Rádio Observador

Liberdades

Graus de liberdade /premium

Autor
  • Teresa Espassandim

Ninguém poderá afirmar que é inteiramente livre, que pouco ou nada o condiciona, como se a liberdade significasse tão só e apenas a ausência de submissão e de servidão.

Tenho a incomensurável sorte de ter nascido e vivido até hoje em liberdade. Séries, documentários e filmes e o relato das vivências e estórias pelos meus pais acerca desse período têm tido impacto em mim e permitiram-me colmatar as enormes lacunas que os programas do curriculum de História na escola das décadas de 80 e ainda de 90 estranhamente tinham. É sabido que damos mais valor ao que temos quando experimentamos algum nível de perda: experienciando a doença somos mais gratos pela saúde, passando o Inverno apreciamos os dias mais longos de luz, estando mais sozinhos rejubilamos com a presença, o contacto e o convívio…

Se a nossa existência é vivida em dialéctica, também é verdade que os fenómenos sociais e políticos que estão na base da emergência de determinados sistemas ditatoriais não se criam da noite para o dia, assintomáticos e imperscrutáveis, pelo que a perda da liberdade (que muito raramente é absoluta) não é inevitável. No entanto, há-que ser vigilante e sagaz para que o também observável enviesamento emocional da aversão à perda que a todos nos afecta se traduza em políticas e comportamentos que evitem a perda de graus de liberdade, desnecessariamente.

Ninguém poderá afirmar que é inteiramente livre, que pouco ou nada o condiciona, como se a liberdade significasse tão só e apenas a ausência de submissão e de servidão e a autonomia e a espontaneidade não fossem afinal os impulsionadores da possibilidade do agir e por isso de nos definirmos. Poder ou não comportarmo-nos de determinada maneira condiciona, portanto, em diferentes graus a nossa liberdade. Ter uma doença, estar desempregado, ser vítima de violência, não ter acesso a educação mas também a falta de sentido para a vida, a solidão, a transformação da intimidade (procura prioritária de prazer em detrimento de afecto) e a falta de poder pessoal para desenvolver as nossas potencialidades e influenciar os outros são elementos de um binómio composto também pelas variáveis bem-estar, justiça social e igualdade da sociedade e dos contextos em que nos inserimos e que coartam a liberdade individual.

A Psicologia, enquanto ciência-profissão, pode e tem contribuído para que em inúmeras dimensões os indivíduos, as famílias, os grupos, as organizações, as comunidades possam ter mais graus de liberdade. Não é por um qualquer acaso que, em Portugal, a Psicologia só se desenvolveu e teve expressão depois do 25 de Abril, após a autorização do primeiro curso de Psicologia em 1968.

Hoje, os Psicólogos implementam programas de desenvolvimento de competências sócio-emocionais nas escolas, promovendo a saúde psicológica de crianças e adolescentes, aumentando os factores protectores da saúde. Hoje, os Psicólogos ajudam à mudança de comportamentos e estilos de vida subjacentes a doenças como a diabetes, as cardiovasculares e a obesidade. Hoje, os Psicólogos realizam projectos com vista a aquisição de  estratégias de empowerment e de redução das desigualdades sociais em comunidades e em grupos de risco ou vulneráveis. Hoje, os Psicólogos avaliam o impacto social de fenómenos ambientais como a seca ou as alterações climáticas. Hoje, os Psicólogos realizam avaliação de perigosidade a reclusos. Hoje, os Psicólogos desenham e operacionalizam programas de promoção da motivação e satisfação laborais. Hoje, os Psicólogos contribuem para a construção de políticas públicas e de soluções com vista ao aumento da sua eficácia, tendo em conta o comportamento das pessoas. Hoje, os Psicólogos realizam treino de competências psicológicas relacionadas com o sucesso em contextos desportivos…

Porque procurando ampliar a auto-determinação, cavalgamos a sempre fugidia liberdade pois “Não se trata de saber porque é que somos livres, mas quais são os caminhos da liberdade.” (Jean-Paul Sartre).

Psicóloga especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, Psicologia da Educação, Psicoterapia e Psicologia Vocacional e do Desenvolvimento da Carreira

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

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Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

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