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Muito se fala da importância dos role models no nosso ecossistema empreendedor. Mas porque é que são tão importantes? Eles servem para aprendermos como se atinge um determinado objetivo, para percebermos que erros foram cometidos ou apenas interiorizarmos o que têm para partilhar. O seu aconselhamento vale horas, semanas e por vezes anos de trabalho, que podemos transformar em muito menos tempo na nossa vida se os soubermos aplicar na nossa realidade.

Esta inspiração é parte da alma dos nossos negócios e, independentemente de um método de gestão ser mais ou menos singular, vamos igualmente percebendo que o sucesso dos negócios vem da compreensão interpessoal e que as equipas são tanto mais coesas quanto mais os seus líderes são emocionalmente inteligentes para as compreenderem e gerirem.

Dos unicórnios aos maiores falhanços, os ecossistemas de startups estão cheios de figuras que inspiram e que têm um impacto naqueles que ainda crescem e se movem para chegar aos seus objetivos. Não são raras as vezes que formas de gestão, estilos de vida, hábitos e as suas inspirações chegam até nós, como dogmas ou receitas pré-feitas que determinam o sucesso ou insucesso dos negócios ou dos seus fundadores. O palco dado a tantas ideias nada realistas sobre a proveniência, significado ou consequências do sucesso leva, por vezes, a mal-entendidos sobre o nível dos limites das nossas capacidades de gestão.

Quantos de nós não se recordam do “rise and fall” de Elizabeth Holmes e da sua Theranus, esse unicórnio caído que levantou tantas expectativas e dinheiro, que moveu pessoas e as suas carreiras. Um caso cuja amplificação de expectativas levou à sua própria queda: num momento em que devia colocar a equipa a brilhar, a opção foi seguir em frente, mesmo com processos e um produto falhado, só para corresponder às expectativas que o ecossistema e o público tinham sobre a startup e a sua líder.

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Quando estou perto das minhas equipas entendo o pai ou a mãe que ficou acordado porque um dos filhos não pregou olho e que, embora esteja altamente motivado com o que estamos a desenvolver, hoje não vai ter um bom rendimento. As empresas são feitas com estas pessoas, todas elas com os seus quês e todas elas com as suas (in)capacidades de resolverem o que lhes aparece à frente da melhor forma que podem.

A procura da perfeição é tão dilacerante quanto a sua concretização. Há palco para o sucesso e para o insucesso, não o há para o equilíbrio ou para a humildade na hora de fazer as escolhas mais acertadas, por serem menos sexy, para não colocar em risco objetivos e ações que estão mapeados há meses ou anos.

Nos bastidores do mundo tecnológico percebemos que o sucesso dos produtos está relacionado com a crença dos investidores e não com as métricas ou os resultados que apresentamos. Em vários momentos dos últimos três anos,ouvi os próximos unicórnios dizerem que os seus negócios estão prontos ora para arrancar, ora para fechar, e que dependem simplesmente da intenção dos investidores serem ágeis a analisar os modelos de negócio e a investir naquilo que “tem tudo para dar certo”.

Há menos palco para o fundador que falou de olhos baixos, rosto fechado e costas dobradas sobre se deve dedicar-se à sua estratégia de crescimento e saber viver com mais uns milhões na conta ou se, por outro lado, deve lutar até à exaustão pela concretização de um objetivo que pode não acontecer, tendo assim de preocupar-se sobre como vai pagar os salários naquele mês, porque os seus recursos são inexistentes.

A gestão do equilíbrio entre a eficiência de concretização dos objetivos e a realização de que a vida é feita de várias peças é, talvez, a qualidade que mais me guia na minha jornada.

No fim do dia continuo a ser uma menina. Fico feliz com uma surpresa, faço tik toks ao lado da minha filha, derreto-me com um abraço apertado. É esta dualidade de emoções, esta vida de resiliência, entre ter de ser brilhante e a consciência da proximidade do fracasso num estalar de dedos, que leva à exaustão pessoal. Porque, na verdade, aquilo que determina o sucesso é mesmo esse equilíbrio.

Romana Ibrahim é uma empreendedora portuguesa, eleita “Founder of the Year 2018” pela Portuguese Women in Tech e embaixadora da Women in Tech em Angola. Tem um “track record” de sucesso nas empresas por onde passou e dirigiu, estando agora dedicada ao seu novo projeto na área do FinTech através do sucesso da aplicação Keep Warranty que idealizou e criou. Descrita como focada, aspiracional e disruptiva, Romana é ainda uma oradora internacional em fóruns de tecnologia e alta finança.

O Observador associa-se à comunidade Portuguese Women in Tech para dar voz às mulheres que compõem o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.