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A Pandemia Covid-19 atingiu-nos em cheio nos hábitos e, mais do que isso, na nossa estrutura social. É evidente o impacto destrutivo que teve no turismo, no comércio e na restauração, na cultura e na informação, no entretenimento e na aviação e em tantos outros que poderíamos destacar. Nenhum setor escapou, mas o que dizer dos subsetores da educação? Uma autêntica revolução. Isto mesmo, uma revolução cultural sem precedentes.

A palavra revolução define “uma grande transformação, de modo progressivo, contínuo, ou de maneira repentina”. E foi o que nos aconteceu: o mundo caminhava a passos largos para uma transformação digital que tardava em chegar, muito provavelmente porque teriam que acompanhar a mudança de hábitos de forma generalizada, e a pandemia precipitou esta mudança. É hoje muito difícil encontrar alguém que não tenha abraçado as novas tecnologias da informação e comunicação (que já não são assim tão novas) e as plataformas digitais, como boia de salvação para a manutenção do contacto pessoal, profissional e familiar.

O que seria uma inevitabilidade em alguns anos, tornou-se, rapidamente, num lugar-comum. As videoconferências e webinários, que até há pouco mais de um ano eram recursos em uso por uma elite tecnologicamente adaptada, tornou-se numa quase banalidade. E, em poucos meses, a literacia digital disparou e, se no ensino em geral a transformação não foi diferente, no ensino superior foi avassaladora. De tal forma transformadora, que o ensino à distância, o e-learning e o b-learning vieram definitivamente, no meu entender, para ficar. Recordo-me, há uma década atrás, dos votos e desejos formulados por um punhado de resistentes que tentavam evangelizar as direções de escolas e universidades para os benefícios das novas metodologias de ensino e os desejos formulados, congresso após congresso, após congresso, da chegada ao futuro que tardava em chegar.

Pelo meio foram-se apurando as metodologias, foram-se ajustando as tecnologias, ensaiavam-se cursos online liderados pelas grandes universidades de renome mundial, mas ainda assim, este futuro em que a metodologia de ensino e a aprendizagem se amplificava pelo recurso às tecnologias, e jamais pela substituição por estas, teimava em não vingar. Por medo? Por segurança? Por comodismo? Talvez um pouco de tudo. Mas a tecnologia digital, os gadgets, as redes, os tablets e os smartphones conquistavam e transformavam os nossos hábitos de consumo de informação e a educação persistia em manter-se entre quatro paredes, perdida em metodologias que já não eram capazes de produzir os mesmos resultados perante uma geração imediatista, interativista e com pressa para fazer, mais do que saber.

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Esta revolução colocou-nos a todos no mesmo limbo. Os professores viram, de repente, as salas perderem paredes, os alunos todos a um palmo de distância. Se outrora a comunicação se fazia de um para muitos, a distância aproximou-nos e colocou-nos frente-a-frente uns com os outros. As expressões e as micro-expressões passaram a ser importantes para todos, o lugar do professor passou a ser o lugar dos alunos e mesmo a interação tornou-se, por força da distância e da tecnologia, mais organizada e menos caótica. Não é isto um paradoxo? Não podemos, de facto, retirar lições muito positivas deste confinamento? Não devemos aproveitar o que de melhor aprendemos todos, para construir de vez a escola do século XXI? Uma escola com paredes, mas sem barreiras. Uma escola aberta a todos e com maior ligação às comunidades com as quais deve partilhar o conhecimento. Uma escola dinâmica, ativa e potenciadora das capacidades de cada um, mas também da autonomia responsável de todos.

Mas há alguns riscos, que devemos ter bem presentes, não vá o entusiasmo e o deslumbramento tecnológico sobrepor-se a uma visão racional e ponderada que os dirigentes das instituições de ensino superior, nos quais me incluo, devem preservar na reformulação e reorganização dos meios, dos métodos e das políticas de ensino que se tornou inevitável e a que ninguém estará imune. O que há a fazer e a definir nos próximos meses, e a transformação que inevitavelmente ocorrerá nos próximos anos, será uma revolução no ensino superior. Desde logo, pela necessária articulação dos regimes jurídicos, dado que foi excecional a adaptação radical ao ensino remoto de emergência dos planos de estudos originalmente concebidos e homologados para ensino presencial, numa primeira fase da pandemia, mas que logo tiveram que sofrer um novo ajustamento, desta vez mais próximo ao ensino à distância, do que de emergência, mas que deverá merecer uma atenção especial nos próximos passos a tomar, tendo em vista a necessária afetação de recursos, preparação dos docentes e cumprimento das legítimas expetativas dos alunos. Mas também o necessário cumprimento dos demais requisitos criados pelo mais recente diploma legal que regula justamente o ensino a distância, bem como a adequação ao entendimento que a própria Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior (A3ES) terá na avaliação e aprovação das propostas que lhe foram submetidas em Novembro passado na primeira oportunidade de criação de ofertas formativas de ensino superior para serem lecionadas na modalidade de ensino a distância, que até então estavam reservadas a uma única instituição de ensino superior em Portugal.

Em seguida, esperam-se mudanças nas metodologias de ensino e, por consequência, na preparação dos docentes do ensino superior que, recorde-se, deverão ver reforçadas as suas competências pedagógicas ou, melhor dizendo, andragógicas, em particular com recurso a tecnologias e metodologias de ensino à distância e de e-learning. Não basta repetir os métodos expositivos e demonstrativos habituais em sala de aula, em sessões de Zoom, esperando obter os mesmos resultados.

Depois, as práticas laboratoriais e projetuais, que deverão merecer um cuidado muito especial e sofrer ajustamentos profundos, em equilíbrio com as aulas online, mas que permitam complementar o ensino laboratorial presencial com o recurso a simuladores e laboratórios remotos. Também aqui, não bastará afetar recursos, deverá haver uma forte capacitação dos docentes para a otimização dos resultados.

A pandemia trouxe imensos desafios ao ensino superior, a todos os seus agentes , estudantes, comunidades educativas, reguladores e tutela, trouxe também muita insegurança e creio que até medo, mas se soubermos retirar das suas lições uma oportunidade do ensino superior voltar a ocupar uma posição de vanguarda e liderança na sociedade, talvez consigamos recuperar a sustentabilidade para um setor que se via a braços com alguma incerteza, particularmente evidente no emprego científico, e que poderá tornar-se mais interventiva e ativa na transformação das comunidades onde se inserem as instituições de ensino. O futuro já chegou e não podemos dar-nos ao luxo de o deixar passar ao lado. Os períodos turbulentos que atravessámos abriram-nos a experiências que antes adiávamos e que se estranharam por se terem precipitado repentinamente, mas depois da surpresa, o hábito, a adaptação e a mudança que se entranhou. Creio termos entrado num caminho sem retorno. Assim estejamos dispostos a abraçar um real ensino (superior) à distância que, como diria Fernando Pessoa, “primeiro estranha-se, depois entranha-se”.

Caderno de Apontamentos é uma coluna que discute temas relacionados com a Educação, através de um autor convidado.