No que à educação promovida pelo Estado diz respeito, é comum definir-se a esquerda política como a que defende que a organização social é melhorada quando se promove a igualdade (melhor dizendo, a diminuição das diferenças) de oportunidades entre os filhos dos cidadãos mais desfavorecidos e os filhos das famílias com maior poder económico. O Estado tem um papel dominante e primordial na orientação do que deve ser ensinado e todos são incentivados a melhorar as respetivas capacidades mediante trabalho contínuo, destacando-se, para estímulo dos restantes, os mais laboriosos e os mais bem-sucedidos na aprendizagem.

Era assim, não era? Era isto que a esquerda, à qual estavam associados grandes professores, como Bento de Jesus Caraça, defendia, não era? Pois, parece que já não é.

Se aceitarmos aquela definição, certamente muito incompleta e com muitas deficiências, temos de nos interrogar se o ministério de João Costa, desenvolvido na continuidade do ministério de Brandão Rodrigues, assente no acordo dos partidos de esquerda, promove efetivamente políticas de esquerda.

Para ser de esquerda, não bastará que o assento parlamentar se faça do lado esquerdo do hemiciclo, onde, segundo as queixas do Barão de Gauville, «os gritos, os juramentos e as indecências tinham rédea livre» na Assembleia Nacional Francesa, nos anos subsequentes à queda do Antigo Regime. Segundo a definição inicialmente apresentada, para ser de esquerda em políticas educativas, é necessário cuidar especialmente das oportunidades dos jovens provenientes de ambientes familiares mais pobres, quer económica quer culturalmente, incitando-os a fazer brilhar todo o seu potencial. Ser de esquerda será patrocinar livros e cadernos, canetas, lápis e borrachas a todos quantos não têm a devida capacidade para os adquirir e, obrigatoriamente, estimulá-los a demonstrar que os talentos não são para enterrar, não são para esconder, mas sim para duplicar, para multiplicar, como na parábola bíblica dos talentos escrita por S. Mateus.

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Se, depois de três anos letivos altamente afetados pelo fecho de escolas, pela ausência de aulas para milhares de crianças nos primeiros anos de escolaridade, o ministério de JC consegue concluir que as crianças portuguesas não foram afetadas na sua aprendizagem, isto não é apenas gozar com os portugueses, é assumir que, para JC, a escola não tem a função de ensinar, não tem de se preocupar em desenvolver capacidades e literacias indispensáveis (não falamos das competenciazinhas que, por ora, estão em alta e, poucos anos depois, já desapareceram), mas tão só para que as crianças que estão matriculadas “passem de ano”, acompanhando o inexorável calendário. É isto que é política de esquerda? Quem vota na esquerda é isto que pretende? Só se estiverem baralhados com a tradução de sinistra, do italiano.

E como se resolve a frustração da criança que avança para o ano de escolaridade seguinte sem ter desenvolvido as capacidades para acompanhar o que lhe vai ser ensinado? E como tratar da frustração dos professores que, estando a lecionar em determinado ano de escolaridade e tendo a natural expectativa de que os seus alunos adquiram os saberes necessários, se confrontam com diárias ignorâncias de bradar aos céus? Como aliviar os professores da baixa psicológica em crescendo? É neste contexto, de promoção de ignorâncias e de indisciplina, que se espera atrair candidatos à profissão docente, já claramente deficitária? Quem é que, atualmente, recomenda aos filhos, sobrinhos, vizinhos ou afins que estudem para serem professores? Nem doidos!

Se bem que a direita sempre se posicionou como maior defensora da ordem (sobretudo a que defende a manutenção das benesses, do status quo), ser de esquerda não é necessariamente defender a desordem. Lembrem-se de como os governos do PREC (claramente conotados com a esquerda) se esforçaram por garantir a ordem nas escolas. Entre a ordem e o caos, a escola tem de estar mais próxima da ordem. Não da ordem exagerada que, antes do dia da Liberdade (que também não queremos exagerada), em algumas escolas, obrigava os alunos a vestir blusão igual, como se as diferentes cores das camisolas pudessem interferir na aprendizagem. Não da ordem repressiva que resultava em reguadas se o aluno se baixasse para apanhar o lápis sem pedir autorização ao professor. Também não precisamos da ordem para formar filas à porta da sala de aula enquanto se espera pelo professor, como se de treino militar se tratasse. Mas, igualmente, não queremos a desordem que a liberdade em excesso promove nas salas de aula. Salvemos os alunos dessa liberdade perniciosa.

