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Infante D. Henrique ou Oliveira da Figueira? (mais factos, mais números) /premium

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Mais factos e números: não houve nenhuma alteração estrutural do tecido económico, pelo que, ao mais pequeno vento de crise nos mercados internacionais, será provável que regressemos à casa de partida

Quero hoje centrar-me – recentrar-me, melhor dizendo – na Economia. Quero focar-me não no Governo nem nas consequências da governação socialista, mas no que ainda floresce, no que ainda promete esperança apesar da governação socialista.

Quero, por isso, olhar para a Economia – em especial, para o estado e o rumo da Economia do Norte de Portugal, por razões que passarei a explicar.

O Norte parece ser hoje a região do país com a maior capacidade de pensar o futuro. Com uma Economia a crescer a um ritmo superior à média nacional desde 2010, e um crescimento do PIB acima dos 2% desde 2014, o Norte dá hoje um contributo de cerca de 30% para o PIB nacional. Desde 2008 que o crescimento das empresas do Norte é determinado pela sua internacionalização, pela industrialização e pelo aumento lento da produtividade.

Mas esta realidade, que tanto tem contribuído para o desenvolvimento recente (ainda que tímido) da Economia nacional, permite levantar a questão expressa no título. Será o Norte um “Infante D. Henrique” da Economia Portuguesa, que possa servir de farol e inspiração, ou é apenas o produto de um epifenómeno à la “Oliveira da Figueira” – a eterna personagem dos livros de Tintim –, o Português desenrascado que tinha sempre solução para tudo debaixo da aba do casaco e que aparecia em todos os lugares do Mundo para vender os seus produtos?

Analisemos a primeira possibilidade.

É na audácia e na perspicácia das empresas do Norte em olhar para o mercado exterior como plataforma para o seu crescimento que reside o sucesso e o potencial da região – que tem consolidado a sua posição de líder nas exportações de mercadorias, somando 22 mil milhões de euros em 2017 e contribuindo já com cerca de 40% do total do país em 2018. Merece aqui destaque o facto de o Norte ser a região que mais contribui para a balança comercial de mercadorias, com um excedente de 5.6 mil milhões de euros, apesar de se estar a verificar um crescimento das importações superior ao das exportações. Para além disso, o Norte foi responsável, em 2017, por 6 dos 10 municípios mais exportadores de Portugal, com Vila Nova de Famalicão à cabeça.

No entanto, se olharmos com atenção para o saldo comercial de bens, por região, fica bom de ver que o saldo da balança nacional está em degradação desde 2013, porque Lisboa destrói em excesso de importações tudo o que o país consegue exportar, e que o ritmo desta degradação está em aceleração. É seguramente a este verdadeiro “milagre económico” que se referem com entusiasmo os arautos do sucesso do actual modelo governativo…

A tendência de exposição ao mercado externo que se verifica no Norte revela uma das forças motrizes da região: o empreendedorismo e a vocação exportadora da iniciativa privada. Se, por um lado, as empresas do Norte oferecem produtos com cada vez maior qualidade, por outro não deixam de inovar e atrair investimento externo – este carácter inovador reflecte-se numa despesa em I&D de 1.5% do PIB, a segunda mais elevada do país e a primeira se falarmos em despesa em I&D suportada pelas empresas (0.8% do PIB).

Agora, quanto à segunda hipótese que coloquei acima.

Se este fosse o Norte “Infante D. Henrique”, poderíamos esperar uma região vibrante, com uma população a crescer e progressivamente mais educada, com salários mais altos do que a média do País e com os melhores índices de produtividade Nacionais. Seria este o Norte farol e inspiração para o “milagre económico” Português. Seria este o Norte expectável, diria eu, em consequência dos números que desfiei atrás.

Infelizmente, a análise fria dos números mostra uma realidade bem diferente: o Norte tem registado a maior taxa de envelhecimento populacional em Portugal e, por outro lado, 50% da sua população activa fica-se pelo ensino básico (o pior índice a nível nacional). É por isso urgente investir na educação e esbater as desigualdades salariais — em 2017, um empregado no Norte ganhava, em média, 834€/mês, o que representa menos 91€ face à média de Portugal e menos 317€ do que um funcionário público residente em Lisboa.

Sob o prisma empresarial, a região do Norte continua a ser a que regista menor produtividade aparente do trabalho do país e, apesar do caminho de redução da taxa de desemprego para os 7.3% em 2018, o Norte ainda continua acima da média nacional neste indicador.

Por fim, sendo o Norte uma das grandes, se não a maior plataforma exportadora do país (representa 40% do total), a consistência dos investimentos nas infra-estruturas é vital para o reforço desta capacidade e para o futuro da região, mas a verdade é que este investimento ainda se encontra abaixo dos níveis de 2010.

Ora, o que temos é, pois, uma região com pouco investimento em novos activos, salários baixos, muito pouca educação, a menor produtividade nacional, desemprego acima da média e uma população a envelhecer à taxa mais alta do país e a um ritmo preocupante.

A infeliz conclusão é a de que aparentemente o milagre económico tão propalado corresponde ao estratagema “Oliveira da Figueira”. Apertados pela necessidade, os empresários do Norte correram mundo, abriram as abas dos casacos e suaram os seus activos locais ao máximo, venderam o que puderam e a quem puderam.

O enorme mérito deste esforço deve ser reconhecido sem tibiezas. Mas, na verdade, não existiu nenhuma alteração estrutural do tecido económico, pelo que, ao mais pequeno vento de crise nos mercados internacionais, será provável que regressemos à casa de partida e com piores condições do que as iniciais.

Exultará ainda, nessa altura, António Oliveira da Figueira?

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