de ideias – pobreza não é o termo, pobreza tem uma certa dignidade e conteúdo, por isso, corrijo –, àquela indigência de ideias, de história, de narrativa, que então dominava e domina o mainstream político-intelectual doméstico.

Nesse princípio dos anos oitenta, os que tínhamos na Direita um pensamento alternativo achámos que era o tempo da coruja, o tempo de pensar, o tempo de preparar o tempo das lutas. Lembro-me muito bem de a Zezinha, que esteve comigo nas guerras e exílios do fim do Império, dizer que, naturalmente, o que devíamos passar a ser era uma espécie de corpos – não sei se vivos, se mortos – entre um tempo e outro, entre passado e presente, pontes entre a tal nação utópica e o futuro da “pátria de novo pequena”.

Foi por esse tempo que criámos o Futuro Presente e fomos à procura das raízes teóricas e vivas de uma alternativa, não tanto já contra a filosofia e à prática do totalitarismo comunista, mas contra o tentacular “antifascismo” do Centrão, na sua versão liberal (que era a da direita permitida) e esquerdista (que era a do socialismo democrático, que enfrentava os liberais).

Entretanto, passaram quarenta anos.

O comunismo nas suas várias formas – a soviética, a maoista, os goulags terceiro-mundistas – desapareceu. Restam umas sobrevivências – a Coreia do Norte, Cuba, a Venezuela. Mas levantou-se e está de pé um marxismo cultural ou uma correcção política que, sem usar assaltos ao Palácio de Inverno, campos de concentração, massacres, terror, vai ganhando terreno. E que tem por aliados, por toda a parte, os politicamente correctos de todas as categorias, conscientes ou inconscientes, activos ou passivos.

Também na Direita acabaram os nacionais-socialismos, os fascismos e os autoritarismos, como acabaram as ditaduras militares da América do Sul. E nenhum dos partidos de direita nacional e popular que vêm surgindo na Europa, partidos cujo crescimento é eleitoral, com razões diversas segundo cada país, propõe ou deseja o fim da Democracia, o silenciamento da oposição, o controlo da imprensa. Do mesmo modo, sob os governos que lhes “dão seguimento” e para os quais a esquerda e alguns inocentes úteis arranjaram o qualificativo de “iliberais” – como a América de Trump, o Brasil de Bolsonaro, a Polónia ou a Hungria – funcionam as constituições, há oposição, eleições e equilíbrio de poderes e contrapoderes. A América de Trump, o Brasil de Bolsonaro, a Polónia ou a Hungria não são Coreias do Norte, Cubas, Venezuelas ou sequer Chinas… E, no entanto, parece ser daquelas democráticas “derivas direitistas” e não destas ditatoriais “derivas esquerdistas” que vem “o grande perigo para a democracia”. O grande perigo é só um: o “perigo fascista” ou o perigo da “democracia iliberal”. Iliberal porquê? Proíbe a iniciativa privada? Proíbe a liberdade religiosa ou de expressão de pensamento? Tem milícias ou polícias políticas?

A Academia, que nas chamadas Ciências Sociais está quase monopolizada pelos que ali exercem uma estratégia de hegemonia ideológica e um verdadeiro autoritarismo iliberal – que policia a linguagem e as ideias, que higieniza a História, que seca o pensamento crítico, e, logo, todo o pensamento –, não constitui qualquer perigo. O controlo e a manipulação da classe jornalística, com o silenciamento e ocultação de alguns assuntos e o realce calculado de outros, a adjectivação sectária, o partidarismo misturado de ignorância, são também inofensivos. Como inofensivas e isentas de perigos são as leis fracturantes discretamente negociadas e passadas como moeda de troca por quem liberalmente nos governa.

Nada disto é, aparentemente, perigoso nem preocupante: o mal maior, o grande perigo para a Esquerda e para uma preocupada e vigilante direita liberal vem de Trump, do Chega ou, agora, até do Dr. Rui Rio. Rio, que até há pouco tempo, e para os mesmos direitistas vigilantes e apreensivos, era demasiadamente tecnocrata, chegando mesmo a exibir alguns tiques de esquerda, passou agora a ser um cruzamento de Kerensky e Hindemburg, abrindo, via Açores, as portas da cidadela da democracia aos ratos da peste do nazismo, do fascismo-salazarismo, enfim, do iliberalismo.

Saberão onde está, de onde vem o perigo real? Quem é o amigo e o inimigo? O que é a direita, o que é a esquerda, o que é o centro?

Não, o perigo é o Trump, é o Orban, é o Bolsonaro, é o Chega. O Maduro, Cuba, o Fórum de S. Paulo, o PCP, o Bloco, são parceiros democráticos, liberais, inofensivos.

Voltando a Prezzolini, há direitas que lembramos, há direitas que esquecemos e há direitas que são para esquecer.