Ao defender políticas educativas de esquerda, não se pode permitir a indisciplina, que resulta na decadência das aprendizagens. Ser de esquerda é compatível com a valorização dos professores e da sua autoridade. Tanto a esquerda republicana como a esquerda do pós 25 de abril valorizavam o conhecimento, estimulavam a disciplina na escola e insistiam na aquisição de saberes por todos os alunos, fossem do “bairro de cima” ou do “bairro de baixo”, permitindo que muitos do bairro menos esperançoso apanhassem o elevador social e brilhassem pelas suas capacidades.

É certo que o ministro João Costa está empossado num governo cujo apoio vem dos assentos parlamentares do lado esquerdo do hemiciclo, mas a desconsideração que tem demonstrado pelas capacidades dos jovens, diminuindo, por lei, as aprendizagens a mínimos históricos, flexibilizando, sempre em subtração, desvalorizando os principais agentes da educação, quer no gabinete quer na praça pública, denegrindo os promotores do ensino e das aprendizagens, os condutores de crianças, os professores, tem contribuído fortemente para a míngua da qualidade da escola a que se pode aceder sem pagamento de propinas, a única escola acessível aos jovens que a esquerda, por definição, mais deveria defender.

Com a degradação fomentada por JC, tem sido notícia o aumento da procura pelas escolas que cobram propina, mas que, reguladas pela natural lei da oferta e da procura, se esforçam por oferecer um ensino exigente, de qualidade, onde se promove o conhecimento, onde não se tem vergonha da valorização dos mais capazes, dos mais destacados, da formação de elites, pois, naturalmente, há sempre poucos Eusébios ou Cristianos, mas que os há não parece haver dúvida e o seu bairro de origem não está pré-determinado, sendo óbvio que o que é necessário é haver escola de qualidade para os fazer emergir, desabrochar.

Na perspetiva dominante, os promotores do ensino privado estão associados à ala direita do espectro político, promovendo a liberdade de escolha da escola que, no entender de cada família, maiores garantias oferece no desenvolvimento das capacidades e dos conhecimentos dos jovens, escolha livre, embora restrita a quem pode pagar (que rica liberdade!), em detrimento da igualdade esquerdina, que obriga os de carteiras menos recheadas a ficarem sujeitos à escola que maior dependência tem de JC.

Se se tornar cada vez mais claro que a escola de JC, tal qual tem acontecido com o SNS, tem como foco os fregueses que não têm alternativa, então JC estará a contribuir para o crescimento das desigualdades, para o favorecimento dos privados, para regozijo da direita, tudo feito, cegamente, com o aplauso da esquerda.

Se, perante a conflitualidade que envolve a escola pública, sem qualquer indício de que JC a queira minorar, a procura pelo ensino privado aumentar, então poderemos concluir que se está a fazer favores à direita. Então poderemos assistir à depreciação ou até ao esmagamento dos créditos que muitos eleitores colocaram neste governo e, finalmente, chegarem à conclusão de que “se isto é ser de esquerda, então vou ali e já venho”.

Não queremos uma escola pública de oferta tão desvalorizada que passe a ser procurada apenas por quem não pode procurar outra. A escola pública, caro João Costa, pode e deve ser especialmente organizada para promover os talentos e, sempre que possível, para os maximizar com a exigência própria dos grandes treinadores, que não distinguem os estudantes pelo background social, mas tão só pelo empenho, dedicação e resultados. Se a escola pública estiver organizada nestes termos, serão muitos os filhos das famílias mais abastadas que a quererão frequentar, pois todos gostam de buscar boa qualidade ao melhor preço. Se assim fosse, os promotores do ensino privado (que me merecem os mais naturais elogios, por colmatarem as falhas na oferta pública, pela iniciativa e pela necessária oferta de qualidade) não andariam a esfregar as mãos de contentes com a sangria que se vai anunciando.

Tudo isto existe, tudo isto é triste. João Costa não está a proteger os interesses dos que acham que a esquerda os defende. Se eu fosse cristão, atrever-me-ia a olhar para o céu e gritar ao Outro, ao grande JC: Ai, Jesus Cristo, vem cá abaixo salvar-nos disto. Porém, como não sou cristão, creio que só pelo voto se poderá melhorar, elegendo outras vontades na política educativa.