Na esquerda mais à esquerda, na esquerda mais ao centro, ou na direita da esquerda, há – ou parece que há, a avaliar pelo alarme e os alarmistas – uma grande preocupação com aquilo a que todas chamam “a subida da extrema-direita”.

Parece que o alarme é justificado porque a “extrema-direita”, além de “não ter cultura nem maneiras” é “nacionalista, xenófoba, racista e antidemocrática”. Adivinham-se, por isso, momentos de grande perigo para as liberdades públicas, semelhantes àqueles que, há cem anos, o Continente atravessou.

Mas, afinal, o que é que tanto ameaça a Europa? Que espectro ressuscitado no outro extremo ideológico dos redactores do Manifesto Comunista a ronda? Serão partidos armados, camisas negras, castanhas ou azuis, desfilando de braço ao alto nas ruas de Roma, Berlim ou Madrid? Serão coronéis centro-americanos ou generais sul-americanos estipendiados por agentes da CIA, preparando-se para derrubar democracias e sufocar escritores, académicos e jornalistas liberais? Ou terroristas a soldo de misteriosas internacionais negras, financiadas por restos do tesouro do Führer, contrabandeados por seitas racistas?

O que é que tanto inquieta todos estes desempoeirados espíritos comentantes? O que é que lhes traz tanta ansiedade, tanta angústia, tanto desespero? O que é que perante “as bestas louras” da fábula nietzscheana os leva a esgrimir atabalhoados fact checks, prevenções, diatribes, pontos atribuídos em debates? O que é que se passa para que haja, entre os guardiões do Bem e da Verdade que constituem a comunidade mediática, quem exija, como na Alemanha, a proibição de partidos políticos que têm mais de 20% do eleitorado? Ou para que se recorra às intervenções do “quarto poder” a fim de impedir a aplicação de leis votadas no Parlamento (como em França com as leis recentes sobre a imigração)?

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Entre pânicos genuínos e preocupações sinceras, o que parece realmente perturbar profundamente académicos, sociólogos, politólogos, analistas, comentadores, jornalistas, colunistas e influencers é a origem da ascensão destas tenebrosas extremas-direitas: os eleitores – muitos e cada vez mais – perante os desmandos dos partidos tradicionais e à revelia dos “media de referência”.

O que terá acontecido ao povo, que parece já não perceber que as eleições só devem ser ganhas pela Esquerda ou, quando muito, pela direita da Esquerda, essa nebulosa área política inventada e incentivada, entre nós, pela Esquerda? O que é isto de “o povo” ignorar os avisos apocalípticos de quem sabe, mostrando-se insensível à pedagogia dos pedagogos, às análises dos analistas, às pontuações dos júris, enquanto deixa que, na Europa e por cá, “os populistas” continuem animadamente a subir nas sondagens e nas eleições? Mais ainda, o que é que se passa, por exemplo, em Itália, onde a extrema-direita teve a ousadia de chegar ao poder e não acabar com a Democracia, como estava no guião, nem seguir o pavoroso elenco de diabólicas malfeitorias tão profusamente anunciado por académicos, sociólogos, politólogos, analistas, comentadores, jornalistas, colunistas e influencers?

Escrevia Ricardo Marchi, um italiano que tem estudado a Direita e as direitas em Portugal, que parece haver uma relação inversa entre quem ganha os debates, segundo a pontuação atribuída pelos jornalistas, e quem acaba por ter mais votos. Como se uma maldição se abatesse sobre os, quase sempre unânimes, painéis de comentadores.

E finalmente há a pobreza temática dos debates, de onde parece ausente tudo o que não contribua para um duelo de galos, com pouco conteúdo e menos substância, debates onde se pratica o mais básico populismo e a mais chã demagogia enquanto se esbraceja contra a “demagogia” e o “populismo”. Sobre política internacional, sobre a Europa e o Mundo, sobre as posições dos partidos e coligações quanto à vida e à morte, à natalidade e à velhice, nem uma palavra. E do modelo de sociedade e civilização, de conceitos básicos como o conceito de Família, a liberdade de expressão e pensamento, a política de Cultura, o ensino da História, a ofensiva ideológica na Educação (entretanto alvo de legislação passada à pressa), nada.

A Esquerda governa Portugal – com curtos intervalos – há 50 anos. Tinha, até há pouco, o domínio no leque partidário; tem ainda um domínio quase absoluto da comunicação mediática; ganhou uma arrogância de senhora e dona disto tudo e manteve, por absurdo, a superioridade moral de quando era perseguida pelo anterior regime. Chantageou moralmente os partidos do centro, impondo-lhes, para benefício próprio, as regras de exclusão do arco da respeitabilidade democrática de forças políticas da direita nacional e conservadora por serem “extremistas” e “anti-democráticas” – depois de ter integrado calmamente os seus democraticíssimos extremos.

Ora isto é capaz de ser difícil de sustentar. Se uma força política, um partido, tem votos populares, pode a convergência mediática atacá-lo e insultá-lo com os piores adjetivos do dicionário que isso não o impedirá de crescer. Pode-se sempre excluí-lo do arco democrático ou do que seja, mas excluí-lo em nome de quê e porquê? Em nome da democracia, mas através de uma política contrária à equidade e à normalidade democráticas? Por um punhado de votos?