O que Trump representa

No dia 27, Donald Trump fez um discurso sobre a sua visão para a política externa Americana. Isto ainda nas 24 horas do rescaldo de uma vitória retumbante no nordeste dos EUA no contexto das primárias do partido Republicano, aonde Trump agora goza de toda a vantagem para se tornar no candidato oficial.

É importante compreender o contexto deste discurso para compreender o quão significativo ele foi não apenas para a política americana mas também para Portugal e para a Europa.

Convém dizer algumas palavras sobre o think-tank que convidou Trump a pronunciar-se: o Center for the National Interest foi fundado por Henry Kissinger e Richard Nixon (então apenas conhecido como Nixon Center) no âmbito de uma disputa no seio da elite política em Washington D.C. sobre como lidar com a União Soviética. Kissinger e Nixon, liderando uma fação realista, opunham-se a uma fação mais militarista que defendia confrontar a URSS com uma escalada belicista que derradeiramente levasse os soviéticos a sobrecarregar-se com compromissos militares.

Enquanto que os realistas travavam a Guerra Fria com a convicção de que a existência da própria URSS não estava em causa mas que a guerra servia apenas o propósito de derrotar a Rússia enquanto superpotência, a outra fação almejava destruir a URSS enquanto regime comunista. Esta outra fação viria a adquirir influência na Administração Reagan e ficaria posteriormente conhecida como a fação dos neoconservadores. Podemos dizer que os ‘neocons’ viriam a triunfar neste debate pois Moscovo colapsaria ao tentar acompanhar uma corrida americana aos armamentos de alta tecnologia.

No seguimento do fim da Guerra Fria, os realistas perderam influência e o CFTNI, ainda que respeitado, passou a ser um think-tank isolado no contexto da comunidade de centros de pesquisa da Beltway (think-tanks de Washington). Esta situação apenas se agravou com a Administração de George W. Bush (2000-2008), aonde os neocons ganhariam proeminência.

Ideologicamente, o que separa os realistas dos demais é a convicção de que política externa deve ser baseada na prossecução de interesses e não na promoção de valores. Já os neocons, que têm sido influentes até agora, defendem que a missão dos EUA é precisamente a instauração da democracia liberal no mundo. Neste debate Donald Trump não é ambíguo pois declarou categoricamente que, na sua perspetiva, os EUA deverão “substituir ideologia por estratégia”.

Trump constituiu-se, com o discurso da semana passada, como o primeiro candidato presidencial realista viável desde a Administração Bush pai (1988-1992). A administração Clinton ficou conhecida pelo seu intervencionismo liberal e a de George W. Bush pelo neoconservadorismo, gerando um consenso bipartidário em torno de uma política externa globalista, universalista e intervencionista. Trump, por outro lado, quer acabar com as intervenções de “construção de Estados” e com a “Freedom Agenda”.

O multimilionário norte-americano, talvez ingenuamente, decidiu apelidar a sua doutrina “América em primeiro lugar”. Para um conhecedor de História, tal rótulo seria dúbio, dado que foi utilizado pela corrente de opinião que durante os anos 30 argumentava contra a entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial e que defendia uma política de apaziguamento com a Alemanha Nazi. Trump talvez compreenda que os americanos não são muito dados a estudar História.

O comentariato centrista Americano gostaria de ter alguma esperança de instrumentalizar este aspeto, mas tal esperança será provavelmente gorada pelo simples razão de que durante as últimos anos este mesmo comentariato tem usado a mais, as comparações com a Segunda Guerra Mundial: a guerra ao terrorismo seria a quarta guerra mundial, Putin o novo Hitler, o Irão é a nova Alemanha Nazi, a qual não se pode apaziguar. Uma retórica alarmista que, de tanto abusada, deixou lentamente de ser credível.

O CFTNI tornou-se uma referência incontornável na Beltway em 2002 quando foi um dos poucos think-tanks da capital americana que ousou argumentar contra a lógica da invasão do Iraque. Durante os anos Bush, o CFTNI existiu relativamente isolado, mas com os últimos anos da administração e patentes os erros das intervenções liberais no Médio-Oriente, muitos dos argumentos realistas tornaram-se populares tanto à direita como à esquerda.

No início do ano, quando Trump era ainda menosprezado, ele foi a voz mais implacável contra os erros da administração Bush e nas primárias republicanas da Carolina do Sul, aonde se esperava que a conceituada família presidencial tivesse uma vantagem preponderante, Trump acabou humilhando o herdeiro da dinastia: Jeb Bush.

