Seixal! Estávamos numa reunião da empresa a avaliar como poderíamos resolver o problema de falta de espaço que nos começa a afetar com alguma insistência e a sugestão que veio para cima da mesa foi “Seixal”. A primeira reação foi, naturalmente, negativa. Mas factos colocados em cima da mesa mostram que uma percentagem considerável de pessoas que trabalham na empresa vivem na margem Sul, sendo que nenhuma delas aprecia o desporto matinal de passar a ponte. De facto, nos dias que correm, a presença física das pessoas tem cada vez menos valor e o preço do metro quadrado do escritório é uma fração ridícula daquele que nos é cobrado no centro de Lisboa. Não há como não concordar, a solução para a extensão do escritório não é Lisboa, é Seixal e Seixal será. Se for preciso as pessoas estarem presentes fisicamente, ou vêm a Lisboa ou então vai Lisboa ao Seixal, e isto se ainda “existir” Lisboa amanhã.

O anúncio do plano da Câmara Municipal de Lisboa de fechar o trânsito na chamada Baixa de Lisboa (que espero se aplique a quem trabalhe na Praça do Município, incluindo o seu presidente) é uma medida que é, do ponto de vista económico, perfeitamente compreensível. Com a democratização das viagens aéreas que as companhias low cost trouxeram, o turismo lisboeta (e não só) tem sido fundamental à sustentação económica do país. Fechar o trânsito naquele que é talvez o maior ponto de atração da cidade (juntamente com a ruína da Av. Fontes Pereira de Melo…), é uma decisão que não necessita de grande justificação e que tornará mais atrativo o ativo turístico.

Claro que a medida não é pacífica, as críticas apontam que se está a fazer da Baixa uma espécie de Disneylândia — um parque temático sobre ser lisboeta –, o que também é inteiramente verdade. É verdade, mas não está errado, quem está errado são os críticos. Eu explico.

Durante décadas, o progresso económico do país foi-se fazendo concentrando no centro de Lisboa boa parte dos núcleos das empresas, talvez movido pela patológica mania de se achar que o Estado teria que ser o “motor da economia”. Era importante ter a gestão de topo próxima da capital, ter os gestores intermédios próximos da gestão de topo e assim sucessivamente. Na realidade, só aquilo que não se conseguia enfiar entre o rio e o Campo Grande é que ia para fora de Lisboa, ficando no Porto aquilo que era quase exclusivamente exportador.

Mas este era o mundo sem internet, sem telefones inteligentes, sem comunicações vídeo gratuitas. Já desde o início do presente século as empresas maiores, como os bancos, foram atirando para os arredores os seus serviços administrativos e, se olharmos para o exemplo do Millennium BCP, já muito pouco está em Lisboa. É, com efeito, economicamente irracional uma empresa consumir espaço no centro da capital, para lá daquele que é estritamente necessário.

E se é irracional para as empresas, é completamente absurdo para as pessoas. Se formos honestos, as casas na capital são mal construídas, húmidas, frias, pequenas e, principalmente, demasiado caras sob qualquer perspetiva. Não há escolas públicas suficientes, os infantários são caríssimos e a sua maioria num rés-do-chão adaptado onde entra a luz de Fevereiro a Abril. Apesar de algum progresso com as plataformas de transporte, a mobilidade em Lisboa é ainda bastante limitada (quase 40 anos depois, o metro ainda não chegou às Amoreiras ou a Alcântara). A verdade é que se olharmos para os concelhos dos arredores, apesar de muito pior servidos de transportes públicos, a mobilidade é bastante superior. Não porque tenha existido um investimento por aí além, mas porque a concentração de pessoas é muito inferior.

Durante alguns anos temos assistido à resistência dos moradores de Lisboa ao dito alojamento local o que é, no mínimo, irracional. Se os ditos moradores colocarem as suas casas numa plataforma de alojamento de curta duração e forem viver para junto da praia, não só é financeiramente proveitoso, como a sua qualidade de vida crescerá em muito se o seu local de trabalho também se deslocar.

Transformar Lisboa numa espécie de parque temático só é chocante se não pensarmos bem. Na verdade, o que estamos a fazer é algo que tem mesmo de ser feito. As empresas e quem trabalha têm que progressivamente abandonar o centro da capital e passar para zonas mais baratas para viver, de melhor construção, mais bem apetrechadas de serviços fundamentais, como escolas, infantários, zonas comerciais, etc. Podemos passar a vida a falar de quão importantes são as pessoas para as empresas, mas sou da opinião de que nada é mais importante para elas que colocar a empresa o mais próximo possível do local onde possam viver melhor, onde não tenham que gastar duas horas por dia inutilmente numa fila de autoestrada. Para quê estar a pagar mais a alguém, se depois se vai encarcerar essa pessoa num carro durante 20% do dia útil (é um dia de trabalho por semana!)?

Eu seria mais moderado nas críticas que se fazem ao presidente da Câmara no que à transformação turística diz respeito. Na verdade, a melhor resposta a uma cidade que se nos fecha por motivos económicos é ir embora. Entregar Lisboa aos turistas é muito importante em termos económicos no sentido do dinheiro que entra, mas é mais importante no sentido do “dinheiro” que não sai. É altura de distribuir as empresas pelos locais onde as pessoas moram e contrariar o que foi feito no passado, que era distribuir as pessoas pelos locais onde podiam morar e fechar a empresa num local inacessível.

No instante em que escrevo estas linhas, tanto a empresa onde trabalho, como a minha residência, estão no centro de Lisboa. Mas tenho que admitir que isto é um hino à irracionalidade lisboeta. Seixal! Racional são os “Seixal”!