Donald J. Trump simboliza o ajustar de contas da direita americana com os desaires da administração Bush, algo que a maior parte dos outros candidatos não estavam dispostos a fazer.

Implicações para Portugal

O crescimento de uma corrente de pensamento alternativa ao consenso centrista é uma tendência crescente, quer o magnata do imobiliário seja eleito ou não, e Portugal não se encontra numa boa posição perante a nova visão do governo americano.

Trump argumenta que, dadas as derrotas militares, crescimento desenfreado do nível de endividamento dos EUA, juntamente com a desindustrialização e empobrecimento da sociedade e infraestruturas norte-americanas, a era de intervencionismo messiânico pelo mundo fora deve cessar. No caso de Portugal, isto significa que sendo, membro da NATO, caso o nível de despesa nacional com as forças armadas não cumpra o limiar dos 2% do PIB em breve, Portugal deixará de ser tido e ouvido em absoluto em matérias de cooperação atlântica. Mais concretamente, isto seria palpável nas negociações atuais sobre a permanência dos EUA nas Lajes.

Porque Portugal subscreve em absoluto a doutrina da Política de Segurança e Defesa Comum (PSDC) e a Política Externa e de Segurança Comum (PESC) da UE, o nosso país e o conjunto dos Estados-membros da UE encontrar-se-ão desalinhados dos imperativos de uma nova política externa americana. É precisamente contra a dispersão e falta de propósito estratégico que Trump argumenta, numa reversão dos destacamentos dos EUA no estrangeiro.

Tem sido doutrina da UE patrocinar a construção de instituições democráticas e confrontar regimes iliberais, convicta do princípio da ‘Paz Democrática’ entre as nações. Vários regimes visados pela ‘Política de Vizinhança’ têm vindo desde há vários anos a incompatibilizar-se com Bruxelas precisamente por causa da ênfase normativa da sua abordagem, como Marrocos, Azerbaijão, Egipto, entre outros. Não só a UE veria instrumentos como ‘Berlim +’ – que permite e promove a interoperabilidade militar entre a NATO e a UE – desaparecer, mas os 28 – incluindo Portugal – passariam a estar isolados diplomaticamente na sua militância internacionalista por mais institucionalismo liberal democrático e humanitarista.

O empresário americano acredita que há lições a aprender com os fracassos do Iraque, da Líbia e da Síria: a destruição de instituições (opressivas) locais resulta apenas em caos e ainda piores desastres humanitários. Por conseguinte, a sua intenção é dar maior prioridade à estabilidade política do que à mudança de regime: “gastaram-se biliões” com a “premissa perigosa de que a América tem a capacidade de transformar outros países em democracias ocidentais, destruindo as suas instituições”.

Na sua abordagem utilitarista e pragmática, Donald Trump hesitará pouco em cooperar com países como a Rússia ou a China se considerar tal proveitoso. Isto implicará a falência da abordagem Europeia à crise na Ucrânia, mas tal não afetaria negativamente Portugal. Por outro lado, Trump parece desejoso de não deixar o esforço antiterrorista e os ataques de drones da administração Obama esmorecerem, o que poderia contribuir para um novo ímpeto para erradicar o Estado Islâmico.

A nível económico, os opositores do acordo de livre comercio entre EUA-UE (TTIP) também terão razões para celebrar, pois Trump opõe-se a acordos comerciais nos quais os EUA percam em termos de balança comercial. Portugal, tendo condições de competitividade em salários e turismo, poderia ter lucrado com adicional investimento direto estrangeiro americano, mas não escapará decerto ao candidato republicano, já que atualmente o saldo comercial favorece os europeus.

É importante compreender que uma mudança radical na política externa norte-americana também acarretaria oportunidades. Portugal e os seus parceiros na Europa e no Atlântico teriam a oportunidade de juntos preencherem vácuos deixados por uma administração americana mais apostada em servir de ‘contrapeso insular’ do que de ‘líder do mundo livre’.

Manda quem pode, obedece quem deve. Com ou sem Trump grandes mudanças de avizinham em Washington D.C.. Cabe a Lisboa saber adaptar-se.

Licenciado em Relações Internacionais pela Universidade de Lisboa, mestre em Estudos Europeus pelo Colégio da Europa em Bruges e investigador na companhia Wikistrat Inc., tendo escrito para publicações como The National Interest, European Geostrategy ou o Jornal de Defesa e Relações Internacionais. Trabalhou previamente para instituições como o Tribunal Penal Internacional, o Serviço Europeu de Ação Externa ou a Organização para a Proibição de Armas Químicas.